Nesta segunda-feira (13/07/2026), em Brasília, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou a reorganizar sua atuação política após deixar a presidência nacional do PL Mulher e se afastar da campanha presidencial conduzida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Sem o cargo formal que ocupava na estrutura partidária, ela concentra esforços em uma rede de candidatas conservadoras, campanhas estaduais, lideranças religiosas e no recém-lançado movimento Imparáveis MB, estratégia destinada a preservar sua influência entre mulheres e eleitores evangélicos durante as eleições de 2026.
A mudança ocorre depois de uma crise pública entre Michelle e Flávio, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como candidato do grupo político à Presidência da República. Embora dirigentes do Partido Liberal tentem reduzir os efeitos do conflito e recompor a unidade interna, a ex-primeira-dama passou a construir uma agenda menos subordinada à direção nacional da legenda e mais vinculada às relações políticas estabelecidas durante os anos em que comandou o segmento feminino.
O anúncio do movimento Imparáveis ocorreu em 9 de julho, poucos dias depois da saída de Michelle da presidência do PL Mulher. A iniciativa foi apresentada como uma comunidade de mobilização política e social voltada à participação feminina, sem vinculação partidária formal, embora sua base seja formada principalmente por mulheres identificadas com o conservadorismo e com o bolsonarismo.
Saída do PL Mulher altera estrutura, mas preserva rede de influência
Michelle Bolsonaro assumiu a presidência nacional do PL Mulher em março de 2023 e, durante sua gestão, percorreu diferentes regiões do país promovendo filiações, encontros partidários, formação política e lançamento de candidaturas femininas.
A saída do cargo, oficializada no fim de junho de 2026, ocorreu em meio ao agravamento das divergências com Flávio Bolsonaro. O conflito expôs disputas sobre o comando da campanha presidencial, a definição das alianças estaduais e o papel que a ex-primeira-dama ocuparia no projeto eleitoral da família.
Antes da ruptura, Michelle havia adaptado sua rotina política às condições familiares decorrentes da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro. Reuniões virtuais, gravações de vídeos e contatos por telefone passaram a substituir parte das viagens e dos eventos presenciais realizados pelo PL Mulher.
O formato inicialmente adotado para que ela permanecesse mais tempo em casa transformou-se em uma ferramenta de articulação. Segundo aliados, Michelle mantém contato frequente com parlamentares, prefeitas, vereadoras, dirigentes estaduais e lideranças religiosas.
Para o grupo próximo à ex-primeira-dama, seu principal patrimônio político não estaria exclusivamente na função que ocupava dentro da legenda, mas na relação direta construída com mulheres que ingressaram ou ganharam projeção na política durante sua gestão.
A estratégia tornou-se visível ainda durante a crise com Flávio. Dois dias depois de tornar público o desentendimento, Michelle esteve na sede nacional do PL para gravar inserções eleitorais destinadas a candidatas de Roraima. O gesto foi interpretado por seus aliados como uma demonstração de que deixaria o comando administrativo do segmento feminino, mas continuaria atuando nas campanhas.
Grupo de 19 candidaturas forma núcleo político de Michelle
Antes da crise interna, Michelle havia definido um grupo de 19 mulheres que pretendia acompanhar mais diretamente durante o processo eleitoral de 2026. O conjunto reúne parlamentares, presidentes estaduais do PL Mulher e candidatas que ampliaram sua projeção nacional ou regional nos últimos anos.
Entre os nomes mencionados estão a deputada federal Rosana Valle, de São Paulo; a ex-deputada Roberta Roma, da Bahia; a deputada estadual Ana Campagnolo, de Santa Catarina; e as deputadas federais Cris Tonietto, do Rio de Janeiro, e Delegada Sheila, de Minas Gerais.
Também integram o núcleo político citado Carlise Cwiatkowski, do Paraná, e Gislayne Yamashita, de Mato Grosso, além de pré-candidatas ao Senado, como Carol de Toni, por Santa Catarina; Bia Kicis, pelo Distrito Federal; e Priscila Costa, pelo Ceará.
A composição integral da lista não foi divulgada. De acordo com interlocutores, a intenção é direcionar a presença de Michelle, suas gravações e sua capacidade de mobilização às candidaturas consideradas eleitoralmente estratégicas.
Aliados projetam uma “bancada de Michelle”
No entorno da ex-primeira-dama, a avaliação é que a eleição de um número expressivo dessas candidatas poderá consolidar uma espécie de “bancada de Michelle” dentro do campo conservador.
Não se trata, até o momento, de uma bancada formal ou de um agrupamento partidário organizado sob regras próprias. A expressão descreve um conjunto de parlamentares politicamente próximas à ex-presidente do PL Mulher e que reconhecem sua participação na formação de candidaturas femininas.
Presidente do PL Mulher em São Paulo, Rosana Valle afirmou que a liderança construída por Michelle ultrapassa a função partidária que ela exercia.
“Influência política não depende apenas de um cargo.”
Segundo a parlamentar, a ex-primeira-dama estabeleceu uma conexão com mulheres de diferentes estados e deverá continuar contribuindo com o projeto político da direita. A declaração reforça a interpretação de que a saída do comando partidário não representará necessariamente uma retirada da disputa eleitoral.
Para os aliados, quanto maior for o número de candidatas eleitas com o apoio de Michelle, maior será sua capacidade de influenciar decisões do partido, articulações parlamentares e futuros projetos eleitorais, independentemente de ocupar uma posição oficial na legenda.
Movimento Imparáveis amplia mobilização fora do partido
O movimento Imparáveis MB foi concebido pela equipe de comunicação de Michelle como uma frente de mobilização permanente, inspirada no funcionamento de comunidades digitais formadas em torno de artistas, personalidades e causas públicas.
Segundo os responsáveis pelo projeto, a proposta não é substituir o PL Mulher nem criar imediatamente um novo partido ou segmento formal da legenda. A intenção declarada é reunir pessoas identificadas com as pautas defendidas pela ex-primeira-dama, especialmente aquelas relacionadas à participação política das mulheres.
O projeto teria começado a ser desenvolvido meses antes da crise com Flávio Bolsonaro. Inicialmente, o lançamento estava previsto para 2027, durante um encontro nacional que reuniria mulheres eleitas com o apoio de Michelle no ciclo eleitoral de 2026.
A antecipação do cronograma ocorreu depois de sua saída da presidência do PL Mulher. O nome do movimento foi inspirado na música Unstoppable, da cantora australiana Sia, associada pela equipe à ideia de perseverança diante de adversidades.
A plataforma deverá funcionar como espaço para formação política, divulgação de candidaturas, produção de conteúdos digitais e organização de comunidades locais. Entretanto, ainda não foram apresentados publicamente detalhes completos sobre sua estrutura administrativa, fontes de financiamento, mecanismos de governança ou eventual atuação durante o período oficial de campanha.
A inexistência de vínculo partidário formal poderá ampliar o alcance do projeto para além das filiadas ao PL. Ao mesmo tempo, exigirá transparência sobre a natureza das atividades, sobretudo quando houver participação direta em campanhas eleitorais, produção de propaganda ou arrecadação de recursos.
Santa Catarina, Distrito Federal e Roraima entram no roteiro
As primeiras agendas presenciais da nova estratégia estão sendo discutidas para Santa Catarina, Roraima e Distrito Federal, unidades federativas onde Michelle mantém interlocução direta com candidatas e lideranças políticas.
Em Santa Catarina, a expectativa é que ela participe de eventos ao lado de Ana Campagnolo, uma de suas principais aliadas e dirigente que ganhou projeção nacional durante o período de fortalecimento do PL Mulher.
No Distrito Federal, a tendência é que Michelle se envolva na campanha da governadora Celina Leão (PP), que permaneceu próxima durante os momentos mais delicados do conflito com Flávio. O vínculo demonstra que a rede articulada pela ex-primeira-dama poderá ultrapassar os limites formais do Partido Liberal.
Em Roraima, onde já gravou inserções para candidatas da legenda, são avaliadas agendas presenciais. A escolha do estado reforça a estratégia de priorizar campanhas nas quais sua participação seja considerada capaz de produzir maior impacto.
A agenda deixa, portanto, de obedecer a um roteiro nacional coordenado exclusivamente pelo partido. Em seu lugar, surge uma atuação seletiva, definida pelo grupo mais próximo de Michelle e pelas relações políticas desenvolvidas em cada estado.
Essa estrutura também permite que ela distribua apoio entre diferentes candidaturas sem assumir integralmente as obrigações institucionais que acompanhavam a presidência nacional do PL Mulher.
Vídeos e reuniões virtuais substituem parte dos palanques
Embora novas viagens estejam em discussão, parte significativa da atuação continuará ocorrendo por meios digitais. A estratégia inclui vídeos direcionados às candidatas, reuniões por videoconferência, mensagens personalizadas e mobilização por redes sociais.
O celular passou a substituir parte das viagens nacionais, permitindo que Michelle mantenha contato diário com dirigentes estaduais, parlamentares e candidatas sem se afastar por longos períodos de Jair Bolsonaro.
Esse modelo reduz custos logísticos e aumenta a capacidade de participação simultânea em diferentes campanhas. Uma gravação pode ser distribuída regionalmente, adaptada às redes sociais e utilizada para mobilizar públicos específicos.
Por outro lado, a comunicação predominantemente digital transfere parte da mobilização política para estruturas menos visíveis do que as instâncias partidárias tradicionais. A identificação dos responsáveis pelos conteúdos, o financiamento das produções e sua conformidade com a legislação eleitoral deverão ser acompanhados quando começar oficialmente o período de campanha.
Igrejas e eleitorado evangélico tornam-se eixos prioritários
O segundo pilar da reorganização política será o eleitorado evangélico, segmento no qual Michelle construiu parte relevante de sua projeção pública.
A ex-primeira-dama deverá ampliar sua participação em congressos femininos, encontros religiosos e eventos organizados por igrejas com as quais mantém relação há vários anos.
Entre os compromissos discutidos estão atividades na Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Júnior, e eventos ligados ao bispo Robson Rodovalho, fundador da comunidade Sara Nossa Terra.
Esses ambientes permitem que Michelle mantenha contato com mulheres conservadoras e lideranças religiosas sem depender da organização nacional do PL. Também oferecem espaços nos quais sua imagem pessoal está mais associada à atuação religiosa e social do que às disputas internas da legenda.
A participação política de lideranças religiosas é permitida dentro dos limites constitucionais e eleitorais. Entretanto, a utilização de templos, estruturas institucionais, recursos ou eventos religiosos em benefício direto de candidaturas deverá observar as restrições impostas pela legislação.
Ausência em ato de Flávio evidencia distanciamento
A nova estratégia tornou-se mais clara durante o primeiro compromisso de Flávio Bolsonaro no Ceará após a crise. Michelle não participou do ato, que havia sido planejado meses antes para marcar o lançamento de candidaturas do PL no estado.
Antes do conflito, o evento chegou a ser cogitado como o primeiro compromisso público conjunto da ex-primeira-dama e do senador. A hipótese foi descartada após o agravamento das divergências.
Mesmo ausente, Michelle permaneceu representada por uma de suas principais aliadas. Antes de viajar para Portugal, Priscila Costa ficou responsável pela organização da mobilização feminina no encontro.
O gesto foi interpretado como uma tentativa de preservar a interlocução da ex-presidente do PL Mulher com as militantes e candidatas cearenses sem transformar o ato em novo capítulo do conflito familiar.
Aliados de Flávio rejeitam, contudo, a interpretação de que Michelle abandonará completamente a campanha presidencial. O deputado federal Bibo Nunes (PL-RS) afirmou que ela continuará sendo uma importante mobilizadora de votos entre o público feminino e poderá participar das gravações eleitorais do senador.
Até o momento, entretanto, não houve anúncio de uma agenda conjunta nem confirmação de participação efetiva de Michelle nos atos da campanha presidencial.
Carta de Jair Bolsonaro tenta recompor unidade
No sábado (11/07/2026), Flávio leu publicamente uma carta escrita por Jair Bolsonaro na qual o ex-presidente o apresentou como seu “porta-voz” e defendeu a união das correntes políticas alinhadas ao bolsonarismo.
A manifestação ocorreu em meio às tentativas do PL de conter a crise e consolidar o senador como candidato presidencial. Apesar do apelo por unidade, a carta não fez referência direta a Michelle, circunstância que manteve as dúvidas sobre o grau de participação da ex-primeira-dama na campanha.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, continua tentando convencê-la a disputar uma das vagas do Distrito Federal no Senado. Pessoas próximas, porém, afirmam que nenhuma decisão definitiva foi tomada.
A eventual candidatura obrigaria Michelle a concentrar esforços em sua própria disputa. Permanecer fora da chapa, por outro lado, permitiria que percorresse o país, apoiasse candidaturas estaduais e fortalecesse uma rede nacional vinculada diretamente à sua liderança.
A definição terá efeitos sobre a composição da chapa no Distrito Federal, a estratégia nacional do PL e o equilíbrio interno do bolsonarismo. Também poderá determinar se Michelle buscará um mandato institucional ou continuará exercendo influência por meio de candidatas, igrejas e movimentos organizados fora da estrutura partidária tradicional.








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