Baianos antecipam doação de imóveis antes de mudança no ITCMD que pode elevar imposto em 2027

Famílias baianas que pretendem transferir imóveis a filhos e herdeiros intensificam a busca por escrituras públicas de doação em Cartórios de Notas, diante das mudanças previstas pela Reforma Tributária para o Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD/ITD). O movimento ocorre em meio à expectativa de que novas regras estaduais, alinhadas à legislação nacional, possam ampliar a tributação sobre doações e heranças a partir de janeiro de 2027, levando contribuintes a antecipar operações patrimoniais para reduzir custos, preservar bens familiares e organizar a sucessão com maior segurança jurídica.

Doações de imóveis batem recorde histórico na Bahia

Os Cartórios de Notas da Bahia registraram 2.763 escrituras públicas de doação de imóveis em 2025, o maior número da série histórica. O volume representa crescimento de 65% em comparação com 2020, quando foram lavrados 1.674 atos.

O avanço indica uma corrida preventiva de famílias interessadas em formalizar a transferência de patrimônio antes de eventual elevação da carga tributária. A preocupação central está na possibilidade de que a alíquota incidente sobre doações passe a acompanhar, em patamares mais elevados, a lógica progressiva já aplicada em transmissões por herança.

A movimentação nos cartórios também reflete um fenômeno mais amplo: o planejamento sucessório deixou de ser tema restrito a grandes fortunas e passou a alcançar famílias de classe média proprietárias de imóveis, especialmente diante da valorização imobiliária e da maior complexidade das regras tributárias.

Arrecadação do ITCMD cresce 135% em cinco anos

O aumento dos atos de doação ocorre simultaneamente à expansão da arrecadação estadual com o imposto. Em 2020, o ITCMD gerou R$ 165 milhões aos cofres baianos. Em 2025, a arrecadação alcançou R$ 388 milhões, crescimento de 135% em cinco anos.

A elevação da receita reforça a relevância fiscal do tributo para o Estado. Ao mesmo tempo, evidencia que a transmissão patrimonial por herança ou doação passou a ocupar espaço mais sensível no orçamento das famílias e na política tributária estadual.

Na Bahia, o imposto é tratado pela Secretaria da Fazenda como ITD, denominação estadual para o tributo incidente sobre transmissões por causa mortis e doações. A legislação baiana prevê alíquotas específicas conforme a natureza da operação e o valor transmitido, com faixas progressivas em diferentes hipóteses. A Sefaz-BA informa que o sistema estadual permite declaração digital, cálculo do imposto e emissão do documento de arrecadação nos casos cabíveis.

Reforma Tributária pressiona estados a adaptar regras

A Reforma Tributária alterou o tratamento constitucional do ITCMD ao reforçar a progressividade do imposto, isto é, a possibilidade de cobrança maior conforme o valor do patrimônio transmitido. A Emenda Constitucional nº 132/2023 estabeleceu nova moldura para o sistema tributário nacional e incluiu mudanças relacionadas à tributação patrimonial.

As novas diretrizes federais estimulam estados e Distrito Federal a revisar suas legislações, especialmente para adequar critérios de base de cálculo, progressividade, bens no exterior, doações e estruturas patrimoniais mais complexas. A regulamentação nacional citada por especialistas do setor jurídico também ampliou a discussão sobre valor de mercado dos bens e regras aplicáveis a trusts, doações fracionadas e planejamento sucessório.

Embora as alterações dependam de legislação estadual específica, o calendário tributário impõe limites constitucionais. Caso uma mudança seja aprovada em 2026, sua cobrança deverá observar os princípios da anterioridade anual e da noventena, o que tende a deslocar a produção de efeitos para 2027, conforme a data e o conteúdo da norma aprovada.

Alíquotas atuais e risco de aumento nas doações

A legislação baiana já prevê alíquota de até 8% nas transmissões causa mortis em determinadas faixas de patrimônio. Nas doações, contudo, a tributação é menor. Informações divulgadas pela Sefaz-BA em 2026 indicam alíquotas de 3% para doações de até R$ 200 mil, 3,5% para valores acima de R$ 200 mil até R$ 300 mil, e 4% para doações superiores a R$ 300 mil. Nos inventários, há isenção até R$ 100 mil, seguida de faixas que chegam a 8%.

Esse diferencial entre doação e herança ajuda a explicar a antecipação de transferências patrimoniais. Caso futuras regras estaduais aproximem a tributação das doações do teto de 8%, famílias que deixarem a operação para os próximos anos poderão enfrentar custo tributário maior.

O alerta é especialmente relevante para imóveis urbanos, propriedades rurais, bens de família com alta valorização e patrimônios sujeitos a partilha futura. Quanto maior o valor de mercado atribuído ao bem, maior tende a ser a base de cálculo do imposto.

Doação com reserva de usufruto ganha força

Uma das alternativas mais utilizadas no planejamento sucessório é a doação com reserva de usufruto. Nesse modelo, os pais transferem a propriedade do imóvel aos filhos, mas preservam para si o direito de uso, moradia, administração ou recebimento de rendimentos do bem durante toda a vida.

A modalidade permite antecipar a sucessão sem retirada imediata do controle material do patrimônio. Na prática, os herdeiros passam a deter a nua-propriedade, enquanto os doadores mantêm o usufruto, o que reduz disputas futuras e dá previsibilidade à organização familiar.

A escritura pública lavrada em Cartório de Notas confere formalidade, transparência e segurança ao ato, além de permitir que as condições da doação sejam expressamente registradas. Entre as cláusulas possíveis estão incomunicabilidade, impenhorabilidade, reversão e regras específicas para preservação do patrimônio familiar.

CNB/BA defende orientação especializada e segurança jurídica

Para a presidente do Colégio Notarial do Brasil — Seção Bahia (CNB/BA), Carolina Catizane, a mudança no ambiente tributário tornou o planejamento sucessório mais presente na rotina das famílias brasileiras.

“O planejamento sucessório deixou de ser um tema restrito a grandes patrimônios e passou a integrar a realidade de muitas famílias brasileiras. A possibilidade de mudanças na tributação reforça a importância de buscar orientação especializada e formalizar esses atos com segurança jurídica. A escritura pública de doação oferece transparência, validade e previsibilidade para a transmissão do patrimônio, contribuindo para evitar conflitos futuros entre os herdeiros”, afirma.

A orientação especializada é considerada essencial porque a doação de imóveis envolve efeitos tributários, patrimoniais, familiares e registrais. A decisão exige análise do valor do bem, composição familiar, eventual existência de outros herdeiros, regime de casamento, impactos futuros no inventário e capacidade financeira para pagamento do imposto.

Planejamento patrimonial pode evitar disputas familiares

Além do impacto tributário, a antecipação sucessória tem dimensão jurídica e familiar. Inventários longos, divergências entre herdeiros e ausência de documentação adequada podem gerar litígios, bloquear bens e ampliar custos com taxas, honorários e tributos.

A doação formalizada por escritura pública reduz parte desses riscos ao estabelecer, ainda em vida, a destinação de bens e as condições impostas pelo doador. Quando realizada com assessoria jurídica, contábil e notarial, a medida pode preservar a vontade familiar e diminuir disputas futuras.

Ainda assim, especialistas recomendam cautela. A doação não deve ser tratada apenas como mecanismo de redução tributária. Trata-se de ato patrimonial relevante, com efeitos permanentes, que precisa respeitar a legítima dos herdeiros necessários, a situação econômica dos doadores e os limites legais aplicáveis.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading