O Brasil e a Rússia discutem novas possibilidades de cooperação em tecnologia nuclear, com foco na geração de energia, desenvolvimento científico, produção de radioisótopos e aplicações em regiões remotas. As tratativas foram apresentadas na terça-feira (04/08/2026), em Brasília, durante visita de Nikolai Patrushev, assessor do Kremlin e chefe do Colegiado Marítimo russo.
Patrushev se reuniu com o ministro da Defesa, José Mucio, e com o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Celso Amorim. Segundo o representante russo, a experiência acumulada por Moscou poderia ser utilizada pelo Brasil em projetos civis e no uso pacífico da energia nuclear.
Entre as possibilidades avaliadas estão o fornecimento de pequenas usinas nucleares e baterias atômicas, especialmente para ampliar a oferta de energia em regiões remotas, além de cooperação no ciclo do combustível nuclear e na produção de radioisótopos utilizados na medicina.
Cooperação pode alcançar o programa do submarino nuclear
Um dos setores mencionados nas discussões é o desenvolvimento do primeiro submarino nuclear brasileiro, o Álvaro Alberto (SN-10). De acordo com Patrushev, a Rússia poderia compartilhar conhecimentos adquiridos no desenvolvimento de reatores de pequena escala, tecnologia que possui possíveis aplicações tanto civis quanto navais.
Entre as tecnologias citadas estão as usinas nucleares de pequeno porte Elena-M e unidades flutuantes de geração de energia. Segundo o assessor russo, essas estruturas poderiam produzir eletricidade durante longos períodos e com menor necessidade de manutenção, inclusive em localidades afastadas dos principais centros de infraestrutura.
A eventual cooperação poderia envolver a estatal russa Rosatom e o Instituto Kurchatov, que também foi citado como possível participante de projetos conjuntos. A aproximação ocorre após a Rosatom ter apresentado, em outubro de 2025, proposta à Âmbar Energia para instalação de pequenos reatores destinados à geração de eletricidade em regiões como a Amazônia.
Transferência de tecnologia é apontada como ponto estratégico
Para Leonam dos Santos Guimarães, diretor técnico da Associação Brasileira para Desenvolvimento das Atividades Nucleares (ABDAN) e coordenador do Comitê de Ciência, Tecnologia e Inovação da Amazul, a cooperação com a Rússia poderia complementar áreas da cadeia industrial de reatores nas quais o Brasil ainda possui limitações de capacidade ou experiência.
Entre essas áreas estão engenharia de reatores avançados, fabricação e qualificação de componentes, instrumentação e controle, produção de radioisótopos, serviços relacionados ao ciclo do combustível, formação de profissionais e implantação de pequenos reatores em sistemas isolados.
Guimarães defende que a transferência de conhecimento tenha papel central em eventual acordo. Para ele, o Brasil teria interesse em incorporar capacidade tecnológica e desenvolver gradualmente produção nacional, em vez de limitar a parceria à aquisição de equipamentos ou de energia.
“Soberania nuclear não significa fazer tudo sozinho; significa não ficar tecnologicamente refém de ninguém.”
Autonomia tecnológica depende do formato da parceria
Segundo Guimarães, um eventual acordo poderia incluir transferência tecnológica, formação de engenheiros brasileiros, nacionalização progressiva da fabricação, acesso à documentação e desenvolvimento de capacidade nacional de manutenção.
A estrutura do acordo, nesse sentido, seria determinante para o impacto da cooperação sobre a autonomia tecnológica brasileira. A estratégia também poderia combinar desenvolvimento interno com a manutenção de diferentes parceiros internacionais.
A pesquisadora Astrid Cazalbón, integrante do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (Gesene), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), afirma que a cooperação nuclear entre Brasil e Rússia não partiria de uma relação inexistente. Os dois países já mantêm vínculos em diferentes áreas do setor nuclear.
Cooperação também envolve segurança energética e economia do mar
A dimensão marítima pode ganhar relevância diante da extensão da costa brasileira e da importância das atividades offshore. Segundo Cazalbón, o intercâmbio tecnológico poderia contribuir para capacidades relacionadas ao monitoramento oceânico, proteção de infraestruturas críticas e desenvolvimento de tecnologias vinculadas à economia do mar.
Os pequenos reatores também aparecem como uma das frentes de possível cooperação. A tecnologia ainda enfrenta desafios regulatórios e comerciais para uma adoção mais ampla, mas pode ser aplicada em sistemas energéticos isolados e regiões distantes das redes convencionais de transmissão.
A pesquisadora avalia que a cooperação também deve ser analisada no contexto do fortalecimento da autonomia tecnológica de países do Sul Global. Segundo ela, parcerias com países que dominam tecnologias estratégicas podem contribuir para capacitação, inovação e desenvolvimento industrial.
BRICS amplia articulação sobre energia nuclear
Um dos movimentos relacionados a essa estratégia é a Plataforma de Energia Nuclear do BRICS, criada durante a presidência russa do agrupamento. A iniciativa busca ampliar o intercâmbio tecnológico, coordenar posições sobre questões nucleares, estimular projetos conjuntos de pesquisa e fortalecer a cooperação empresarial entre os países participantes.
Para Cazalbón, a ampliação do BRICS aumenta a relevância desse tipo de articulação, considerando o peso do grupo na população mundial, na demanda por energia e na geração de eletricidade.
A aproximação entre Brasil e Rússia ocorre, entretanto, em um cenário de competição internacional por tecnologias estratégicas, cadeias produtivas e fontes de energia. A Rússia possui participação relevante no mercado mundial de energia nuclear civil e disputa espaço com empresas norte-americanas, europeias e asiáticas.
Diversificação de parceiros é apontada como estratégia brasileira
Na avaliação de Cazalbón, a ampliação da cooperação com a Rússia não precisa representar uma escolha exclusiva entre Moscou e países ocidentais. A diversificação de fornecedores e parceiros pode aumentar as alternativas disponíveis para o Brasil em áreas consideradas estratégicas.
A estratégia, segundo a pesquisadora, pode contribuir para ampliar a margem de negociação brasileira e reduzir a dependência excessiva de um único fornecedor ou grupo de países.
“Trata-se, sobretudo, da ampliação das opções disponíveis para fortalecer a soberania energética, industrial, científica e tecnológica do Brasil.”
Microrreatores podem atender regiões isoladas
Para Guimarães, a Região Norte aparece como uma das áreas com maior potencial para aplicações de microrreatores no Brasil. Segundo ele, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) identifica cerca de 200 localidades integrantes dos Sistemas Isolados, concentradas principalmente no Norte.
Nessas regiões, onde a expansão da rede elétrica convencional pode apresentar custos elevados ou limitações técnicas, os microrreatores poderiam funcionar como fontes de geração de longa duração e reduzir a necessidade de abastecimento frequente por combustíveis.
A tecnologia, porém, não seria indicada indistintamente para todas as comunidades isoladas. Segundo Guimarães, as aplicações fariam mais sentido em polos com demanda relativamente estável e elevada, como operações de mineração, instalações estratégicas, bases militares, centros industriais, grandes comunidades ou agrupamentos de cargas próximas.
Microrreatores podem reduzir dependência do diesel
Nessas situações, o custo de implantação de um microrreator poderia ser analisado em conjunto com as despesas de transporte e armazenamento de grandes volumes de diesel em áreas de difícil acesso.
A principal mudança seria substituir uma cadeia permanente de abastecimento de combustível fóssil por uma fonte capaz de operar durante longos períodos sem reabastecimento frequente. Essa possibilidade é apontada como uma das aplicações internacionais consideradas para os microrreatores.
A operação dessas estruturas em regiões remotas, contudo, também exigiria medidas específicas de segurança. O planejamento teria de considerar tanto a segurança nuclear, relacionada à prevenção de acidentes, quanto a proteção física das instalações, incluindo controle de acesso, prevenção de sabotagem, ameaças internas e segurança cibernética.
Segurança e logística são desafios para instalações remotas
Outro aspecto envolve a capacidade de resposta a emergências. A distância dos grandes centros poderia exigir estruturas específicas de comunicação, monitoramento e atendimento a incidentes.
Em modelos com núcleo selado ou módulos transportáveis, o deslocamento do equipamento ou do combustível também faria parte do sistema de segurança. Seriam necessários planejamento de rotas, monitoramento, comunicação e protocolos específicos para situações de emergência.
Assim, a discussão sobre microrreatores envolve não apenas a capacidade de gerar energia por períodos prolongados, mas também questões regulatórias, industriais, logísticas, de segurança e de transferência tecnológica. Para o Brasil, a eventual parceria com a Rússia representa uma possibilidade de ampliar o acesso a tecnologias nucleares enquanto o país busca desenvolver capacidade nacional e diversificar seus parceiros estratégicos.
*Com informações da Sputnik News.








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