Conjunto de quatro obras aborda Palestina, Irã, petróleo e segurança internacional em meio à crise do multilateralismo

A seleção de quatro obras publicadas terça-feira, 16 de junho de 2026, pela Editora Unesp — “A questão da Palestina”, de Edward W. Said; “A Revolução Iraniana”, de Osvaldo Coggiola; “Petróleo e poder: O envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico”, de Igor Fuser; e “Paz e guerra: Defesa e segurança entre as nações”, organizada por Eduardo Mei e Héctor Luis Saint-Pierre — oferece um roteiro intelectual consistente para compreender a crise do multilateralismo, a escalada de tensões no Oriente Médio, a centralidade estratégica do petróleo e os dilemas contemporâneos da segurança internacional.

A curadoria editorial da Fundação Editora Unesp parte de um diagnóstico claro: a guerra, a intervenção externa e a disputa por recursos voltaram ao centro da política internacional. A instabilidade venezuelana, o reposicionamento militar dos Estados Unidos, os conflitos no Oriente Médio e a fragilidade das instituições multilaterais indicam que a ordem internacional vive um período de erosão normativa, no qual princípios como soberania, negociação diplomática e uso restrito da força são frequentemente pressionados por interesses estratégicos, militares e econômicos.

Mais do que uma indicação bibliográfica, o conjunto de obras funciona como mapa interpretativo. A questão palestina expõe os limites históricos da diplomacia internacional. A Revolução Iraniana revela como religião, petróleo, autoritarismo, soberania e influência estrangeira se combinaram na formação de um dos principais polos de tensão do Oriente Médio. A análise do petróleo no Golfo Pérsico demonstra a relação estrutural entre energia e poder militar. Já a coletânea sobre paz, defesa e segurança internacional amplia o debate ao tratar a guerra como fenômeno político, institucional, estratégico e social.

Crise do multilateralismo recoloca soberania e uso da força no centro do debate

A crise do multilateralismo não se resume à paralisia de organismos internacionais. Ela expressa a dificuldade crescente de construir regras aceitas por todos, especialmente quando grandes potências agem a partir de cálculos próprios de segurança, influência e acesso a recursos estratégicos.

A ordem construída após 1945 estabeleceu limites formais ao uso unilateral da força, fortaleceu o princípio da soberania nacional e atribuiu centralidade à solução pacífica de controvérsias. Contudo, a prática internacional das últimas décadas mostra um cenário mais ambíguo. Intervenções militares, guerras preventivas, sanções econômicas, ocupações territoriais, operações de exceção e disputas por rotas energéticas frequentemente desafiam o arcabouço jurídico internacional.

É nesse ponto que as quatro obras selecionadas ganham relevância. Elas ajudam a compreender que a guerra não nasce apenas de decisões militares imediatas. Ela resulta de processos históricos, disputas econômicas, construções ideológicas, ressentimentos nacionais, interesses territoriais e fragilidade das instituições de mediação.

Palestina: Edward W. Said e a permanência de uma causa histórica

Em “A questão da Palestina”, Edward W. Said examina a causa palestina como problema histórico, político e cultural de longa duração. Escrita entre 1977 e 1978, publicada originalmente em 1979 e atualizada no prefácio da edição de 1992, a obra interpreta a Palestina como uma das grandes questões internacionais do século XX, marcada por deslocamentos populacionais, ocupação territorial, disputa narrativa, fracasso diplomático e assimetria de poder.

A força do livro está em não reduzir o conflito a uma disputa territorial convencional. Said analisa também a forma como a Palestina foi representada, interpretada e, em muitos momentos, silenciada por centros de poder político, acadêmico e midiático. A questão palestina, portanto, aparece como conflito de território, mas também como disputa por reconhecimento, memória, legitimidade e direito à existência política.

A atualidade da obra decorre da persistência do impasse. Décadas de negociações, resoluções internacionais e mediações diplomáticas não produziram uma solução estável. A permanência da violência e a dificuldade de reconhecimento mútuo mostram que o conflito palestino-israelense é um dos exemplos mais evidentes da insuficiência do multilateralismo quando normas jurídicas não conseguem se converter em solução política efetiva.

Perfil biográfico de Edward W. Said

Edward W. Said nasceu em Jerusalém, em 1935, e morreu em Nova York, em 2003. Intelectual palestino-americano, foi professor de Inglês e Literatura Comparada na Universidade Columbia e se tornou uma das referências centrais dos estudos pós-coloniais.

Sua obra mais conhecida, “Orientalismo”, publicada em 1978, examinou como o Ocidente construiu representações políticas, culturais e acadêmicas sobre o Oriente. Essa reflexão tornou Said uma figura decisiva para compreender a relação entre conhecimento e poder.

Em “A questão da Palestina”, sua trajetória intelectual aparece associada ao engajamento público. Said combina crítica literária, análise histórica, reflexão política e defesa do reconhecimento do povo palestino. Sua contribuição permanece relevante porque mostra que conflitos internacionais são travados não apenas por Estados e exércitos, mas também por narrativas, mapas, discursos, identidades e disputas pela memória histórica.

Irã: Osvaldo Coggiola analisa revolução, petróleo e modernização autoritária

Em “A Revolução Iraniana”, Osvaldo Coggiola examina o Irã da segunda metade do século XX em um contexto de monarquia autoritária, modernização desigual, repressão política, corrupção, influência estrangeira e mobilização religiosa. A obra interpreta a revolução de 1979 como processo histórico complexo, e não apenas como substituição de regime ou ascensão do fundamentalismo islâmico.

O Irã ocupa posição estratégica no Oriente Médio por sua localização, suas reservas energéticas, sua densidade histórica, sua capacidade militar e sua influência regional. A queda do xá e a instalação da República Islâmica alteraram o equilíbrio de poder na região, modificaram as relações com os Estados Unidos e produziram efeitos duradouros sobre a política energética internacional.

A obra ajuda a compreender por que o Irã permanece no centro da geopolítica contemporânea. Petróleo, soberania, religião, programa nuclear, aparato militar, alianças regionais e antagonismo com Washington formam um conjunto de fatores que torna o país indispensável para qualquer análise sobre segurança internacional, Golfo Pérsico e equilíbrio de poder no Oriente Médio.

Perfil biográfico de Osvaldo Coggiola

Osvaldo Coggiola é historiador e professor titular da Universidade de São Paulo na área de História Contemporânea. Graduou-se em Economia Política e História na Université Paris VIII e obteve doutorado em História Comparada das Sociedades Contemporâneas pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França.

Sua produção acadêmica concentra-se em temas como marxismo, capitalismo, movimento operário, América Latina, socialismo e história contemporânea. Essa formação aparece em “A Revolução Iraniana” por meio da preocupação em relacionar estrutura social, conflito de classes, dominação imperial, religião, petróleo e crise do Estado.

A contribuição de Coggiola está em evitar interpretações simplificadoras sobre o Irã. Ao examinar a revolução como processo histórico, econômico, político e religioso, o autor permite compreender por que a experiência iraniana ultrapassou as fronteiras nacionais e se tornou um dos acontecimentos decisivos da política internacional contemporânea.

Petróleo: Igor Fuser relaciona energia, poder militar e política externa dos EUA

Em “Petróleo e poder: O envolvimento militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico”, Igor Fuser analisa o papel do petróleo na definição da política norte-americana para o Golfo Pérsico entre 1945 e 2003. A obra destaca a relação entre a crescente dependência dos Estados Unidos em relação a combustíveis importados e o aumento de sua presença militar em uma das regiões mais estratégicas do planeta.

O livro sustenta que a compreensão das intervenções norte-americanas no Oriente Médio exige ir além das justificativas oficiais relacionadas ao combate ao terrorismo, à defesa da democracia ou à eliminação de ameaças militares. O petróleo aparece como variável estrutural, capaz de influenciar alianças, bases militares, operações de guerra, diplomacia energética e estratégias de longo prazo.

A relevância da obra permanece evidente. Mesmo com a transição energética e o avanço do debate climático, o petróleo continua decisivo para transporte, indústria, comércio internacional, receitas nacionais e projeção de poder. No Golfo Pérsico, energia e segurança permanecem inseparáveis.

Perfil biográfico de Igor Fuser

Igor Fuser é professor da Universidade Federal do ABC, vinculado ao campo das Relações Internacionais. Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, mestre em Relações Internacionais pelo Programa San Tiago Dantas e graduado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, desenvolve pesquisas sobre energia, política internacional, América Latina, política externa e economia política mundial.

Sua formação combina jornalismo, ciência política e relações internacionais, o que se reflete em uma escrita voltada à interpretação de processos históricos e estratégicos. Em “Petróleo e poder”, Fuser articula documentação histórica, análise política e leitura crítica da presença militar norte-americana no Golfo Pérsico.

A contribuição do autor para o debate público está em evidenciar que a política internacional não pode ser compreendida apenas por discursos oficiais. A disputa por petróleo, rotas, bases e alianças revela a dimensão material do poder. Essa perspectiva é fundamental para entender por que o Oriente Médio permanece, há décadas, no centro da estratégia global dos Estados Unidos.

Segurança internacional: Eduardo Mei e Héctor Luis Saint-Pierre organizam debate sobre paz, defesa e guerra

Em “Paz e guerra: Defesa e segurança entre as nações”, Eduardo Mei e Héctor Luis Saint-Pierre organizam uma coletânea dedicada aos principais problemas da defesa e da segurança internacional. A obra reúne ensaios sobre conceitos, teorias, experiências históricas e desafios contemporâneos, oferecendo um panorama qualificado para estudantes, pesquisadores, jornalistas e formuladores de políticas públicas.

O livro amplia a compreensão sobre guerra e paz ao tratar a segurança internacional como campo multidimensional. Defesa nacional, estratégia, Forças Armadas, instituições, conflitos interestatais, ameaças transnacionais e construção da paz exigem abordagem técnica, histórica e conceitual.

A coletânea é especialmente útil em tempos de crise do multilateralismo porque evidencia que a paz não resulta apenas da ausência de guerra. Ela depende de instituições, capacidade de negociação, equilíbrio estratégico, controles democráticos, doutrinas de defesa, legitimidade internacional e leitura adequada das ameaças.

Perfil biográfico de Eduardo Mei

Eduardo Mei é docente da Universidade Estadual Paulista, vinculado à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais do câmpus de Franca e ao Departamento de Relações Internacionais. Atua no campo da Sociologia das Relações Internacionais, com pesquisas relacionadas à teoria da guerra, estudos estratégicos, teoria social e segurança internacional.

Sua formação acadêmica inclui graduação em Ciências Sociais pela Unicamp, pós-graduação em Filosofia e doutorado em História pela Unesp. Essa combinação entre ciências sociais, filosofia e história permite uma abordagem ampla dos fenômenos de guerra e defesa, conectando teoria, processo histórico e instituições políticas.

Como organizador de “Paz e guerra”, Mei contribui para estruturar um campo de estudos essencial à compreensão do Estado moderno. A guerra, em sua leitura acadêmica, não é apenas operação militar. É fenômeno social, político, histórico e estratégico, vinculado à formação das nações, à autoridade pública e à disputa por legitimidade.

Perfil biográfico de Héctor Luis Saint-Pierre

Héctor Luis Saint-Pierre é professor titular da Unesp e referência nos estudos de defesa, segurança internacional, paz, guerra e pensamento estratégico. Atua no Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas, vinculado à Unesp, Unicamp e PUC-SP, e tem trajetória associada ao fortalecimento dos estudos de defesa e segurança no Brasil.

Saint-Pierre também é ligado ao Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional da Unesp, espaço acadêmico relevante para a reflexão sobre Forças Armadas, estratégia, conflitos e política internacional. Sua produção aproxima filosofia política, teoria das relações internacionais, defesa nacional e análise institucional.

Na organização de “Paz e guerra”, sua presença reforça o caráter conceitual e estratégico da coletânea. O autor parte da compreensão de que segurança internacional exige rigor teórico, domínio histórico e atenção às instituições. Em um mundo marcado por intervenções, rivalidades e instabilidade, essa abordagem evita tanto o pacifismo ingênuo quanto a naturalização da guerra como destino inevitável.

De Clausewitz a Bobbio, a guerra permanece problema político

A leitura das quatro obras dialoga com uma tradição clássica do pensamento político. Carl von Clausewitz definiu a guerra como continuação da política por outros meios, formulação que permanece útil para compreender como decisões militares expressam objetivos de Estado. Thomas Hobbes, ao refletir sobre insegurança e ausência de autoridade comum, ajuda a interpretar a instabilidade do sistema internacional. Immanuel Kant, por sua vez, oferece o horizonte normativo da paz fundada em instituições, direito e cooperação entre povos.

No século XX, Norberto Bobbio reforçou a necessidade de pensar a paz como construção jurídica e política, não como simples desejo moral. Essa tradição ajuda a compreender o valor das obras selecionadas pela Editora Unesp: todas partem da constatação de que a guerra não pode ser analisada apenas por seu impacto imediato. Ela precisa ser estudada em suas causas, seus discursos, seus interesses e suas consequências institucionais.

Sem história, o conflito parece inevitável. Sem teoria, a guerra se transforma em sucessão de fatos desconectados. Sem direito internacional, a força tende a substituir a legitimidade. Sem análise econômica, recursos estratégicos como o petróleo desaparecem por trás de justificativas morais ou securitárias.

Conjunto editorial contribui para qualificar o debate público

A curadoria da Editora Unesp ganha relevância por aproximar conjuntura e longa duração. Em um ambiente público frequentemente dominado por leituras rápidas, polarizadas e pouco sensíveis à formação histórica dos conflitos, a seleção bibliográfica oferece instrumentos para interpretar guerras, intervenções e disputas de poder com maior densidade.

Palestina, Irã, Golfo Pérsico e segurança internacional formam um arco temático coerente. A Palestina expõe os limites das mediações diplomáticas. O Irã revela os efeitos duradouros de revoluções, intervenções e rivalidades estratégicas. O petróleo mostra a dimensão material da política de poder. A segurança internacional demonstra que paz e guerra dependem de instituições, doutrinas, interesses e correlações de força.

O mérito do conjunto está em recordar que a guerra não é anomalia passageira da política internacional. Ela é uma possibilidade permanente em um sistema global sem autoridade soberana superior aos Estados. Por isso, compreender suas causas, seus discursos e seus efeitos é tarefa indispensável para universidades, centros de pesquisa, redações jornalísticas e instituições públicas.

O ponto decisivo é a tensão entre legalidade e poder. A ordem internacional estabelece regras, mas as grandes potências frequentemente operam em zonas de ambiguidade jurídica e política. A retórica da segurança, da democracia, da prevenção ou da estabilidade pode funcionar como defesa legítima, mas também como justificativa para intervenções controversas.

É precisamente nesse terreno que o jornalismo deve atuar com rigor. Separar fatos, versões oficiais, interesses estratégicos e consequências sociais não é apenas exigência técnica. É dever público. Em tempos de crise do multilateralismo, a leitura crítica e historicamente informada deixa de ser exercício acadêmico restrito e se converte em instrumento essencial para compreender a disputa sobre quem define as regras da ordem internacional, quem pode violá-las e quem suporta seus custos.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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