Brasil cobra proposta concreta dos EUA enquanto negociações sobre tarifaço avançam lentamente

O governo brasileiro retomou as negociações com os Estados Unidos para tentar reduzir as tarifas aplicadas a produtos nacionais, mas não espera avanços rápidos. Washington mantém sobretaxas que podem elevar a alíquota total sobre determinados produtos brasileiros a 37,5%, enquanto Brasília aguarda uma proposta concreta dos negociadores norte-americanos para definir as condições de uma possível revisão das medidas.

As tarifas adicionais de 25% e 12,5% foram justificadas pelo governo dos Estados Unidos como resposta a práticas brasileiras que, segundo Washington, restringiriam o comércio e à falta de fiscalização relacionada a produtos associados ao trabalho forçado. A avaliação dos negociadores brasileiros é que avanços mais concretos podem ocorrer somente após as eleições de outubro.

O próximo passo está previsto para segunda-feira (31/08/2026), quando o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, deverá se reunir com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. O encontro deverá inaugurar uma agenda técnica destinada a reorganizar as negociações entre os dois países.

Brasil quer conhecer exigências dos Estados Unidos

Brasília espera que os assessores do presidente norte-americano Donald Trump apresentem uma proposta inicial indicando quais medidas o governo brasileiro teria de adotar para permitir o avanço das tratativas. A estratégia é obter maior clareza sobre as exigências de Washington antes de discutir concessões comerciais específicas.

Antes da adoção do tarifaço, etanol e produtos agrícolas estavam entre os principais temas das negociações. O governo brasileiro admite discutir uma redução da alíquota incidente sobre o etanol norte-americano caso os Estados Unidos ampliem o acesso do açúcar brasileiro ao mercado norte-americano.

Atualmente, o açúcar brasileiro possui uma cota anual de 155 mil toneladas com tarifa reduzida. Fora desse volume preferencial, a cobrança pode chegar a 100%, segundo as informações apresentadas na reportagem. O Brasil, maior produtor mundial de açúcar, considera limitada a quantidade atualmente contemplada pelo regime de tarifa reduzida.

Açúcar e etanol podem entrar no centro das tratativas

A eventual negociação entre açúcar e etanol dependerá das condições apresentadas pelos Estados Unidos. Para o Brasil, a ampliação do acesso ao mercado norte-americano para o açúcar poderá ser utilizada como elemento de negociação para uma possível flexibilização das tarifas sobre o etanol dos EUA.

A reunião de 31 de agosto deverá ter caráter predominantemente preparatório. A expectativa é estabelecer os parâmetros para encontros posteriores entre equipes técnicas e ministros dos dois governos, com negociações específicas para diferentes setores da economia.

A retomada do diálogo ocorreu após uma conversa telefônica entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump em 21 de agosto de 2026. O telefonema durou aproximadamente 1 hora e 20 minutos e teve como principal tema as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.

Governo propõe negociação por setores

O Brasil pretende apresentar um roteiro setorial de negociação, começando por bens de capital e avançando posteriormente para os setores automotivo e químico. A proposta considera que as condições comerciais e os impactos das tarifas podem variar de acordo com cada segmento.

A estratégia busca ampliar gradualmente as discussões e identificar quais produtos poderiam ser incluídos em uma lista de exceções. O governo brasileiro trabalha com a possibilidade de reduzir os efeitos do tarifaço por meio de negociações específicas, sem abandonar a preparação de medidas de resposta.

Paralelamente às conversas com Washington, o governo brasileiro iniciou procedimentos relacionados à lei de reciprocidade, que prevê mecanismos de reação diante de barreiras comerciais impostas por outros países.

Lei de reciprocidade aumenta pressão sobre Washington

A legislação brasileira permite a adoção de medidas como sobretaxas e suspensão de patentes, entre outras ações, contra países que estabeleçam barreiras consideradas prejudiciais aos interesses brasileiros. A aplicação das medidas depende de análise e decisão do governo.

Interlocutores do presidente Lula avaliam que, caso não haja um acordo nos próximos meses, o processo de análise das medidas poderá ser concluído. Nesse cenário, o governo terá de decidir se utiliza os mecanismos previstos na legislação, aumentando a pressão sobre os Estados Unidos.

A posição brasileira é que as tarifas já estão em vigor e o prazo para uma solução negociada está avançando. A preparação de medidas de reciprocidade funciona, nesse contexto, como instrumento de pressão durante as negociações.

Tarifas atingem setores da indústria e do agronegócio

As medidas norte-americanas elevaram a alíquota total incidente sobre parte dos produtos brasileiros para 37,5%. Entre os setores afetados estão calçados, máquinas, madeira e açúcar, que passaram a enfrentar custos adicionais para acessar o mercado dos Estados Unidos.

Por outro lado, produtos relevantes da pauta de exportações brasileiras, como petróleo, café e carne bovina, ficaram fora da cobrança adicional. A exclusão reduz o impacto imediato das medidas sobre determinados segmentos das exportações brasileiras.

A expectativa do governo brasileiro é que a retomada das negociações técnicas permita ampliar as exceções e construir um eventual acordo para reduzir as tarifas. Até que uma proposta concreta seja apresentada pelos Estados Unidos, porém, Brasília trabalha simultaneamente com a via diplomática e com a preparação de mecanismos de reciprocidade.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading