Neste domingo (26/07/2026), o Jornal Grande Bahia publica entrevista concedida no sábado (18) por Sebastião Eduardo Cunha, ex-superintendente do Banco do Brasil e ex-secretário municipal de Administração de Feira de Santana durante parte do Governo Colbert Martins, sobre a participação da instituição financeira no processo de expansão da cotonicultura no Oeste da Bahia.
Cunha relatou que, por volta de 1998, participou da estruturação de uma operação experimental de crédito destinada ao cultivo de 1 mil hectares de algodão de sequeiro, distribuídos entre cinco produtores rurais. A iniciativa foi implementada em um período no qual a cotonicultura moderna já avançava sobre o Cerrado baiano, contribuindo para ampliar o acesso ao financiamento institucional e para fortalecer a organização econômica de uma atividade então em processo de consolidação.
Na safra 2025/2026, a produção baiana deverá alcançar 2,05 milhões de toneladas de algodão em caroço, pluma e derivados primários, cultivados em uma área estimada de 418 mil hectares, mantendo a Bahia como a segunda maior produtora de algodão do Brasil. A operação descrita por Sebastião Eduardo Cunha representa, nesse contexto histórico, um dos movimentos de incorporação do crédito bancário à cadeia produtiva e de transformação da cotonicultura regional em um dos segmentos mais relevantes do agronegócio baiano.
Sebastião Cunha relata experiência no Banco do Brasil
Natural de Riachão das Neves, Sebastião Cunha ingressou no Banco do Brasil no Rio de Janeiro, onde permaneceu por aproximadamente 13 anos e concluiu sua graduação em Direito. Ao retornar à Bahia, em 1986, exerceu funções de gerência em agências localizadas em Nova Soure, Mundo Novo, Irará, Amélia Rodrigues, Salvador e Feira de Santana, antes de assumir a Superintendência Regional do Oeste da Bahia, sediada em Barreiras.
Segundo Cunha, sua atuação na região ocorreu entre 1997 e 2000 e ultrapassava os limites originalmente abrangidos pela estrutura administrativa do banco. A superintendência atendia 48 municípios do Oeste baiano e coordenava operações em áreas do Tocantins, Maranhão, Piauí e norte de Goiás, com subsedes ou pontos de apoio em municípios como Guanambi, Bom Jesus da Lapa, Santa Maria da Vitória e Posse.
O ex-superintendente definiu essa organização territorial como uma experiência anterior à institucionalização do conceito de Matopiba. Atualmente, a denominação reúne áreas de Cerrado do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, caracterizadas pela expansão da agricultura tecnificada a partir da segunda metade da década de 1980. A estrutura mencionada por Cunha incluía também municípios goianos, que não integram a delimitação oficial contemporânea do Matopiba.
Produtores propuseram cultivo financiado de algodão
Cunha afirmou que, por volta de 1998, foi procurado por produtores e lideranças rurais interessados em ampliar o cultivo de algodão no Oeste da Bahia. O grupo reunia empresários que acompanhavam a expansão da cultura em estados como Mato Grosso e Minas Gerais e avaliavam que as condições de solo, topografia, luminosidade e regime climático do Cerrado baiano permitiriam a implantação de lavouras mecanizadas.
Entre as pessoas mencionadas pelo ex-superintendente aparecem os produtores Ademar Marçal, ligado à Fazenda São Francisco, em Riachão das Neves, e Milton Senna, além do empresário de origem angolana João Barata. Cunha não apresentou, durante a entrevista, uma relação completa dos cinco beneficiários nem os números dos contratos, mas situou as áreas financiadas entre Riachão das Neves, Barreiras e a região que atualmente integra o município de Luís Eduardo Magalhães.
A proposta previa o plantio de 200 hectares por produtor, totalizando 1 mil hectares de algodão de sequeiro. O desenho buscava distribuir o risco entre diferentes propriedades e permitir que o Banco do Brasil acompanhasse o comportamento agronômico, a produtividade, os custos e a capacidade de pagamento dos empreendimentos antes de ampliar sua exposição financeira à nova atividade.
Restrição ao crédito estava relacionada ao bicudo-do-algodoeiro
O principal obstáculo, conforme o relato, era uma restrição interna do Banco do Brasil ao financiamento do algodão na Bahia. A medida estaria associada aos prejuízos provocados pelo bicudo-do-algodoeiro, inseto que contribuiu para o colapso da produção no Vale do Iuiú e em outras áreas tradicionais do Sudoeste baiano.
O problema fitossanitário havia adquirido dimensão econômica nas décadas anteriores. A repetição de lavouras sem a erradicação adequada dos restos culturais, somada à compactação do solo e à proliferação de pragas, tornou insustentável parte da cotonicultura implantada no semiárido. A região do Vale do Iuiú chegou a reunir aproximadamente 331 mil hectares cultivados, mas perdeu protagonismo diante dos custos de controle e da queda da rentabilidade.
Para avaliar a possibilidade de produção no Cerrado, Cunha informou ter formado uma equipe composta por cinco engenheiros-agrônomos do Banco do Brasil, liderada por Cléber Cabral. Os profissionais analisaram as condições locais, os riscos fitossanitários, a aptidão das propriedades e o modelo de financiamento proposto pelos agricultores.
Operação foi submetida à direção do banco em Brasília
A inclusão das propostas no sistema contábil do banco teria acionado os mecanismos de controle da instituição, uma vez que o financiamento de algodão na Bahia não estava previsto nas orientações então vigentes. Cunha contou que foi convocado a Brasília para explicar por que a superintendência havia iniciado a estruturação das operações.
O ex-superintendente afirmou ter levado à direção do banco um relatório técnico elaborado pelos agrônomos. A apresentação contou com a participação de Cléber Cabral e com o apoio de Ricardo Alves da Conceição, então diretor ligado ao crédito rural e ao agronegócio. De acordo com Cunha, a direção autorizou a continuidade do projeto em caráter experimental.
“Saímos de Brasília com o banco autorizando o financiamento experimental daqueles mil hectares para acompanhar o resultado”, relatou Sebastião Cunha.
A decisão teria permitido a contratação dos financiamentos e o início do cultivo nas propriedades selecionadas. O relato atribui ao Banco do Brasil um papel de redução do risco financeiro e de validação institucional da cultura, em um momento no qual produtores ainda precisavam demonstrar a viabilidade econômica do algodão cultivado em larga escala no Cerrado baiano.
Registros históricos situam operação em fase de expansão
A operação narrada por Sebastião Cunha integra uma história mais extensa. Registros da Associação Baiana dos Produtores de Algodão indicam que as primeiras experiências da cotonicultura moderna no Cerrado baiano começaram no início da década de 1990, com estudos e plantios realizados pela Algodoeira São Miguel e por produtores interessados em diversificar uma matriz agrícola então concentrada na soja.
A cronologia institucional registra que João Carlos Jacobsen plantou 50 hectares em 1995, na Fazenda Independência, em Formosa do Rio Preto. No mesmo período, Ademar Marçal cultivou outros 20 hectares. Na safra 1997/1998, o Oeste da Bahia já reunia aproximadamente 8 mil hectares de algodão, antes ou simultaneamente à operação de crédito descrita por Cunha.
Dessa forma, o financiamento de 1 mil hectares relatado pelo ex-superintendente corresponde aos primeiros plantios documentados da cultura no Cerrado baiano financiados pelo Banco do Brasil, monodelfo de agronegócio. Sua relevância histórica está relacionada à ampliação do acesso ao crédito, à participação de uma instituição financeira pública e à criação de um modelo experimental destinado a demonstrar a viabilidade econômica das lavouras em escala comercial.
Bahia mantém segunda posição na produção brasileira
As estimativas mais recentes confirmam a dimensão alcançada pela cotonicultura baiana. O décimo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento projeta para a safra 2025/2026 uma área estadual de 418 mil hectares, crescimento de 1,2% sobre o ciclo anterior. A produção total, considerando pluma e caroço, deve alcançar 2,053 milhões de toneladas, avanço de 2%.
Desse volume, a Conab estima 862 mil toneladas de algodão em pluma, com rendimento médio de 2.062 quilos por hectare. A produção de caroço deve atingir 1,191 milhão de toneladas, enquanto a produtividade total do algodão em caroço é calculada em 4.910 quilos por hectare.
O levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, que adota o ano civil como referência, apresenta números ligeiramente diferentes: 1,845 milhão de toneladas, área de 410 mil hectares e rendimento médio de 4.500 quilos por hectare em 2026. Pela metodologia do IBGE, a Bahia responde por 20,3% da produção nacional, atrás de Mato Grosso, com 68,7%, e permanece como o maior produtor do Nordeste.
Considerando a metodologia da Conab, a produção baiana de 862 mil toneladas de pluma representa uma parcela decisiva da oferta brasileira, estimada em 4,06 milhões de toneladas no ciclo 2025/2026. A produção nacional deve permanecer próxima da obtida na safra anterior, apesar da redução de 3,2% na área plantada, compensada por uma elevação estimada de 2,8% na produtividade média.
Irrigação avança enquanto cultivo de sequeiro recua
O financiamento descrito por Sebastião Cunha estava voltado exclusivamente ao algodão de sequeiro, dependente das chuvas regulares durante o desenvolvimento da lavoura. Esse modelo foi fundamental para a expansão inicial no Cerrado, mas permanece mais exposto à irregularidade climática e às oscilações de produtividade.
Na safra 2025/2026, a Conab identificou aumento da área total cultivada na Bahia em razão da expansão das lavouras irrigadas. Em sentido contrário, houve retração das áreas de sequeiro, associada ao maior risco climático e às cotações menos favoráveis observadas no segundo semestre de 2025.
As condições meteorológicas registradas ao longo do ciclo favoreceram o desenvolvimento vegetativo e reprodutivo. Em julho de 2026, as áreas de sequeiro estavam predominantemente nas fases de maturação e colheita, enquanto as lavouras irrigadas permaneciam no enchimento das maçãs. A Conab mantinha uma expectativa positiva de produtividade, apoiada no uso de materiais genéticos adaptados e no manejo nutricional e fitossanitário.
Algodão movimenta exportações e diferentes cadeias industriais
A importância econômica da cultura ultrapassa a produção agrícola. Em 2025, a Bahia exportou o volume recorde de 590,2 mil toneladas de algodão, crescimento de 20,4% sobre 2024. A receita também atingiu o maior resultado da série, com US$ 935,8 milhões, alta de 6,1%, mesmo diante de uma redução aproximada de 12% nos preços médios internacionais.
O desempenho colocou o algodão entre os principais produtos da pauta exportadora estadual. A expansão dos embarques ocorreu em um ano no qual as exportações totais da Bahia recuaram 3,2%, para US$ 11,52 bilhões, pressionadas pela queda dos preços das commodities e pelas incertezas comerciais internacionais. O resultado do algodão evidenciou a capacidade da produção baiana de conquistar mercados mesmo em condições menos favoráveis de preço.
Além da pluma destinada à indústria têxtil, o processamento produz caroço, óleo, torta e farelo. Esses componentes abastecem segmentos alimentícios, indústrias de óleos vegetais e cadeias de nutrição animal, ampliando o impacto econômico do cultivo sobre empresas de beneficiamento, armazenamento, transporte, comércio exterior, máquinas, insumos e serviços técnicos.
Bahia participa de uma cadeia exportadora nacional em expansão
Para a safra 2025/2026, a produção brasileira de algodão em pluma está estimada em 4,059 milhões de toneladas, volume apenas 0,5% inferior ao ciclo anterior. A produtividade média nacional deve chegar a 2.011 quilos por hectare, estabelecendo um nível suficiente para compensar parte da retração da área cultivada.
A Conab projeta exportações brasileiras de 3,385 milhões de toneladas de pluma, aumento aproximado de 12%. Somente no primeiro semestre de 2026, o país exportou 1,8 milhão de toneladas, incluindo o recorde mensal de 217 mil toneladas registrado em junho.
Nesse contexto, a Bahia funciona como uma das bases territoriais da competitividade brasileira. A escala produtiva do Oeste, a mecanização das lavouras, a capacidade de beneficiamento e a estrutura de classificação da fibra permitem que o estado participe diretamente da oferta destinada aos mercados internacionais e da formação de estoques para a indústria nacional.
Qualidade, classificação e valorização da origem
A consolidação do algodão baiano também depende da classificação técnica da fibra. Parâmetros como comprimento, resistência, uniformidade, micronaire, cor e quantidade de impurezas influenciam o preço, a destinação industrial e a aceitação internacional dos lotes.
Em abril de 2026, representantes do Governo da Bahia e de entidades do setor avançaram nas discussões para o reconhecimento de uma Indicação Geográfica do algodão branco do Oeste baiano. O processo busca associar oficialmente a origem da pluma às características territoriais, aos padrões tecnológicos e às práticas produtivas consolidadas na região.
Em junho, durante a Bahia Farm Show 2026, foi inaugurada uma nova estrutura do Laboratório do Centro de Análise de Fibras da Associação Baiana dos Produtores de Algodão. O investimento amplia a capacidade de classificação e rastreabilidade, elementos essenciais para reduzir divergências comerciais e sustentar a reputação do produto nos mercados interno e externo.
Crédito rural, assistência técnica e organização dos produtores
A trajetória descrita por Sebastião Cunha demonstra que a expansão agrícola não resultou de uma iniciativa isolada. O processo combinou capital dos produtores, crédito rural, análise técnica, pesquisa agronômica, adaptação de cultivares, mecanização e organização institucional.
O Banco do Brasil, conforme o relato, participou de uma etapa na qual o risco ainda precisava ser tecnicamente mensurado. A atuação de engenheiros-agrônomos vinculados à instituição permitiu que a decisão financeira fosse acompanhada de uma avaliação das condições produtivas, procedimento especialmente relevante diante dos prejuízos anteriormente causados pelo bicudo-do-algodoeiro.
Nos anos seguintes, a criação da Abapa, a realização de dias de campo, a instalação de unidades de beneficiamento, o desenvolvimento de sistemas de classificação e a ampliação da infraestrutura regional transformaram um conjunto de experiências agrícolas em uma cadeia articulada. O resultado foi a consolidação de um polo que reúne produção em escala, alta intensidade tecnológica e participação expressiva no comércio exterior.
Linha do tempo da produção de algodão na Bahia
- Século XIX: a Bahia figurava entre os principais produtores brasileiros de algodão, com lavouras concentradas inicialmente no Recôncavo e relacionadas ao surgimento das primeiras indústrias têxteis do estado.
- Década de 1980: o Vale do Iuiú, no Sudoeste baiano, tornou-se o principal polo estadual, chegando a aproximadamente 331 mil hectares cultivados. Problemas de manejo, compactação do solo, pulgões e bicudo-do-algodoeiro contribuíram para a retração da atividade.
- Início da década de 1990: começam as experiências voltadas à implantação de uma cotonicultura mecanizada e tecnificada no Cerrado do Oeste da Bahia.
- 1995: João Carlos Jacobsen implanta 50 hectares em Formosa do Rio Preto, enquanto Ademar Marçal cultiva 20 hectares em outra propriedade da região.
- Safra 1997/1998: a área cultivada no Oeste baiano alcança cerca de 8 mil hectares, demonstrando a passagem da fase experimental para uma escala produtiva crescente.
- Por volta de 1998: segundo Sebastião Cunha, o Banco do Brasil autoriza o financiamento experimental de 1 mil hectares de algodão de sequeiro, distribuídos entre cinco produtores.
- 2000: produtores fundam a Associação Baiana dos Produtores de Algodão, ampliando a organização institucional, técnica e política da cadeia produtiva.
- Safra 2003/2004: a Bahia consolida-se como o segundo maior estado produtor de algodão do Brasil, posição mantida nas safras seguintes.
- 2025: as exportações baianas de algodão atingem o recorde de 590,2 mil toneladas, com receita de US$ 935,8 milhões.
- Safra 2025/2026: a Conab estima 418 mil hectares, produção total de 2,05 milhões de toneladas e colheita de 862 mil toneladas de pluma na Bahia.
A entrevista de Sebastião Cunha acrescenta à memória da cotonicultura baiana uma dimensão relacionada à política de crédito e às decisões internas do Banco do Brasil. Entretanto, a cronologia disponível demonstra que o algodão moderno já era cultivado no Oeste antes da operação de 1 mil hectares: os primeiros plantios documentados ocorreram em 1995 e a região já possuía cerca de 8 mil hectares na safra 1997/1998. O financiamento relatado deve, portanto, ser compreendido como uma possível etapa de ampliação e institucionalização financeira, e não como o início absoluto da atividade. A confirmação integral de sua extensão histórica dependerá da localização dos contratos, pareceres agronômicos, autorizações e registros administrativos do banco.
A escala atual evidencia que a consolidação do setor decorreu da convergência entre iniciativa empresarial, crédito, assistência técnica, associativismo e condições territoriais favoráveis. Ao mesmo tempo, a retração recente das áreas de sequeiro mostra que a cadeia continua exposta ao clima, aos custos de produção, às cotações internacionais e ao controle de pragas. A expansão da irrigação também exige acompanhamento permanente da disponibilidade hídrica, do licenciamento ambiental e da eficiência no uso da água, enquanto a verticalização industrial permanece necessária para que uma parcela maior do valor gerado pela fibra permaneça na economia baiana.
Com 418 mil hectares, produção estimada de 2,05 milhões de toneladas, colheita de 862 mil toneladas de pluma e exportações estaduais que alcançaram US$ 935,8 milhões em 2025, o algodão tornou-se um ativo estratégico para a Bahia e para a posição brasileira no comércio mundial.







Deixe um comentário