Lenda da égua Salomé revela memória das corridas de cavalos entre Feira de Santana e Baixa Grande

A coluna de quinta-feira, 25/06/2026, Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, recuperou a história da égua Salomé, animal que se tornou célebre no interior da Bahia por sua velocidade nas corridas de cavalo e que, segundo o relato memorialístico, perdeu uma disputa histórica para a égua Preta, sua irmã, em uma contenda realizada em Baixa Grande, com repercussão entre moradores, fazendeiros, apostadores e frequentadores de prados de cidades como Feira de Santana, Salvador e municípios da região.

Corridas de cavalos integravam a vida social no interior baiano

A narrativa resgatada pela coluna situa a história de Salomé no contexto das antigas corridas de cavalos realizadas em prados improvisados, comuns em municípios do interior baiano. Em Feira de Santana, cidade marcada por origem campestre e pela tradição das boiadas, esse tipo de entretenimento fazia parte da sociabilidade local, especialmente aos domingos.

As pistas, também chamadas de corredores, não seguiam necessariamente as normas de hipódromos oficiais. Eram espaços adaptados, vinculados ao ambiente rural e à expansão urbana das cidades. Em Feira de Santana, segundo o relato, o antigo prado teria começado nas imediações do ABC, na Avenida Sampaio, em direção ao Ponto Central, sendo posteriormente deslocado ou ampliado em razão do crescimento urbano.

Embora a corrida decisiva envolvendo Salomé tenha ocorrido em Baixa Grande, a história foi incluída entre os registros de interesse para a memória de Feira de Santana porque o animal teria corrido também na Princesa do Sertão e porque a prática das contendas e apostas integrava um universo cultural compartilhado por diferentes cidades baianas.

Salomé ganhou fama como égua quase imbatível

Salomé era descrita como uma égua alazã, de pelagem associada à cor de fogo, e pertencia ao fazendeiro Bianô Pomponet, liderança política de Baixa Grande e três vezes prefeito do município. O animal alcançou notoriedade regional ao registrar, conforme a tradição oral citada na coluna, 500 metros em 29 segundos.

Essa marca ajudou a consolidar a fama de Salomé como competidora praticamente sem adversária nas pistas do interior baiano. Onde surgia um desafio, a égua era levada sob forte expectativa de vitória, movimentando apostas e atraindo público.

O prestígio do animal também interferia na dinâmica econômica informal dessas corridas. Apostadores que confiavam na superioridade de Salomé ganhavam dinheiro, enquanto outros acumulavam prejuízos. A prática, embora ligada ao lazer rural, envolvia riscos financeiros expressivos e podia afetar diretamente o patrimônio de famílias e pequenos criadores.

Desafio vindo de Pernambuco mudou o rumo da história

A invencibilidade atribuída a Salomé começou a ser colocada em dúvida quando dois criadores oriundos de Pernambuco chegaram a Baixa Grande propondo uma disputa. Eles apresentaram a égua Preta, assim chamada por causa da cor escura e lustrosa de sua pelagem.

Durante 30 dias, Preta permaneceu alojada em local reservado, com acesso restrito ao tratador, ao jóquei e aos proprietários. A preparação fechada despertou curiosidade e tensão entre os integrantes da equipe adversária, interessados em descobrir o desempenho real do animal pernambucano.

O cordelista Jurivaldo Alves, que afirmou ter vivido a história, relatou que havia tentativa de “roubar o tempo” de Preta, ou seja, medir clandestinamente sua velocidade. Segundo ele, Salomé fazia os 500 metros em 29 segundos, e a equipe queria saber se a desafiante era realmente capaz de superá-la.

Disputa atraiu caravanas, apostas altas e grande público

A corrida, chamada à época de contenda, mobilizou um grande público em Baixa Grande. Fazendeiros, apostadores, vaqueiros, autoridades e moradores ocuparam o prado local, que, segundo o relato, corresponde hoje a uma avenida da cidade.

Jurivaldo Alves recordou a presença de caravanas vindas de Ipirá, Itaberaba, Morro do Chapéu, Feira de Santana, Salvador e outras regiões. A concentração de pessoas demonstrava que as corridas de cavalo tinham dimensão social e regional, funcionando como eventos de grande apelo popular.

As apostas foram elevadas, com predominância em favor de Salomé. Um dos casos mencionados pelo cordelista foi o de seu tio, Evaristo de Ursulino, que teria apostado todo o dinheiro disponível e mais 30 animais, a maioria vacas leiteiras da raça Holandesa. Com a derrota de Salomé, perdeu todo o patrimônio colocado em jogo.

Revelação sobre parentesco das éguas antecipou o resultado

Antes da largada, um dos proprietários pernambucanos de Preta teria procurado Bianô Pomponet e recomendado que ele não fizesse novas apostas. A advertência, segundo o relato, foi acompanhada de uma explicação objetiva: Salomé fazia 500 metros em 29 segundos, enquanto Preta cumpriria a mesma distância em 27 segundos.

O criador pernambucano teria acrescentado que Preta venceria com cerca de 30 metros de vantagem, diferença que poderia ser maior caso o jóquei Pedrinho não fosse orientado a reduzir o ritmo do animal no fim da prova. A atitude foi apresentada como gesto de respeito ao proprietário de Salomé, para evitar constrangimento público maior.

A revelação central veio em seguida: Salomé e Preta seriam irmãs. A informação transformou a disputa em episódio ainda mais marcante para a memória regional, pois a derrota da favorita não resultou apenas de uma adversária desconhecida, mas de um animal de mesma origem familiar e desempenho superior.

Vitória de Preta encerrou a aura de invencibilidade de Salomé

O resultado confirmou a previsão feita pelo proprietário de Preta. A égua pernambucana venceu Salomé, provocando frustração entre a maioria dos apostadores e alegria entre aqueles que confiaram na desafiante.

A derrota encerrou a condição simbólica de Salomé como animal imbatível e consolidou o episódio como uma das histórias mais lembradas das antigas corridas de cavalo do interior baiano. A diferença de desempenho, estimada em três segundos e cerca de 30 metros, tornou-se o núcleo da narrativa preservada pela memória oral.

Mais do que uma simples competição entre animais, a história revela aspectos de uma sociedade marcada por relações rurais, prestígio de fazendeiros, práticas de aposta, circulação regional de pessoas e valorização de acontecimentos transmitidos de geração em geração.


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Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
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