Empresas, associações empresariais e representantes do setor produtivo brasileiro participam de audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para contestar a proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. As sessões integram a investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, utilizada pelo governo dos Estados Unidos para apurar supostas práticas comerciais consideradas desleais.
Segundo representantes da indústria e do agronegócio, a medida carece de fundamentação técnica, econômica e jurídica, além de poder elevar custos para empresas dos dois países, afetar cadeias produtivas integradas e pressionar preços ao consumidor norte-americano.
As audiências ocorrem em um momento de aumento das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos e reúnem entidades empresariais, representantes políticos e autoridades envolvidas nas discussões sobre a política tarifária norte-americana.
Indústria e agronegócio defendem manutenção do comércio bilateral
Entre as entidades participantes estão a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
As organizações sustentam que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos é complementar, com cadeias produtivas integradas em diversos setores industriais e agropecuários.
Segundo os representantes, a aplicação da tarifa elevaria os custos de produção, reduziria a competitividade de empresas e poderia provocar impactos sobre consumidores e investimentos em ambos os países.
Fiesp contesta fundamentos da investigação
A Fiesp afirma que a sobretaxa atingiria principalmente setores industriais de maior valor agregado, como máquinas, autopeças, alimentos industrializados e móveis.
A entidade também argumenta que o Brasil realizou avanços em temas questionados pelo USTR, incluindo propriedade intelectual, redução de tarifas sobre produtos norte-americanos e aumento da produtividade agrícola.
O presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Azevêdo, declarou que a medida não solucionaria os problemas apontados pelos Estados Unidos e poderia aumentar os custos produtivos nas duas economias.
CNI e Abimaq alertam para impactos sobre cadeias produtivas
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que não existem evidências de discriminação contra empresas norte-americanas instaladas no Brasil.
A entidade também destacou que mudanças frequentes na política comercial ampliam a insegurança para investimentos e planejamento empresarial.
Já a Abimaq solicitou a exclusão do setor de máquinas e equipamentos da eventual tarifa. Segundo a associação, 82% das exportações brasileiras do segmento para os Estados Unidos ocorrem entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico, o que demonstra elevado grau de integração industrial.
Agronegócio destaca impactos sobre consumidores
No setor agropecuário, representantes da CNA afirmam que produtos como mel, café solúvel e pescados poderiam registrar aumento de preços no mercado norte-americano caso a tarifa seja implementada.
A entidade sustenta que o comércio agrícola brasileiro segue as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e argumenta que o crescimento da produção decorre do aumento da produtividade.
Segundo dados citados pela CNA, o desmatamento na Amazônia apresentou redução de 79% entre 2005 e 2026, informação utilizada para rebater críticas relacionadas à expansão agrícola.
Setor siderúrgico pede exclusão do ferro-gusa
O Sindifer também participa das discussões e solicita a retirada do ferro-gusa da lista de produtos sujeitos à sobretaxa.
Segundo a entidade, o insumo é considerado estratégico para siderúrgicas norte-americanas e apresenta características técnicas que dificultam sua substituição por fornecedores de outros países.
O setor informa ainda que 83% das exportações brasileiras de ferro-gusa têm como destino os Estados Unidos.
Flávio Bolsonaro participa de audiência nos Estados Unidos
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a Washington no domingo (05/07/2026) para participar das audiências promovidas pelo USTR.
A audiência está prevista para ocorrer em duas sessões, nos dias segunda-feira (06/07/2026) e terça-feira (07/07/2026). O parlamentar deverá participar do painel de terça-feira, quando pretende defender a suspensão da tarifa proposta pelo governo do presidente Donald Trump.
Na quinta-feira (02/07/2026), Flávio Bolsonaro encaminhou documento ao USTR solicitando a suspensão imediata da tarifa e propondo o adiamento da decisão por 180 dias, para que eventual definição ocorra após as eleições presidenciais brasileiras.
Debate também envolve governo Lula
A atuação do senador provocou manifestações do Palácio do Planalto.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a iniciativa de recorrer ao governo norte-americano durante o processo de investigação comercial.
Também houve repercussão após um gesto feito por Lula durante evento realizado na sexta-feira (03/07/2026) no Palácio do Planalto, ocasião em que o presidente utilizou um gesto com a mão durante discurso sobre políticas públicas de saúde. O episódio foi citado por Flávio Bolsonaro ao desembarcar nos Estados Unidos.
Enquanto isso, o governo brasileiro mantém a posição de que a relação comercial entre os dois países deve ser preservada por meio do diálogo e da negociação diplomática.
*Com informações da Sputnik News.







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