Nesta segunda-feira (29/06/2026), informações encaminhadas ao Jornal Grande Bahia indicam agravamento do quadro ambiental na Barragem Bandeira de Melo, localizada no curso do Rio Paraguaçu, entre os municípios de Itaetê e Boa Vista do Tupim, na Bahia, em razão de sinais compatíveis com eutrofização, poluição por efluentes domésticos e resíduos orgânicos, pesca predatória e impactos sobre a fauna aquática. A situação, atribuída por fontes locais ao despejo de esgoto sem tratamento em cidades situadas ao longo da bacia, exige apuração técnica dos órgãos ambientais, pois envolve risco ecológico, pressão sobre espécies nativas, ameaça à pesca artesanal, possíveis reflexos sobre a saúde pública e necessidade de resposta institucional coordenada.
Poluição no Paraguaçu expõe vulnerabilidade da Barragem Bandeira de Melo
A Barragem Bandeira de Melo integra uma das áreas estratégicas do médio curso do Rio Paraguaçu, manancial de grande importância para a Bahia. A estrutura foi concebida para regularizar vazões, contribuir para o abastecimento de municípios e favorecer atividades econômicas associadas ao uso da água, como irrigação e piscicultura. Essa função amplia a relevância pública de qualquer indício de contaminação, sobretudo quando há relatos de alteração na qualidade da água e de impactos sobre peixes.
Segundo as informações reunidas, a represa vem sendo afetada por processo de eutrofização, fenômeno associado ao excesso de matéria orgânica e nutrientes no ambiente aquático. Em termos práticos, o problema pode favorecer a proliferação de algas e microrganismos, reduzir a disponibilidade de oxigênio dissolvido e provocar desequilíbrios capazes de comprometer a sobrevivência de espécies aquáticas.
Fontes locais atribuem a degradação ao lançamento de esgoto e resíduos em trechos do Rio Paraguaçu antes da chegada das águas à barragem. Também há relatos de práticas inadequadas nas margens e no leito do rio, incluindo descarte de matéria orgânica e resíduos vinculados a atividades urbanas, rurais e comerciais. Esses elementos, se confirmados por laudos oficiais, indicam falhas de saneamento básico, fiscalização ambiental e gestão territorial ao longo da bacia.
Eutrofização reduz oxigênio e pode provocar mortandade de peixes
A eutrofização é um dos sinais mais preocupantes de degradação hídrica porque altera a dinâmica natural do ecossistema. Quando há excesso de carga orgânica, o processo de decomposição consome oxigênio da água. Em níveis críticos, peixes e outros organismos passam a enfrentar asfixia, perda de capacidade reprodutiva e mortalidade.
O material analisado aponta episódios documentados e relatos de peixes mortos ou em comportamento anormal na região. Em situações de baixa oxigenação, é comum que animais aquáticos busquem a superfície ou áreas de maior circulação de água. Embora esses sinais sejam compatíveis com desequilíbrio ambiental, a confirmação das causas exige coleta de amostras, medição de oxigênio dissolvido, análise microbiológica, identificação de nutrientes e verificação de possíveis fontes de lançamento irregular.
A gravidade do quadro aumenta porque a represa está inserida em ambiente de uso múltiplo. A mesma água que sustenta a fauna local também se relaciona com pesca, produção rural, lazer, abastecimento e atividades econômicas. Por isso, o problema não pode ser tratado como ocorrência isolada, mas como sintoma de pressão acumulada sobre a bacia do Paraguaçu.
Espécies nativas, pesca artesanal e comunidades ribeirinhas são afetadas
A poluição altera a cadeia alimentar, reduz áreas de reprodução e compromete a sobrevivência de espécies nativas. Quando associada à pesca predatória, a degradação acelera a queda populacional de peixes e reduz a capacidade de recuperação natural do ecossistema. O resultado é um círculo de perda ambiental e prejuízo econômico para comunidades que dependem do rio.
Pescadores e moradores ribeirinhos tendem a ser os primeiros atingidos. A diminuição de espécies comerciais reduz renda, segurança alimentar e continuidade de práticas tradicionais. Ao mesmo tempo, a percepção de água contaminada pode gerar insegurança sobre consumo, contato recreativo e uso doméstico em comunidades mais vulneráveis.
A perda de mata ciliar, citada como fator de pressão ambiental, também agrava o problema. A vegetação das margens funciona como barreira natural contra erosão, assoreamento e carreamento de resíduos. Quando essa proteção é removida, sedimentos, nutrientes e contaminantes chegam mais facilmente ao curso d’água, intensificando o desequilíbrio.
Saneamento deficiente aparece como ponto central da crise
O despejo de esgoto sem tratamento é apontado como uma das principais causas da deterioração da qualidade da água. Em bacias extensas, a responsabilidade pelo problema costuma ser compartilhada entre municípios, concessionárias de saneamento, órgãos fiscalizadores, produtores, usuários da água e gestores estaduais. Isso exige atuação coordenada, e não respostas fragmentadas.
No caso do Rio Paraguaçu, a dificuldade está em identificar com precisão os pontos de lançamento, medir a carga poluidora e responsabilizar administrativamente eventuais infratores. Sem diagnóstico técnico atualizado, denúncias podem indicar o problema, mas não substituem perícia ambiental, fiscalização em campo e monitoramento sistemático.
A ausência de saneamento adequado não é apenas uma falha de infraestrutura. Trata-se de um problema de saúde pública, governança ambiental e planejamento regional. Quando cidades despejam efluentes no rio, o custo da degradação é transferido para comunidades a jusante, pescadores, produtores, usuários da água e para o próprio poder público, que depois precisa recuperar áreas degradadas.
Inema, CBH Paraguaçu e municípios têm papel decisivo
A apuração da situação deve envolver o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema), o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraguaçu, as prefeituras dos municípios situados no curso do rio, órgãos de saneamento, fiscalização ambiental e, se houver indícios de crime ambiental, o Ministério Público da Bahia.
O Plano de Recursos Hídricos e a Proposta de Enquadramento dos Corpos de Água da Bacia do Rio Paraguaçu são instrumentos centrais para enfrentar esse tipo de problema. O enquadramento define a classe de qualidade que deve ser mantida ou alcançada em cada trecho do rio, conforme os usos predominantes, como abastecimento humano, irrigação, pesca e recreação. Sem esse parâmetro, a cobrança por resultados perde força técnica e jurídica.
Também é indispensável ampliar a transparência dos dados de monitoramento. A população precisa saber quais pontos do rio apresentam pior qualidade, quais municípios contribuem com maior carga poluidora, quais medidas corretivas foram adotadas e quais prazos foram estabelecidos para reduzir o lançamento de esgoto e resíduos no Paraguaçu.
Rio Paraguaçu atravessa 23 municípios na Bahia e percorre sete cidades até a Barragem Bandeira de Melo
O Rio Paraguaçu atravessa ou banha 23 municípios na Bahia, considerando o curso principal desde a nascente até a foz. A lista é: Barra da Estiva, Ibicoara, Mucugê, Andaraí, Itaetê, Boa Vista do Tupim, Marcionílio Souza, Itaberaba, Iaçu, Rafael Jambeiro, Santa Teresinha, Antônio Cardoso, Castro Alves, Santo Estêvão, Cruz das Almas, Governador Mangabeira, Cabaceiras do Paraguaçu, Conceição da Feira, Muritiba, São Félix, Cachoeira, Maragogipe e Saubara. O rio tem cerca de 600 km de curso, nasce em Barra da Estiva e deságua na Baía de Todos-os-Santos, entre Maragogipe e Saubara.
Essa contagem se refere exclusivamente ao curso principal do Rio Paraguaçu e não deve ser confundida com a abrangência total da RPGA/Bacia do Rio Paraguaçu, que compreende 86 municípios baianos, segundo o Inema. No caso da bacia hidrográfica, a delimitação inclui o rio principal, seus afluentes, sub-bacias, áreas de drenagem e territórios sob influência do sistema hídrico, enquanto a relação dos 23 municípios diz respeito apenas aos locais atravessados ou banhados diretamente pelo leito principal.
No trecho entre a nascente e a Represa ou Barragem Bandeira de Melo, o Rio Paraguaçu atravessa ou banha sete municípios baianos: Barra da Estiva, Ibicoara, Mucugê, Andaraí, Nova Redenção, Itaetê e Boa Vista do Tupim. A estrutura está situada no Médio Paraguaçu, associada principalmente ao território de Itaetê, em área limítrofe com Boa Vista do Tupim.









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