Paulo Gabriel Nacif assume Fundação Hansen Bahia e projeta nova etapa de preservação cultural no Recôncavo

O professor, pesquisador e ex-reitor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) Paulo Gabriel Soledade Nacif foi eleito presidente da Fundação Hansen Bahia para o triênio 2026–2029, durante Assembleia Geral Extraordinária realizada neste sábado, em Cachoeira. A escolha coloca à frente da instituição um educador com trajetória vinculada à universidade pública, à gestão educacional e ao desenvolvimento regional, em um momento no qual a Fundação completa cinco décadas de atuação e busca fortalecer a preservação do legado do artista alemão Hansen Bahia, a formação cultural e a integração com escolas, universidades e comunidades do Recôncavo.

A eleição ocorreu em formato híbrido, com a participação de integrantes do Conselho Curador reunidos presencialmente na Galeria/Museu Hansen Bahia, em Cachoeira, e por meio de plataforma virtual. A sessão foi presidida pelo conselheiro Cleydson Sá Barreto do Rosário, conhecido como Keu de Carneirinho.

Paulo Gabriel Nacif foi escolhido por ampla maioria dos votos. O resultado expressa o reconhecimento de sua experiência acadêmica, administrativa e institucional, além da relação construída ao longo dos anos com iniciativas educacionais e sociais desenvolvidas no Recôncavo Baiano.

O novo presidente assume uma instituição que reúne 22 membros em seu Conselho Curador e tem como diretor executivo o museólogo Jomar Lima. A composição colegiada atribui à direção o desafio de articular diferentes setores da sociedade civil, do poder público, da comunidade acadêmica e do campo cultural em torno da conservação e da difusão do patrimônio mantido pela Fundação.

Eleição aproxima cultura, educação e desenvolvimento regional

A mudança de comando representa mais do que uma substituição administrativa. A chegada de um professor universitário à presidência reforça uma convergência histórica entre duas dimensões centrais para o Recôncavo: a produção do conhecimento e a preservação das manifestações artísticas e culturais.

Professor titular da UFRB, Paulo Gabriel Nacif participou da construção institucional da universidade e exerceu o cargo de reitor entre 2006 e 2015. Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), concluiu mestrado e doutorado em Solos pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), desenvolvendo atividades acadêmicas relacionadas ao manejo dos solos, ao uso da terra, à análise de paisagens, aos recursos naturais e ao desenvolvimento sustentável.

Nascido em Coaraci, no sul da Bahia, o educador também ocupou funções na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), na UFBA, no Ministério da Educação, na Universidade Federal do Sul da Bahia e em administrações municipais. Entre 2015 e 2016, foi secretário de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação. Posteriormente, presidiu o Conselho Estadual de Educação da Bahia durante dois mandatos, entre 2020 e 2024.

Sua atuação inclui ainda estudos e projetos relacionados à inclusão, à diversidade educacional, às políticas afirmativas, ao meio ambiente e à gestão do ensino superior. Essa experiência estabelece uma base institucional para aproximar o patrimônio artístico da Fundação de programas de ensino, pesquisa, extensão universitária e formação cidadã.

Relação anterior com a Fundação Hansen Bahia

A presença de Paulo Gabriel na história da entidade não começa com a eleição de 2026. Registros institucionais indicam que ele integrou anteriormente instâncias deliberativas da Fundação e participou de iniciativas voltadas à aproximação entre a entidade cultural e a UFRB.

A parceria entre a universidade e a Fundação já resultou em seminários, exposições e atividades acadêmicas dedicadas à gravura, à história da arte e à produção cultural baiana. Um dos exemplos foi o seminário “Gravuras e Gravuristas Baianos”, promovido em conjunto com o Centro de Artes, Humanidades e Letras da UFRB, em Cachoeira.

Essa relação anterior oferece à nova gestão uma estrutura de diálogo já estabelecida. O desafio será transformar a proximidade institucional em projetos permanentes que ampliem o acesso público ao acervo, qualifiquem a conservação das obras e fortaleçam a presença da Fundação na formação de estudantes, artistas, professores e pesquisadores.

Fundação Hansen Bahia completa 50 anos de atuação

A eleição ocorre no ano em que a Fundação Hansen Bahia celebra 50 anos de criação. A instituição foi idealizada pelo próprio Hansen Bahia em 19 de abril de 1976, com o objetivo de preservar sua produção artística e utilizar o acervo como base para a formação de novos talentos, especialmente no campo da xilogravura.

A escritura pública de constituição foi registrada em 21 de julho de 1976, no Cartório do Primeiro Ofício da Comarca de Cachoeira. O patrimônio inicial foi formado pela doação das obras, dos instrumentos e dos equipamentos utilizados pelo artista em seu ateliê. Em 1978, o acervo foi aberto ao público por meio do Museu Hansen Bahia.

Criada como entidade privada e sem fins lucrativos, a Fundação foi reconhecida como de utilidade pública pelo Município de Cachoeira em 1981. Ao longo das décadas, consolidou-se como espaço de preservação artística, atividades educativas, exposições, formação cultural e valorização da memória do Recôncavo.

Em abril de 2026, a Câmara Municipal de Cachoeira realizou uma sessão solene pelos 50 anos da instituição, reunindo representantes culturais, autoridades e integrantes da comunidade. A homenagem destacou a contribuição da entidade para a arte, a história e a identidade cultural regional.

Hansen Bahia e a xilogravura inspirada no Recôncavo

Nascido na Alemanha, Karl Heinz Hansen adotou o nome artístico Hansen Bahia após estabelecer uma relação profunda com o estado, especialmente com as cidades de Cachoeira e São Félix. Na região, desenvolveu parte expressiva de sua produção, utilizando a xilogravura para representar personagens, paisagens, celebrações, tradições populares e aspectos da vida social baiana.

Hansen e sua esposa, a artista Ilse Hansen, viveram na Fazenda Santa Bárbara, em São Félix, onde organizaram um espaço de criação artística e convivência cultural. O acervo, os instrumentos de trabalho e outros bens relacionados à trajetória do casal foram destinados à Fundação como forma de assegurar a continuidade de seu legado.

A obra do gravurista alcançou exposições no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e em países da América Latina. A incorporação de temas baianos às suas gravuras ajudou a projetar internacionalmente imagens, personagens e referências culturais do estado.

A Fundação mantém espaços em Cachoeira e São Félix. Na Rua Treze de Maio, no centro histórico de Cachoeira, funciona a galeria destinada a exposições, encontros e atividades culturais. Em São Félix, a Fazenda Santa Bárbara abriga o museu-casa e preserva referências da vida cotidiana e do processo criativo de Hansen e Ilse.

Museu, educação e formação de novos públicos

Desde sua origem, a Fundação Hansen Bahia foi concebida não apenas como local de guarda de obras, mas como uma instituição de caráter cultural e educativo. Seu estatuto estabelece objetivos relacionados ao incentivo às belas-artes, à formação de artistas, à preservação das tradições, à promoção de cursos e ao desenvolvimento de projetos em parceria com instituições públicas e privadas.

A missão também abrange o estímulo ao turismo cultural como mecanismo de desenvolvimento social e econômico para Cachoeira, São Félix e outros municípios do Recôncavo. Essa atuação transforma o patrimônio artístico em elemento de educação, circulação de conhecimento, geração de atividades culturais e fortalecimento da economia associada à visitação e aos eventos.

Nos últimos anos, os espaços ligados à Fundação receberam exposições, oficinas, seminários, apresentações musicais e atividades da Festa Literária Internacional de Cachoeira. Em 2024, por exemplo, a Galeria Hansen Bahia sediou o encerramento da itinerância dos Salões de Artes Visuais da Bahia, reunindo trabalhos de artistas de diferentes municípios.

A instituição também participou de pesquisas relacionadas à memória cultural de Cachoeira, como a elaboração do dossiê sobre o saber e o modo de fazer tradicional do licor produzido no município, iniciativa realizada em parceria com o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia.

Princípio fundador une arte e transformação social

A concepção educativa da Fundação foi sintetizada pela professora Noelice Costa Pinto, uma de suas fundadoras, aluna, amiga, primeira diretora e testamenteira de Hansen Bahia.

“Aperfeiçoar o homem através da arte e da cultura sempre será um dos propósitos da Fundação Hansen Bahia; a parte educacional e social sempre será imprescindível.”

A declaração estabelece um princípio que ultrapassa a conservação material das obras. O patrimônio artístico é compreendido como instrumento de formação humana, construção de identidade, participação social e transmissão de conhecimento entre diferentes gerações.

A eleição de um educador para a presidência reforça essa orientação. A experiência de Paulo Gabriel Nacif em políticas educacionais, gestão universitária, inclusão e diversidade poderá ampliar o diálogo entre o museu e as redes de ensino, desde que essa aproximação seja convertida em planejamento institucional, projetos continuados e mecanismos de avaliação.

Desafios da gestão 2026–2029

A nova administração assume a responsabilidade de preservar um acervo de relevância artística, histórica e documental, garantindo condições adequadas de conservação, segurança, pesquisa e exposição. O trabalho envolve tanto as obras quanto os imóveis, objetos, registros e equipamentos relacionados à trajetória de Hansen Bahia e Ilse Hansen.

Outra frente será a ampliação do alcance social da instituição. Entre as perspectivas apresentadas estão o fortalecimento das parcerias com universidades, escolas, museus, centros culturais, órgãos públicos e organizações da sociedade civil, além da consolidação dos espaços da Fundação como ambientes permanentes de formação e produção de conhecimento.

A gestão também deverá buscar equilíbrio entre preservação patrimonial, sustentabilidade financeira e acesso público. Instituições culturais sem fins lucrativos dependem de planejamento, fontes diversificadas de financiamento, projetos aprovados em editais, cooperação institucional e participação das comunidades relacionadas ao patrimônio preservado.

O turismo cultural constitui outra área estratégica. Cachoeira e São Félix formam um conjunto histórico e cultural marcado pela arquitetura, pela religiosidade, pela música, pelas tradições afro-brasileiras, pela produção artesanal e pela memória da formação social do Brasil. Nesse contexto, a Fundação pode atuar como ponto de articulação entre patrimônio, educação, visitação cultural e desenvolvimento regional.

Linha do tempo da Fundação Hansen Bahia e de Paulo Gabriel Nacif

  • 19/04/1976 — Hansen Bahia idealiza a criação da Fundação para preservar seu acervo e incentivar a formação de novos artistas.
  • 21/07/1976 — A escritura pública de constituição da Fundação Hansen Bahia é registrada em Cachoeira.
  • 1978 — O Museu Hansen Bahia é aberto ao público; após a morte do artista, Ilse Hansen assume atividades relacionadas à preservação do legado.
  • 1981 — A Fundação é reconhecida como entidade de utilidade pública pelo Município de Cachoeira.
  • 2006 — Paulo Gabriel Nacif assume a Reitoria Pro Tempore da recém-criada Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.
  • 2007 a 2015 — Paulo Gabriel exerce a Reitoria da UFRB e participa da consolidação institucional e territorial da universidade.
  • 2015 a 2016 — Atua como secretário de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação.
  • 2020 a 2024 — Preside o Conselho Estadual de Educação da Bahia durante dois mandatos.
  • 19/04/2026 — A Fundação Hansen Bahia completa 50 anos de criação.
  • 18/07/2026 — Paulo Gabriel Nacif é eleito presidente da instituição para o triênio 2026–2029.

*Com informações de Fábio Costa Pinto é jornalista, membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e integrante do Conselho Nato da Fundação Hansen Bahia.


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