Na terça-feira (02/06/2026), a coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, resgatou a trajetória do Feira Tênis Clube (FTC), primeira agremiação social de grande porte de Feira de Santana, fundada em 8 de dezembro de 1944 e extinta oficialmente em 2013, após ser levada a leilão. O texto relembra a importância do clube para a Micareta de Feira, para a vida social da chamada Cidade Princesa e para a formação esportiva e cultural de gerações de feirenses, sintetizada na frase que atravessou décadas: “Onde é a Micareta? É no Feira Tênis Clube!”
Feira Tênis Clube e a memória social da Micareta
O Feira Tênis Clube ocupou lugar central na memória coletiva de Feira de Santana. Durante décadas, o FTC foi associado aos bailes, encontros sociais, atividades esportivas e grandes eventos ligados à Micareta, consolidando-se como um dos principais espaços de sociabilidade urbana da cidade.
A expressão “Onde é a Micareta? É no Feira Tênis Clube!” tornou-se uma espécie de marca afetiva de uma época. Ela traduzia não apenas a localização simbólica da festa para parte expressiva da sociedade feirense, mas também a relevância do clube como ambiente de encontro, celebração e distinção social.
Embora a Micareta tenha origem nas ruas, com participação popular ampla, o crescimento urbano e a transformação dos costumes levaram à diversificação dos espaços da festa. O evento passou a conviver com ambientes públicos e privados, refletindo a própria estrutura social da cidade.
Fundação do “Aristocrático” e papel da elite feirense
Fundado em 1944, o Feira Tênis Clube ficou conhecido como o “Aristocrático”, denominação associada ao perfil social de parte de seus frequentadores. A agremiação reunia associados ligados aos segmentos de maior poder aquisitivo de Feira de Santana e funcionava como espaço de lazer, esporte, cultura e convivência.
A existência do FTC expressava uma forma de organização social comum em cidades brasileiras de médio porte no século XX. Clubes sociais eram, à época, instituições de prestígio, responsáveis por promover festas, bailes, competições esportivas e encontros familiares.
Ao mesmo tempo, Zadir Marques Porto registra uma distinção perceptível entre os frequentadores dos clubes e a população trabalhadora, que vivenciava a Micareta nas ruas, acompanhando escolas de samba, batucadas, trios elétricos, Rei Momo, Rainha da Micareta e princesas.
Rivalidade com o Clube de Campo Cajueiro
A partir de 12 de fevereiro de 1962, com o surgimento do Clube de Campo Cajueiro (CCC), a sociedade feirense passou a contar com uma nova agremiação de grande porte. O surgimento do CCC provocou a transferência de parte dos associados do FTC, criando uma rivalidade que marcou a vida social da cidade.
Segundo o relato histórico, essa disputa acabou ampliando as opções de lazer da chamada “primeira divisão” social. A comparação com o futebol, utilizada pelo autor, ajuda a explicar a dinâmica simbólica entre clubes frequentados por grupos de maior renda.
Em paralelo, outras instituições também cumpriam papel importante no calendário festivo local. A Euterpe Feirense, o Ali Babá e agremiações menores atendiam a públicos distintos e ajudavam a manter viva a tradição dos bailes e festas populares.
Esporte, cultura e modernização urbana
O Feira Tênis Clube não se destacou apenas pela vida social. A estrutura do clube, especialmente a piscina, representou uma inovação importante para Feira de Santana, ao permitir que associados e frequentadores tivessem acesso à prática da natação sem depender do deslocamento para Salvador.
A partir de 1964, com a criação dos Jogos Abertos do Interior (JAIS), o FTC tornou-se um polo de incentivo ao esporte amador na Bahia. O evento reunia delegações de diversas cidades e se consolidou como uma das principais competições esportivas do interior baiano.
O clube também formou equipes de destaque no futebol de salão, atual futsal, além de voleibol, basquetebol e natação. Em diferentes modalidades, atletas vinculados ao FTC projetaram Feira de Santana no cenário esportivo estadual e regional.
Grandes festas e atrações musicais
As festas do Feira Tênis Clube também marcaram a agenda cultural da cidade. As boates e eventos do clube receberam artistas de grande projeção nacional, reforçando a importância do FTC como espaço de circulação musical e artística.
Entre os nomes citados no registro histórico estão Ângela Maria, Cauby Peixoto, Agnaldo Timóteo, Gregório Barrios, Jerry Adriani, Roberto Carlos, Jorge Ben, Dóris Monteiro, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves, Ronnie Von, Orlando Silva, Wanderléa, Wanderley Cardoso, Emilinha Borba, Raimundo Fagner, Kid Abelha, Sandra Sá, Paralamas do Sucesso, Roberta Miranda, Fafá de Belém e outros artistas.
Além dos shows, o clube foi palco de festas sociais tradicionais, como “O Broto do Ano”, “Uma Noite no Havaí”, “Rainha da Cidade” e “Festa das Debutantes”, promovidas pelo colunista social M. Portugal. Esses eventos ajudaram a formar um repertório de lembranças que permanece associado à vida social feirense.
Extinção do clube e permanência da memória
O Feira Tênis Clube encerrou suas atividades antes de sua extinção formal. Embora já estivesse desativado, o clube foi oficialmente levado a leilão em 2013, encerrando institucionalmente uma trajetória iniciada quase sete décadas antes.
A extinção do FTC simboliza uma mudança mais ampla na vida urbana brasileira. Clubes sociais que, durante boa parte do século XX, concentravam lazer, esporte, festas e relações familiares perderam força diante de novos hábitos de consumo, mudanças econômicas, expansão de outros espaços de entretenimento e transformações no modo de vida das cidades.
Mesmo sem existir fisicamente como agremiação ativa, o Feira Tênis Clube segue presente na memória de moradores, antigos associados, foliões e personagens da cultura local. A frase “Onde é a Micareta? É no Feira Tênis Clube!” permanece como síntese de uma época em que a festa, a cidade e o clube se confundiam no imaginário feirense.








Deixe um comentário