Operação Angerona II reforça cerco a facções no Conjunto Penal de Feira de Santana e amplia inteligência prisional

A Operação Angerona II foi deflagrada na manhã de segunda-feira (27/07/2026) no Conjunto Penal de Feira de Santana (CPFS), por meio de ação integrada da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização da Bahia (Seap), do Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA) e da Secretaria da Segurança Pública (SSP). A intervenção tem como objetivos fortalecer a segurança da unidade, produzir informações estratégicas para as atividades de inteligência e enfraquecer a capacidade de articulação de organizações criminosas a partir do sistema prisional.

Operação integra segurança prisional, inteligência e investigação criminal

A nova etapa da Angerona conta com a participação do Grupo de Atuação Especial de Execução Penal (Gaep) e do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (Gaeco), estruturas especializadas do Ministério Público responsáveis, respectivamente, pelo acompanhamento da execução das penas e pelo enfrentamento de grupos criminosos organizados.

A integração entre os órgãos permite que as medidas administrativas realizadas dentro do estabelecimento penal sejam acompanhadas por atividades de inteligência, preservação de vestígios, fiscalização da execução penal e eventual produção de provas para investigações ou processos judiciais.

Segundo o MPBA, a operação busca ampliar a capacidade operacional conjunta das forças estaduais no enfrentamento à criminalidade e impedir que pessoas custodiadas mantenham influência sobre atividades ilícitas desenvolvidas fora dos limites da unidade prisional. O comunicado oficial não detalhou, inicialmente, quantas celas seriam inspecionadas, quantos agentes participariam da ação ou quais alvos específicos haviam sido definidos.

Conjunto Penal de Feira de Santana ocupa posição estratégica no sistema prisional

O Conjunto Penal de Feira de Santana é apontado pelos órgãos estaduais como a maior unidade prisional da Bahia. Em outubro de 2024, quando foi executada a primeira Operação Angerona, o estabelecimento abrigava aproximadamente 1.950 pessoas privadas de liberdade, distribuídas em 11 pavilhões.

A dimensão da unidade e sua localização em Feira de Santana, principal entroncamento rodoviário do estado, tornam o controle das comunicações e da circulação de materiais ilícitos uma questão estratégica para as políticas de segurança pública e administração penitenciária.

A atuação conjunta do Gaep e do Gaeco também demonstra que a intervenção não se limita à realização de revistas. Enquanto o primeiro acompanha as condições jurídicas da execução das penas, o segundo atua sobre indícios de organização criminosa, comunicação clandestina, tráfico de drogas, circulação de ordens e outras condutas que possam envolver integrantes de grupos estabelecidos dentro e fora do sistema prisional.

Angerona retoma estratégia iniciada em outubro de 2024

A primeira Operação Angerona foi deflagrada em 21 de outubro de 2024, também no Conjunto Penal de Feira de Santana. O nome fazia referência a Angerona, divindade associada ao silêncio, em alusão ao objetivo de interromper canais clandestinos de comunicação entre pessoas custodiadas e integrantes de organizações criminosas em liberdade.

Naquela ocasião, a intervenção reuniu a Seap, a SSP, o MPBA, a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) e órgãos do sistema de Justiça. Mais de 250 policiais e agentes penitenciários foram mobilizados para buscas, revistas, preservação de materiais e identificação de internos considerados lideranças de organizações criminosas.

Nas primeiras horas da operação, mais de 40 celas haviam sido inspecionadas. As equipes informaram ter localizado aparelhos celulares, armas brancas improvisadas e porções de substâncias entorpecentes. Os materiais foram encaminhados para os procedimentos de perícia e investigação.

Materiais apreendidos subsidiaram investigações

No terceiro dia da primeira operação, os órgãos estaduais informaram que aproximadamente 1.600 custodiados já haviam sido submetidos aos procedimentos de revista. As equipes haviam inspecionado mais de 241 celas, distribuídas por oito pavilhões da unidade.

Entre os materiais recolhidos estavam celulares, cartões de memória, dispositivos de armazenamento digital, anotações e outros objetos considerados relevantes para a investigação de possíveis conexões entre internos e grupos criminosos atuantes fora do presídio.

A coleta foi submetida aos procedimentos de cadeia de custódia, mecanismo destinado a registrar a origem, o transporte, o armazenamento e a destinação dos vestígios. Com autorização judicial, os objetos poderiam ser enviados ao Departamento de Polícia Técnica (DPT) para perícia e utilizados na instrução de investigações ou processos criminais.

Primeira operação terminou com transferência de 31 internos

Em 29 de outubro de 2024, a Seap anunciou a transferência de 31 internos do Conjunto Penal de Feira de Santana para unidades localizadas em outras regiões da Bahia. Segundo o órgão, os custodiados eram considerados alvos sensíveis e exerciam posições de liderança sobre grupos criminosos que atuavam fora do sistema prisional.

Os transferidos possuíam registros relacionados a crimes como homicídio, tráfico de drogas, roubo e participação em organização criminosa. A medida foi adotada depois de levantamentos produzidos pelas áreas de inteligência prisional, com a finalidade declarada de reduzir a influência dos internos sobre integrantes das organizações em liberdade.

Na mesma ocasião, a SSP informou que os Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) registrados em Feira de Santana haviam diminuído 78,6% durante o período da intervenção, na comparação entre os dias 21 e 28 de outubro de 2024 e o intervalo correspondente de 2023. Foram contabilizadas três mortes violentas em 2024, ante 14 no período comparado do ano anterior. O dado representou uma comparação temporal divulgada pelas autoridades, mas, isoladamente, não permite estabelecer relação causal definitiva entre a operação e a redução dos crimes.

Linha do tempo das intervenções no Conjunto Penal

  • 12/05/2024 — Operação Controle: quatro custodiados apontados como lideranças de organizações criminosas foram transferidos do Conjunto Penal de Feira de Santana para o Presídio de Segurança Máxima de Serrinha. Celulares, acessórios telefônicos e armas brancas foram apreendidos durante a ação.
  • 21/10/2024 — Início da Operação Angerona: Seap, SSP, MPBA e Senappen iniciaram uma intervenção destinada a interromper comunicações ilícitas e coibir atividades criminosas articuladas dentro da unidade prisional.
  • 21/10/2024 — Primeiras apreensões: mais de 40 celas foram revistadas, com localização de celulares, armas brancas improvisadas e porções de entorpecentes.
  • 23/10/2024 — Ampliação das revistas: aproximadamente 1.600 custodiados e 241 celas de oito pavilhões haviam sido alcançados. Celulares, cartões de memória, dispositivos digitais e anotações foram recolhidos para análise.
  • 24/10/2024 — Celas de lideranças inspecionadas: cerca de 300 celas já haviam sido revistadas, incluindo espaços ocupados por 34 internos identificados pelas autoridades como lideranças de organizações criminosas.
  • 29/10/2024 — Transferência de internos: 31 custodiados considerados alvos sensíveis foram transferidos para outras unidades prisionais da Bahia.
  • 27/07/2026 — Operação Angerona II: Seap, SSP e MPBA iniciaram uma nova fase da intervenção, concentrada no fortalecimento da segurança prisional, no levantamento de informações estratégicas e na redução da capacidade de articulação de organizações criminosas.

Balanço da Angerona II será divulgado após conclusão das ações

O comunicado inicial do Ministério Público não apresentou números sobre celas inspecionadas, pessoas revistadas, materiais apreendidos, eventuais transferências ou medidas judiciais decorrentes da Operação Angerona II.

O MPBA informou que o balanço da operação será divulgado após a conclusão dos trabalhos. Os resultados deverão indicar a extensão da intervenção e permitir a comparação com a primeira etapa, realizada em outubro de 2024.

Entre os dados de interesse público estão a quantidade e a natureza dos objetos eventualmente apreendidos, a existência de equipamentos de comunicação, as providências disciplinares ou judiciais adotadas e os possíveis desdobramentos das informações produzidas pelos órgãos de inteligência.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading