Violência contra idosos soma 2.262 violações em Feira de Santana e cresce 15,91% na Bahia em 2026

Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) indicam que Feira de Santana registrou 2.262 violações contra pessoas idosas nos seis primeiros meses de 2026, enquanto a Bahia contabilizou 27.403 registros no mesmo período, alta de 15,91% em relação ao primeiro semestre de 2025. Os números, extraídos do Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, reforçam a relevância pública do enfrentamento à violência contra a terceira idade, tema mobilizado pela campanha Junho Violeta e associado a situações como maus-tratos, negligência, exploração sexual, violência patrimonial e, em casos mais graves, tráfico de pessoas.

Envelhecimento da população amplia urgência da proteção social

O avanço do envelhecimento populacional tornou a proteção à pessoa idosa uma pauta estrutural para governos, famílias, instituições de justiça, saúde, assistência social e segurança pública. A Organização Mundial da Saúde projeta que, até 2030, uma em cada seis pessoas no mundo terá 60 anos ou mais, cenário que impõe maior pressão sobre políticas públicas de cuidado, prevenção da violência e garantia de autonomia.

No Brasil, o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em 12 anos, chegando a 22,1 milhões. Já a população com 60 anos ou mais alcançou 32,1 milhões de pessoas, equivalente a 15,6% dos brasileiros, alta de 56% em relação a 2010.

Nesse contexto, a violência contra idosos deixa de ser uma questão restrita ao ambiente familiar e passa a ocupar lugar central no debate público. A coordenadora do curso de Direito da Faculdade Anhanguera, Ma. Lianne Soares, avalia que o problema atinge milhões de pessoas no mundo e exige mobilização contínua da sociedade, sobretudo porque muitas vítimas enfrentam dependência física, emocional, econômica ou social em relação aos próprios agressores.

Feira de Santana registra 2.262 violações contra idosos

Segundo o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, Feira de Santana contabilizou 2.262 violações contra pessoas idosas entre janeiro e junho de 2026. O indicador corresponde a fatos que atentam contra direitos humanos de uma vítima, como maus-tratos, negligência, abuso, exploração ou outras formas de violação.

No mesmo período, foram efetivadas 247 denúncias junto à Ouvidoria. A distinção é importante: uma denúncia representa o registro formal feito por um cidadão ou usuário do serviço; uma única denúncia pode reunir mais de uma violação, o que explica a diferença entre os dois números.

Em comparação com o primeiro semestre de 2025, quando o município registrou 2.298 violações, houve recuo de aproximadamente 1,5%. A redução, embora positiva, não elimina a gravidade do quadro, pois o volume de violações permanece elevado e indica a necessidade de acompanhamento permanente por parte das redes de proteção, assistência social, saúde, segurança pública e sistema de Justiça.

Bahia tem alta de 15,91% nos registros

Na Bahia, o cenário é mais preocupante. O estado registrou 27.403 violações contra pessoas idosas no primeiro semestre de 2026, ante 23.640 no mesmo período de 2025. A variação representa crescimento de 15,91%, indicando ampliação dos registros na base da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos.

O aumento pode refletir tanto maior incidência de violações quanto maior procura pelos canais de denúncia. Em termos jornalísticos, os dois fatores exigem cautela interpretativa: o dado confirma a expansão dos registros, mas não permite, isoladamente, concluir se houve apenas crescimento real da violência, melhoria na notificação ou combinação desses elementos.

Ainda assim, o resultado estadual reforça a necessidade de políticas articuladas. A violência contra a pessoa idosa costuma envolver situações de difícil identificação, especialmente quando ocorre dentro da residência, em relações familiares, em vínculos de dependência financeira ou em ambientes institucionais nos quais a vítima tem dificuldade de comunicar o abuso.

Junho Violeta reforça prevenção e denúncia

A campanha Junho Violeta foi realizada ao longo do mês de junho com o objetivo de ampliar a conscientização sobre a violência contra a pessoa idosa. A mobilização busca alertar a sociedade para agressões físicas, violência psicológica, abandono, negligência, abuso financeiro, exploração e outras violações que podem comprometer a dignidade e a segurança dos idosos.

Para Lianne Soares, trazer o tema ao debate público contribui para reduzir a naturalização dessas práticas. A especialista afirma que a conscientização produz “incômodo social” e pode estimular respostas mais efetivas por parte de famílias, comunidades e órgãos públicos responsáveis pela proteção dos direitos da pessoa idosa.

As pessoas idosas, em geral, não têm força ou métodos para se defender sozinhas e, portanto, é essencial redobrar os cuidados e a atenção com esse público”, afirma Lianne Soares.

A declaração sintetiza um dos pontos centrais do problema: a vulnerabilidade da vítima não se limita à idade, mas envolve condições de saúde, renda, moradia, isolamento social e dependência de terceiros.

Canais de denúncia e atuação institucional

A legislação brasileira assegura direitos específicos à pessoa idosa e permite que qualquer cidadão denuncie suspeitas de violação. As denúncias podem ser feitas à Polícia Militar, pelo telefone 190; à Polícia Civil, pelo 197; ao Disque 100; ou por canais eletrônicos vinculados aos órgãos públicos competentes.

O Disque 100, mantido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, recebe denúncias de violações de direitos humanos e funciona diariamente, durante 24 horas, inclusive aos fins de semana e feriados. O serviço é voltado à proteção de grupos vulneráveis e pode acionar órgãos competentes em situações graves ou em andamento.

Também podem ser procurados o Ministério Público, especialmente a Promotoria de Justiça com atribuição em matéria da pessoa idosa, além de unidades de assistência social, conselhos, defensorias e serviços municipais de proteção. Em Feira de Santana, a rede local de direitos humanos e assistência social tem papel relevante na identificação, encaminhamento e acompanhamento dos casos.

Família, cuidado e prevenção da vulnerabilidade

Além da atuação estatal, a especialista destaca a importância do núcleo familiar na prevenção de violações. Para Lianne Soares, evitar a perpetuação da vulnerabilidade exige diálogo, paciência, escuta ativa e ambiente seguro para a pessoa idosa.

Estabeleça diálogos, fortaleça laços e proporcione um ambiente adequado e seguro para eles. Ouvir o idoso sobre o que ele está passando ajuda a dirimir esse problema”, afirma.

A orientação reforça que a prevenção não depende apenas da denúncia posterior, mas de relações cotidianas capazes de identificar sinais de abuso, isolamento, medo, privação financeira ou sofrimento psicológico.

A violência contra idosos pode se manifestar de forma silenciosa, sem marcas físicas aparentes. Por isso, familiares, vizinhos, profissionais de saúde, agentes públicos e lideranças comunitárias devem observar mudanças de comportamento, sinais de negligência, ausência de cuidados básicos, retenção indevida de recursos, impedimento de contato social e relatos de constrangimento ou ameaça.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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