“Corrupção virou marca do grupo de ACM Neto”, afirma deputado Afonso Florence após operação do Gaeco e contratos da G3 Polaris

Neste sábado (18/07/2026), o deputado federal Afonso Florence (PT-BA) afirmou que as suspeitas investigadas pelo Ministério Público do Estado da Bahia — MPBA — envolvendo contratos públicos de Salvador comprometem politicamente o grupo liderado pelo ex-prefeito ACM Neto (União Brasil). A declaração ocorreu após a operação do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais — Gaeco — alcançar agentes públicos e empresas, entre elas a G3 Polaris Serviços, que recebeu recursos das prefeituras de Salvador, Jequié e Vitória da Conquista. Até esta etapa, não há informação pública de que ACM Neto, Bruno Reis, Zé Cocá, Sheila Lemos ou os contratos firmados fora da capital integrem formalmente a investigação.

Afonso Florence associa sucessão de suspeitas ao grupo de ACM Neto

Em declaração encaminhada à imprensa, Afonso Florence sustentou que as apurações não devem ser tratadas como fatos isolados. Para o parlamentar, a existência de contratos milionários sob investigação e a presença de aliados do ex-prefeito entre os alvos das medidas cautelares exigem explicações públicas.

“Não se trata de episódios isolados. É uma sequência de fatos que compõe um histórico capaz de comprometer a credibilidade de um grupo político que pretende governar a Bahia.”

Florence afirmou que a recorrência das denúncias transformou a corrupção em uma marca política associada ao entorno de ACM Neto. A declaração constitui uma avaliação político-partidária do deputado e não uma conclusão do Ministério Público ou do Poder Judiciário.

“A corrupção virou marca do grupo de ACM Neto, é o que apontam as investigações. Há uma sucessão de denúncias envolvendo aliados muito próximos do ex-prefeito, contratos milionários sob suspeita e graves indícios de desvios de dinheiro público. O povo baiano merece explicações.”

O parlamentar também defendeu que os líderes da oposição esclareçam quem se beneficiou das operações investigadas e como empresas atualmente mencionadas pelo MPBA ampliaram sua participação em contratos públicos ao longo dos últimos anos.

“Os baianos têm o direito de saber quem foram os beneficiados pelos desvios que estão sendo investigados pelo Ministério Público e por que há tantas denúncias envolvendo contratos milionários nas sucessivas gestões do grupo de ACM Neto.”

Florence acrescentou que a honestidade administrativa não deve ser apresentada como uma concessão dos governantes, mas como um dever de quem administra recursos arrecadados da população.

“Honestidade não é favor; é obrigação de todo gestor público para com quem paga impostos.”

MPBA instaura inquérito civil sobre cinco empresas contratadas por Salvador

Documento oficial publicado no Diário da Justiça Eletrônico informa que o MPBA instaurou, em 13 de julho de 2026, o Inquérito Civil nº 003.9.412409/2025, destinado a apurar uma suposta prática de atos de improbidade administrativa relacionada à contratação, pelo Município de Salvador, das empresas G3 Polaris Serviços, MP2 Construções, Podium Distribuidora, LN Distribuidora e Comércio e WLSP Logística e Transportes.

A portaria enquadra preliminarmente os fatos nos artigos 9º, incisos I e VI, e 10, inciso VIII, da antiga redação da Lei de Improbidade Administrativa. A instauração do procedimento autoriza a coleta de documentos e depoimentos, mas não representa denúncia judicial, condenação ou reconhecimento antecipado de responsabilidade.

No mesmo contexto, o Gaeco deflagrou uma operação com mandados de busca e apreensão, afastamentos cautelares, restrições de contato e indisponibilidade de bens. As suspeitas divulgadas envolvem possíveis fraudes em licitações, direcionamento de contratos, superfaturamento, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A estimativa preliminar do possível prejuízo examinada na operação alcança R$ 38.321.127,95. Esse valor não deve ser confundido com o total dos pagamentos efetuados às empresas investigadas, pois a apuração ainda terá de determinar quais contratos, serviços, medições ou despesas efetivamente apresentam irregularidades.

Empresas receberam R$ 321,1 milhões entre 2015 e 2026

Levantamento realizado com dados do Portal da Transparência de Salvador identificou que as cinco empresas mencionadas no inquérito receberam conjuntamente R$ 321.163.273,89 da administração municipal entre 2015 e julho de 2026, período que abrange as gestões de ACM Neto e do atual prefeito, Bruno Reis.

A G3 Polaris Serviços aparece como a maior beneficiária em volume de pagamentos, com R$ 124.839.733,73. Na sequência estão a Podium Distribuidora, com R$ 85,49 milhões; a LN Distribuidora e Comércio, com R$ 45,4 milhões; a WLSP Logística e Transportes, com R$ 37,67 milhões; e a MP2 Construções, com R$ 27,75 milhões.

O montante de R$ 321,1 milhões expressa a dimensão econômica das relações contratuais, mas não significa que todo o valor tenha sido desviado ou que todos os serviços estejam sob suspeita. A responsabilização dependerá da análise individualizada de processos licitatórios, aditivos, medições, ordens bancárias, notas fiscais e obras efetivamente executadas.

Entre os agentes públicos alcançados pelas medidas cautelares estavam o então secretário municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro, Luciano Sandes, e o vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como Gordinho da Favela. Também foram citados empresários e representantes das companhias investigadas.

G3 Polaris recebeu mais de R$ 11 milhões em Jequié

A reação de Florence também foi motivada pela divulgação de pagamentos realizados pela Prefeitura de Jequié à G3 Polaris durante a administração do então prefeito Zé Cocá, que deixou o Executivo municipal para integrar, como pré-candidato a vice-governador, a chapa estadual liderada por ACM Neto.

Registros públicos indicam que a empresa recebeu mais de R$ 11 milhões do município entre 2023 e 2025. Os valores globais de quatro contratos identificados superam R$ 35,8 milhões, mas esse total representa valores contratados ou estimados, e não necessariamente recursos efetivamente desembolsados.

O principal instrumento foi o Contrato nº 348/2022, no valor global de R$ 23.080.906,46, destinado à pavimentação asfáltica de ruas nos bairros Jequiezinho, KM 3, Curral Novo, Cidade Nova e Loteamento Santa Luz.

Embora formalizado em 2022, o portal municipal registra o início da execução em 28 de dezembro de 2023 e informa que a conclusão estava inicialmente prevista para 28 de dezembro de 2024. A obra continuava classificada como em andamento, com execução registrada de 33,54% e medições acumuladas de aproximadamente R$ 7,74 milhões.

A companhia também foi contratada para revitalizar a Avenida Governador Lomanto Júnior, implantar guias e sarjetas e instalar bancadas em escolas municipais. Até o momento, porém, não existe informação pública de que os contratos de Jequié ou o ex-prefeito Zé Cocá tenham sido incluídos formalmente na investigação conduzida sobre as contratações de Salvador.

Pagamentos alcançaram R$ 12,18 milhões em Vitória da Conquista

Em Vitória da Conquista, levantamento baseado em registros oficiais identificou R$ 12.185.466,95 em pagamentos à G3 Polaris entre 2019 e 2026. Os desembolsos começaram durante a administração do ex-prefeito Herzem Gusmão e continuaram na gestão da prefeita Sheila Lemos, do União Brasil.

Os contratos envolveram obras de urbanização, manutenção de equipamentos públicos e construção de unidades de saúde. Entre os projetos identificados estão o Orquidário e a Catedral das Flores, a Praça da Feira da Urbis VI, serviços contratados pela Empresa Municipal de Urbanização de Vitória da Conquista — Emurc — e unidades de atendimento na área da saúde.

A empresa venceu, em 2024, procedimento para construir a Unidade de Pronto Atendimento — UPA Porte III — do Bairro Brasil, além de participar da implantação de uma unidade de Saúde da Família em Lagoa das Flores.

Assim como ocorre em Jequié, a presença da G3 Polaris como fornecedora não comprova irregularidade. Não há divulgação oficial indicando que os contratos de Vitória da Conquista estejam incluídos no procedimento do Gaeco ou que as administrações municipais locais figurem como investigadas.

Luciano Sandes nega irregularidades e pede exoneração

Luciano Sandes declarou ter recebido com surpresa a operação realizada em 13 de julho e afirmou que demonstrará sua inocência ao longo do processo. Segundo sua defesa, a vida pública do ex-secretário teria sido pautada pela legalidade e ele jamais teria participado de atos ilícitos.

No dia 14 de julho de 2026, Sandes solicitou exoneração da Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro. Afirmou que deixaria o cargo para se dedicar integralmente à defesa e contestar o que classificou como uma narrativa inverídica apresentada na investigação.

A exoneração não encerra a apuração nem interfere, por si só, na análise das condutas atribuídas ao ex-secretário. Também não representa confissão ou reconhecimento de responsabilidade.

Bruno Reis anuncia medidas contra empresas investigadas

O prefeito Bruno Reis declarou que o Ministério Público teria prestado um serviço à cidade e afirmou que a administração municipal já havia identificado problemas envolvendo algumas das empresas mencionadas na operação.

Segundo o chefe do Executivo soteropolitano, a Prefeitura já havia rescindido contratos, aplicado multas e preparava procedimentos para declarar a inidoneidade das companhias, impedindo novas contratações.

Bruno Reis informou ainda que a Procuradoria-Geral do Município pediria à Justiça a ampliação das medidas para encerrar os contratos ainda existentes e suspender pagamentos eventualmente pendentes. O prefeito defendeu o devido processo legal e disse que responsáveis deverão ser punidos caso as irregularidades sejam comprovadas.

ACM Neto, que estava presente quando o prefeito comentou o caso, defendeu uma apuração rigorosa e transparente. A manifestação não respondeu diretamente às acusações formuladas por Afonso Florence, mas registrou apoio à continuidade das investigações.

Florence contrapõe projetos políticos para a Bahia

Ao comentar o caso, Afonso Florence apresentou as investigações como parte do embate político entre o governo estadual e a oposição. O deputado afirmou que a Bahia estaria diante de dois modelos distintos de gestão.

“Enquanto o governo Jerônimo Rodrigues trabalha para ampliar investimentos, fortalecer os órgãos de controle e melhorar a vida das pessoas, a oposição acumula manchetes ligadas a suspeitas de corrupção.”

A comparação integra a estratégia política do parlamentar e não decorre diretamente das conclusões dos procedimentos investigativos. O governo estadual, a gestão de Salvador e as demais administrações municipais devem ser avaliados por dados objetivos, decisões dos órgãos de controle e resultados das apurações.

Florence também defendeu que o Ministério Público e o Poder Judiciário atuem com independência, preservando as garantias constitucionais dos investigados.

“As investigações precisam avançar com independência, garantindo o devido processo legal, para que todos os fatos sejam esclarecidos e eventuais responsáveis sejam responsabilizados na forma da lei.”

Linha do tempo

2015

Começa o período abrangido pelo levantamento dos pagamentos feitos pela Prefeitura de Salvador às cinco empresas posteriormente mencionadas na investigação.

2019

São identificados os primeiros pagamentos da Prefeitura de Vitória da Conquista à G3 Polaris.

28 de dezembro de 2023

Tem início, segundo o portal municipal, a execução do contrato de R$ 23,08 milhões para pavimentação de bairros de Jequié.

2023 a 2025

A Prefeitura de Jequié paga mais de R$ 11 milhões à G3 Polaris em contratos de pavimentação, revitalização viária, guias, sarjetas e estruturas escolares.

2019 a 2026

Os pagamentos da Prefeitura de Vitória da Conquista à empresa alcançam R$ 12.185.466,95.

13 de julho de 2026

O Gaeco cumpre mandados de busca e apreensão e a Justiça determina afastamentos cautelares, restrições de contato e indisponibilidade de bens. Na mesma data, o MPBA instaura inquérito civil sobre as contratações das cinco empresas pela Prefeitura de Salvador.

14 de julho de 2026

Luciano Sandes solicita exoneração do cargo de secretário municipal e anuncia que se dedicará à defesa no processo.

15 de julho de 2026

Levantamento baseado no Portal da Transparência revela que as cinco companhias receberam R$ 321,1 milhões da Prefeitura de Salvador entre 2015 e julho de 2026.

16 de julho de 2026

São divulgados os levantamentos sobre os pagamentos e contratos da G3 Polaris nas prefeituras de Jequié e Vitória da Conquista.

18 de julho de 2026

Afonso Florence associa a sucessão de suspeitas ao grupo político de ACM Neto e cobra explicações públicas da oposição.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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