Festa dos Vaqueiros de Curaçá expõe disputa de imagem entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto na Bahia

A tradicional Festa dos Vaqueiros de Curaçá, realizada neste sábado, 04/07/2026, no norte da Bahia, ganhou dimensão política ao reunir manifestações culturais sertanejas, presença de lideranças estaduais e circulação de vídeos nas redes sociais envolvendo o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), apontado por aliados como pré-candidato ao Governo da Bahia. O episódio ocorreu durante a 73ª edição do evento, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia, e expôs a disputa pela associação entre identidade sertaneja, presença territorial e capital político no interior baiano.

Festa dos Vaqueiros reúne cultura, fé e memória sertaneja

A Festa dos Vaqueiros de Curaçá é uma das manifestações culturais mais tradicionais do sertão baiano. A celebração tem origem em 1953, durante as comemorações do centenário do município, e se consolidou ao longo de mais de sete décadas como espaço de homenagem ao vaqueiro, figura central da economia, da cultura e da memória social do semiárido.

O reconhecimento estadual ocorreu por meio da Lei Estadual nº 13.691/2017, sancionada em 11 de janeiro de 2017, que declarou a festa como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado da Bahia. A medida formalizou a relevância pública de uma celebração marcada por desfiles, aboios, missa, almoço dos vaqueiros, apresentações musicais, uso das vestimentas tradicionais de couro e mobilização comunitária.

Em 2026, a programação oficial foi realizada entre os dias 03 e 05 de julho, com circuitos culturais, feira de artesanato e gastronomia, shows musicais, recepção aos vaqueiros na Fazenda Saudade, desfile pelas ruas da cidade, Forró da Espora e Missa dos Vaqueiros. A estrutura do evento reforçou a combinação entre tradição, turismo, economia local e calendário político regional.

Vídeos nas redes ampliam leitura política do evento

O material analisado aponta que vídeos divulgados nas redes sociais passaram a ser interpretados por apoiadores e adversários como indicadores de contraste entre as presenças de Jerônimo Rodrigues e ACM Neto em Curaçá. No caso do governador, a narrativa favorável destacou a participação com vestimenta de vaqueiro, proximidade com o público e integração simbólica ao ambiente cultural sertanejo.

Em relação a ACM Neto, o conteúdo recebido apresenta interpretação crítica, segundo a qual sua presença teria sido marcada por forte operação de imagem, com comitiva, aliados políticos e registros voltados à comunicação digital. Publicações recentes favoráveis ao ex-prefeito, porém, afirmaram que ele foi recebido com entusiasmo e participou do evento ao lado de lideranças como o prefeito de Salvador, Bruno Reis, o senador Ângelo Coronel e o ex-ministro João Roma.

Do ponto de vista jornalístico, a circulação desses registros deve ser tratada como parte de uma disputa de narrativa política. Sem perícia sobre edição, enquadramento, origem integral e alcance dos vídeos, não é possível transformar impressões visuais em prova conclusiva de adesão popular, rejeição ou autenticidade. O fato verificável é que a festa, pela sua força simbólica, tornou-se ambiente de exposição pública para dois grupos que disputam centralidade na política baiana.

Curaçá entra no roteiro da pré-campanha estadual

A presença de lideranças políticas na Festa dos Vaqueiros ocorre em meio à antecipação do debate eleitoral de 2026 na Bahia. Jerônimo Rodrigues governa o estado desde 2023, após vencer ACM Neto no segundo turno de 2022, em uma disputa que consolidou a permanência do PT no comando estadual.

O ex-prefeito de Salvador, por sua vez, mantém protagonismo na oposição baiana e tem sido tratado por aliados como nome competitivo para a disputa pelo Palácio de Ondina. Levantamento Paraná Pesquisas divulgado em 01/07/2026 apontou ACM Neto com 49,2% das intenções de voto no cenário estimulado, enquanto Jerônimo Rodrigues apareceu com 37,5%; a pesquisa ouviu 1.500 pessoas em 64 municípios, entre 27 e 30 de junho, com margem de erro de 2,6 pontos percentuais.

Nesse contexto, eventos populares de grande capilaridade regional passam a ter relevância eleitoral. A Festa dos Vaqueiros não é apenas celebração cultural: é também um espaço de encontro entre moradores, lideranças locais, prefeitos, parlamentares, empresários, artistas e representantes institucionais. Por isso, sua visibilidade atrai atores políticos interessados em demonstrar presença no interior e conexão com a identidade sertaneja.

Tradição cultural e uso político exigem distinção jornalística

A participação de agentes públicos e lideranças partidárias em festas populares não constitui, por si só, irregularidade ou desvio de finalidade. Governadores, prefeitos, parlamentares e pré-candidatos costumam frequentar eventos culturais como parte de agendas institucionais, comunitárias ou políticas. O ponto de interesse público está na forma como essas aparições são comunicadas e apropriadas por campanhas, grupos partidários e redes de apoio.

Quando uma manifestação cultural é convertida em vitrine eleitoral, surge a necessidade de distinguir três dimensões: a celebração comunitária, que pertence à população e aos vaqueiros; a agenda institucional, quando há presença de autoridades no exercício de funções públicas; e a estratégia político-eleitoral, quando símbolos locais são mobilizados para construir imagem, identidade e proximidade com o eleitorado.

Essa distinção é essencial para evitar que a cultura sertaneja seja reduzida a cenário de disputa partidária. O vaqueiro, a missa, o desfile, o aboio, o gibão e a Fazenda Saudade carregam significado histórico próprio. Sua relevância não depende da presença de governos, oposições ou pré-candidatos, embora todos esses atores tentem se associar à força simbólica da tradição.

Disputa de imagem alcança o eleitorado do interior

A política baiana tem forte componente territorial. O interior, especialmente o semiárido, concentra redes de sociabilidade, lideranças municipais e identidades culturais que influenciam o comportamento eleitoral. Por essa razão, a presença em festas como a de Curaçá é lida por partidos como instrumento de aproximação com segmentos sociais historicamente vinculados à vida rural.

No caso de Jerônimo Rodrigues, aliados procuram associar sua imagem à origem interiorana, à trajetória ligada ao desenvolvimento rural e à presença administrativa do Governo da Bahia nos territórios. O governo estadual já havia utilizado a participação na Festa dos Vaqueiros de 2025 para anunciar investimentos em infraestrutura no município, incluindo ações urbanas e rurais.

No caso de ACM Neto, a estratégia da oposição busca demonstrar capilaridade fora de Salvador, ampliar circulação no sertão e apresentar o ex-prefeito como liderança estadual capaz de dialogar com diferentes regiões. A presença ao lado de Bruno Reis, João Roma, Ângelo Coronel e outras lideranças indica tentativa de projetar unidade política e força de articulação em torno da pré-campanha.

Redes sociais intensificam disputa por autenticidade

A leitura política do episódio foi ampliada pelo ambiente digital. Nas redes sociais, imagens curtas, cortes editados, legendas assertivas e narrativas de apoiadores tendem a transformar eventos complexos em mensagens de adesão ou rejeição. Esse formato favorece interpretações rápidas, mas nem sempre oferece contexto suficiente para avaliação equilibrada.

A disputa por autenticidade tornou-se elemento central da comunicação política contemporânea. Em manifestações culturais de forte identidade popular, candidatos e governantes tentam demonstrar pertencimento, respeito e proximidade. A reação do público, entretanto, pode variar conforme o local, o momento, o enquadramento, a composição da comitiva e a predisposição política de quem registra ou divulga o conteúdo.

Por isso, a análise responsável deve evitar conclusões absolutas. O que os vídeos sugerem, dentro do material fornecido, é a existência de uma disputa simbólica entre dois modos de presença pública: de um lado, a narrativa governista de integração com a cultura sertaneja; de outro, a tentativa oposicionista de apresentar amplitude regional e recepção popular. A confirmação da dimensão real de cada recepção exige apuração direta, registros integrais e manifestação dos envolvidos.

Patrimônio cultural deve permanecer no centro do debate

A passagem de Jerônimo Rodrigues e ACM Neto pela Festa dos Vaqueiros de Curaçá mostra que a eleição baiana de 2026 tende a ser disputada também no campo dos símbolos. A cultura sertaneja, pela sua densidade histórica, tornou-se território de comunicação política, no qual gestos, roupas, imagens, comitivas e recepções são convertidos em argumentos de campanha.

A Festa dos Vaqueiros de Curaçá antecede disputas eleitorais e sobreviverá a elas. Seu valor público está na preservação de uma tradição que expressa trabalho, religiosidade, memória, sociabilidade sertaneja e pertencimento territorial. A força do evento decorre da comunidade que o sustenta, dos vaqueiros homenageados, das famílias que participam e da transmissão cultural entre gerações.

A presença de autoridades pode contribuir para visibilidade, investimentos e reconhecimento institucional. Também pode produzir distorções quando a festa passa a ser narrada principalmente a partir da rivalidade entre lideranças políticas. O desafio jornalístico é recolocar a cultura no centro e tratar a política como uma das camadas do acontecimento, não como seu único sentido.

Em Curaçá, o episódio revela como símbolos tradicionais continuam relevantes na formação da opinião pública. No sertão, pertencimento não se constrói apenas com imagem; exige trajetória, presença continuada, políticas públicas, respeito à memória local e capacidade de diálogo com comunidades que conhecem, melhor do que qualquer campanha, a diferença entre visita protocolar e compromisso permanente.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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