ACM Neto critica regulação na Bahia, mas modelo defendido tem filas em SP, MG, SC, RS e GO mostram desafio nacional do SUS

A regulação da saúde na Bahia voltou ao centro da disputa eleitoral nesta quinta-feira (13/08/2026), após o candidato ao Governo do Estado ACM Neto (União Brasil) intensificar as críticas ao funcionamento do sistema baiano e defender mudanças inspiradas, entre outras referências, no modelo descentralizado adotado em São Paulo. Em entrevista concedida durante a campanha, Neto afirmou que o sistema paulista “funciona bem” e sustentou que a Bahia deveria aproximar a regulação do território onde vive o paciente, reduzindo deslocamentos e a concentração da assistência em grandes centros.

A comparação de ACM Neto com experiências de São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás, entretanto, revela um quadro mais complexo do que o debate eleitoral pode sugerir. Filas para cirurgias, consultas, exames e procedimentos especializados permanecem como um desafio estrutural do Sistema Único de Saúde nestes estados e em diferentes regiões do país, circunstância reconhecida inclusive pelo Governo Federal, que instituiu programas específicos para ampliar a oferta e reduzir a demanda reprimida.

Os dados disponíveis também indicam que a regulação baiana possui capacidade operacional expressiva e vem ampliando o número de pacientes regulados. Em 2024, segundo apresentação oficial da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), foram registradas 364.186 solicitações de regulação de leitos, uma média de 995 por dia, enquanto 256.233 ocorrências foram efetivamente reguladas, média de aproximadamente 700 por dia. O volume de regulações cresceu 19,78% em relação a 2023, percentual superior ao crescimento de 14,40% observado nas solicitações no mesmo período.

Esses indicadores não autorizam, por si sós, classificar um sistema estadual como superior a outro, porque as estatísticas divulgadas pelas unidades da Federação nem sempre medem os mesmos serviços, períodos, níveis administrativos ou critérios de fila. Neste contexto, é possível supor que uma eventual substituição do modelo baiano proposto por ACM Neto deve resultar na deterioração do atendimento à população.

Em outra vertente, os dados permitem questionar, de maneira consistente, se há evidências suficientes para justificar as críticas e uma eventual ruptura do modelo de prestação dos serviços de saúde da Bahia, especialmente diante do aumento da capacidade de regulação registrado no estado. Também cabe indagar quais resultados concretos o modelo proposto por ACM Neto poderia produzir em uma rede com as dimensões territoriais e assistenciais da Bahia, considerando as falhas e limitações observadas nos sistemas estaduais apresentados por ele como referência.

Bahia informa redução no tempo de resposta da regulação

Os indicadores apresentados pela Sesab mostram que, em 2022, 49% dos pacientes regulados na Bahia obtinham atendimento em até 24 horas. Em 2025, o percentual chegou a 71%. Na faixa de até 48 horas, o índice passou de 72% para 81%; em até 72 horas, avançou de 81% para 86%. Os números foram divulgados pela pasta estadual como parte do balanço do sistema de regulação.

O sistema estadual organiza o encaminhamento de pacientes a partir de critérios clínicos e da disponibilidade assistencial, incluindo internações, UTIs e outros procedimentos de maior complexidade. Segundo os dados divulgados pelo governo, o aumento da capacidade instalada e da contratação de leitos também integra a estratégia para reduzir o intervalo entre a solicitação e o atendimento.

Um dos exemplos apresentados é o Hospital Ortopédico do Estado da Bahia (HOEB). Integrada à regulação estadual, a unidade triplicou a oferta de vagas disponibilizadas à Central Estadual de Regulação e registrou redução de até 85% no tempo de espera por consultas e determinados procedimentos ortopédicos, conforme balanço divulgado pelo Governo da Bahia.

Esses dados não significam que o problema da espera tenha sido eliminado. Eles indicam uma evolução dos tempos de resposta informados pelo Estado e precisam ser examinados conjuntamente com demanda, disponibilidade de leitos, complexidade clínica e distribuição territorial da rede.

A questão ganhou peso político durante a campanha de 2026 porque ACM Neto tem colocado a regulação entre os pontos de crítica à administração estadual. No plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o candidato propõe mudanças como fila única, critérios clínicos, transparência e regionalização dos serviços, além de criticar o funcionamento atual da regulação baiana.

O confronto, portanto, não envolve apenas a existência ou inexistência de filas. A discussão alcança a forma de organizar os pacientes, estabelecer prioridades, distribuir serviços pelo território e transformar a oferta existente em atendimento dentro de prazos clinicamente adequados. Ocorre que os modelos estaduais defendidos por ACM Neto representam graves falhas e fracassos administrativos.

São Paulo e Minas Gerais mantêm grandes demandas reprimidas

Em São Paulo, uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 20/05/2026 mostrou que aproximadamente 149 mil pessoas aguardavam uma cirurgia eletiva na capital paulista. Entre os casos apresentados estava o de uma paciente com indicação cirúrgica desde dezembro de 2022, que relatou ter recebido posteriormente uma ligação do hospital para confirmar se ainda estava viva e se permanecia interessada no procedimento.

A Secretaria Municipal da Saúde informou à reportagem que a fila havia diminuído em relação a 2023, quando alcançara cerca de 228 mil pessoas. O dado evidencia duas dimensões simultâneas: houve redução da demanda acumulada, mas dezenas de milhares de usuários continuavam aguardando atendimento.

Há, contudo, uma diferença metodológica relevante para o debate baiano: os 149 mil correspondem à cidade de São Paulo e especificamente a uma fila relacionada a cirurgias eletivas, enquanto a regulação estadual da Bahia envolve diferentes tipos de encaminhamento, inclusive situações hospitalares e de alta complexidade. Por isso, a comparação dos números absolutos não pode ser utilizada isoladamente como medida de desempenho.

O próprio sistema paulistano também registra iniciativas para ampliar a capacidade assistencial. Dados da Secretaria Municipal da Saúde mostram aumento expressivo das cirurgias realizadas em Hospitais Dia entre 2021 e 2025, demonstrando que a existência de fila pode coexistir com expansão da produção assistencial.

Em Minas Gerais, o cenário reunido em 2024 apresentava dimensão ainda maior. Reportagem do Estado de Minas de 08/07/2024 mostrou 473.939 solicitações pendentes para cirurgias eletivas no estado. Somente Belo Horizonte possuía cerca de 28 mil pessoas cadastradas na Central de Internação aguardando procedimentos dessa natureza.

A situação mineira ganhou novo capítulo em 2026 com a implantação da Core Saúde MG, plataforma criada para substituir o SUSFácil na regulação estadual. O processo provocou questionamentos de gestores, hospitais e outras instituições a respeito da fase inicial de implementação, levando inclusive a pedidos de informação pela Câmara Municipal de Belo Horizonte.

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) também passou a acompanhar a implantação do sistema, discutindo com a Secretaria de Estado da Saúde questões como transparência, rastreabilidade, integração com centrais municipais, continuidade do cuidado e dificuldades identificadas durante a transição.

O episódio mineiro reforça que a adoção de novas plataformas ou tecnologias, embora possa produzir ganhos de eficiência, não elimina automaticamente problemas de fluxo, oferta ou integração entre os diferentes componentes da rede.

Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás também registram filas prolongadas

Em Santa Catarina, reportagem do NSC Total publicada em 23/10/2024 mostrou pacientes submetidos a períodos extremos de espera por procedimentos do SUS. O estado tinha cerca de 100 mil pessoas aguardando cirurgias, enquanto casos individuais indicavam prazos que poderiam alcançar vários anos para determinados exames e atendimentos.

Uma paciente citada na reportagem aguardava tomografia cuja previsão registrada no sistema chegava a 2032. Outro paciente, já submetido a transplante renal, esperava cirurgia para tratamento de hérnia. As situações revelaram também problemas cadastrais e diferenças entre os prazos exibidos nos sistemas e as previsões posteriormente apresentadas pelas autoridades responsáveis.

Em 2026, o sistema catarinense continuou submetido a pressões assistenciais. Em maio, por exemplo, o Hospital Marieta Konder Bornhausen, em Itajaí, atingiu 100% de ocupação dos leitos comuns e de UTI, enquanto pacientes permaneciam aguardando internação. A Secretaria da Saúde informou naquele momento que a taxa de ocupação dos leitos adultos do SUS em Santa Catarina estava em 92,5%.

A fiscalização institucional também avançou. Tribunal de Contas e Ministério Público catarinenses estabeleceram cooperação para auditorias e acompanhamento de políticas de saúde, incluindo oncologia, governança e mecanismos de controle.

No Rio Grande do Sul, o problema aparece tanto nas consultas especializadas quanto nas cirurgias. Reportagem da GZH mostrou, no início de 2025, cerca de 670 mil pedidos de consultas registrados no sistema estadual. Meses depois, o volume permanecia próximo desse patamar, apesar das ações anunciadas para ampliar a assistência.

No fim de 2025, dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação indicaram aproximadamente 219 mil pedidos de cirurgias eletivas aguardando atendimento no estado. A fila estadual de consultas havia diminuído para cerca de 620 mil solicitações, mas a espera pela etapa cirúrgica continuava elevada.

A situação de Porto Alegre oferece outro indicador da dimensão do problema. Em fevereiro de 2025, havia 206 mil solicitações de consultas e aproximadamente 167 mil pedidos de exames. Segundo os dados da Secretaria Municipal de Saúde analisados pela GZH, o tempo de espera para determinados atendimentos poderia atingir 2 mil dias.

Novamente, trata-se de estatísticas diferentes entre si: algumas correspondem ao sistema estadual, outras à capital gaúcha, e incluem consultas, exames ou cirurgias. Elas demonstram a persistência de demanda reprimida, mas não permitem uma equivalência automática com todos os componentes da Central Estadual de Regulação da Bahia.

Em Goiás, a própria Secretaria de Estado da Saúde informou, em abril de 2026, a existência de 23.883 pacientes aguardando cirurgias eletivas. O dado foi divulgado pela pasta ao contestar uma afirmação de que a fila seria de aproximadamente 100 mil pessoas.

O estado adotou ferramentas digitais para centralizar e organizar a regulação. Ainda assim, a existência do sistema informatizado não impediu o surgimento de suspeitas de manipulação. Em julho de 2026, a Polícia Civil abriu investigação sobre possível alteração irregular de informações destinadas a transformar procedimentos inicialmente classificados como eletivos em casos emergenciais, permitindo prioridade indevida a determinados pacientes.

A apuração envolve suspeitas e permanece sujeita ao resultado das investigações. Os fatos não autorizam responsabilização antecipada dos investigados, mas evidenciam que sistemas tecnológicos também dependem de mecanismos de auditoria, proteção de credenciais, rastreabilidade e fiscalização permanente.

Debate sobre regulação exige evidências, não simplificações eleitorais

A comparação entre a Bahia e os modelos adotados em São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás indica que filas, demora no acesso a procedimentos, dificuldades de integração e pressão sobre a capacidade hospitalar constituem problemas presentes em diferentes sistemas estaduais do SUS, inclusive naqueles citados como referência para uma eventual reorganização da assistência baiana. Ao mesmo tempo, os indicadores apresentados pela Sesab apontam crescimento do número de pacientes regulados e redução dos tempos de resposta na Bahia entre 2022 e 2025. Diante desse quadro, uma mudança estrutural do modelo estadual não pode ser justificada apenas pela existência de filas ou pela comparação isolada com experiências de outras unidades da Federação.

O debate eleitoral exige demonstrar, com dados comparáveis, critérios técnicos e resultados mensuráveis, quais falhas concretas do sistema baiano seriam corrigidas, como a proposta de regionalização defendida por ACM Neto funcionaria em uma rede territorialmente extensa e quais garantias existiriam de que a alteração produziria ganhos de eficiência, acesso e qualidade, em vez de comprometer avanços já registrados pela regulação estadual.


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