Djibuti e Eritreia passaram a ocupar posição de maior relevância no debate geopolítico internacional diante das tensões no Oriente Médio e da importância estratégica do estreito de Bab el-Mandeb, passagem marítima que conecta o Mar Vermelho ao golfo de Áden e, por extensão, ao oceano Índico. Cerca de 12% do comércio mundial de petróleo passa pela região, segundo os dados apresentados na reportagem.
Localizado entre o Iêmen, na costa asiática, e Djibuti e Eritreia, na costa africana, Bab el-Mandeb é considerado um dos principais pontos de estrangulamento das rotas comerciais internacionais. A passagem ganhou atenção diante da instabilidade no Oriente Médio e dos ataques atribuídos aos houthis na região.
Para Orlando Mazuze, especialista em relações internacionais, diplomacia e segurança marítima e diretor-executivo da Inviktus Research & Consulting, a posição geográfica fez com que Djibuti e Eritreia passassem da periferia para o centro do sistema internacional. A avaliação foi apresentada durante entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.
Bab el-Mandeb conecta rotas entre África, Oriente Médio e Europa
A importância do estreito está relacionada à sua localização nas rotas que ligam diferentes regiões do comércio marítimo. A partir do Mar Vermelho, a navegação alcança o Canal de Suez, principal ligação marítima entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico, enquanto o golfo de Áden permite acesso ao oceano Índico.
Essa configuração transforma o Djibuti em um território de interesse para atividades comerciais, logísticas e militares. Segundo Mazuze, o governo djibutiano tem investido na melhoria da infraestrutura e da logística, buscando aproveitar a posição geográfica do país.
A relevância da passagem também está relacionada ao peso do transporte marítimo na economia global. Conforme a Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 80% do volume do comércio internacional é realizado por via marítima, o que amplia a importância de rotas capazes de conectar diferentes mercados.
Ataques na região afetam comércio e receitas dos países africanos
Apesar da relevância econômica, Bab el-Mandeb enfrenta instabilidade provocada por ataques houthis. As ações na região aumentam os riscos para embarcações e podem alterar rotas utilizadas pelo comércio internacional.
Para os países localizados na costa africana, a insegurança representa um obstáculo às possibilidades de ampliar receitas relacionadas à circulação marítima. Mazuze avalia que os ataques podem reduzir potenciais ganhos financeiros do Djibuti e da Eritreia associados à posição estratégica da região.
O cenário ocorre paralelamente às tensões envolvendo o estreito de Ormuz, outra passagem marítima de importância para o comércio de energia. A instabilidade em diferentes pontos de conexão entre o Oriente Médio, o Mar Vermelho e o oceano Índico aumenta a atenção internacional sobre o Chifre da África.
Eritreia mantém contencioso com a Etiópia
A situação da Eritreia apresenta características distintas daquelas observadas no Djibuti. O país tornou-se independente da Etiópia em 1993, após décadas de conflito, e mantém relações tensas com o governo de Adis Abeba.
A independência alterou o acesso etíope ao litoral. Entre as consequências está a perda do acesso ao porto de Assab, localizado na Eritreia. De acordo com a análise apresentada na reportagem, o porto atualmente possui utilização limitada e não representa impacto comercial significativo para Asmara.
A relação entre Eritreia e Etiópia permanece como um dos fatores de atenção no entorno do Bab el-Mandeb. Mazuze mencionou declarações anteriores de autoridades etíopes sobre a possibilidade de utilização da força para recuperar o acesso ao porto, indicando a existência de um contencioso territorial e estratégico.
Djibuti abriga bases militares de potências internacionais
No Djibuti, a dinâmica geopolítica é marcada pela presença de bases militares de Estados Unidos, China, França, Japão e Itália. A concentração de forças estrangeiras transforma o país em um ponto de interesse para diferentes potências que atuam no Mar Vermelho, no golfo de Áden e no entorno do oceano Índico.
Para Charles Pennaforte, professor de geopolítica e relações internacionais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a presença dessas bases proporciona retorno financeiro ao Djibuti e reduz sua vulnerabilidade a determinadas formas de pressão externa.
Ao mesmo tempo, a convivência de países com interesses estratégicos distintos cria desafios para o governo djibutiano. Segundo Pennaforte, a presença simultânea de diferentes potências pode aumentar a exposição do país às crises internacionais, embora também represente uma fonte de recursos para sua economia.
Presença militar amplia peso estratégico do Djibuti
A posição do Djibuti não se limita ao controle indireto das proximidades de Bab el-Mandeb. O território está localizado no Chifre da África, próximo ao Oriente Médio e às principais rotas que conectam o Mar Vermelho ao oceano Índico.
Durante a análise, Mazuze recorreu ao pensamento do estrategista naval norte-americano Alfred Thayer Mahan, associado à importância do domínio marítimo para a projeção de poder internacional. Nesse contexto, a localização do Djibuti representa uma combinação de acesso geográfico e presença militar estrangeira.
Pennaforte considera que Djibuti e Eritreia ganharam importância como peças do tabuleiro geopolítico internacional em razão das tensões no Oriente Médio. O fechamento do Bab el-Mandeb, segundo o professor, poderia agravar as consequências econômicas e estratégicas dos conflitos na região.
Fechamento do estreito teria impacto nas rotas internacionais
A interrupção da navegação pelo Bab el-Mandeb obrigaria embarcações a buscar alternativas para transportar mercadorias entre o oceano Índico, o Mar Vermelho e a Europa. A mudança poderia aumentar distâncias, custos logísticos e tempo de transporte.
O impacto seria particularmente relevante para produtos e matérias-primas que dependem das rotas marítimas entre Ásia, Oriente Médio, África e Europa. A importância da passagem decorre justamente de sua capacidade de concentrar fluxos comerciais em uma conexão geográfica relativamente estreita.
Nesse cenário, a estabilidade do estreito interessa não apenas aos países diretamente localizados em suas margens, mas também às potências militares e aos mercados que dependem das rotas marítimas. A segurança de Bab el-Mandeb tornou-se, portanto, parte do debate sobre o funcionamento do comércio internacional e sobre a distribuição de poder no entorno do Mar Vermelho.
Djibuti e Eritreia podem ampliar relevância internacional
A evolução das tensões no Oriente Médio pode produzir efeitos diferentes para Djibuti e Eritreia. O primeiro já possui uma estrutura consolidada de bases militares estrangeiras e infraestrutura associada às atividades logísticas, enquanto a Eritreia mantém questões estratégicas relacionadas à Etiópia e ao acesso a seus portos.
Para Pennaforte, os dois países podem obter maior entrada de recursos e maior atenção dos países ocidentais caso a relevância estratégica da região continue crescendo.
O quadro, entretanto, também envolve riscos. A concentração de interesses militares, comerciais e territoriais em torno do Bab el-Mandeb faz com que alterações no equilíbrio regional possam atingir diretamente os países africanos localizados em sua margem. Assim, Djibuti e Eritreia passaram a desempenhar papel mais relevante na dinâmica geopolítica do Mar Vermelho, enquanto a segurança da passagem permanece ligada ao comércio internacional e às disputas de poder no Oriente Médio.
*Com informações da Sputnik News.








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