A tradição da Festa de Senhora Sant’Ana, padroeira de Feira de Santana, reafirma-se como uma das mais antigas e relevantes manifestações religiosas da Bahia. Com raízes no período colonial, o festejo atravessou diferentes datas ao longo da história, moldado por fatores climáticos, sociais e institucionais, até consolidar-se no calendário católico oficial em 26 de julho, reunindo milhares de fiéis em celebrações litúrgicas e rituais populares que integram fé, memória e identidade cultural.
A celebração em louvor à Senhora Sant’Ana teve início logo após a construção da capela da Fazenda Sant’Ana dos Olhos d’Água, pertencente ao casal Domingos Barbosa de Araújo e Ana Bandoa. O núcleo devocional cresceu em paralelo ao desenvolvimento urbano de Feira de Santana, tornando-se o principal marco religioso do município.
Desde os primórdios, os atos litúrgicos concentravam-se na pequena capela, reunindo dezenas de devotos. Com o aumento populacional e a centralidade da devoção, a festa ganhou dimensão pública e passou a integrar o cotidiano social e religioso da cidade.
A ausência de registros sistemáticos nos primeiros anos dificulta a fixação de uma cronologia precisa. Ainda assim, notas de jornais e relatos históricos indicam que a programação se desenvolvia, inicialmente, entre julho e agosto, acompanhando o calendário agrícola e religioso da época.
Mudanças de data e adaptação ao clima
Fatores climáticos exerceram papel decisivo na definição do período do festejo. Registros apontam que, em anos de inverno rigoroso, com chuvas contínuas e temperaturas mais baixas, a festa foi adiada para setembro, visando garantir a participação dos fiéis.
Em 1913, diante do afastamento de famílias e da necessidade de ampliar o público, a celebração foi transferida para janeiro, período de estiagem e maior circulação social. A mudança buscava assegurar maior adesão popular, em consonância com as condições climáticas favoráveis.
Somente em momento posterior — sem data documental precisa — a Igreja decidiu alinhar definitivamente a celebração ao calendário litúrgico, fixando a Festa de Senhora Santana em 26 de julho, data que permanece até os dias atuais.
Estrutura religiosa e ritos oficiais
A programação contemporânea da festa inclui a saída do bando anunciador, o novenário, missas solenes e a procissão vespertina do dia 26 de julho, considerada o ponto alto do calendário religioso. O cortejo parte da Catedral de Senhora Santana, percorre ruas centrais da cidade e retorna ao templo, reunindo multidões.
Ao final da procissão, ocorre a exortação do vigário e a bênção do Santíssimo Sacramento, encerrando oficialmente os atos litúrgicos. Nos últimos anos, observa-se crescimento contínuo do número de participantes, refletindo a permanência da devoção no imaginário coletivo feirense.
Manifestações populares: lavagem e levagem da lenha
Paralelamente ao culto religioso, a Festa de Santana preserva efemérides populares que antecedem a institucionalização litúrgica. Entre elas, destacam-se a lavagem da igreja e a levagem da lenha, práticas que remontam aos primórdios da comemoração.
A lavagem do templo era tradicionalmente realizada por baianas trajadas a rigor, utilizando água perfumada, em ritual marcado pela solenidade e pelo simbolismo. O evento contava ainda com a presença de grupos de cavaleiros, exibindo animais bem cuidados e habilidade nas ruas da cidade.
A levagem da lenha, por sua vez, tinha função prática. Em período anterior à eletrificação urbana, as fogueiras eram essenciais para iluminar a praça e o entorno da igreja durante as celebrações noturnas. Com a chegada da energia elétrica, o rito perdeu sua função utilitária, assumindo caráter simbólico e memorial.
Dimensão social e cultural do festejo
Além do caráter religioso, a Festa de Senhora Santana sempre desempenhou papel central na vida social de Feira de Santana. O entorno da igreja abrigava parques de diversões, barracas de jogos, doces e lanches, criando ambiente de confraternização comunitária.
No coreto, filarmônicas se apresentavam, enquanto famílias residentes nas proximidades dispunham cadeiras nos passeios para acompanhar o movimento. Esses elementos consolidaram a festa como espaço de sociabilidade, lazer e transmissão de tradições entre gerações.
Permanência histórica e identidade local
Mesmo com transformações urbanas e mudanças nos hábitos sociais, a Festa de Santana preserva seus elementos essenciais. A conjugação entre liturgia, ritos populares e convivência comunitária sustenta sua relevância histórica e cultural.
A celebração permanece como símbolo da identidade feirense, articulando fé católica, memória coletiva e práticas culturais que atravessam séculos.
Tradição, memória e continuidade institucional
A Festa de Senhora Santana evidencia a capacidade de adaptação das tradições religiosas às circunstâncias históricas sem perda de identidade. As mudanças de data, motivadas por clima e dinâmica social, demonstram pragmatismo institucional e sensibilidade pastoral.
Ao mesmo tempo, a preservação de ritos como a lavagem da igreja e a levagem da lenha revela compromisso com a memória histórica, mesmo quando tais práticas perderam sua função original. O caráter simbólico passou a prevalecer, reforçando o valor cultural do festejo.
Por fim, a crescente participação popular indica que, apesar das transformações contemporâneas, a Festa de Santana continua a exercer papel central na coesão social e na afirmação da identidade religiosa e cultural de Feira de Santana.
*Com informações do jornalista Zadir Marque Porto.



Leia +
Origem e Tradições da Comemoração de Senhora Sant’Ana em Feira de Santana







Deixe um comentário