Comércio global adiciona US$ 2 trilhões no primeiro semestre de 2026, mas guerras e inflação elevam riscos; Brasil amplia importações

O comércio global manteve trajetória de expansão no primeiro semestre de 2026 e acrescentou aproximadamente US$ 2 trilhões ao valor das transações internacionais, apesar das guerras, das tensões geopolíticas e do aumento dos custos de energia e transporte. Os dados, destacados nesta quinta-feira (23/07/2026), integram a mais recente Atualização do Comércio Global da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), que estima em US$ 13,7 trilhões o comércio mundial de mercadorias entre janeiro e junho, avanço de 12,5% sobre igual período de 2025. O Brasil aparece entre as economias que ampliaram as importações, com crescimento de 3% no primeiro trimestre, em contraste com a estagnação observada em parte das principais potências.

Comércio mundial caminha para novo recorde anual

A expansão registrada no primeiro semestre colocou o comércio internacional em direção a um novo recorde anual. Além do crescimento de 12,5% no valor das mercadorias em relação aos primeiros seis meses de 2025, o comércio mundial de serviços avançou 10,5% na mesma base de comparação.

A soma das transações de bens e serviços representou um acréscimo próximo de US$ 2 trilhões ao comércio global. O valor não corresponde, portanto, ao total movimentado no semestre, mas ao aumento registrado em relação ao período anterior. Somente as trocas de mercadorias alcançaram cerca de US$ 13,7 trilhões.

O desempenho prolonga a expansão observada em 2025, quando o comércio mundial ultrapassou US$ 35 trilhões, segundo estimativas da própria agência das Nações Unidas. A continuidade desse movimento em 2026, entretanto, ocorre em ambiente mais instável, marcado por pressões inflacionárias, restrições logísticas, disputas tarifárias e reorganização das cadeias produtivas internacionais.

Bens crescem mais rapidamente que serviços

No primeiro trimestre de 2026, o valor do comércio mundial de bens avançou aproximadamente 4,8% em relação aos três meses anteriores. No segmento de serviços, o crescimento trimestral foi mais moderado, de 1,6%.

As estimativas preliminares da Unctad indicam aceleração no segundo trimestre. Entre abril e junho, o comércio de mercadorias deve ter crescido cerca de 6,4%, enquanto as transações internacionais de serviços avançaram aproximadamente 2,1%.

Os números referentes ao segundo trimestre constituem uma projeção de curto prazo elaborada com informações disponíveis até 07/07/2026. Por essa razão, podem ser revisados à medida que os países divulguem dados completos sobre exportações, importações e serviços internacionais.

Alta nominal não representa apenas maior volume comercial

A Unctad ressalta que uma parcela relevante do crescimento decorreu do aumento dos preços, e não necessariamente da elevação proporcional do volume físico das mercadorias transportadas entre os países.

Perturbações nas rotas marítimas que atravessam o Estreito de Ormuz, somadas às incertezas sobre o abastecimento mundial de energia, elevaram os custos de combustíveis, fretes, seguros, logística e produção industrial. Esses fatores foram incorporados aos preços finais dos produtos comercializados internacionalmente.

A distinção entre valor nominal e volume físico é central para a avaliação do desempenho. Embora o comércio movimente mais recursos financeiros, parte do aumento representa o encarecimento das mesmas operações, reduzindo o impacto efetivo da expansão sobre produção, consumo e atividade econômica.

Inflação do comércio global acelera

Os preços dos bens comercializados internacionalmente subiram aproximadamente 3,6% no primeiro trimestre de 2026. Para o segundo trimestre, a Unctad estimou uma aceleração para cerca de 5,1%, influenciada sobretudo pelos custos de energia e de determinadas commodities.

Na comparação acumulada dos últimos quatro trimestres, a inflação do comércio mundial ficou em torno de 3,4%. O comportamento indica que os custos associados às cadeias globais de suprimento permanecem elevados, mesmo após a normalização de parte dos desequilíbrios provocados nos anos anteriores.

A continuidade dessa pressão pode limitar o crescimento real das trocas internacionais. Empresas que enfrentam fretes, energia e matérias-primas mais caros tendem a reduzir pedidos, repassar custos ao consumidor ou buscar fornecedores geograficamente mais próximos.

Brasil amplia importações em cenário de estagnação entre grandes economias

O Brasil foi destacado pela Unctad por apresentar crescimento de 3% nas importações de mercadorias no primeiro trimestre de 2026, em comparação com o trimestre imediatamente anterior.

O resultado contrasta com o desempenho de parte das maiores economias mundiais, cujos volumes ou valores importados permaneceram praticamente estáveis no período. O país também apresentou crescimento das compras externas no acumulado dos quatro trimestres encerrados em março.

A expansão das importações pode refletir aumento da demanda doméstica, aquisição de insumos industriais, máquinas, componentes tecnológicos e bens intermediários. Para determinar os efeitos sobre a economia brasileira, contudo, é necessário observar a composição das compras, o comportamento das exportações e o resultado da balança comercial.

Serviços apresentam desempenho desigual

No comércio de serviços, as diferenças entre os países foram mais acentuadas. Brasil e União Europeia registraram aumento das importações, enquanto economias como Índia, Coreia do Sul e Rússia reduziram suas compras externas no segmento.

Pelo lado das exportações, a Coreia do Sul apresentou crescimento de aproximadamente 9%, acompanhada por avanços da Rússia e da União Europeia. O Brasil, por outro lado, registrou redução nas vendas internacionais de serviços.

A combinação entre aumento das importações e queda das exportações desse setor deve ser acompanhada, porque pode ampliar a saída líquida de recursos relacionada a transportes, tecnologia, propriedade intelectual, consultoria, serviços financeiros e outras atividades contratadas no exterior.

Leste Asiático lidera expansão comercial

O crescimento permaneceu distribuído de forma desigual entre regiões e grupos econômicos. O Leste Asiático consolidou-se como principal motor do comércio mundial de mercadorias no início de 2026, apoiado especialmente no desempenho da China e da Coreia do Sul.

A região também foi determinante para a expansão do comércio Sul-Sul. Quando o Leste Asiático é retirado da comparação, as transações entre economias em desenvolvimento registraram retração no primeiro trimestre.

Nas Américas e na África, o crescimento das importações superou a média mundial, mas o desempenho das exportações permaneceu relativamente modesto. Essa diferença indica maior dinamismo da demanda interna, porém também pode produzir desequilíbrios externos caso não seja acompanhada por aumento das vendas internacionais.

Inteligência artificial e transição energética impulsionam demanda

A reorganização das prioridades econômicas mundiais favoreceu setores relacionados à inteligência artificial, à digitalização e à transição energética. A construção de centros de processamento de dados, a ampliação da infraestrutura digital e a eletrificação dos transportes elevaram a procura por componentes tecnológicos e matérias-primas estratégicas.

No primeiro trimestre, o comércio de minerais críticos cresceu 38%, enquanto as transações com semicondutores avançaram 25%. O comércio de baterias aumentou 15%, seguido pelos produtos de Tecnologia da Informação e Comunicação, com alta de 14%, e pelos veículos elétricos, com crescimento de 11%.

Esses números mostram que a expansão não ocorreu de maneira uniforme entre os setores. A demanda ficou concentrada em cadeias produtivas associadas à automação, à computação avançada, à energia elétrica e à mobilidade de baixo carbono.

Setores industriais tradicionais perdem dinamismo

Enquanto os produtos de alta tecnologia ganharam participação, segmentos industriais tradicionais apresentaram menor atividade comercial. Foram registradas retrações nas transações de produtos químicos, ferro, aço e determinados equipamentos de energia renovável.

O comércio de combustíveis fósseis aumentou, mas a Unctad atribuiu grande parte desse resultado ao encarecimento dos preços, e não necessariamente à expansão proporcional da quantidade comercializada.

A divergência entre os setores evidencia uma mudança estrutural na economia mundial. Capital, investimento e demanda estão sendo progressivamente direcionados para tecnologias digitais, armazenamento de energia, eletrificação e matérias-primas consideradas essenciais para as novas cadeias industriais.

Conflitos geopolíticos ameaçam continuidade do crescimento

Apesar do desempenho positivo, a Unctad considera que a escalada de conflitos geopolíticos permanece entre os principais riscos para a recuperação econômica mundial.

O fechamento, a limitação ou a insegurança em rotas marítimas estratégicas pode gerar novos aumentos de fretes, seguros e combustíveis. O impacto tende a atingir principalmente países dependentes de importações de energia, alimentos, fertilizantes e insumos industriais.

Também permanecem como fontes de instabilidade as disputas comerciais, a adoção de tarifas, as restrições à transferência de tecnologia e a formação de cadeias produtivas organizadas de acordo com alianças políticas e estratégicas.

Linha do tempo do comércio global em 2025 e 2026

  • 2025: o comércio mundial encerra o ano em nível recorde, superior a US$ 35 trilhões, com crescimento aproximado de 7%, segundo estimativas da Unctad.
  • Primeiro trimestre de 2026: o comércio de bens cresce 4,8% ante o trimestre anterior, enquanto o comércio de serviços avança 1,6%.
  • Janeiro a março de 2026: os preços dos bens comercializados aumentam 3,6%, pressionados por energia, transporte, logística e commodities.
  • Primeiro trimestre de 2026: as importações brasileiras de mercadorias crescem 3%, enquanto parte das grandes economias apresenta estabilidade.
  • Segundo trimestre de 2026: projeção da Unctad aponta crescimento de 6,4% para bens e de 2,1% para serviços.
  • Segundo trimestre de 2026: a inflação do comércio global é estimada em 5,1%.
  • Primeiro semestre de 2026: o comércio mundial de mercadorias alcança aproximadamente US$ 13,7 trilhões, alta de 12,5% sobre o mesmo período de 2025.
  • Primeiro semestre de 2026: bens e serviços acrescentam cerca de US$ 2 trilhões ao valor do comércio internacional.
  • 21/07/2026: a Unctad publica a Atualização do Comércio Global de julho e agosto, destacando expansão das trocas e aumento das pressões sobre preços.
  • Segundo semestre de 2026: a evolução dependerá dos conflitos geopolíticos, das rotas marítimas, dos preços da energia, das políticas tarifárias e da capacidade de manutenção da demanda por produtos tecnológicos.

Os dados revelam uma economia mundial em expansão nominal, mas submetida a fragilidades que impedem uma leitura exclusivamente positiva. O acréscimo de aproximadamente US$ 2 trilhões indica maior circulação financeira, porém o aumento dos preços de energia, transporte e insumos responde por parcela relevante desse resultado. A medida mais consistente da recuperação dependerá da continuidade do crescimento do volume físico das trocas, e não apenas de valores inflados por custos.

Para o Brasil, o avanço de 3% nas importações de mercadorias representa um sinal de maior demanda, mas seu significado econômico exige análise detalhada da pauta comercial. Importações de máquinas, componentes e insumos produtivos podem ampliar investimentos e capacidade industrial; uma expansão concentrada em bens finais, sem crescimento equivalente das exportações, pode pressionar a balança comercial. A redução das exportações de serviços também constitui um ponto de atenção.

O comércio global chega ao segundo semestre de 2026 sustentado pela inteligência artificial, pelos semicondutores, pelos minerais críticos e pela mobilidade elétrica, mas exposto às guerras, às tarifas e aos custos logísticos. Os próximos resultados da Unctad, dos governos nacionais e das autoridades de comércio exterior deverão indicar se o recorde projetado refletirá crescimento econômico efetivo ou, em proporção relevante, apenas o encarecimento das transações internacionais.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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