Nesta quarta-feira (29/07/2026), a literatura comparada brasileira amplia seu diálogo com a história das Américas por meio da apresentação, em Canudos, do livro Dois ciclos literários revolucionários: Canudos e a Nação Mestiça do Canadá, da professora e pesquisadora Lícia Soares de Souza. A obra, que integra a programação da Feira Literária Internacional de Canudos — FLICAN, realizada até 1º de agosto no Campus Avançado da Universidade do Estado da Bahia — UNEB, reúne mais de duas décadas de investigações desenvolvidas entre Brasil e Canadá e estabelece uma aproximação entre a comunidade de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro, e as resistências da Nação Métis, conduzidas por Louis Riel no século XIX. O livro é aberto pelo poema Assemblage e por um prefácio assinados pelo escritor e jurista Taurino Araújo.
Livro reconstrói uma cartografia cultural das Américas
A pesquisa de Lícia Soares de Souza parte de acontecimentos separados por milhares de quilômetros, mas atravessados por conflitos semelhantes: a ocupação colonial do território, a imposição de modelos políticos externos, a concentração da terra, a desestruturação de comunidades tradicionais e o apagamento de identidades coletivas.
Em vez de tratar Canudos exclusivamente como episódio da história brasileira e a resistência Métis como assunto restrito à formação do Canadá, a autora coloca as duas experiências em uma perspectiva interamericana. A comparação procura identificar como sociedades constituídas à margem dos centros de poder reagiram à expansão de Estados nacionais que buscavam controlar terras, populações e formas comunitárias de organização.
O título emprega a expressão “Nação Mestiça do Canadá” como referência à Nação Métis, povo indígena com identidade cultural, trajetória histórica e organização política próprias. No argumento desenvolvido pela pesquisadora, Canudos e as comunidades Métis representam experiências distintas, sem equivalência automática, mas ligadas por processos de resistência territorial, cultural e política.
A obra procura, dessa maneira, reorganizar fragmentos da memória continental. As populações de Belo Monte e da Nação Métis deixam de aparecer apenas como grupos derrotados militarmente e passam a ser interpretadas como produtoras de cultura, sistemas simbólicos, projetos comunitários e formas próprias de conhecimento.
Poema Assemblage apresenta a chave de leitura da obra
A dimensão estética e conceitual do livro é anunciada antes do prefácio. Taurino Araújo abre a publicação com o poema Assemblage, cujo título remete ao procedimento artístico de reunir objetos, materiais e fragmentos diferentes em uma nova composição.
Um dos versos sintetiza o princípio empregado na interpretação da pesquisa:
“A arte é remontagem; ela se faz com as cores que o mundo deixa cair e não com tintas artificiais. O chão é tela, das mais produtivas e criativas.”
A imagem do chão como tela aproxima criação artística, território e memória. No livro, acontecimentos históricos, obras literárias, tradições populares e sistemas culturais são articulados para formar uma interpretação conjunta de experiências que, embora ocorridas em países diferentes, foram marcadas pela expansão territorial e pela tentativa de subordinação de populações periféricas.
A remontagem proposta não consiste em apagar as diferenças entre Brasil e Canadá. O método comparativo busca compreender de que maneira circunstâncias nacionais específicas podem revelar estruturas coloniais mais amplas, presentes na formação política, econômica e cultural do continente americano.
O poema funciona, assim, como uma declaração de princípios. Os fragmentos deixados pela história — documentos, narrativas, paisagens, testemunhos, romances e memórias coletivas — tornam-se materiais para reconstruir acontecimentos frequentemente narrados pela perspectiva dos vencedores.
Prefácio interpreta pesquisa como reconstrução da memória continental
No prefácio, Taurino Araújo apresenta o trabalho de Lícia Soares de Souza como um exercício intelectual de recuperação da memória das Américas. A leitura estabelece uma conexão entre o procedimento poético de Assemblage e a arquitetura acadêmica do livro.
A interpretação destaca que a literatura não apenas representa os acontecimentos históricos. Ela também reorganiza versões do passado, questiona categorias consolidadas e preserva experiências que perderam espaço nos registros institucionais.
Nesse sentido, o estudo não se limita a estabelecer semelhanças temáticas entre obras brasileiras e canadenses. A autora investiga como as narrativas literárias participam da construção das identidades nacionais e como podem revelar contradições ocultadas pelos discursos oficiais sobre progresso, civilização e unidade territorial.
A participação de Taurino Araújo também dá continuidade ao diálogo crítico mantido com a produção de Lícia. Em trabalho anterior, o escritor analisou a contribuição da pesquisadora aos campos da semiótica, da comunicação, da literatura canadense francófona e do ciclo literário de Canudos.
Canudos e a resistência contra a destruição de Belo Monte
A comunidade de Belo Monte, conhecida historicamente como Canudos, consolidou-se no sertão da Bahia sob a liderança religiosa e social de Antônio Conselheiro. O crescimento do povoado reuniu sertanejos pobres, trabalhadores sem terra, ex-escravizados e famílias que buscavam proteção e formas comunitárias de sobrevivência.
Entre 1896 e 1897, quatro expedições militares foram mobilizadas contra a comunidade. As três primeiras foram derrotadas pelos conselheiristas. A quarta operação reuniu forças federais e estaduais, armamento pesado e milhares de combatentes, resultando na destruição do arraial em outubro de 1897.
A campanha militar foi acompanhada por discursos que apresentavam os habitantes de Belo Monte como inimigos da República. Posteriormente, a historiografia passou a examinar a influência da concentração fundiária, da pobreza, dos conflitos religiosos, da marginalização social e da violência estatal na formação e destruição da comunidade.
Ao retornar a esse processo, Lícia Soares de Souza interpreta Canudos não apenas como conflito armado, mas como experiência social, cultural e política. A literatura produzida sobre o episódio transforma-se em arquivo das disputas relacionadas à identidade brasileira, à representação do sertanejo e à construção do Estado republicano.
Louis Riel e as resistências da Nação Métis
No Canadá, a comparação concentra-se principalmente na Resistência do Rio Vermelho, entre 1869 e 1870, e na resistência ocorrida em 1885, na região que atualmente integra a província de Saskatchewan.
Em 1869, comunidades Métis do assentamento do Rio Vermelho reagiram à transferência e à ocupação de suas terras sem consulta adequada. Sob a liderança de Louis Riel, constituíram um governo provisório e negociaram condições para a entrada do território na Confederação canadense, processo relacionado à criação da província de Manitoba.
As garantias territoriais e políticas reivindicadas não impediram o avanço da colonização sobre as comunidades. Muitos Métis deslocaram-se para o oeste, onde enfrentaram novos levantamentos fundiários, mudanças nos sistemas de propriedade e pressões provocadas pela expansão de colonos.
Em 1885, Riel retornou ao Canadá e participou de uma nova resistência em defesa de direitos territoriais e políticos. A derrota em Batoche, em maio daquele ano, encerrou a principal etapa do conflito. Riel foi preso, julgado por alta traição e executado em novembro de 1885.
Ao aproximar essas experiências de Canudos, o livro examina como os projetos de formação nacional puderam operar mediante a ocupação de territórios, a reorganização da propriedade e a redução da autonomia de comunidades consideradas obstáculos à expansão estatal.
Sertãoceno relaciona devastação ambiental e violência colonial
Um dos principais conceitos apresentados na obra é o de Sertãoceno. A formulação estabelece um diálogo crítico com as discussões sobre o Antropoceno, termo empregado para interpretar os efeitos da ação humana sobre o clima, os ecossistemas e a estrutura geológica do planeta.
Na abordagem de Lícia Soares de Souza, porém, a devastação ambiental não pode ser atribuída de maneira genérica à humanidade. A degradação da Caatinga precisa ser relacionada a processos históricos concretos, como concentração fundiária, exploração econômica dos recursos naturais, expulsão de populações sertanejas e imposição de modelos produtivos incompatíveis com as condições do território.
O Sertãoceno procura demonstrar que a destruição da paisagem e a desarticulação das comunidades fazem parte de um mesmo processo. A degradação ambiental não aparece apenas como consequência de escolhas técnicas, mas como resultado de relações econômicas e políticas que definem quem controla a terra e quem suporta os custos da exploração.
Ao lado do Angloceno, empregado no livro para interpretar as políticas coloniais inglesas e seus desdobramentos no Canadá, o Sertãoceno permite comparar formas distintas de apropriação territorial. As categorias funcionam como instrumentos analíticos para examinar como colonialismo, economia e meio ambiente se articulam na formação das sociedades americanas.
Obra revisita criticamente Os Sertões
A pesquisa reserva espaço central para Os Sertões, publicado por Euclides da Cunha em 1902. A obra permanece como um dos principais marcos da literatura e do pensamento social brasileiro, mas também concentra ambiguidades próprias do ambiente intelectual e científico do final do século XIX.
Lícia reconhece a força literária, documental e interpretativa do texto euclidiano, ao mesmo tempo que analisa suas tensões ideológicas. A representação do sertanejo, a influência de teorias raciais, o conflito entre litoral e interior e a defesa de uma ideia particular de civilização são examinados à luz dos debates contemporâneos sobre colonialismo, identidade nacional, comunicação e memória.
Essa leitura evita tanto a rejeição integral de Euclides da Cunha quanto sua consagração sem questionamentos. O objetivo é compreender como uma obra pode simultaneamente denunciar a violência praticada contra Canudos e reproduzir conceitos relacionados ao pensamento científico e político de sua época.
A autora amplia a análise ao dialogar com escritores ligados ao ciclo literário canudiano, entre eles Mario Vargas Llosa, Oleone Fontes, Guilhon Loures, Aleilton Fonseca e J. J. Veiga, além de produções canadenses relacionadas às narrativas indígenas e Métis.
Literatura, semiótica e ecologia decolonial
A estrutura interdisciplinar é uma das características centrais do livro. Literatura comparada, semiótica, história, filosofia, ecocrítica e estudos culturais são mobilizados para compreender como as sociedades produzem sentidos sobre conflitos territoriais.
A semiótica permite examinar os sistemas de representação que transformaram comunidades populares em ameaças políticas. A história fornece a base documental dos conflitos. A literatura revela contradições, subjetividades e experiências que nem sempre permanecem registradas em documentos administrativos ou militares.
A ecologia decolonial, por sua vez, relaciona território, exploração econômica e apagamento cultural. Nessa perspectiva, a disputa pela terra não envolve apenas propriedade ou produção: abrange memória, religiosidade, formas de sociabilidade, relação com a natureza e continuidade das identidades coletivas.
O resultado é um estudo que ultrapassa os limites tradicionais da crítica literária. O livro utiliza obras de ficção, ensaios, registros históricos e conceitos filosóficos para propor uma interpretação mais ampla da formação das Américas.
Trajetória acadêmica entre Brasil e Canadá
Lícia Soares de Souza é professora emérita da Universidade do Estado da Bahia, professora associada da Université du Québec à Montréal — UQAM e pesquisadora vinculada a programas de pós-graduação brasileiros. Sua atuação concentra-se em literatura comparada, semiótica, americanidade, literatura brasileira, estudos canadenses e narrativas sobre Canudos.
Graduada em Letras pela Universidade Federal da Bahia — UFBA, a pesquisadora realizou mestrado em Letras Modernas na Universidade de Toulouse II e doutorado em Semiologia no Canadá. Também desenvolveu estudos de pós-doutorado na Universidade de Kassel, na Alemanha.
Ao longo da carreira, participou da consolidação dos Estudos Canadenses no Brasil e da criação de redes acadêmicas voltadas às relações culturais entre os países das Américas. Sua produção inclui livros, artigos científicos, ensaios, romances e estudos sobre literatura brasileira e canadense francófona.
O novo trabalho reúne esse percurso internacional em torno de uma questão comum: como a literatura registra, reorganiza e transmite a memória de comunidades submetidas à violência colonial e à marginalização política.
Apresentação em Canudos devolve pesquisa ao território estudado
A apresentação do livro na FLICAN atribui uma dimensão territorial ao debate acadêmico. A reflexão sobre Belo Monte retorna ao município onde ocorreu a guerra e onde instituições, pesquisadores, moradores e movimentos culturais trabalham para preservar a memória de Antônio Conselheiro e da população sertaneja.
A Feira Literária de Canudos foi criada em 2019 como espaço de valorização do livro, da leitura, das artes e da cultura do sertão. A programação desenvolvida no Campus Avançado da UNEB e em locais históricos do município aproxima produção acadêmica, manifestações populares e atividades educativas.
A obra de Lícia já havia integrado um lançamento realizado em 22 de maio de 2026, no Casarão Olhos D’Água, em Feira de Santana. A apresentação em Canudos, portanto, amplia sua circulação e a insere diretamente no território que constitui um de seus principais objetos de pesquisa.
Nesse ambiente, o livro deixa de circular exclusivamente entre universidades e centros de pesquisa. A presença na feira possibilita o contato com leitores, educadores, estudantes, artistas, moradores e agentes responsáveis pela preservação do patrimônio histórico e cultural de Canudos.
Linha do tempo: Canudos, Nação Métis e a obra de Lícia Soares de Souza
- 1869–1870: comunidades Métis do Rio Vermelho, lideradas por Louis Riel, organizam um governo provisório e reivindicam direitos territoriais e políticos durante a incorporação da região ao Canadá.
- 1870: a criação da província de Manitoba encerra formalmente a Resistência do Rio Vermelho, sem solucionar de maneira definitiva as reivindicações fundiárias dos Métis.
- 1885: uma nova resistência ocorre na região de Saskatchewan. Após a derrota em Batoche, Louis Riel é preso, julgado e executado.
- 1896–1897: a comunidade de Canudos enfrenta quatro expedições militares. Belo Monte é destruída pelas forças republicanas em outubro de 1897.
- 1902: Euclides da Cunha publica Os Sertões, obra que se torna referência literária, histórica e sociológica sobre a Guerra de Canudos.
- Décadas seguintes: Canudos passa a inspirar romances, ensaios, pesquisas históricas, filmes, peças teatrais e estudos sobre a formação social brasileira.
- 2019: é realizada a primeira Feira Literária de Canudos, com atividades relacionadas à literatura, à memória, ao território e à cultura sertaneja.
- 2023: o Conselho Universitário da UNEB aprova a concessão do título de professora emérita a Lícia Soares de Souza.
- 22/05/2026: Dois ciclos literários revolucionários: Canudos e a Nação Mestiça do Canadá integra lançamento literário no Casarão Olhos D’Água, em Feira de Santana.
- 29/07 a 01/08/2026: a obra é apresentada em Canudos durante a programação da FLICAN, com poema e prefácio assinados por Taurino Araújo.








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