Crise mundial do diesel pressiona Brasil e ameaça elevar fretes, alimentos e custos agrícolas

Neste sábado (11/07/2026), o mercado internacional de combustíveis entrou em uma nova fase de instabilidade após a Rússia suspender suas exportações de diesel, medida que aprofundou a escassez global do derivado e aumentou a disputa por cargas produzidas nos Estados Unidos. O movimento ocorre em meio à continuidade da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, às restrições no Estreito de Ormuz e à análise, pelo Senado brasileiro, de um crédito extraordinário de R$ 10 bilhões destinado à manutenção dos subsídios ao óleo diesel rodoviário.

Exportações russas recuam e mercado registra forte pressão

A Rússia é o segundo maior exportador mundial de diesel, atrás apenas dos Estados Unidos. Dados da consultoria Kpler, divulgados pela Reuters, indicam que os embarques russos caíram para 234 mil barris por dia entre 1º e 10 de julho, diante de uma média de aproximadamente 817 mil barris diários em 2025. A redução decorre de problemas internos de abastecimento, ataques contra refinarias e da decisão do governo russo de priorizar o mercado doméstico.

O impacto ultrapassa os países que compravam diretamente o combustível russo. Com menos produto disponível, importadores da América Latina, Europa, Ásia e Mediterrâneo passam a disputar as mesmas cargas. Os contratos futuros de diesel de baixo teor de enxofre nos Estados Unidos subiram 11% após o anúncio da proibição, enquanto o gasóleo europeu atingiu diferença recorde em relação ao petróleo Brent.

O Brasil aparece entre os países mais expostos porque depende de importações para complementar a produção interna. A disputa por cargas norte-americanas pode afetar o preço pago por refinarias e distribuidores, com possíveis reflexos no transporte de mercadorias, na agricultura, na indústria e na geração de energia.

Congresso analisa crédito extraordinário de R$ 10 bilhões

A Medida Provisória nº 1.344/2026, aprovada pela Câmara e encaminhada ao Senado, abre crédito extraordinário de R$ 10 bilhões para a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. O dinheiro financiará a subvenção concedida aos produtores e importadores de diesel por meio das medidas provisórias nº 1.340 e nº 1.349.

O benefício começou em março com ressarcimento de R$ 0,32 por litro produzido ou importado. Após o agravamento do conflito no Golfo Pérsico, o subsídio ao diesel importado foi elevado para R$ 1,20 por litro. A compensação permanecerá até o esgotamento dos recursos ou 31/12/2026, o que ocorrer primeiro.

A MP nº 1.340 perdeu validade em 09/07, enquanto a MP nº 1.349 permanece em tramitação e poderá ser apreciada até 20/08. A sucessão de medidas evidencia a dificuldade de conciliar proteção ao consumidor, segurança energética e controle das despesas públicas.

Impactos podem alcançar fretes e preços dos alimentos

O diesel é o principal combustível do transporte rodoviário de cargas no Brasil. Alterações no seu preço atingem diretamente o frete de alimentos, medicamentos, matérias-primas e produtos industrializados. Na Bahia, o risco é especialmente relevante para o agronegócio do oeste, a fruticultura do Vale do São Francisco, a indústria da Região Metropolitana de Salvador e o abastecimento de centros consumidores como Feira de Santana.

Os produtores rurais também enfrentam exposição elevada porque máquinas agrícolas, transporte de insumos e escoamento das safras dependem do combustível. A restrição russa ocorre antes do período de plantio no Hemisfério Sul, circunstância que pode ampliar os custos da próxima temporada agrícola.

Para medir o efeito regional, será necessário acompanhar as séries semanais da ANP, os valores praticados nos postos baianos e a evolução dos fretes. A existência do crédito extraordinário não garante, isoladamente, redução proporcional dos preços ao consumidor.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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