Café com o Produtor na Cooperfeira debate rastreabilidade bovina, gestão do rebanho e exigências do PNIB

O Café com o Produtor, realizado nesta segunda-feira (20/07/2026) pela Cooperativa Pecuária de Feira de Santana (Cooperfeira), reuniu pecuaristas, técnicos e especialistas para debater a identificação individual de bovinos e búfalos, os desafios da rastreabilidade e o uso de tecnologias na gestão das propriedades rurais. A programação contou com a participação de Thiago Tourinho e Gabriel Andrade, da AT Assessoria Pecuária, que apresentaram o cronograma nacional de implantação do sistema de identificação animal e as consequências produtivas, sanitárias e comerciais das novas exigências.

Identificação individual orienta debate na Cooperfeira

Durante o encontro, os especialistas explicaram que a identificação individual permite associar cada animal a um conjunto próprio de informações, substituindo controles genéricos do rebanho por registros detalhados sobre produção, sanidade, movimentação e manejo.

A discussão abordou o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, conhecido pela sigla PNIB, iniciativa federal destinada a ampliar a rastreabilidade da cadeia produtiva de carne e leite. O modelo deverá ser implantado progressivamente até 31 de dezembro de 2032.

A partir de 1º de janeiro de 2033, ficará proibida, em território nacional, a movimentação de bovinos e búfalos que não estejam individualmente identificados e cadastrados nos sistemas oficiais. Na prática, a restrição também poderá impedir operações comerciais que dependam do transporte ou da transferência dos animais entre propriedades, leilões, frigoríficos e outros estabelecimentos.

Falta de controle compromete decisões nas propriedades

Um dos problemas apresentados durante o Café com o Produtor foi a dificuldade enfrentada por parte dos pecuaristas para determinar com precisão o número de animais existente nas propriedades e acompanhar individualmente o desempenho de cada exemplar.

A ausência de registros atualizados pode provocar divergências entre o rebanho real e as informações administrativas, dificultar o planejamento alimentar, elevar custos e comprometer decisões relacionadas à reprodução, vacinação, descarte, compra e venda de animais.

O controle individual permite ao produtor identificar quais animais apresentam melhor ganho de peso, maior eficiência reprodutiva ou necessidade de acompanhamento sanitário. Também possibilita separar indivíduos improdutivos, planejar lotes com maior precisão e avaliar o retorno econômico de diferentes estratégias de manejo.

Identificação eletrônica amplia capacidade de gestão

A identificação eletrônica foi apresentada como uma das ferramentas disponíveis para organizar as informações do rebanho. Por meio de brincos, botões ou outros dispositivos associados a um código individual, o produtor pode registrar e consultar dados referentes a cada animal.

Entre as informações que podem ser acompanhadas estão o peso, a evolução corporal, a alimentação, a suplementação, a aplicação de medicamentos, o calendário de vacinação, os procedimentos reprodutivos e o histórico de doenças ou tratamentos.

O uso desses registros também facilita a organização das rotinas de campo. Em vez de depender exclusivamente de anotações dispersas ou da memória dos trabalhadores, a propriedade passa a dispor de uma base de dados que permite acompanhar o rebanho ao longo do tempo e produzir indicadores de desempenho.

A adoção de tecnologias de identificação ainda pode reforçar a segurança patrimonial. Animais registrados individualmente tornam-se mais difíceis de ser incorporados de maneira irregular a outros rebanhos, o que pode auxiliar na prevenção e na investigação de furtos, fraudes documentais e movimentações não autorizadas.

PNIB substituirá gradualmente controle baseado em lotes

Atualmente, parte significativa da rastreabilidade sanitária brasileira é estruturada por lotes e pela emissão da Guia de Trânsito Animal (GTA). Esse modelo identifica a origem, o destino e a quantidade de animais movimentados, mas não necessariamente acompanha cada bovino durante toda a sua trajetória produtiva.

O PNIB pretende ampliar esse controle por meio do registro individual, permitindo acompanhar a localização e o histórico dos animais desde a identificação inicial até a saída definitiva da cadeia produtiva. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, a medida busca melhorar a resposta a emergências sanitárias, fortalecer a segurança dos alimentos e aumentar a transparência na produção de carne e leite.

A proposta foi aprovada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária em dezembro de 2024, após os trabalhos de um grupo instituído para elaborar as diretrizes da política nacional de rastreabilidade individual. A implantação exige integração entre a base federal, os sistemas estaduais de defesa agropecuária, os produtores e os demais integrantes da cadeia.

Cronograma do PNIB prevê quatro etapas

A implantação nacional foi dividida em etapas sucessivas, destinadas à criação dos sistemas informatizados, à integração das bases estaduais e à identificação gradual dos animais.

Linha do tempo da rastreabilidade individual

  • 2022: a Portaria SDA nº 733 iniciou discussões regulatórias relacionadas à rastreabilidade e à identificação individual de bovinos e búfalos.
  • 14/05/2024: a Portaria SDA/Mapa nº 1.113 criou um grupo de trabalho responsável pela elaboração da proposta nacional.
  • 13/12/2024: o Ministério da Agricultura e Pecuária aprovou o plano elaborado pelo grupo técnico e determinou a continuidade das providências para sua implantação.
  • 01/07/2025: começou a primeira etapa, destinada ao desenvolvimento do sistema federal e da Base Central de Dados.
  • Até 31/12/2026: os órgãos estaduais de defesa sanitária devem adaptar seus sistemas e garantir a comunicação com a base nacional.
  • De 01/01/2027 a 31/12/2029: terá início a identificação obrigatória de categorias definidas pelo programa, incluindo animais submetidos a determinados manejos sanitários e participantes de protocolos privados homologados.
  • De 01/01/2030 a 31/12/2032: ocorrerá a fase final de implantação, com ampliação da identificação para alcançar a totalidade dos bovinos e búfalos antes da primeira movimentação.
  • A partir de 01/01/2033: nenhum bovino ou búfalo poderá ser movimentado no território nacional sem identificação individual e cadastro no sistema oficial.

Os estados poderão antecipar o cronograma, desde que concluam as etapas tecnológicas e administrativas necessárias. Também poderão adotar exigências complementares, desde que não contrariem as regras federais.

Rastreabilidade envolve sanidade e acesso aos mercados

A rastreabilidade individual amplia a capacidade das autoridades sanitárias de identificar a origem, os contatos e a movimentação de um animal em situações de suspeita ou confirmação de doença.

Em caso de ocorrência sanitária, a disponibilidade de registros individuais pode ajudar a delimitar propriedades e animais expostos, reduzindo a necessidade de medidas generalizadas e permitindo respostas mais direcionadas.

O sistema também está relacionado às exigências de compradores e mercados importadores, que passaram a demandar informações mais detalhadas sobre procedência, sanidade, métodos de produção e trajetória dos alimentos de origem animal.

Para o produtor, a adequação pode representar investimentos em equipamentos, capacitação, organização cadastral e mudança das rotinas administrativas. Ao mesmo tempo, a adoção de registros consistentes pode contribuir para reduzir perdas, melhorar o planejamento e demonstrar a conformidade sanitária e produtiva da propriedade.

Produtores precisarão preparar cadastro e rotina de manejo

O período de transição até 2032 foi estabelecido para permitir que produtores, órgãos públicos, empresas de tecnologia, frigoríficos, leiloeiros e demais participantes da cadeia adaptem seus procedimentos.

Entre as providências necessárias estão a atualização do cadastro das propriedades, a conferência do número efetivo de animais, a definição das formas de identificação, a capacitação das equipes e a integração dos registros produtivos aos sistemas sanitários.

A adaptação tende a exigir atenção especial dos pequenos e médios produtores, sobretudo daqueles que ainda utilizam controles exclusivamente manuais ou não mantêm acompanhamento individualizado do rebanho.

Nesse cenário, a assistência técnica terá papel relevante para orientar a escolha das tecnologias, evitar investimentos inadequados e transformar a identificação obrigatória em instrumento efetivo de gestão, em vez de tratá-la apenas como uma obrigação documental.

Café com o Produtor promove atualização técnica

Realizado semanalmente, às segundas-feiras, o Café com o Produtor funciona como espaço de aproximação entre pecuaristas, técnicos, consultores e representantes de diferentes áreas ligadas à atividade rural.

As reuniões permitem discutir problemas cotidianos das propriedades, mudanças regulatórias, novas tecnologias, estratégias de produção e experiências adotadas por outros criadores.

Ao incluir a rastreabilidade e o PNIB em sua programação, a Cooperfeira antecipa um debate que deverá ganhar importância à medida que avançarem as etapas do cronograma nacional e se aproximar o prazo de obrigatoriedade integral.


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