No Dia do Agricultor, celebrado nesta terça-feira (28/07/2026), o perfil dos responsáveis pela produção rural na Bahia evidencia a importância econômica e social do campo, mas também expõe desigualdades e desafios estruturais. Segundo o último Censo Agropecuário, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2017, o estado possuía 762.848 estabelecimentos agropecuários, o maior número do Brasil, e reunia mais de 2,1 milhões de trabalhadores nessas unidades produtivas. O levantamento mostra ainda uma população de produtores majoritariamente masculina, parda, com idade superior a 45 anos e marcada por baixos níveis de escolarização.
Bahia concentrava 15% dos estabelecimentos agropecuários do Brasil
Em 2017, a Bahia liderava o país em número de estabelecimentos agropecuários. As 762.848 unidades localizadas no território baiano correspondiam a 15% dos 5.073.324 estabelecimentos identificados em todo o Brasil.
A unidade investigada pelo Censo Agropecuário é o estabelecimento, independentemente de seu tamanho, de sua forma jurídica, da condição de ocupação das terras ou de estar localizado em área rural ou urbana. O levantamento identifica, em cada unidade, o produtor responsável pelas atividades desenvolvidas, incluindo agricultura, pecuária, aquicultura, silvicultura e extração vegetal.
Isso significa que os números não devem ser confundidos exclusivamente com propriedades rurais ou estabelecimentos de agricultura familiar. O universo pesquisado inclui unidades próprias, arrendadas, ocupadas ou exploradas por meio de outras relações produtivas, desde que destinadas à produção para comercialização ou subsistência.
Quatro municípios baianos estavam entre os dez maiores do país
A presença da Bahia entre os principais territórios agrícolas brasileiros também aparecia nos dados municipais. Entre os dez municípios com maior número de estabelecimentos e responsáveis pela produção agropecuária em 2017, quatro estavam localizados no estado:
- Feira de Santana: 9.191 estabelecimentos, terceiro maior número do país;
- Casa Nova: 7.509 estabelecimentos, sexta posição nacional;
- Juazeiro: 7.288 estabelecimentos, nona posição;
- Macaúbas: 7.189 estabelecimentos, décima posição.
Feira de Santana, maior município do interior baiano em população, apresentava uma estrutura rural especialmente extensa. Os estabelecimentos agropecuários do município ocupavam aproximadamente 67,3 mil hectares e empregavam 26.362 pessoas, das quais 23.030 possuíam vínculo de parentesco com o produtor responsável.
A distribuição demonstra que a produção rural baiana não está concentrada em uma única região. Feira de Santana está situada no Centro-Norte; Casa Nova e Juazeiro integram o Vale do São Francisco; e Macaúbas pertence à região do Sertão Produtivo, refletindo a diversidade territorial, climática e produtiva do estado.
Campo baiano ocupava mais de 2,1 milhões de trabalhadores
Além de possuir o maior número de estabelecimentos, a Bahia também liderava o país em pessoal ocupado na agropecuária. Em 2017, eram 2.106.127 trabalhadores, equivalentes a 13,9% das 15.105.125 pessoas ocupadas em estabelecimentos agropecuários brasileiros.
Do total estadual, 1.664.903 trabalhadores possuíam laço de parentesco com o produtor responsável, enquanto 441.224 não tinham vínculo familiar. Os números demonstram o peso das relações familiares na organização da atividade rural, embora o universo do Censo Agropecuário seja mais amplo do que o conceito legal de agricultura familiar.
A dimensão da mão de obra rural reforça a importância do setor para a geração de trabalho e renda, o abastecimento alimentar, a produção de matérias-primas e a sustentação econômica de centenas de municípios baianos, especialmente daqueles com forte dependência das atividades agrícolas e pecuárias.
Homens eram maioria, mas participação feminina superava média nacional
Dos 762.848 responsáveis pelos estabelecimentos agropecuários da Bahia, 567.721 eram homens, o equivalente a 74,4%. Embora representassem quase três em cada quatro produtores, a participação masculina era proporcionalmente inferior à média brasileira, de 81%.
A Bahia possuía a segunda menor proporção de homens na direção dos estabelecimentos entre as unidades da Federação, ficando acima apenas de Pernambuco, onde o percentual masculino era de 72,8%. Consequentemente, a participação das mulheres na gestão rural baiana era superior à observada na maior parte do país.
A presença feminina, entretanto, permanecia minoritária no conjunto estadual. As mulheres representavam aproximadamente um quarto dos produtores responsáveis, evidenciando que o acesso à direção formal dos estabelecimentos ainda era condicionado por desigualdades relacionadas à posse da terra, divisão do trabalho, sucessão familiar e reconhecimento das atividades desempenhadas no campo.
Mulheres eram maioria em quatro municípios da Bahia
A distribuição municipal apresentava situações distintas. Em apenas quatro dos 417 municípios baianos as mulheres constituíam a maioria dos responsáveis pelos estabelecimentos agropecuários:
- Feira de Santana: 55,6%;
- Santo Estêvão: 55,5%;
- Antônio Cardoso: 51%;
- Pedrão: 50,9%.
Os quatro municípios estão localizados em uma área territorialmente próxima, no entorno de Feira de Santana. O resultado indica uma configuração regional específica, que deverá ser aprofundada pelo novo Censo Agropecuário para verificar se a predominância feminina foi mantida, ampliada ou reduzida ao longo da década.
O 12º Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola incorporará novos procedimentos para ampliar a visibilidade das atividades realizadas por mulheres com vínculo de parentesco com o responsável pelo estabelecimento. A pesquisa buscará captar trabalhos que nem sempre aparecem formalmente como direção ou ocupação principal, apesar de serem essenciais à produção e à organização da unidade familiar.
Produtores pardos formavam maioria no estado
A população responsável pelos estabelecimentos agropecuários baianos era majoritariamente parda. Em 2017, 442.749 produtores, equivalentes a 58,1%, declararam-se pardos.
Os produtores brancos somavam 190.448, ou 25%, enquanto os pretos totalizavam 120.026, correspondentes a 15,8%. As demais categorias, incluindo indígenas, amarelos e casos sem declaração, representavam uma parcela menor do total.
A edição de 2017 foi a primeira do Censo Agropecuário a aprofundar a investigação sobre a cor ou raça do produtor e de seu cônjuge. A inclusão permitiu examinar diferenças na estrutura fundiária, no perfil das atividades, no acesso aos recursos produtivos e na distribuição territorial dos estabelecimentos.
Envelhecimento expõe desafio da sucessão rural
A estrutura etária representava outro ponto central do perfil rural baiano. Apenas 29,5% dos produtores, ou 225.124 pessoas, tinham até 45 anos de idade, embora esse grupo correspondesse a 71,9% da população geral do estado em 2017.
A maior faixa era formada pelos produtores com idade entre 45 e 65 anos, que somavam 342.902 pessoas, equivalentes a 45% do total. Na população baiana como um todo, essa faixa etária representava 19,8%.
A diferença revela uma concentração da direção dos estabelecimentos entre pessoas de maior idade e indica dificuldades de renovação geracional. A permanência dos jovens no campo depende de fatores como acesso à terra, crédito, assistência técnica, conectividade, educação, serviços públicos, renda e perspectivas de desenvolvimento profissional.
Novo Censo investigará sucessão dos produtores
A sucessão rural será um dos novos temas do Censo Agropecuário de 2027. O IBGE pretende identificar as condições de continuidade das atividades e compreender se existem familiares ou outros responsáveis preparados para assumir a administração dos estabelecimentos.
Também serão investigados o uso de drones, máquinas de agricultura de precisão, plataformas digitais, práticas ambientais, perdas na produção e destino municipal dos produtos comercializados. O levantamento manterá a comparabilidade com os temas pesquisados em 2017, mas incluirá questões relacionadas às transformações tecnológicas, ambientais e sociais verificadas no setor.
Os resultados poderão indicar em que medida a modernização produtiva alcançou os pequenos e médios estabelecimentos, quais regiões permanecem com menor acesso à tecnologia e como o envelhecimento dos responsáveis influencia a continuidade da produção rural.
Um em cada três produtores não sabia ler nem escrever
Os indicadores educacionais apresentavam uma das maiores vulnerabilidades identificadas pelo Censo Agropecuário. Em 2017, 244.642 produtores baianos, equivalentes a 32,1%, não sabiam ler nem escrever.
A proporção era quase três vezes superior à taxa geral de analfabetismo da população baiana naquele ano, estimada em 12,2%. A diferença revela uma desigualdade histórica no acesso à educação entre as populações urbanas e rurais, especialmente entre trabalhadores de maior idade.
Além disso, 170.638 produtores, ou 22,4%, nunca haviam frequentado uma escola. Apenas 22.069 responsáveis por estabelecimentos, correspondentes a 2,9%, possuíam ensino superior completo.
Escolaridade interfere no acesso a políticas e tecnologias
O baixo nível de instrução não significa ausência de conhecimento produtivo. A atividade agropecuária envolve saberes acumulados por gerações, domínio das condições ambientais, conhecimento dos ciclos naturais e experiência prática sobre cultivos e criação de animais.
Entretanto, limitações de leitura e escolarização podem dificultar o acesso a contratos, crédito rural, regularização fundiária, programas governamentais, certificações sanitárias, assistência técnica digital, mercados institucionais e novas tecnologias.
A ampliação da educação no campo, da formação profissional e da assistência técnica constitui, portanto, um elemento diretamente relacionado à produtividade, à autonomia econômica dos produtores e à capacidade de adaptação às mudanças climáticas e tecnológicas.
Linha do tempo dos censos agropecuários
- 1920: realização do primeiro Censo Agropecuário brasileiro, ainda sob responsabilidade da antiga Diretoria Geral de Estatística;
- 1940: retomada da pesquisa após a ausência de levantamento na década de 1930;
- 1950, 1960 e 1970: realização de edições com periodicidade decenal;
- 1975, 1980 e 1985: período de levantamentos quinquenais;
- 1995–1996: nona edição, adiada por restrições orçamentárias que impediram a operação prevista para 1990;
- 2006: décima edição, com substituição dos questionários em papel por equipamentos digitais e captura de coordenadas geográficas;
- 2017: 11ª edição, com período de referência entre 01/10/2016 e 30/09/2017 e coleta realizada entre outubro de 2017 e março de 2018;
- Dezembro de 2025: primeira prova piloto do 12º Censo, incluindo os municípios baianos de Juazeiro e Sobradinho;
- Maio de 2026: realização da segunda prova piloto em seis municípios brasileiros;
- Novembro de 2026: previsão do Censo Experimental;
- Outubro de 2026 a fevereiro de 2027: atualização cadastral dos estabelecimentos pela internet;
- Março a setembro de 2027: preenchimento do questionário pela internet;
- Junho a outubro de 2027: coleta presencial nos estabelecimentos agropecuários;
- Dezembro de 2027: previsão de divulgação dos resultados preliminares;
- Dezembro de 2028: previsão de apresentação dos resultados definitivos.
Desde a operação inaugural, em 1920, o Brasil realizou 11 censos agropecuários. O levantamento programado para 2027 será a 12ª edição e deverá atualizar um retrato estatístico que, no caso dos dados atualmente disponíveis sobre os produtores, ainda tem 2017 como principal referência.
Censo de 2027 atualizará transformações de uma década
O novo levantamento será realizado em todos os estabelecimentos agropecuários, florestais e aquícolas do país. Além das entrevistas presenciais com uso de tablets e imagens de sensoriamento remoto, o produtor poderá atualizar previamente seu cadastro e preencher o questionário pela internet.
Entre as inovações está a investigação dos 28 segmentos de povos e comunidades tradicionais, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre diferentes sistemas produtivos e formas de organização territorial. A pesquisa também buscará dar maior visibilidade às atividades desempenhadas pelas mulheres nos estabelecimentos.
Na Bahia, os resultados permitirão verificar mudanças na quantidade e na área dos estabelecimentos, no contingente de trabalhadores, na participação feminina, no perfil racial, na escolaridade, na sucessão familiar e na incorporação de tecnologias ao processo produtivo.
O retrato de 2017 demonstra que a Bahia ocupava posição central na estrutura agropecuária brasileira, tanto pelo número de estabelecimentos quanto pelo contingente de trabalhadores. Essa liderança quantitativa, contudo, coexistia com obstáculos relacionados ao envelhecimento dos responsáveis, à desigualdade de gênero e aos baixos indicadores educacionais, fatores que influenciam a capacidade de inovação e continuidade das atividades.








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