Na terça-feira (14/07/2026), a vereadora Aladilce Souza (PCdoB) cobrou rigor, transparência e ampla colaboração da Prefeitura de Salvador na investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (Gaeco) sobre possíveis fraudes em contratos municipais. A apuração alcança empresários, empresas, servidores públicos, o então secretário municipal Luciano Sandes e o vereador licenciado George Carlos Reis Pereira, conhecido como Gordinho da Favela, e estima preliminarmente um possível prejuízo de R$ 38,3 milhões ao erário. Aladilce pede abertura de informações sobre contratos investigados
Aladilce afirmou que a administração municipal deve disponibilizar documentos, contratos, termos aditivos, medições, pagamentos e demais registros capazes de contribuir para a individualização das condutas investigadas. Para a parlamentar, a dimensão financeira e a duração das relações contratuais exigem uma resposta institucional que ultrapasse o cumprimento formal das determinações judiciais.
A vereadora declarou que as suspeitas de fraudes licitatórias, peculato, lavagem de dinheiro e corrupção “precisam ser apuradas com todo o rigor que o caso exige”. Segundo ela, a Prefeitura deve abrir as informações necessárias para permitir que o Ministério Público, a Polícia Civil e o Poder Judiciário esclareçam o funcionamento do suposto esquema e identifiquem eventuais responsabilidades. das idealizadoras do movimento SOS Áreas Verdes, Aladilce também relacionou a investigação às críticas apresentadas por seu mandato sobre planejamento urbano, fiscalização administrativa e execução de serviços públicos na capital baiana. A manifestação, entretanto, representa o posicionamento político da parlamentar e não substitui as conclusões técnicas, administrativas ou judiciais que deverão resultar da apuração.
Participação do Denarc amplia alcance das diligências
A vereadora destacou a participação de agentes do Departamento Especializado de Investigação e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), unidade da Polícia Civil da Bahia, nas diligências realizadas pelo Gaeco. Para Aladilce, a atuação conjunta demonstra a complexidade atribuída pelos órgãos de investigação às movimentações financeiras, empresariais e administrativas examinadas.
Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos na segunda-feira (13/07/2026) em residências, sedes empresariais, salas comerciais e outros endereços relacionados aos investigados. As medidas autorizaram a apreensão de aparelhos eletrônicos, documentos contábeis, registros fiscais, contratos, mensagens, arquivos armazenados em nuvem e outros materiais considerados relevantes para a investigação. nálise desse conteúdo deverá verificar se empresas formalmente distintas atuavam de maneira coordenada em licitações e contratos públicos, se houve direcionamento de procedimentos administrativos e se recursos pagos pela Prefeitura foram posteriormente transferidos ou distribuídos a agentes públicos ou intermediários.
Investigação apura atuação dividida em três núcleos
De acordo com as informações reunidas na decisão judicial e reproduzidas nas reportagens sobre o caso, o Ministério Público investiga uma possível organização estruturada em núcleo empresarial, núcleo operacional e núcleo de agentes públicos. A hipótese é de que os três setores teriam atuado coordenadamente para manipular licitações, contratos, medições, aditivos e pagamentos realizados pela administração municipal.
Núcleo empresarial
O núcleo empresarial seria formado por proprietários, administradores ou controladores de fato de um conjunto composto por G3 Polaris Serviços, MP2 Construções, LN Distribuidora e Comércio, Podium Distribuidora e WLSP Logística e Transportes.
A investigação sustenta que as empresas poderiam ter sido utilizadas alternadamente nos mesmos ambientes licitatórios para produzir uma aparência formal de concorrência, embora estivessem submetidas a interesses econômicos comuns. O empresário Lázaro de Carvalho Nunes é apontado na apuração como uma das principais lideranças do conglomerado investigado.
A eventual existência de vínculos familiares, societários, administrativos ou operacionais entre as companhias não comprova, isoladamente, fraude. Caberá ao Ministério Público demonstrar se houve combinação de propostas, compartilhamento irregular de documentos, simulação de competição ou controle comum ocultado da administração pública.
Núcleo operacional
O núcleo operacional teria exercido a função de intermediar movimentações financeiras entre empresas e agentes públicos. Os investigadores examinam transferências bancárias, depósitos, pagamentos, documentos fiscais e outras operações que poderiam indicar distribuição de vantagens indevidas.
A hipótese deverá ser confrontada com extratos bancários, declarações fiscais, registros contábeis, contratos, notas fiscais e comunicações obtidas nos equipamentos apreendidos. A origem, o destino e a justificativa econômica de cada operação precisarão ser estabelecidos individualmente.
Também será necessário distinguir pagamentos regulares por serviços, empréstimos, transações comerciais legítimas e movimentações eventualmente vinculadas a práticas ilícitas. A responsabilização dependerá da comprovação da finalidade de cada transferência e do conhecimento de seus participantes.
Núcleo de agentes públicos
No núcleo de agentes públicos aparecem Luciano Sandes, Gordinho da Favela e servidores que teriam desempenhado funções em comissões de licitação, fiscalização de contratos, elaboração de termos de referência, conferência de medições e autorização de pagamentos.
Segundo a hipótese investigativa, determinadas exigências técnicas teriam sido formuladas para restringir a participação de concorrentes e favorecer empresas vinculadas ao grupo empresarial. Também são apuradas possíveis desclassificações indevidas, fiscalizações deficientes, medições incompatíveis com os serviços realizados e aditivos contratuais sem justificativa adequada.
A atribuição de responsabilidade criminal, civil ou administrativa exigirá prova individualizada de que cada agente atuou conscientemente para favorecer as empresas ou produzir prejuízo ao Município. A simples ocupação de cargo público ou participação formal em um procedimento administrativo não permite presumir envolvimento em irregularidades.
Cinco empresas receberam R$ 321,1 milhões desde 2015
Levantamento realizado pelo Jornal Grande Bahia com base nos registros do Portal da Transparência de Salvador indicou que as cinco empresas mencionadas na investigação receberam, conjuntamente, R$ 321.163.273,89 da Prefeitura entre 2015 e julho de 2026.
Os pagamentos abrangeram serviços prestados a secretarias, autarquias e unidades administrativas municipais nas áreas de manutenção urbana, infraestrutura, construção, fornecimento de materiais, transporte, logística, locação de equipamentos e atividades operacionais.
Os valores identificados foram:
- G3 Polaris Serviços: R$ 124.839.733,73;
- Podium Distribuidora: R$ 85.496.159,40;
- LN Distribuidora e Comércio: R$ 45.402.729,70;
- WLSP Logística e Transportes: R$ 37.673.075,97;
- MP2 Construções: R$ 27.751.575,09.
A G3 Polaris e a Podium Distribuidora concentram aproximadamente 65,5% do total levantado, somando cerca de R$ 210,3 milhões. A primeira aparece como a maior recebedora de recursos municipais no período, com quase R$ 125 milhões. Pagamentos totais não correspondem ao prejuízo investigado
A diferença entre os R$ 321,1 milhões pagos às empresas e os R$ 38,3 milhões de prejuízo preliminarmente estimado é fundamental para a compreensão do caso. O primeiro valor representa o volume total das relações contratuais identificado desde 2015; o segundo corresponde ao dano que os investigadores atribuem inicialmente aos procedimentos sob suspeita.
Não há elementos públicos que permitam classificar todos os contratos, serviços ou pagamentos como irregulares. A investigação deverá separar os procedimentos regulares, os serviços efetivamente executados, os valores compatíveis com o mercado, as despesas possivelmente superfaturadas e os recursos eventualmente desviados.
O montante global evidencia a dimensão econômica das relações mantidas pelas companhias com o Município, mas não pode ser apresentado como valor integral de desvio. A identificação do dano efetivo dependerá de auditorias, perícias, análise documental, rastreamento financeiro e exame individual de cada contratação. Contratos da Seman e da Desal estão sob análise
As suspeitas concentram-se principalmente em procedimentos relacionados à Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade (Seman) e à Companhia de Desenvolvimento Urbano de Salvador (Desal).
Em licitações realizadas a partir de 2018, a investigação aponta possíveis cláusulas restritivas, desclassificações arbitrárias de concorrentes e falhas deliberadas na fiscalização. Os investigadores deverão verificar se empresas foram favorecidas por exigências técnicas direcionadas e se os serviços executados corresponderam às condições estabelecidas nos contratos.
Entre os casos examinados está uma contratação da Desal para fornecimento de grama sintética, realizada em 2020. O valor inicialmente previsto, de aproximadamente R$ 434,7 mil, teria alcançado pagamentos superiores a R$ 1,4 milhão após alterações contratuais.
A existência de aditivos não constitui, por si só, irregularidade. Será necessário verificar se os acréscimos estavam amparados pela legislação, se decorreram de necessidades devidamente justificadas, se respeitaram os limites legais e se os materiais ou serviços adicionais foram efetivamente entregues.
Justiça afasta agentes públicos e determina bloqueio patrimonial
A juíza Martha Carneiro Terrin e Souza, da 3ª Vara das Garantias de Salvador, determinou o afastamento cautelar de agentes públicos investigados, a proibição de contato entre os representados e a indisponibilidade de bens no valor de R$ 38.321.127,95.
As medidas alcançaram Luciano Sandes, Gordinho da Favela e outros servidores que teriam exercido funções administrativas, técnicas, operacionais ou de fiscalização nos contratos examinados.
O Ministério Público também solicitou prisões preventivas, mas a magistrada considerou que o afastamento das funções, a proibição de contato e o bloqueio de ativos seriam suficientes, nesta fase, para reduzir o risco de interferência na investigação ou continuidade das condutas suspeitas. afastamentos possuem natureza cautelar e não equivalem a condenação. As medidas destinam-se a preservar documentos, sistemas, provas digitais e a independência dos servidores que poderão ser chamados a prestar informações.
Luciano Sandes ocupou cargos em diferentes setores municipais
Engenheiro sanitarista e ambiental urbano, Luciano Sandes exerceu funções relacionadas à infraestrutura, manutenção, fiscalização de obras e gestão de contratos durante as administrações de ACM Neto e Bruno Reis.
Na gestão de ACM Neto, passou por setores vinculados à manutenção da infraestrutura urbana e ocupou a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras Públicas. Posteriormente, assumiu a Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade, permanecendo no primeiro escalão durante a administração de Bruno Reis.
Em janeiro de 2023, Sandes foi transferido para a Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro. Sua passagem prolongada por áreas responsáveis por obras, serviços urbanos e contratos torna sua atuação relevante para a investigação, mas não representa prova autônoma de envolvimento em crimes.
Relações contratuais atravessaram duas administrações
Os registros de pagamentos analisados começam em 2015, durante a gestão de ACM Neto, e avançam até julho de 2026, na administração de Bruno Reis. A permanência das empresas no ambiente contratual municipal ao longo desse período sustenta a cobrança de Aladilce sobre a necessidade de examinar a continuidade das relações administrativas por mais de uma década.
Não há, nas informações públicas apresentadas, indicação de que ACM Neto ou Bruno Reis sejam investigados criminalmente no procedimento. A referência aos dois administradores decorre do período em que contratos foram celebrados, renovados, executados ou pagos.
A responsabilidade política pela supervisão da máquina pública e pelo funcionamento dos controles internos não se confunde automaticamente com responsabilidade criminal. Esta última exige demonstração individualizada de participação, conhecimento, autorização ou benefício relacionado às condutas investigadas. Prefeitura anuncia colaboração e apuração administrativa
Após a operação, a Prefeitura de Salvador informou que cumpriria as determinações judiciais e colaboraria com as investigações conduzidas pelo Ministério Público da Bahia.
A administração municipal também anunciou a abertura de procedimento interno para verificar se houve dano ao erário. A apuração administrativa deverá examinar contratos, aditivos, processos de fiscalização, medições, pagamentos e a atuação dos servidores responsáveis.
Caso sejam comprovadas irregularidades, o Município poderá adotar medidas como rescisão contratual, aplicação de multas, declaração de inidoneidade, abertura de processos disciplinares e ações destinadas ao ressarcimento dos recursos públicos.
O prefeito Bruno Reis afirmou posteriormente que a administração municipal já havia identificado problemas envolvendo empresas alcançadas pela operação e adotava providências como multas e rescisões. A cronologia, a extensão e a efetividade dessas medidas deverão ser demonstradas por documentos oficiais e confrontadas com o período das irregularidades investigadas. Defesas invocam presunção de inocência e acesso aos autos
A defesa de Gordinho da Favela declarou que o vereador não havia obtido acesso integral ao processo e, por essa razão, desconhecia os elementos utilizados para fundamentar as medidas cautelares.
O parlamentar afirmou que permaneceria à disposição das autoridades, colaboraria com as investigações e confiava no devido processo legal para demonstrar a regularidade de sua atuação.
Defesas de empresários mencionados na apuração solicitaram habilitação no processo e acesso aos autos. Todos os investigados têm direito à presunção de inocência, ao contraditório, à ampla defesa e à contestação das decisões judiciais.
A responsabilização criminal dependerá da comprovação da materialidade, autoria e intenção relacionadas a cada conduta. Eventuais sanções administrativas, civis, políticas ou eleitorais também deverão observar procedimentos próprios e não podem decorrer exclusivamente da realização das buscas ou dos afastamentos cautelares.
Linha do tempo da investigação e dos contratos
- 2015: início do período abrangido pelo levantamento dos pagamentos municipais realizados às cinco empresas mencionadas na investigação.
- 2018: procedimentos licitatórios da Seman passam a integrar o período examinado pelo Gaeco, com suspeitas de cláusulas restritivas, direcionamento e fiscalização deficiente.
- 2020: contrato da Desal para fornecimento de grama sintética, inicialmente estimado em cerca de R$ 434,7 mil, alcança pagamentos superiores a R$ 1,4 milhão após alterações.
- 2021 a 2023: Luciano Sandes ocupa a Secretaria Municipal de Manutenção da Cidade durante parte do período investigado.
- Janeiro de 2023: Sandes assume a Secretaria Municipal de Articulação Comunitária e Prefeituras-Bairro.
- 2015 a julho de 2026: as cinco empresas recebem conjuntamente R$ 321,1 milhões da Prefeitura de Salvador, conforme levantamento baseado no Portal da Transparência.
- 13/07/2026: Gaeco e Polícia Civil cumprem mandados de busca e apreensão contra agentes públicos, empresários, servidores e empresas.
- 13/07/2026: Justiça determina afastamentos cautelares, proibição de contato e bloqueio patrimonial superior a R$ 38,3 milhões, mas rejeita os pedidos de prisão preventiva.
- 14/07/2026: Prefeitura anuncia colaboração com as investigações e abertura de procedimento administrativo para verificar eventual dano ao erário.
- 14/07/2026: Aladilce Souza cobra transparência, abertura das informações municipais e apuração rigorosa das suspeitas.
- 15/07/2026: novas informações sobre os pagamentos acumulados pelas empresas ampliam a discussão sobre a duração das relações contratuais e a eficácia dos controles internos da administração municipal. Análise crítica jornalística e conclusão editorial
A manifestação de Aladilce desloca parte do debate para a capacidade institucional da Prefeitura de Salvador de fiscalizar contratos, identificar vínculos entre empresas concorrentes e impedir que eventuais irregularidades se prolonguem por sucessivas administrações. Caso seja comprovada uma atuação coordenada durante vários anos, o episódio poderá revelar não apenas responsabilidades individuais, mas falhas persistentes em mecanismos de controle, segregação de funções, fiscalização de serviços e rastreamento dos beneficiários efetivos das empresas contratadas.
A principal lacuna informativa permanece na delimitação dos contratos efetivamente investigados. O volume de R$ 321,1 milhões demonstra a relevância econômica das empresas para a administração municipal, mas não autoriza atribuir ilicitude a todos os pagamentos. A transparência exigida da Prefeitura deverá incluir a relação completa dos contratos, responsáveis pelas autorizações, fiscais designados, justificativas para aditivos, sanções anteriormente aplicadas e providências adotadas quando os primeiros problemas foram identificados.
O caso importa porque envolve recursos destinados a serviços urbanos essenciais e coloca sob exame a eficiência dos controles exercidos durante as gestões de ACM Neto e Bruno Reis. Os próximos passos dependerão da análise do material apreendido pelo Gaeco, das auditorias da Prefeitura, das manifestações das defesas e das decisões da 3ª Vara das Garantias. Permanecem sob atenção a individualização das condutas, a quantificação definitiva do dano, o eventual ressarcimento ao erário e a identificação das falhas administrativas que permitiram a continuidade das relações contratuais investigadas.







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