Na quarta-feira, 01/07/2026, teve início a 14ª edição do Julho das Pretas, agenda coletiva de incidência política organizada por mulheres negras e apontada por suas realizadoras como a maior mobilização do gênero na América Latina e na Diáspora. A programação de 2026 reúne 675 atividades, articuladas por 292 organizações e coletivos, com presença em 23 estados brasileiros, no Distrito Federal e em três países, sob o tema “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver”. A edição ocorre após a Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, realizada em Brasília, em novembro de 2025, e consolida uma pauta voltada ao enfrentamento do racismo patriarcal, à justiça racial, à igualdade de gênero e à construção de novos projetos sociais.
Agenda coletiva alcança novo patamar de mobilização
Criado em 2013 pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, em referência ao 25 de Julho, Dia Internacional da Mulher Negra Afro-Latino-Americana, Afro-Caribenha e da Diáspora, o Julho das Pretas tornou-se uma plataforma de articulação política, formação, produção de conhecimento, denúncia de desigualdades e valorização das resistências de mulheres negras. A edição de 2026 amplia essa trajetória ao reunir atividades em escala nacional e internacional.
A programação inclui rodas de conversa, seminários, festivais, marchas, encontros comunitários, atividades em escolas, oficinas, exposições, lançamentos de pesquisas e formações políticas. A diversidade de formatos indica a capilaridade da agenda e revela sua presença em espaços institucionais, educacionais, culturais e comunitários.
A iniciativa é organizada pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), pela Rede de Mulheres Negras do Nordeste e pela Rede Fulanas – Negras da Amazônia Brasileira. Segundo as organizadoras, a proposta é fortalecer ações de enfrentamento ao racismo patriarcal e defender uma sociedade orientada pela justiça racial, igualdade de gênero e Bem Viver.
Tema de 2026 conecta Marcha Global, reparação e justiça racial
A escolha do tema “Seguimos em Marcha por Reparação e Bem Viver” vincula a edição de 2026 ao ciclo político aberto pela Marcha Global das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver. O ato, realizado em Brasília em novembro de 2025, reuniu mais de 300 mil mulheres de 40 países, segundo as entidades organizadoras, e projetou internacionalmente a pauta da reparação histórica.
Para Naiara Leite, coordenadora executiva do Odara e integrante da coordenação da Rede de Mulheres Negras do Nordeste, Reparação e Bem Viver expressam um projeto político formado por experiências, memórias, resistências e saberes de mulheres negras. A dirigente associa essa agenda ao enfrentamento de estruturas históricas ligadas ao racismo, ao patriarcado, ao colonialismo, à exploração econômica e à negação de direitos.
Dimensão internacional amplia alcance político da agenda
A edição de 2026 também reforça a dimensão internacional do Julho das Pretas. A presença de atividades inscritas por organizações e coletivos de outros países fortalece intercâmbios e estratégias comuns de enfrentamento ao racismo patriarcal, em um cenário no qual desigualdades raciais, econômicas, ambientais e de gênero ultrapassam fronteiras nacionais.
Para Janira Sodré, representante da coordenação da AMNB, a articulação internacional evidencia que racismo e colonialismo produzem impactos globais. A dirigente afirma que mulheres negras constroem respostas coletivas nos territórios, nos biomas e em redes transnacionais, com formulações voltadas à defesa da vida e à crítica de modelos econômicos e políticos excludentes.
A abertura da agenda ocorre com o webinário internacional “Sujeitas do Fim do Mundo – Geopolítica e a Construção do Bem Viver: Um Projeto de Sociedade Global Forjado pelas Mulheres Negras”, programado para os dias 1º e 8 de julho. Os encontros reúnem lideranças, intelectuais e ativistas negras de diferentes regiões do mundo para debater geopolítica, reparação e projetos de sociedade formulados a partir das experiências de mulheres negras.
Julho das Pretas nas Escolas terá 288 atividades
Educação aparece como eixo de reparação
Outro eixo relevante da programação é o Julho das Pretas nas Escolas, iniciativa criada em 2019 pelo Odara para fortalecer o enfrentamento ao racismo e às múltiplas violências que atingem meninas e adolescentes negras nos espaços educacionais. O projeto começou na Bahia e foi ampliado para escolas do Nordeste e da Amazônia, em parceria com a Rede de Mulheres Negras do Nordeste e o CEDENPA – Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará.
Em 2026, serão realizadas 288 atividades no âmbito escolar. A proposta é tratar a reparação também como política educacional, por meio do reconhecimento das histórias negras, da valorização dos saberes produzidos por meninas e mulheres negras e do enfrentamento a práticas discriminatórias no ambiente de ensino.
25 de Julho reforça memória histórica e incidência pública
O Julho das Pretas se relaciona diretamente ao 25 de Julho, data internacional de valorização das mulheres negras latino-americanas, afro-caribenhas e da Diáspora. No Brasil, a data também está associada ao Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído pela Lei nº 12.987/2014, em homenagem à liderança quilombola e à contribuição histórica das mulheres negras para a formação do país.
A escolha de julho como mês de mobilização amplia o significado simbólico da data. Em vez de concentrar a discussão em um único dia, a agenda distribui debates, atos públicos, formações e atividades culturais ao longo de várias semanas, criando um calendário de incidência política contínua.
A estratégia também contribui para dar visibilidade a temas estruturais, como racismo institucional, violência de gênero, desigualdade de renda, acesso à educação, participação política, direito à memória, justiça climática e políticas públicas voltadas às populações negras.
Mobilização reúne cultura, política, formação e denúncia
O Julho das Pretas 2026 chega a um patamar expressivo de mobilização ao reunir 675 atividades e articular centenas de organizações em diferentes territórios. O dado confirma a maturidade de uma agenda construída fora dos centros tradicionais de poder, mas com crescente capacidade de incidência pública. Trata-se de uma pauta que combina memória, denúncia, formação e proposição política, com evidente dimensão social e institucional.
A programação do Julho das Pretas combina atividades culturais, educacionais, comunitárias e institucionais. Essa composição permite que a agenda alcance públicos diversos e funcione simultaneamente como espaço de formação, celebração, denúncia e formulação política.
As atividades em universidades, escolas e centros comunitários favorecem a circulação de pesquisas, experiências locais e propostas de políticas públicas. Já festivais, exposições e encontros culturais contribuem para afirmar a produção simbólica de mulheres negras como elemento central da vida social brasileira.
Ao reunir 292 organizações e coletivos, a edição de 2026 confirma a capacidade de articulação de redes que atuam em diferentes territórios. Esse dado é relevante porque demonstra que a agenda não depende apenas de uma estrutura centralizada, mas de uma construção descentralizada, sustentada por organizações locais, regionais, nacionais e internacionais.







Deixe um comentário