Deputado Rosemberg chama ACM Neto de “disco arranhado”, cobra respostas sobre investigação em Salvador e questiona alianças para 2026

O líder do governo na Assembleia Legislativa da Bahia — Alba, deputado estadual Rosemberg Pinto (PT), reagiu nesta segunda-feira (20/07/2026) à entrevista concedida pelo ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao Governo da Bahia ACM Neto (União Brasil) ao programa Resenha das 7, da rádio Bahia FM. O parlamentar classificou o discurso do adversário como um “disco arranhado”, acusou-o de repetir críticas sobre segurança pública, saúde e educação e cobrou esclarecimentos relacionados à investigação do Ministério Público da Bahia sobre contratos da Prefeitura de Salvador. A manifestação também alcançou a autocrítica feita por Neto sobre a chapa de 2022 e sua posição diante das alianças presidenciais formadas para as eleições de 2026.

Na avaliação de Rosemberg Pinto, ACM Neto voltou a concentrar sua manifestação nos problemas da segurança pública, da regulação da saúde e da educação estadual, sem apresentar, segundo o líder governista, soluções suficientemente novas para os desafios enfrentados pela Bahia.

Toda entrevista é a mesma ladainha. Ele fala dos mesmos temas, ignora os avanços registrados por indicadores nessas áreas e não apresenta uma solução nova sequer. A Bahia precisa de debate de ideias, não de repetição de slogans.

A reação integra uma sequência de embates entre integrantes da base do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o principal nome da oposição estadual. Ao longo de 2026, Rosemberg já havia contestado declarações de Neto sobre educação, infraestrutura hídrica, agricultura familiar, BR-324 e Ponte Salvador–Itaparica, demonstrando que o confronto político entre os dois grupos passou a abranger diferentes áreas da administração pública.

ACM Neto apresenta propostas para segurança, saúde e educação

Na área da segurança pública, ACM Neto defendeu a criação de uma Governadoria da Segurança, estrutura que ficaria responsável por coordenar as ações das polícias e integrar decisões operacionais. Também mencionou valorização salarial dos agentes, melhoria das condições de trabalho, aquisição de viaturas blindadas e semiblindadas, coletes, equipamentos e armamentos.

O ex-prefeito propôs ainda reforçar a segurança das unidades penitenciárias, instalar equipamentos de inspeção para impedir a entrada de celulares e ampliar o controle sobre comunicações mantidas por integrantes de organizações criminosas. Paralelamente, relacionou o enfrentamento da violência à oferta de qualificação profissional, esporte e atividades culturais nas áreas socialmente mais vulneráveis.

Na saúde, Neto defendeu a construção de hospitais, a ampliação de leitos de UTI e serviços especializados no interior, mutirões de atendimento e a contratação temporária de vagas na rede privada quando a estrutura pública não dispuser de capacidade suficiente. Em relação à educação, afirmou que pretende elevar os investimentos e ampliar oportunidades para jovens, embora a entrevista divulgada não tenha apresentado estimativas orçamentárias, metas quantitativas ou cronograma detalhado para essas medidas.

Investigação na Prefeitura de Salvador entra no centro do confronto

Além de rebater as críticas à administração estadual, Rosemberg cobrou explicações sobre irregularidades investigadas pelo Ministério Público do Estado da Bahia — MPBA em contratos celebrados pela Prefeitura de Salvador. Os fatos investigados abrangem relações contratuais iniciadas durante a administração de ACM Neto e mantidas no governo do atual prefeito Bruno Reis.

Quem quer governar a Bahia precisa primeiro explicar os problemas revelados na gestão da capital. Não adianta tentar mudar de assunto quando há perguntas que a sociedade espera ver respondidas.”

A investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais — Gaeco apura suspeitas de fraudes em licitações, direcionamento de contratos, superfaturamento, corrupção, peculato e lavagem de dinheiro envolvendo empresas, empresários e agentes públicos municipais.

Levantamento elaborado com dados do Portal da Transparência de Salvador identificou que cinco empresas citadas na investigação receberam conjuntamente R$ 321.163.273,89 entre 2015 e julho de 2026. Esse montante corresponde ao volume global de pagamentos realizados às companhias no período e não significa que todos os contratos ou recursos estejam sob suspeita. O possível prejuízo associado aos procedimentos inicialmente analisados foi estimado em R$ 38,3 milhões.

Empresas receberam R$ 321,1 milhões em contratos municipais

Os pagamentos identificados foram distribuídos da seguinte forma:

  • G3 Polaris Serviços: R$ 124.839.733,73;
  • Podium Distribuidora: R$ 85.496.159,40;
  • LN Distribuidora e Comércio: R$ 45.402.729,70;
  • WLSP Logística e Transportes: R$ 37.673.075,97;
  • MP2 Construções: R$ 27.751.575,09.

A apuração sustenta preliminarmente que as empresas teriam compartilhado estruturas, recursos e interesses econômicos, apresentando-se formalmente como concorrentes em procedimentos licitatórios. A confirmação dessa hipótese dependerá da análise de documentos, perícias, depoimentos e demais provas reunidas no processo.

A operação deflagrada em 13/07/2026 resultou no afastamento cautelar do então secretário municipal Luciano Sandes, do vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como Gordinho da Favela, e de outros servidores. A Justiça também determinou buscas, apreensões, restrições de contato e bloqueios patrimoniais, mas rejeitou pedidos de prisão preventiva apresentados pelo Ministério Público. As medidas não representam condenação ou antecipação de culpa.

ACM Neto nega envolvimento e defende apuração

Em entrevista concedida em Feira de Santana no sábado, 18/07/2026, ACM Neto negou aparecer como investigado no caso e afirmou não conhecer os empresários envolvidos. O ex-prefeito pediu que seu nome não fosse pessoalmente associado ao suposto esquema e sustentou que as responsabilidades devem ser individualizadas.

Neto também declarou que eventuais irregularidades precisam ser investigadas com rigor e transparência e que pessoas comprovadamente envolvidas devem ser responsabilizadas, preservados o contraditório e a ampla defesa.

Autocrítica sobre chapa de 2022 gera novo embate

Durante a entrevista à Bahia FM, ACM Neto reconheceu ter cometido dois erros na formação de sua chapa majoritária em 2022: o momento tardio da definição e a escolha dos integrantes. Naquele pleito, a empresária Ana Coelho foi candidata a vice-governadora, enquanto Cacá Leão disputou uma vaga no Senado.

Apesar da avaliação crítica, Neto afirmou manter respeito e gratidão pelos antigos aliados. Segundo o ex-prefeito, a composição daquele ano não possuía a densidade eleitoral e a representatividade regional que ele considera necessárias para uma disputa estadual.

Rosemberg interpretou a declaração como uma tentativa de transferir para os demais integrantes da chapa parte da responsabilidade pelo resultado eleitoral.

Ele diz que reconheceu o erro, mas, no fundo, transfere a responsabilidade para a composição da chapa, como se o problema fossem os outros. Falta reconhecer as próprias escolhas e apresentar um projeto consistente para a Bahia, em vez de repetir o mesmo discurso de sempre.

No primeiro turno de 2022, ACM Neto obteve 40,88% dos votos válidos, enquanto Jerônimo Rodrigues alcançou 49,45%. A disputa foi decidida no segundo turno, quando o candidato petista venceu o ex-prefeito e foi eleito governador.

Para 2026, a oposição antecipou a composição majoritária. A chapa anunciada em março reúne ACM Neto como pré-candidato ao Governo da Bahia, Zé Cocá (PP) como pré-candidato a vice-governador e João Roma (PL) e Angelo Coronel (Republicanos) como nomes ao Senado.

Apoio presidencial e presença do PL na aliança

Rosemberg também pressionou ACM Neto a explicitar seu posicionamento na disputa presidencial de 2026. O deputado mencionou a participação do PL na aliança estadual e a presença de João Roma, ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, na chapa majoritária.

Político tem que ter coragem e assumir seus atos. Se esse é o campo político da chapa dele, que diga isso com clareza ao eleitor, sem ambiguidades.

Dois dias antes da declaração de Rosemberg, ACM Neto havia afirmado publicamente que sua preferência presidencial era pelo governador de Goiás, Ronaldo Caiado, integrante do União Brasil. O ex-prefeito reconheceu, entretanto, que aliados de sua chapa defendem outras candidaturas, incluindo o senador Flávio Bolsonaro.

A composição oposicionista na Bahia reúne, portanto, lideranças que convergem na tentativa de derrotar Jerônimo Rodrigues, mas não necessariamente possuem a mesma posição na eleição presidencial. Neto sustenta que essa diversidade pode ser administrada democraticamente, enquanto integrantes do PT procuram associá-lo politicamente ao campo bolsonarista por causa da participação do PL em sua aliança.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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