Governo da Bahia e FIEB reagem a tarifas de 25% e 12,5% dos EUA; exportações baianas têm US$ 273,1 milhões afetados

O Governo do Estado da Bahia e a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) divulgaram, nesta sexta-feira (24/07/2026), em Salvador, uma nota conjunta contra as tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. O documento, assinado pelo governador Jerônimo Rodrigues e pelo presidente da FIEB, Carlos Henrique Passos, alerta que US$ 273,1 milhões das exportações baianas realizadas em 2025 estão sujeitos à sobretaxa de 25%, enquanto uma nova medida norte-americana, de 12,5%, amplia a pressão sobre cadeias industriais estratégicas, empregos, contratos, investimentos e mercados construídos ao longo de décadas.

Bahia contesta medidas comerciais dos Estados Unidos

A manifestação conjunta classifica a tarifa de 25% como uma medida unilateral que transfere custos para trabalhadores, empresas e consumidores dos dois países. A cobrança entrou em vigor em 22/07/2026, após decisão do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, tomada no âmbito de uma investigação conduzida pela Seção 301 do Trade Act de 1974.

A Seção 301 permite ao governo norte-americano adotar medidas comerciais contra atos, políticas ou práticas estrangeiras que Washington considere injustificáveis, discriminatórias ou prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos. No caso brasileiro, o USTR relacionou a investigação a comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos, tarifas consideradas preferenciais, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, políticas anticorrupção e desmatamento ilegal.

A decisão determinou uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, ressalvadas mercadorias incluídas em listas de exceção. O ato passou a alcançar bens ingressados para consumo no mercado norte-americano a partir das 0h01, no horário da Costa Leste dos Estados Unidos, em 22 de julho.

Nova tarifa de 12,5% amplia pressão sobre produtos brasileiros

A nota do Governo da Bahia e da FIEB também manifesta preocupação com a segunda medida anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump, em 23/07/2026, após investigações contra 60 economias sobre a adoção e a fiscalização de mecanismos destinados a impedir a importação de mercadorias produzidas total ou parcialmente com trabalho forçado.

O Brasil foi incluído no grupo submetido à alíquota máxima de 12,5%. O anexo do memorando presidencial determinou que a nova tarifa passasse a valer para produtos ingressados no mercado norte-americano a partir de 24/07/2026, com exceções específicas previstas na tabela tarifária dos Estados Unidos.

Nos produtos simultaneamente alcançados pelas duas medidas e não contemplados por exceções, a carga adicional pode atingir 37,5 pontos percentuais, sem considerar tarifas ordinárias ou barreiras setoriais já incidentes. O alcance efetivo, entretanto, depende da classificação de cada mercadoria, das regras de origem, do uso declarado do produto e das listas de isenção vinculadas a cada investigação.

A investigação relacionada ao trabalho forçado foi iniciada pelo USTR em 12/03/2026. Em junho, o órgão concluiu que as políticas dos países investigados poderiam ser objeto de resposta comercial e realizou audiências públicas nos dias 7, 8 e 9 de julho, após receber mais de 1.600 manifestações escritas e ouvir mais de 100 participantes.

Um terço das vendas baianas aos Estados Unidos está tarifado

A exposição da economia baiana foi calculada pela FIEB com base nas exportações realizadas em 2025 e no cruzamento dos dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, com a relação definitiva de exceções publicada pelos Estados Unidos.

A Bahia exportou US$ 821,4 milhões para o mercado norte-americano em 2025. Desse total, US$ 273,1 milhões, equivalentes a 33,2%, permanecem sujeitos à tarifa adicional de 25%. Outros US$ 548,3 milhões, ou 66,8%, integram categorias inicialmente isentas.

O levantamento identificou 245 códigos de mercadorias afetados e 157 códigos isentos. A parcela tarifada pode alcançar um teto estimado de 40,4% da pauta, caso determinadas isenções condicionais não sejam reconhecidas em razão da destinação ou do uso declarado dos produtos.

No primeiro semestre de 2026, a Bahia exportou US$ 373,2 milhões aos Estados Unidos. Considerada a mesma estrutura de incidência, aproximadamente US$ 112,2 milhões, correspondentes a 30,1%, estariam sujeitos à sobretaxa de 25%.

Os Estados Unidos foram o quarto principal destino das exportações baianas em 2025. A participação norte-americana na pauta estadual, contudo, caiu de cerca de 35% em 2001 para 7,1% em 2025 e 6,3% no primeiro semestre de 2026, conforme análise do Observatório da Indústria da FIEB.

Três cadeias concentram quase 90% do valor afetado

A incidência tarifária está concentrada em setores de transformação industrial que agregam valor, empregam mão de obra especializada e mantêm relações comerciais consolidadas com empresas norte-americanas.

Segundo a FIEB, três segmentos respondem por 89,4% dos US$ 273,1 milhões atingidos:

  • Papel e celulose: US$ 104 milhões, ou 38,1% do valor afetado;
  • Borracha e produtos plásticos: US$ 78,5 milhões, equivalentes a 28,7%;
  • Produtos químicos: US$ 61,8 milhões, ou 22,6%;
  • Demais setores: US$ 28,8 milhões, correspondentes a 10,6%.

A concentração demonstra que a tarifa não incide de forma uniforme sobre toda a economia estadual. Seus efeitos recaem principalmente sobre cadeias industriais com grandes unidades produtivas, fornecedores locais, empresas de logística, prestadores de serviços e trabalhadores vinculados direta ou indiretamente às exportações.

O aumento do custo de entrada nos Estados Unidos pode levar importadores a exigir descontos, renegociar contratos, reduzir pedidos ou substituir fornecedores baianos por concorrentes instalados em países submetidos a condições tarifárias mais favoráveis.

Celulose solúvel é o principal produto atingido

A celulose solúvel, classificada no código HTSUS 4702.00.00, ocupa posição central entre os pleitos apresentados pelo Governo da Bahia e pela FIEB. O produto movimentou US$ 96,2 milhões em exportações baianas para os Estados Unidos em 2025 e representa o maior item da pauta estadual destinado ao país.

A mercadoria estava incluída na relação provisória de isenções, mas foi retirada da versão definitiva publicada pelo USTR. Ao mesmo tempo, outras categorias de celulose, compreendidas nas posições 47.03 a 47.06 da classificação tarifária norte-americana, permaneceram isentas.

Essa alteração elevou em US$ 80,4 milhões o valor das exportações baianas atingidas. A proporção sujeita à tarifa passou de uma estimativa preliminar de 23,5% para os atuais 33,2% da pauta de 2025.

Diante dessa diferença de tratamento, o Estado e a entidade empresarial solicitaram a reinclusão da celulose solúvel na lista de exceções. O argumento apresentado é que o produto possui características industriais e comerciais comparáveis às demais celuloses beneficiadas e já registra perdas de exportação.

Pneus, químicos e petroquímicos entram na pauta de negociação

O segundo grupo de reivindicações envolve os pneumáticos e os produtos químicos e petroquímicos fabricados, sobretudo, no Polo Industrial de Camaçari e em outras unidades produtivas do estado.

A Bahia e a FIEB defendem que esses produtos sejam incluídos nas próximas rodadas de negociação entre Brasil e Estados Unidos. São segmentos intensivos em capital, tecnologia, energia e mão de obra, cujas estruturas produtivas dependem de escala, previsibilidade contratual e acesso continuado aos mercados internacionais.

A indústria de pneumáticos possui relevância adicional para Feira de Santana, onde a cadeia de pneus ocupa posição expressiva na produção industrial e nas exportações municipais. Em 2024, o município exportou US$ 70,9 milhões, com forte participação dos pneumáticos e concentração dos embarques no mercado norte-americano.

Além da busca por exceções nos Estados Unidos, a nota propõe medidas de proteção ao mercado brasileiro. Entre elas estão a avaliação de alíquotas de importação e instrumentos antidumping para produtos petroquímicos, assim como o estabelecimento de preços de referência para pneumáticos.

Essas medidas dependeriam de análise técnica e de decisões das autoridades federais responsáveis pela política comercial, pela defesa da concorrência e pela aplicação dos mecanismos de defesa comercial.

Couro e calçados enfrentam risco sobre empregos no interior

A nota também aponta efeitos relevantes sobre a cadeia de calçados e couro, setor com presença em municípios do interior baiano e elevada capacidade de geração de postos de trabalho.

Embora o documento não apresente uma estimativa específica do valor exportado ou do número de empregos diretamente expostos, a preocupação decorre da natureza intensiva em mão de obra da atividade. Uma redução prolongada dos pedidos externos pode atingir não apenas as fábricas exportadoras, mas também fornecedores de componentes, embalagens, transporte, manutenção e serviços.

A repercussão regional torna a questão tarifária mais ampla que uma disputa entre governos nacionais. Perdas de contratos ou deslocamento de produção podem afetar arrecadação municipal, renda familiar, atividade comercial e investimentos em localidades dependentes de grandes unidades industriais.

Bahia busca preservar exceções já concedidas

O Governo da Bahia e a FIEB também defendem a manutenção das isenções já reconhecidas pelos Estados Unidos para cadeias consideradas relevantes para a economia estadual.

Entre os produtos mencionados estão:

  • Celulose branqueada;
  • Cacau e derivados;
  • Combustíveis;
  • Frutas produzidas em áreas irrigadas;
  • Café.

A preservação dessas exceções é considerada estratégica porque uma eventual revisão da lista poderia ampliar consideravelmente o percentual das exportações baianas afetadas e atingir setores agrícolas e agroindustriais distribuídos por diferentes regiões do estado.

As isenções norte-americanas foram justificadas, entre outros critérios, pela dependência dos Estados Unidos de determinadas matérias-primas, pela insuficiência da produção doméstica, pelo risco de desorganização econômica e pela limitada eficácia de algumas tarifas para alcançar os objetivos declarados pelo governo Trump.

Estado e FIEB apoiam negociação conduzida pelo Governo Federal

A posição conjunta manifesta apoio ao Governo Federal na condução das negociações diplomáticas e técnicas com os Estados Unidos. Para as instituições baianas, o diálogo deve permanecer como caminho prioritário para evitar uma escalada comercial e preservar relações empresariais estabelecidas ao longo de décadas.

O USTR informou que realizou consultas e negociações com representantes brasileiros durante a investigação, mas sustentou que os entendimentos não foram suficientes para atender às reivindicações norte-americanas. O órgão declarou, contudo, que continuará aberto a negociações com o Brasil.

A estratégia defendida pela Bahia combina a apresentação de informações técnicas, a identificação dos prejuízos concretos e a formulação de pedidos setoriais. O objetivo é demonstrar às autoridades brasileiras e norte-americanas que parte dos produtos tarifados funciona como insumo de cadeias produtivas integradas, com impactos também sobre compradores, fabricantes e consumidores dos Estados Unidos.

Reunião no SENAI Cimatec reúne setores atingidos

Na mesma sexta-feira, representantes do Governo da Bahia, da FIEB e de segmentos empresariais reuniram-se no SENAI Cimatec, em Salvador, para discutir medidas de enfrentamento aos efeitos das tarifas.

Participaram do encontro lideranças das indústrias de celulose, fibras naturais, química e petroquímica, pneumáticos e plásticos, além de dirigentes de sindicatos empresariais e associações nacionais.

Durante a reunião, foram apresentados riscos relacionados à perda de competitividade, redução das exportações, retração de investimentos e preservação dos empregos. O governador Jerônimo Rodrigues determinou a elaboração de uma agenda de proteção à indústria, reunindo providências de competência estadual e pleitos que serão encaminhados ao Governo Federal.

Empresas deverão informar perdas em pedidos, contratos e empregos

O Estado e a FIEB convidaram as empresas afetadas a comunicar alterações em pedidos, cancelamentos de contratos, redução da produção, suspensão de investimentos ou mudanças nos níveis de emprego.

As informações deverão formar uma base de evidências para fundamentar os pleitos apresentados às autoridades federais e norte-americanas. Dados individualizados também podem ajudar a distinguir efeitos decorrentes diretamente das tarifas de problemas associados à demanda internacional, ao câmbio, aos custos logísticos ou a dificuldades específicas de cada setor.

A produção dessa base será determinante para medir os prejuízos reais. Os valores de US$ 273,1 milhões e US$ 112,2 milhões representam fluxos comerciais potencialmente expostos, e não uma previsão automática de perda integral das exportações.

Linha do tempo das novas tarifas contra o Brasil

15/07/2025 — Abertura da investigação contra práticas brasileiras

O USTR iniciou investigação sob a Seção 301 envolvendo comércio digital, pagamentos eletrônicos, propriedade intelectual, etanol, políticas anticorrupção e desmatamento. (

12/03/2026 — Investigação sobre trabalho forçado

Os Estados Unidos abriram procedimentos contra 60 economias, entre elas o Brasil, para examinar políticas de proibição à importação de bens produzidos com trabalho forçado.

01/06/2026 — USTR conclui etapa da investigação brasileira

O representante comercial norte-americano considerou determinadas práticas brasileiras passíveis de resposta sob a Seção 301 e abriu consulta sobre a imposição de tarifas.

03/06/2026 — FIEB manifesta primeira preocupação

A entidade alertou que a proposta de tarifa de 25% poderia afetar setores industriais baianos, reduzir competitividade, pressionar contratos e favorecer fornecedores de outros países.

06 e 07/07/2026 — Audiência sobre as práticas brasileiras

O USTR realizou audiência pública com 77 depoentes, após receber mais de 360 manifestações escritas relacionadas à investigação específica contra o Brasil.

07 a 09/07/2026 — Audiências sobre trabalho forçado

Representantes empresariais, governamentais e sociais participaram das audiências referentes às 60 economias investigadas.

15/07/2026 — Tarifa de 25% é confirmada

O USTR anunciou a decisão final de cobrar tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros não incluídos na lista de exceções.

22/07/2026 — Sobretaxa de 25% entra em vigor

A cobrança passou a valer para mercadorias ingressadas no mercado norte-americano, ressalvadas regras de transição e exceções previstas no ato.

23/07/2026 — Governo Trump determina tarifa de 12,5%

Memorando presidencial enquadrou o Brasil na maior alíquota aplicada no procedimento relacionado ao combate ao comércio de produtos fabricados com trabalho forçado.

24/07/2026 — Segunda tarifa entra em vigor e Bahia reage

A cobrança de 12,5% passou a vigorar, enquanto o Governo da Bahia e a FIEB divulgaram a nota conjunta, reuniram setores industriais e apresentaram pleitos para proteger exportações, produção e empregos.

A manifestação conjunta transforma uma disputa comercial internacional em uma agenda econômica concreta para a Bahia. A concentração de quase 90% do valor atingido em papel e celulose, borracha e plásticos e produtos químicos demonstra que os efeitos não estão dispersos: recaem sobre setores industriais de grande escala, com cadeias de fornecedores, trabalhadores, municípios e receitas públicas vinculadas à continuidade dos contratos externos.

O desafio imediato será converter a exposição tarifária estimada em dados verificáveis sobre cancelamentos, redução de pedidos, perda de mercado e empregos ameaçados. Também será necessário acompanhar quais produtos estarão sujeitos simultaneamente às tarifas de 25% e 12,5%, quais exceções serão efetivamente reconhecidas e se as propostas de defesa comercial apresentadas pela Bahia respeitarão critérios técnicos, jurídicos e econômicos. A ausência, até o momento, de estimativas individualizadas para couro, calçados e empregos no interior permanece como lacuna relevante.

O episódio  envolve US$ 273,1 milhões da pauta baiana de 2025 e pode afetar decisões empresariais de produção, investimento e contratação. Os próximos passos dependerão das negociações conduzidas pelo Governo Federal, da atuação técnica do Estado e da FIEB, das decisões do USTR e da apresentação de provas pelas empresas. A reinclusão da celulose solúvel, o tratamento de pneus e petroquímicos e a preservação das atuais exceções deverão permanecer sob acompanhamento institucional e jornalístico.

O Governo da Bahia e a FIEB reagiram às tarifas adicionais de 25% e 12,5% impostas pelos Estados Unidos. Com base nas exportações de 2025, US$ 273,1 milhões, equivalentes a 33,2% das vendas baianas ao mercado norte-americano, estão sujeitos à primeira sobretaxa. Celulose, pneus e produtos químicos concentram quase 90% do valor afetado. Estado e indústria defendem negociações, novas exceções e proteção aos empregos.
Governo da Bahia e FIEB reagem às tarifas de 25% e 12,5% dos EUA, que atingem celulose, pneus, químicos e US$ 273,1 milhões em exportações baianas.

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