A União Europeia (UE) intensificou o debate sobre medidas para reequilibrar sua relação comercial com a China, diante do crescimento do déficit nas trocas entre os dois mercados. O tema está entre os principais assuntos da reunião do Conselho Europeu, iniciada em quinta-feira (18/06/2026), em Bruxelas, e envolve propostas voltadas à proteção da indústria europeia sem romper os laços econômicos com Pequim.
Segundo dados citados por autoridades europeias, o bloco registra um déficit comercial superior a € 1 bilhão por dia, enquanto somente em abril o saldo negativo ultrapassou € 30 bilhões. O cenário tem levado governos e instituições da UE a discutir mecanismos para reduzir a dependência econômica e ampliar a competitividade das empresas europeias.
A Comissão Europeia considera que o atual nível de desequilíbrio comercial exige novas ferramentas de defesa econômica, especialmente em setores considerados estratégicos para o desenvolvimento industrial e tecnológico do continente.
União Europeia avalia restrições a produtos e investimentos chineses
Entre as medidas em análise está a possibilidade de restringir a participação de determinados produtos chineses em mercados públicos europeus e limitar aquisições de empresas europeias por grupos sediados na China.
Outra proposta em discussão prevê a criação de um mecanismo semelhante à chamada “Seção 301” dos Estados Unidos. O instrumento permitiria à União Europeia aplicar sobretaxas específicas a produtos provenientes de países acusados de adotar práticas comerciais consideradas desleais.
O presidente da França, Emmanuel Macron, defendeu a adoção de instrumentos de proteção econômica, argumentando que os países europeus têm o direito de reagir quando identificam riscos à sua soberania econômica e industrial.
Tarifas sobre veículos elétricos ampliaram tensão comercial
O debate ganhou força após a União Europeia adotar, em 2024, tarifas adicionais sobre veículos elétricos produzidos na China. A medida foi justificada por preocupações relacionadas à concorrência e aos subsídios concedidos pelo governo chinês ao setor industrial.
Em resposta, Pequim anunciou restrições e medidas que atingiram produtos europeus, incluindo segmentos ligados à produção de conhaque, carne suína e laticínios.
O episódio aumentou os receios de que a disputa comercial evolua para um cenário mais amplo de retaliações econômicas, com impactos sobre exportações, investimentos e cadeias produtivas internacionais.
Dependência de matérias-primas estratégicas preocupa líderes europeus
Outro fator que influencia as discussões é a dependência da União Europeia em relação à China no fornecimento de terras raras e outras matérias-primas essenciais para a indústria de alta tecnologia.
As restrições impostas por Pequim a determinadas exportações nos últimos anos reforçaram as preocupações dos governos europeus quanto à segurança do abastecimento desses insumos.
Durante a cúpula do G7, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacou a necessidade de diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades nas cadeias globais de suprimentos.
A estratégia defendida por Bruxelas busca ampliar alternativas de abastecimento sem interromper completamente as relações comerciais com o mercado chinês.
Alemanha sinaliza mudança de posição sobre política comercial
Um dos fatores que vem sendo acompanhado pelos governos europeus é a mudança gradual de postura da Alemanha, tradicionalmente favorável à manutenção de relações comerciais amplas com a China.
Na semana anterior ao encontro em Bruxelas, o chanceler alemão Friedrich Merz criticou a falta de reação diante de países que, segundo ele, não seguem as mesmas regras industriais e comerciais adotadas pelas economias ocidentais.
Embora não tenha citado diretamente a China, as declarações foram interpretadas como um indicativo de maior disposição alemã para apoiar mecanismos de defesa comercial dentro da União Europeia.
A aproximação entre as posições de Paris e Berlim é vista como um elemento relevante para a construção de uma estratégia comum do bloco.
Europa tenta equilibrar proteção econômica e relações com Pequim
Apesar da defesa de medidas de proteção, líderes europeus ressaltam que o objetivo não é interromper as relações econômicas com a China.
O comissário europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič, afirmou que uma separação econômica entre os dois mercados não seria considerada viável nem desejável para nenhuma das partes.
Segundo ele, a meta é promover um reequilíbrio das relações comerciais e estabelecer condições de concorrência consideradas mais equilibradas para empresas europeias e chinesas.
O debate deverá continuar nos próximos meses, enquanto os países da União Europeia avaliam como fortalecer sua indústria sem ampliar o risco de novas retaliações comerciais por parte de Pequim.
*Com informações da RFI.









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