Cacau rompe fronteiras no Brasil: Pará lidera produção, Bahia acelera recuperação e Cerrado atrai investimentos

A produção brasileira de cacau passa por uma transformação territorial, tecnológica e empresarial. Nesta quinta-feira (30/07/2026), dados oficiais e projeções do setor mostram que a cultura, historicamente associada ao Sul da Bahia, consolida-se no Pará, avança em Rondônia, desperta investimentos no Cerrado e começa a ocupar áreas experimentais em estados como São Paulo e Minas Gerais. A estimativa mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE — aponta uma safra nacional de 320,9 mil toneladas em 2026, crescimento de 8,9% em relação ao ano anterior, com Pará e Bahia responsáveis, juntos, por mais de 92% da produção brasileira.

Produção brasileira cresce e modifica mapa do cacau

A expansão ocorre em meio à modernização dos sistemas produtivos, à entrada de grandes grupos agrícolas e à busca por alternativas capazes de reduzir riscos climáticos, fitossanitários e econômicos. O modelo tradicional da cabruca, no qual o cacau é cultivado sob a sombra de árvores da Mata Atlântica, permanece central no Sul da Bahia. Paralelamente, ganham espaço os sistemas agroflorestais amazônicos e as lavouras irrigadas a pleno sol implantadas em áreas de Cerrado.

Segundo o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola — LSPA — divulgado pelo IBGE em junho de 2026, o país deverá colher 320.966 toneladas de cacau neste ano, ante 294.842 toneladas em 2025. A área colhida, entretanto, deverá recuar ligeiramente, de 644,2 mil para 643,2 mil hectares, enquanto o rendimento médio nacional deverá avançar de 458 para 499 quilos por hectare.

O crescimento da produção com relativa estabilidade da área evidencia a importância dos ganhos de produtividade. A incorporação de materiais genéticos mais resistentes, irrigação, adubação planejada, controle de pragas, assistência técnica e melhor manejo das lavouras tornou-se determinante para ampliar a oferta sem depender exclusivamente da abertura de novas áreas.

Pará assume liderança nacional

O Pará consolidou-se como o maior produtor brasileiro de cacau. A estimativa do IBGE indica uma colheita de 158.419 toneladas em 2026, equivalente a aproximadamente 49,4% da produção nacional. Em 2025, o estado havia produzido 153.588 toneladas.

A área paraense colhida deverá aumentar de 170,6 mil hectares para cerca de 189,1 mil hectares. O rendimento médio estimado, entretanto, recua de 900 para 838 quilos por hectare, movimento que pode refletir a entrada de novas áreas ainda em formação ou oscilações climáticas e produtivas observadas em diferentes polos.

A expansão paraense está concentrada especialmente na região da Transamazônica, onde o cacau é frequentemente cultivado em sistemas agroflorestais. Esses arranjos combinam a cultura com espécies florestais, frutíferas e outros cultivos, contribuindo para a diversificação da renda e para a recuperação de áreas anteriormente degradadas.

O Polo da Rota do Cacau da Transamazônica, criado em 2018, abrange 11 municípios e reúne aproximadamente 10 mil propriedades produtoras. A iniciativa integra políticas federais destinadas ao fortalecimento da cadeia produtiva, à melhoria da qualidade, à organização dos produtores e à ampliação do acesso aos mercados.

Bahia mantém protagonismo histórico e projeta recuperação

A Bahia, berço da principal estrutura econômica, industrial e cultural da cacauicultura brasileira, deverá produzir 137.369 toneladas em 2026, crescimento de 15,4% sobre as 119.063 toneladas registradas em 2025. A participação baiana deverá alcançar aproximadamente 42,8% do total nacional.

O avanço deverá ocorrer mesmo com uma redução estimada de 4,5% na área colhida, de 449,1 mil para 429,1 mil hectares. O rendimento médio deverá crescer de 265 para 320 quilos por hectare, aumento de 20,8%, embora o indicador ainda permaneça abaixo dos níveis registrados no Pará.

A diferença de produtividade expõe um dos principais desafios da lavoura baiana. Grande parte dos cacauais do Sul do estado é formada por plantas antigas, propriedades fragmentadas e sistemas que convivem com limitações de crédito, assistência técnica, renovação genética e controle de doenças.

A Bahia concentra aproximadamente dois terços da área brasileira destinada ao cacau, mas já não detém a liderança em volume produzido. O quadro demonstra que a dimensão territorial da lavoura, isoladamente, não assegura competitividade quando não é acompanhada por renovação das plantas, manejo adequado e investimentos permanentes.

Cabruca preserva patrimônio ambiental

O sistema cabruca continua sendo um ativo ambiental e econômico estratégico. Nele, parte da vegetação nativa da Mata Atlântica é preservada para fornecer sombra aos cacaueiros, formando uma paisagem produtiva que abriga biodiversidade e contribui para a manutenção da cobertura florestal.

Esse modelo, porém, exige manejo especializado. A elevada umidade favorece doenças fúngicas, enquanto a densidade da vegetação pode dificultar a mecanização e aumentar os custos de manutenção. A competitividade da cabruca depende, portanto, da combinação entre conservação ambiental, produtividade, qualidade das amêndoas e valorização comercial.

A produção de cacau fino, de origem controlada e com características sensoriais diferenciadas apresenta-se como uma das alternativas para remunerar melhor propriedades que não conseguem competir apenas por escala. Indicações geográficas, certificações e produção de chocolates de origem também podem agregar valor ao sistema tradicional.

Cerrado recebe lavouras irrigadas e empresariais

Enquanto o Sul da Bahia procura recuperar lavouras tradicionais, o Oeste do estado surge como uma nova fronteira baseada em sistemas irrigados, mecanização e cultivo a pleno sol. Projetos empresariais testam o comportamento do cacaueiro em ambientes mais secos, onde o controle da água e da nutrição pode elevar a produtividade.

A Schmidt Agrícola, tradicional produtora de grãos e fibras no Cerrado baiano, iniciou experimentos com cacau em 2018 e avançou para uma operação comercial. O projeto envolve investimentos estimados em cerca de R$ 270 milhões e previa alcançar até 2 mil hectares em 2026, segundo informações divulgadas pelo setor.

Outros grupos agrícolas também estudam ou implantam projetos irrigados na região. O interesse decorre da possibilidade de utilizar infraestrutura já estabelecida para produção em larga escala, como sistemas de irrigação, armazenagem, máquinas, equipes técnicas e logística integrada.

O cultivo a pleno sol, contudo, não elimina riscos. A ausência de sombreamento aumenta a exposição das plantas às altas temperaturas e pode ampliar a necessidade de irrigação, fertilizantes e controle de insetos e plantas invasoras. A viabilidade econômica dependerá do equilíbrio entre produtividade, custo de produção e preço recebido pelas amêndoas.

Tecnologia adapta manejo às novas condições

A entrada do cacau em diferentes biomas exige protocolos agronômicos específicos. Uma lavoura cultivada sob sombra na Mata Atlântica apresenta problemas distintos dos observados em sistemas irrigados do Cerrado ou em áreas agroflorestais amazônicas.

Empresas como Syngenta e Cargill desenvolveram parcerias para testar estratégias de manejo integrado de pragas e doenças em diferentes ambientes de produção. Os estudos procuram adaptar o controle fitossanitário, a nutrição e o acompanhamento das plantas às características de cada modelo agrícola.

Nas regiões úmidas, doenças provocadas por fungos permanecem entre as principais ameaças. Em áreas mais secas e abertas, ganham relevância o controle de insetos, plantas invasoras, estresse térmico e disponibilidade de água. A diversificação territorial reduz alguns riscos, mas também cria novas exigências técnicas.

O processo favorece a profissionalização da cadeia. Monitoramento climático, análise de solo, irrigação de precisão, rastreabilidade, seleção genética e processamento pós-colheita tornam-se componentes essenciais para produzir amêndoas em quantidade e qualidade compatíveis com as exigências da indústria.

Rondônia fortalece produção amazônica

Além do Pará, Rondônia amplia sua participação na cacauicultura amazônica. O polo estadual da Rota do Cacau foi instituído em 2023 e reúne 28 municípios, aproximadamente 2,3 mil propriedades e uma produção anual estimada em cerca de 5 mil toneladas, conforme informações do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.

O modelo rondoniense combina pequenas e médias propriedades, sistemas agroflorestais e iniciativas de verticalização. Parte dos produtores procura avançar da venda de amêndoas para a fabricação de chocolates, derivados e produtos artesanais.

A estratégia permite reter maior parcela da renda nas regiões produtoras, mas depende de regularidade da oferta, padronização da qualidade, assistência técnica, infraestrutura sanitária e acesso aos canais de comercialização.

São Paulo e Minas Gerais testam novas possibilidades

Em São Paulo, projetos implantados em municípios do noroeste do estado procuram demonstrar a viabilidade do cacau em áreas anteriormente dedicadas a outras culturas. Levantamentos regionais apontam crescimento das áreas experimentais, mas a produção ainda não aparece de maneira relevante no LSPA do IBGE de junho de 2026.

Os projetos paulistas associam o cultivo a sistemas irrigados, produção de chocolates artesanais e turismo rural. A proximidade dos maiores centros consumidores do país é apontada como vantagem logística, especialmente para produtos de maior valor agregado.

Em Minas Gerais, testes agronômicos também avaliam o comportamento de diferentes variedades, sistemas de sombreamento e consórcios com outras culturas. As experiências incluem áreas irrigadas no Norte do estado, mas ainda se encontram em estágio de validação técnica e comercial.

A presença do cacau nesses estados deve ser interpretada como parte de um processo de diversificação, e não como substituição imediata dos polos consolidados. Pará e Bahia continuarão concentrando a produção no médio prazo, enquanto as novas áreas precisarão demonstrar produtividade, rentabilidade e capacidade de enfrentar eventos climáticos extremos.

Oferta agrícola e processamento industrial seguem ritmos diferentes

Os números da produção agrícola não correspondem diretamente ao volume recebido ou processado pela indústria. O IBGE estima a quantidade colhida nas propriedades, enquanto a Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau — AIPC — contabiliza o recebimento de amêndoas pelas empresas e a moagem industrial.

Em 2025, as processadoras receberam 186.137 toneladas de cacau nacional, crescimento de 3,7% sobre 2024. A Bahia forneceu 112,5 mil toneladas, enquanto o Pará respondeu por 61,5 mil toneladas. No mesmo ano, a moagem caiu 14,6%, de 229.334 para 195.882 toneladas.

A indústria também ampliou a importação de amêndoas, que chegou a 42.143 toneladas, aumento de 65,2%. A diferença entre produção estimada, recebimento industrial, estoques, comércio interestadual e importações evidencia a necessidade de distinguir metodologias ao analisar o desempenho da cadeia.

Parte da produção pode permanecer nas propriedades, ser comercializada por intermediários, abastecer fabricantes artesanais ou ser contabilizada em períodos diferentes. Por essa razão, estimativas privadas e dados oficiais podem apresentar resultados distintos sem necessariamente representarem contradição direta.

Mercado mundial passa por reequilíbrio

A expansão brasileira ocorre após um período de forte instabilidade no mercado internacional. Problemas climáticos, doenças e envelhecimento das plantações na África Ocidental reduziram a oferta mundial e provocaram uma escalada histórica das cotações entre 2023 e 2024.

No fim de 2024, os preços internacionais chegaram a superar US$ 12 mil por tonelada. Ao longo de 2025 e 2026, entretanto, as cotações recuaram com a perspectiva de recuperação parcial da oferta e redução da demanda industrial.

Em 27/07/2026, o preço diário calculado pela Organização Internacional do Cacau — ICCO — estava em aproximadamente US$ 5.221 por tonelada. A entidade revisou o balanço da safra mundial 2024/2025 para um superávit de 48 mil toneladas, com produção estimada em 4,72 milhões de toneladas e moagem de 4,62 milhões.

A redução dos preços beneficia fabricantes de chocolates e derivados, mas diminui a receita dos produtores. Projetos implantados durante o período de cotações recordes precisarão demonstrar viabilidade também em ciclos de mercado menos favoráveis.

Política nacional amplia apoio à cacauicultura

A Lei Federal nº 15.337, sancionada em 08/01/2026, atualizou a Política Nacional de Incentivo à Produção de Cacau de Qualidade. A legislação ampliou o foco para produtividade, sustentabilidade, pesquisa, certificação, assistência técnica, crédito e desenvolvimento de mercados.

A norma reconhece diferentes modelos de cultivo, incluindo sistemas agroflorestais, cabruca e produção a pleno sol. Também atribui relevância à Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira — Ceplac — na prestação de assistência técnica e no apoio à pesquisa.

Em maio de 2026, o Governo Federal lançou o projeto Cacau Brasil Agrofloresta, destinado à implantação e recuperação de mais de 12 mil hectares de sistemas agroflorestais na Bahia e no Pará. Com duração prevista de quatro anos, a iniciativa mobiliza aproximadamente US$ 31 milhões, dos quais mais de US$ 23 milhões provenientes do Fundo Verde para o Clima.

O projeto pretende fortalecer produtores, recuperar áreas degradadas e capturar cerca de 5 milhões de toneladas de carbono. Seus resultados dependerão da capacidade de transformar recursos financeiros em assistência técnica contínua, infraestrutura produtiva e aumento efetivo da renda rural.

Linha do tempo da expansão do cacau no Brasil

  • 1957: o Governo Federal cria a Ceplac após uma crise de preços que afetou a lavoura baiana. A instituição passa a atuar em pesquisa, extensão rural e desenvolvimento da cadeia.
  • Fim da década de 1980 e anos 1990: a vassoura-de-bruxa dissemina-se no Sul da Bahia e contribui para uma queda prolongada da produção, agravada por preços baixos, problemas climáticos e redução dos investimentos.
  • 2018: entra em vigor a Política Nacional de Incentivo à Produção de Cacau de Qualidade, por meio da Lei nº 13.710. No mesmo ano, é instituído o Polo da Rota do Cacau da Transamazônica, no Pará.
  • 2018 a 2022: empresas agrícolas iniciam testes com cacau irrigado no Oeste da Bahia, avançando posteriormente para projetos comerciais de maior escala.
  • 2023: Rondônia passa a integrar oficialmente a Rota do Cacau, fortalecendo a organização dos produtores amazônicos.
  • 2024: restrições de oferta na África Ocidental impulsionam os preços internacionais para níveis recordes, estimulando novos investimentos em países produtores.
  • 2025: a indústria brasileira recebe 186,1 mil toneladas de amêndoas nacionais e processa 195,8 mil toneladas, enquanto as importações aumentam 65,2%.
  • 08/01/2026: a Lei nº 15.337 atualiza a política nacional e amplia os instrumentos de apoio à produtividade, à sustentabilidade, à pesquisa e à comercialização.
  • 27/05/2026: é lançado o projeto Cacau Brasil Agrofloresta, direcionado a produtores da Bahia e do Pará.
  • Junho de 2026: o IBGE estima uma safra de 320,9 mil toneladas, liderada pelo Pará, seguido pela Bahia.
  • Julho de 2026: a diversificação territorial consolida-se como uma das principais tendências da cacauicultura, com projetos no Cerrado, na Amazônia e em áreas experimentais do Sudeste.

A expansão territorial do cacau representa uma mudança estrutural, mas não elimina os problemas históricos da cadeia. A entrada de áreas irrigadas e empresariais pode elevar a produtividade e ampliar a oferta, enquanto os sistemas agroflorestais oferecem oportunidades de recuperação ambiental e inclusão produtiva. Ao mesmo tempo, a lavoura tradicional da Bahia continua dependente de renovação genética, crédito, assistência técnica e valorização comercial da qualidade e dos serviços ambientais prestados pela cabruca.

A leitura dos indicadores exige cautela. Produção agrícola, recebimento industrial, moagem, importações e projeções privadas medem etapas diferentes da cadeia. A ausência de uma plataforma nacional integrada dificulta o acompanhamento dos estoques, da origem das amêndoas e da distribuição da renda. Também permanecem sob atenção os riscos de expansão sem planejamento ambiental, dependência excessiva da irrigação, oscilações internacionais de preços e concentração do mercado comprador.

O novo mapa do cacau poderá fortalecer a posição do Brasil no mercado mundial, desde que o crescimento seja acompanhado por produtividade, rastreabilidade, qualidade e proteção ambiental. Ceplac, IBGE, governos estaduais, instituições de pesquisa, processadoras, cooperativas e produtores terão papel decisivo na consolidação das novas fronteiras. O resultado dependerá menos da simples ampliação de áreas e mais da capacidade de construir uma cadeia tecnicamente eficiente, economicamente sustentável e capaz de distribuir valor entre os diferentes territórios produtores.


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