Brasil encosta nos EUA e pode assumir liderança mundial das exportações agrícolas, aponta Financial Times

O Brasil ampliou sua presença no comércio internacional de alimentos e passou a disputar diretamente com os Estados Unidos a liderança mundial das exportações agrícolas, conforme análise publicada pelo jornal britânico Financial Times e repercutida nesta quarta-feira (22/07/2026). Em 2025, as vendas externas do agronegócio brasileiro alcançaram US$ 169,2 bilhões, enquanto as exportações agrícolas norte-americanas somaram US$ 171,49 bilhões. A diferença inferior a US$ 2,3 bilhões, somada ao recorde brasileiro de aproximadamente US$ 87 bilhões no primeiro semestre de 2026, indica uma mudança relevante no equilíbrio global do setor, impulsionada por soja, carnes, algodão, aumento da produtividade e maior participação da China nas compras brasileiras.

Diferença entre Brasil e Estados Unidos cai ao menor patamar

Os Estados Unidos encerraram 2025 com US$ 171,49 bilhões em exportações agrícolas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O Brasil, por sua vez, exportou US$ 169,2 bilhões em produtos do agronegócio, resultado 3% superior aos US$ 164,3 bilhões registrados em 2024. A distância nominal entre os dois países ficou em aproximadamente US$ 2,29 bilhões.

O resultado brasileiro foi sustentado sobretudo pelo aumento das quantidades comercializadas. O volume exportado cresceu 3,6%, compensando uma redução de 0,6% nos preços médios dos produtos. O agronegócio respondeu por 48,5% de todas as exportações brasileiras em 2025 e gerou superávit setorial de US$ 149,07 bilhões, após importações de produtos agropecuários estimadas em US$ 20,2 bilhões.

A comparação, entretanto, exige cautela metodológica. O USDA contabiliza produtos classificados como agrícolas segundo os critérios estatísticos norte-americanos, enquanto o Ministério da Agricultura e Pecuária utiliza a definição brasileira de agronegócio, que inclui diferentes cadeias agropecuárias e agroindustriais. Os valores demonstram uma aproximação efetiva, mas não constituem, isoladamente, um ranking internacional baseado em metodologia única.

Exportações brasileiras atingem recorde no primeiro semestre de 2026

Entre janeiro e junho de 2026, as exportações brasileiras do agronegócio alcançaram aproximadamente US$ 87 bilhões, crescimento de 6% em comparação com o mesmo período de 2025. O resultado foi o maior já registrado para um primeiro semestre e manteve o país próximo da trajetória necessária para superar o recorde anual do ano anterior.

A China permaneceu como principal destino dos produtos brasileiros, com compras de US$ 30,5 bilhões, correspondentes a 35,1% das exportações do setor. O valor representou crescimento de 10,5% na comparação anual. União Europeia e Estados Unidos apareceram entre os demais mercados de maior relevância para o agronegócio nacional.

Apesar do desempenho positivo, a pauta continuou concentrada em um grupo limitado de produtos primários ou com baixo grau de processamento. Soja, carnes, algodão, açúcar, café e celulose permaneceram entre os principais componentes da receita externa, enquanto a dependência de poucos mercados compradores aumentou a exposição do país a disputas comerciais, alterações sanitárias, oscilações cambiais e mudanças na demanda internacional.

Soja mantém posição central no avanço brasileiro

A soja em grãos liderou as exportações do agronegócio no primeiro semestre de 2026. O Brasil embarcou 69,6 milhões de toneladas, volume 7,1% superior ao registrado entre janeiro e junho de 2025 e o maior da série histórica para o período.

Em todo o ano de 2025, os embarques brasileiros de soja chegaram ao recorde de 108,2 milhões de toneladas, com receita de US$ 43,5 bilhões. A produção nacional alcançou 171,5 milhões de toneladas na safra 2024/2025, segundo os dados utilizados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, ampliando a oferta disponível para o mercado internacional.

Dados apresentados pelo Financial Times, com base no banco internacional UN Comtrade, indicaram que as exportações brasileiras de soja para a China superaram 80 milhões de toneladas em 2025. O volume ficou substancialmente acima dos embarques norte-americanos destinados ao mesmo mercado, demonstrando como Pequim passou a ocupar posição determinante na concorrência agrícola entre Brasil e Estados Unidos.

Guerra comercial entre Estados Unidos e China alterou os fluxos globais

A mudança ganhou força em 2018, quando a China impôs uma tarifa retaliatória de 25% sobre a soja norte-americana, em resposta às medidas comerciais adotadas pelo Governo Donald Trump. O impacto foi imediato sobre as compras chinesas, estimulando importadores a buscar maior quantidade do produto brasileiro.

Nos seis primeiros meses do ciclo comercial chinês de 2018/2019, as importações de soja dos Estados Unidos caíram de 24,43 milhões para 2,69 milhões de toneladas. No mesmo intervalo comparativo, as compras originadas do Brasil avançaram de 14,23 milhões para 25,7 milhões de toneladas, segundo análise do Serviço de Pesquisa Econômica do USDA.

Embora parte dos fluxos tenha se reequilibrado em períodos posteriores, a crise consolidou novas relações entre tradings, produtores brasileiros, esmagadoras chinesas e operadores logísticos. A China passou a depender mais intensamente da produção sul-americana, enquanto agricultores norte-americanos enfrentaram maior incerteza sobre o acesso ao principal mercado importador mundial de soja.

Carnes, algodão e milho ampliam a competitividade brasileira

As proteínas animais também contribuíram para o avanço brasileiro em 2026. As exportações de carne bovina in natura somaram US$ 9,1 bilhões no primeiro semestre, alta de 38,5%, com 1,5 milhão de toneladas embarcadas. A carne de frango in natura gerou US$ 5 bilhões, crescimento de 17,8%, e alcançou 2,5 milhões de toneladas exportadas.

O farelo de soja movimentou US$ 4,6 bilhões, com volume recorde de 12,7 milhões de toneladas. O algodão atingiu receita de US$ 2,8 bilhões, crescimento de 12,5%, enquanto o volume exportado avançou 21,4%. As vendas externas de milho totalizaram aproximadamente US$ 1,7 bilhão, aumento de 20,6% no período.

O algodão representa uma das mudanças mais relevantes na disputa agrícola. Na temporada comercial de 2023/2024, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e tornou-se o maior exportador mundial do produto. Em 2024, o país também superou pela primeira vez os norte-americanos em produção, conforme relatório da representação do USDA em Brasília.

Transformação do Cerrado sustenta expansão iniciada nos anos 1970

A aproximação entre Brasil e Estados Unidos não resulta apenas das disputas tarifárias recentes. Ela é consequência de uma transformação tecnológica e territorial iniciada há mais de cinco décadas, com investimentos públicos e privados em pesquisa, correção dos solos, melhoramento genético, mecanização e adaptação de cultivos tropicais.

Até meados dos anos 1970, aproximadamente 90% das lavouras brasileiras de soja estavam concentradas na Região Sul. A criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o desenvolvimento de variedades adaptadas às condições de clima e luminosidade do Centro-Oeste permitiram que a cultura avançasse pelo Cerrado. No início dos anos 1980, a região central respondia por cerca de 14% da área plantada; atualmente, concentra quase metade do cultivo nacional.

O sistema brasileiro também passou a utilizar mais intensamente duas colheitas na mesma área durante o ano agrícola. Após a retirada da soja, produtores cultivam milho ou algodão na segunda safra, diluindo custos com terra, máquinas e infraestrutura. Essa característica, associada à escala das propriedades e ao calendário de produção complementar ao do Hemisfério Norte, ampliou a competitividade externa do país.

Brasil já lidera importantes mercados agrícolas

O Brasil ocupa atualmente a liderança mundial na produção e exportação de soja. Relatório do USDA para o ciclo 2026/2027 aponta que o país responde por mais de 42% da produção global do grão e mantém posição dominante no comércio internacional de oleaginosas.

Além da soja e do algodão, o país disputa com os Estados Unidos posições de destaque no mercado de milho. Na temporada 2022/2023, as exportações brasileiras foram projetadas em 51 milhões de toneladas, patamar equivalente ao norte-americano. O Brasil já havia superado os Estados Unidos nesse segmento na temporada 2012/2013, quando uma seca reduziu a produção agrícola norte-americana.

A entrada do milho brasileiro no mercado chinês ganhou impulso depois de um acordo fitossanitário que passou a produzir efeitos em novembro de 2022. Entre setembro e dezembro de 2023, o Brasil respondeu por aproximadamente 85% das importações chinesas de milho, segundo dados aduaneiros citados pelo USDA.

Estados Unidos mantêm capacidade produtiva e logística

Apesar da redução da vantagem, os Estados Unidos continuam entre as maiores potências agrícolas do mundo. O país dispõe de elevada produtividade, rede consolidada de armazenagem, ferrovias, hidrovias, terminais portuários, instrumentos financeiros e políticas públicas de apoio à renda e ao seguro rural.

Em 2025, os principais destinos dos produtos agrícolas norte-americanos foram México, Canadá, União Europeia, Japão e Coreia do Sul. A China caiu para a sexta posição, com US$ 8,27 bilhões em compras e participação de 4,8% nas exportações agrícolas dos Estados Unidos.

A diversificação dos compradores reduz parcialmente a dependência norte-americana do mercado chinês. O Brasil, em contraste, apresenta maior concentração em Pequim, que absorveu mais de um terço das exportações do agronegócio no primeiro semestre de 2026. A disputa, portanto, envolve não somente capacidade produtiva, mas também acesso a mercados, infraestrutura, acordos sanitários e estabilidade das políticas comerciais.

Liderança depende de logística, sustentabilidade e diversificação

O crescimento brasileiro ainda enfrenta custos elevados de transporte entre as áreas produtoras e os portos. Grande parte da produção percorre longas distâncias por rodovias, sujeitando o setor aos preços do diesel, às condições das estradas, aos congestionamentos portuários e às limitações de armazenagem.

Projetos ferroviários e hidroviários podem reduzir os custos logísticos, mas exigem licenciamento rigoroso e avaliação dos impactos sobre comunidades, rios e ecossistemas. A expansão da fronteira agrícola sobre o Cerrado e a Amazônia também mantém o Brasil sob pressão de compradores, investidores e governos estrangeiros por mecanismos confiáveis de rastreabilidade e combate ao desmatamento.

Outra vulnerabilidade está na dependência brasileira de fertilizantes, defensivos, combustíveis e equipamentos importados. O próprio Ministério da Agricultura reconhece que a ampliação sustentável das exportações depende de adequação regulatória, qualidade, promoção comercial, diversificação de mercados e agregação de valor aos produtos nacionais.

Linha do tempo da ascensão agrícola brasileira

  • Década de 1970: pesquisas públicas e políticas agrícolas permitem a adaptação da soja às condições tropicais e o início da ocupação produtiva do Cerrado.
  • Décadas de 1980 e 1990: a produção de grãos avança pelo Centro-Oeste, acompanhada de mecanização, correção de solos e desenvolvimento de novas cultivares.
  • Início dos anos 2000: a expansão da demanda chinesa por soja e proteína animal acelera as exportações brasileiras e transforma a China no principal mercado do agronegócio nacional.
  • Temporada 2012/2013: o Brasil supera temporariamente os Estados Unidos nas exportações mundiais de milho, em um período de seca na produção norte-americana.
  • 2018: a China impõe tarifa de 25% à soja dos Estados Unidos; as compras chinesas do produto norte-americano despencam e as importações originadas do Brasil aumentam.
  • Novembro de 2022: entra em vigor o acordo fitossanitário que amplia as exportações brasileiras de milho para o mercado chinês.
  • Temporada 2023/2024: o Brasil ultrapassa os Estados Unidos e se torna o maior exportador mundial de algodão.
  • 2025: as exportações brasileiras do agronegócio atingem US$ 169,2 bilhões, enquanto as vendas agrícolas norte-americanas somam US$ 171,49 bilhões.
  • Primeiro semestre de 2026: o Brasil registra aproximadamente US$ 87 bilhões em exportações, com avanço de soja, carnes, algodão e milho.
  • 21 de julho de 2026: o Financial Times publica análise segundo a qual os Estados Unidos correm o risco de perder para o Brasil a liderança agregada das exportações agrícolas.

A possibilidade de o Brasil superar os Estados Unidos tornou-se economicamente plausível, mas ainda não pode ser apresentada como resultado consolidado. A diferença observada em 2025 foi pequena, porém os dois países utilizam classificações estatísticas distintas. Preços internacionais, taxas de câmbio, condições climáticas e mudanças nas políticas comerciais podem alterar rapidamente os valores exportados, mesmo sem variação proporcional nos volumes produzidos.

O avanço brasileiro demonstra a importância acumulada da pesquisa agropecuária, da adaptação de cultivos ao Cerrado, da produção em duas safras e da integração com a demanda asiática. Ao mesmo tempo, a concentração das vendas na China, a predominância de commodities, os custos logísticos, a dependência de insumos importados e as exigências ambientais permanecem como fatores capazes de limitar ou desorganizar essa trajetória.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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