Em manifestação divulgada nesta sexta-feira (24/07/2026), o líder do governo na Assembleia Legislativa da Bahia — Alba —, deputado estadual Rosemberg Pinto (PT), acusou o candidato homologado ao Governo da Bahia ACM Neto (União Brasil) de distorcer indicadores da segurança pública e construir um “palanque do medo” para obter vantagem eleitoral. O parlamentar citou a redução de 20,3% das mortes violentas entre janeiro e maio de 2026, contestou as propostas de criação de uma Governadoria da Segurança e de um Plano de Reocupação de Territórios e cobrou explicações do ex-prefeito sobre sua relação com pessoas mencionadas na Operação Overclean.
Segurança pública ocupa o centro da campanha pelo Governo da Bahia
A reação de Rosemberg Pinto ocorreu após ACM Neto apresentar a segurança pública como um dos principais eixos de sua candidatura ao Governo da Bahia. Na convenção partidária realizada na quarta-feira (22/07), em Salvador, o ex-prefeito responsabilizou a administração do governador Jerônimo Rodrigues (PT) pelo avanço das organizações criminosas e pela perda do controle estatal sobre determinadas áreas.
O líder governista afirmou que o adversário tenta convencer a população de que a Bahia perdeu completamente o controle da segurança, embora os indicadores divulgados pelo Governo do Estado apontem redução recente dos crimes violentos letais. Na avaliação do deputado, o discurso oposicionista procura transformar um problema complexo em instrumento de mobilização eleitoral.
Rosemberg classificou essa estratégia como “terrorismo eleitoral” e acusou ACM Neto de divulgar uma narrativa de caos sem reconhecer os resultados obtidos pelas forças policiais. Segundo o parlamentar, o candidato estaria tentando “aterrorizar os baianos” para sustentar a ideia de que somente uma mudança de governo permitiria enfrentar a criminalidade.
As declarações integram o confronto entre a base governista e a oposição em torno da interpretação dos dados. Enquanto o grupo de Jerônimo Rodrigues destaca a trajetória recente de redução das mortes violentas, ACM Neto concentra sua argumentação na presença das facções, nas restrições impostas a moradores e comerciantes e na percepção cotidiana de insegurança.
Dados oficiais registram queda das mortes violentas em 2026
Rosemberg Pinto utilizou como referência o balanço divulgado pela Secretaria da Segurança Pública da Bahia — SSP-BA — sobre os primeiros cinco meses de 2026. Entre janeiro e maio, o estado registrou redução de 20,3% nos crimes graves contra a vida, categoria que reúne homicídios, latrocínios e lesões corporais dolosas seguidas de morte.
No mesmo intervalo, Salvador apresentou diminuição de 30,7%. Também foram registradas quedas em municípios como Juazeiro, Eunápolis, Jequié, Camaçari e Feira de Santana. Os números foram comparados com as ocorrências contabilizadas entre janeiro e maio de 2025.
O balanço mais recente, referente ao primeiro semestre completo, manteve a tendência de retração. Entre janeiro e junho de 2026, a Bahia apresentou redução de 20,5% das mortes violentas em comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo a SSP, foram preservadas 424 vidas, e as forças de segurança realizaram aproximadamente 500 operações de combate ao crime organizado.
Na capital baiana, a redução acumulada no primeiro semestre foi de 29,7%. A Região Metropolitana de Salvador apresentou recuo de 29,6%, enquanto os municípios do interior registraram diminuição de 16,5%. A diferença entre os percentuais dos períodos de janeiro a maio e de janeiro a junho decorre da inclusão dos registros do sexto mês na base comparativa.
O Governo Jerônimo atribui o resultado à integração entre as forças estaduais, federais e municipais, à ampliação das operações de inteligência, ao reforço dos efetivos e à aquisição de estruturas, armamentos e equipamentos. De acordo com a SSP, aproximadamente 9,5 mil policiais, bombeiros e peritos foram contratados em três anos e quatro meses, enquanto os investimentos em infraestrutura, tecnologia, capacitação e recursos operacionais alcançaram cerca de R$ 1,3 bilhão.
Queda recente convive com patamar ainda elevado
A diminuição registrada nos indicadores estaduais não elimina, entretanto, a gravidade estrutural da violência na Bahia. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostrou que o estado contabilizou 5.473 Mortes Violentas Intencionais em 2025, ante 6.047 ocorrências em 2024.
A taxa baiana caiu de 40,7 para 36,8 mortes por 100 mil habitantes, uma redução anual de 9,6%. Mesmo com o recuo, a Bahia permaneceu com a segunda maior taxa entre as unidades da Federação, atrás somente do Amapá. O índice nacional foi de 19,1 mortes por 100 mil habitantes.
Os indicadores utilizados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública possuem abrangência diferente dos números estaduais citados pelo governo. A categoria Mortes Violentas Intencionais inclui, além de homicídios dolosos, latrocínios e lesões seguidas de morte, as mortes decorrentes de intervenções policiais. Por isso, comparações entre as bases exigem atenção metodológica.
Os dados permitem duas constatações simultâneas: a Bahia apresenta uma trajetória recente de redução da violência letal, mas parte de um patamar historicamente elevado. A queda percentual constitui resultado relevante.
ACM Neto propõe Governadoria da Segurança
Durante a convenção que homologou sua candidatura, ACM Neto anunciou a criação de uma Governadoria da Segurança, estrutura que, segundo o projeto, seria comandada diretamente pelo governador e funcionaria de maneira permanente.
A proposta prevê uma sala de situação, uma central de operações e um núcleo de inteligência, com acompanhamento diário de indicadores, operações policiais, sistema penitenciário e movimentações de organizações criminosas. O modelo também buscaria integrar as polícias estaduais, forças federais, Ministério Público, Poder Judiciário, guardas municipais e governos de outros estados.
ACM Neto afirmou que participaria presencial ou virtualmente das reuniões e operações, atribuindo ao chefe do Executivo responsabilidade direta pela coordenação política e administrativa da área. O candidato sustenta que a Bahia enfrenta um “vazio de comando” e necessita de maior centralização das decisões estratégicas.
Rosemberg Pinto contestou a originalidade da proposta. Para o líder governista, a integração das forças, o monitoramento de indicadores e o emprego de inteligência policial já fazem parte da estrutura estadual, especialmente por meio do Centro de Operações e Inteligência e das ações articuladas entre Polícia Militar, Polícia Civil, Departamento de Polícia Técnica e Corpo de Bombeiros.
O parlamentar também criticou a ausência, até o momento, de estimativas financeiras, metas quantitativas, cronograma de implantação e definição das competências administrativas da nova estrutura. Segundo Rosemberg, a proposta permanece no campo dos conceitos gerais e reproduz atividades que já são executadas pelo Estado.
Plano de Reocupação de Territórios prevê ações policiais e sociais
A segunda iniciativa anunciada por ACM Neto foi o Plano de Reocupação de Territórios, destinado a bairros, distritos e municípios nos quais grupos criminosos teriam imposto restrições à circulação da população, ao comércio, aos serviços públicos e à atividade econômica.
O plano prevê o emprego de inteligência, planejamento tático, equipamentos tecnológicos e operações policiais para restabelecer o controle territorial. Depois da etapa de repressão, as localidades receberiam escolas, centros culturais, equipamentos esportivos, programas de capacitação profissional, serviços públicos e núcleos comunitários.
A formulação reconhece que a retomada de áreas dominadas pelo crime não pode se limitar à presença policial. A proposta associa segurança, prevenção social, educação, cultura, geração de emprego e urbanização como componentes de uma política de ocupação permanente do Estado.
Rosemberg Pinto argumentou, porém, que programas estaduais já combinam repressão qualificada, inteligência policial e políticas sociais. O deputado mencionou a integração das forças e a ocupação permanente de áreas vulneráveis, além das ações vinculadas ao programa Bahia pela Paz, voltado principalmente para crianças, adolescentes, jovens e famílias em situação de vulnerabilidade.
O programa apresentado pela oposição ainda deverá detalhar os critérios para selecionar os territórios, as responsabilidades de cada instituição, as fontes de financiamento, os mecanismos de participação comunitária e os indicadores destinados a medir a redução da criminalidade e a recuperação da autoridade estatal.
Rosemberg leva Operação Overclean ao confronto eleitoral
Além da divergência sobre os indicadores, Rosemberg Pinto introduziu a Operação Overclean no debate. O deputado afirmou que ACM Neto cobra transparência do Governo do Estado, mas precisa esclarecer sua proximidade com pessoas investigadas por suspeitas de fraudes em contratos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro.
A Operação Overclean foi deflagrada inicialmente em dezembro de 2024 pela Polícia Federal, com participação do Ministério Público Federal, da Controladoria-Geral da União e da Receita Federal. A investigação apura a atuação de uma organização criminosa suspeita de movimentar aproximadamente R$ 1,4 bilhão por meio de contratos fraudulentos, obras superfaturadas, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro.
As apurações alcançaram contratos financiados com emendas parlamentares e recursos destinados ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas — Dnocs —, além de relações empresariais e administrativas em municípios da Bahia e de outros estados. Em dezembro de 2024, a segunda fase da operação cumpriu mandados de prisão, busca e apreensão, afastamento cautelar e sequestro de bens.
Um dos empresários investigados é José Marcos de Moura, conhecido como “Rei do Lixo”. Relatórios reproduzidos pela imprensa registraram diálogos nos quais o empresário mencionava um “amigo” que poderia atuar para solucionar pendências relacionadas a pagamentos de uma empresa. Os investigadores indicaram, como hipótese, que a referência poderia ser a ACM Neto. Essa interpretação permanece vinculada à apuração e não corresponde, por si só, a uma imputação criminal formal contra o ex-prefeito.
Em abril de 2026, ACM Neto reconheceu publicamente que mantém amizade com José Marcos de Moura, mas negou qualquer participação em irregularidades. O candidato afirmou que não existe elemento capaz de implicá-lo nos fatos investigados. Conforme informações disponíveis, ACM Neto não figura formalmente como investigado na operação.
Rosemberg utilizou a relação pessoal admitida pelo adversário para cobrar esclarecimentos políticos. A cobrança, entretanto, deve ser distinguida da responsabilidade penal, que depende de provas, procedimentos formais, manifestação do Ministério Público e decisões do Poder Judiciário.
Linha do tempo do confronto político e dos indicadores
- 10/12/2024: Polícia Federal, Ministério Público Federal, Receita Federal e CGU deflagram a primeira fase da Operação Overclean para investigar suspeitas de fraudes em licitações, corrupção, desvio de recursos e lavagem de dinheiro.
- 23/12/2024: Segunda fase da operação cumpre mandados de prisão e busca e determina medidas de sequestro de bens contra investigados.
- Janeiro de 2026: Governo da Bahia divulga balanço de 2025 e informa redução das mortes violentas no estado e em Salvador.
- Junho de 2026: SSP-BA apresenta os dados de janeiro a maio, com redução de 20,3% na Bahia e de 30,7% em Salvador.
- Início de julho de 2026: balanço do primeiro semestre registra queda de 20,5% das mortes violentas no estado e de 29,7% na capital.
- 22/07/2026: convenção partidária homologa a candidatura de ACM Neto ao Governo da Bahia e coloca a segurança pública no centro do programa oposicionista.
- 23/07/2026: são divulgadas as propostas de criação da Governadoria da Segurança e de implantação do Plano de Reocupação de Territórios.
- 24/07/2026: Rosemberg Pinto reage às declarações, acusa ACM Neto de distorcer os indicadores, critica a falta de detalhamento das propostas e menciona a Operação Overclean.
O confronto entre Rosemberg Pinto e ACM Neto revela uma disputa sobre a interpretação política dos indicadores. A redução das mortes violentas em 2025 e no primeiro semestre de 2026 é confirmada por dados oficiais e representa uma mudança relevante na trajetória recente. Ao mesmo tempo, a taxa baiana continua entre as mais elevadas do país, circunstância que impede tanto a negação dos avanços quanto a apresentação dos resultados como solução definitiva para a crise da segurança pública.
As propostas da oposição introduzem conceitos que deverão ser submetidos a detalhamento técnico, financeiro e institucional. A centralização do comando, a reocupação territorial e a presença de serviços sociais podem integrar uma política consistente, mas sua viabilidade dependerá de orçamento, metas, divisão de responsabilidades, controle externo e avaliação permanente. Da mesma forma, o Governo do Estado precisará demonstrar que a redução atual pode ser mantida e convertida em melhora perceptível nas comunidades mais afetadas pelas facções.
A Operação Overclean acrescenta uma dimensão jurídica ao embate, mas exige tratamento rigoroso. Relações pessoais, menções em diálogos e cobranças políticas não substituem provas nem autorizam antecipação de culpa.







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