Casas Bahia prevê 2027 pior, pede recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas e fecha 298 lojas

Na segunda-feira (17/08/2026), o presidente-executivo do Grupo Casas Bahia, Renato Horta Franklin, afirmou que a companhia trabalha com a perspectiva de que 2027 será economicamente mais difícil que 2026, especialmente para o crédito ao consumidor, um dia depois de a varejista protocolar na Justiça de São Paulo um pedido de recuperação judicial para reorganizar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. A nova etapa da reestruturação inclui o fechamento de 298 lojas, redução do quadro de empregados, concentração da operação em negócios de maior rentabilidade e busca de proteção para preservar caixa, estoques e recebíveis. O processo ocorre depois de um prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre de 2026 e de uma deterioração de liquidez que levou a auditoria independente a apontar incerteza relevante sobre a continuidade operacional da companhia.

Casas Bahia prevê crédito mais difícil e não trabalha com melhora do cenário em 2027

A avaliação sobre o próximo ano foi apresentada por Franklin durante conferência com analistas e investidores. O executivo resumiu a premissa utilizada pela administração ao afirmar: “Consideramos que 2027 será pior que 2026”. Segundo ele, o endividamento das famílias deverá permanecer elevado e mecanismos que ajudaram a sustentar o consumo em 2026 poderão produzir obrigações futuras, pressionando a capacidade de pagamento dos consumidores.

A consequência prática é uma política de crédito mais seletiva. A Casas Bahia historicamente combina varejo de móveis, eletrodomésticos e eletrônicos com financiamento direto ao consumidor. Nas demonstrações financeiras de 30/06/2026, o saldo bruto consolidado do crediário Casas Bahia alcançava R$ 6,177 bilhões, antes da apropriação de juros, enquanto as perdas estimadas de crédito representavam 13% desse saldo — acima dos 10,4% registrados em junho de 2025.

Esse vínculo entre venda e financiamento torna o grupo particularmente exposto a juros elevados, inadimplência e encarecimento do capital. No pedido judicial, a própria companhia atribui parte de suas dificuldades ao ambiente de taxas de juros elevadas, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre consumo e capital de giro. O documento também menciona a frustração de alternativas de liquidez que vinham sendo estruturadas.

Pedido de recuperação judicial envolve dez empresas do grupo

O Conselho de Administração aprovou em caráter de urgência, no domingo (16/08/2026), o ajuizamento do pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia e de nove subsidiárias. O requerimento foi protocolado perante o juízo de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo e recebeu também a aprovação do acionista controlador.

Além da companhia aberta, integram o pedido ASAP Log — Logística e Soluções Ltda.; ASAP Log Ltda.; CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística Ltda.; CNTLog Express Logística e Transporte Ltda.; Globex Administração e Serviços Ltda.; Cnova Comércio Eletrônico S.A.; Integra Soluções para Varejo Digital Ltda.; Casas Bahia Tecnologia Ltda.; e Indústria de Móveis Bartira Ltda.

O conselho também decidiu convocar uma Assembleia Geral Extraordinária para que os acionistas apreciem a ratificação da decisão tomada em caráter emergencial. A data e a proposta correspondente deverão ser divulgadas pela empresa conforme o andamento dos procedimentos societários.

O fato relevante enviado ao mercado sustenta que a recuperação judicial representa uma etapa da reestruturação financeira destinada a preservar a continuidade das atividades, reorganizar obrigações e concentrar recursos em operações mais rentáveis e com maior margem de contribuição. A empresa afirma pretender manter os canais atualmente existentes e evitar interrupções relevantes no atendimento aos consumidores.

Dívida declarada chega a R$ 17,3 bilhões e grandes bancos estão entre os credores

A relação apresentada no processo aponta aproximadamente R$ 17,3 bilhões em créditos submetidos à recuperação judicial. Segundo os dados divulgados a partir da petição, cerca de R$ 16,4 bilhões correspondem a credores sem garantia real, enquanto aproximadamente R$ 754 milhões estão associados a créditos trabalhistas e outros R$ 154 milhões pertencem a microempresas e empresas de pequeno porte.

Entre os maiores credores mencionados estão o Banco Digio, do Grupo Bradesco, com aproximadamente R$ 3,28 bilhões; Banco do Brasil, com R$ 2,99 bilhões; Zurich, com R$ 1,98 bilhão; e Bradesco, com cerca de R$ 1,5 bilhão. A lista inclui ainda fornecedores estratégicos de eletroeletrônicos e eletrodomésticos, como Samsung, Whirlpool, Electrolux e LG, com créditos de centenas de milhões de reais.

Há, além disso, obrigações classificadas como extraconcursais, não submetidas da mesma forma ao plano. A petição mencionada pela Folha aponta aproximadamente R$ 10,99 bilhões nessa categoria e uma exposição agregada superior a R$ 27,8 bilhões quando consideradas também essas obrigações. A classificação jurídica de cada crédito será relevante para determinar quais valores estarão sujeitos às condições do plano de recuperação.

O simples protocolo do pedido não se confunde com a concessão da recuperação judicial. Pela Lei nº 11.101/2005, é o deferimento do processamento que produz efeitos específicos previstos na legislação, entre eles a suspensão, por 180 dias, de determinadas execuções e constrições relativas aos créditos sujeitos ao regime, admitida prorrogação excepcional uma única vez nas condições legais.

Após eventual deferimento, a companhia terá prazo legal de 60 dias, contado da publicação da decisão, para apresentar seu plano de recuperação, contendo os meios propostos para a reorganização, demonstração de viabilidade econômica e laudo econômico-financeiro e de avaliação dos ativos.

Empresa pede medidas para preservar caixa, recebíveis e mercadorias

Na petição inicial, o grupo solicita medidas de urgência destinadas a impedir uma interrupção abrupta das atividades. Uma das principais preocupações relatadas é o risco de vencimento antecipado de mais de R$ 10 bilhões em contratos financeiros e comerciais.

Segundo a versão apresentada pela empresa à Justiça, retenções de garantias vinculadas a recebíveis de cartão de crédito e Pix poderiam consumir até 60% das entradas mensais de caixa, comprometendo a continuidade do negócio. O grupo pede, por isso, a manutenção do fluxo regular desses recebíveis e a vedação de determinadas antecipações contratuais enquanto tramita o processo.

A Casas Bahia também solicitou providências relacionadas à entrega de mercadorias já adquiridas e em trânsito com fornecedores e pediu a liberação de mais de R$ 750 milhões depositados em processos trabalhistas anteriores, com a finalidade declarada de reforçar o caixa operacional. Essas são pretensões da companhia e dependem de apreciação judicial; não devem ser tratadas como medidas já concedidas apenas em razão do protocolo do pedido.

Prejuízo de R$ 10,1 bilhões acelera deterioração financeira

O pedido veio imediatamente após a divulgação das demonstrações financeiras referentes ao trimestre encerrado em 30/06/2026. O Grupo Casas Bahia registrou prejuízo líquido consolidado de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre, ante perda de R$ 555 milhões no mesmo período de 2025. No acumulado dos primeiros seis meses de 2026, o resultado negativo alcançou R$ 11,181 bilhões.

Parte substancial do resultado trimestral decorreu de efeitos contábeis não recorrentes. Segundo a companhia, aproximadamente R$ 9,1 bilhões do prejuízo decorreram de itens sem impacto de caixa no trimestre. Sem esses efeitos, o resultado líquido ajustado teria permanecido negativo em aproximadamente R$ 978 milhões. Entre os principais componentes esteve uma baixa de cerca de R$ 5,7 bilhões em tributos diferidos, além de efeitos relacionados ao redimensionamento operacional e à revisão das projeções futuras.

A magnitude da perda contábil não significa que R$ 10,1 bilhões tenham saído do caixa no trimestre. A distinção é fundamental. Ao mesmo tempo, o prejuízo ajustado, o custo financeiro e os problemas de liquidez mostram que a crise não se limita a um lançamento contábil extraordinário. A própria administração reconheceu a necessidade de reestruturar passivos e preservar capital de giro.

A receita consolidada do segundo trimestre foi de aproximadamente R$ 6,98 bilhões, ligeiramente superior aos R$ 6,87 bilhões registrados no mesmo período de 2025. O contraste entre vendas relativamente estáveis e perdas financeiras evidencia que o desafio central passou a envolver estrutura de capital, liquidez, financiamento e capacidade de transformar a operação comercial em geração sustentável de caixa.

Auditoria aponta incerteza relevante sobre continuidade operacional

O relatório de revisão das informações financeiras intermediárias acrescentou um elemento de atenção. A Ernst & Young — EY não expressou conclusão sobre as demonstrações intermediárias de junho de 2026 por considerar insuficientes os procedimentos disponíveis diante da relevância das incertezas relacionadas à continuidade operacional.

A auditoria registrou, entre outros elementos, o prejuízo acumulado de R$ 11,181 bilhões no primeiro semestre, um excesso do passivo circulante sobre o ativo circulante consolidado de aproximadamente R$ 7,837 bilhões e patrimônio líquido negativo de R$ 8,270 bilhões em 30 de junho. Segundo o relatório, esses fatores podem levantar dúvida significativa sobre a capacidade de continuidade operacional e tornam o êxito das medidas financeiras e operacionais da administração decisivo para a avaliação futura da companhia.

A abstenção de conclusão não equivale, tecnicamente, à declaração de que a empresa necessariamente encerrará suas atividades. Ela indica que a auditoria não reuniu base suficiente para expressar uma conclusão sobre as informações intermediárias diante das incertezas existentes. A evolução da recuperação judicial, da liquidez e do plano de reestruturação será determinante para avaliações posteriores.

Captação internacional frustrada restringiu alternativas de liquidez

As próprias demonstrações financeiras ajudam a explicar por que o grupo decidiu reduzir sua dimensão física. A administração informou que limites de crédito concedidos por seguradoras aos fornecedores não avançaram como esperado, refletindo maior seletividade no financiamento ao varejo. Em paralelo, uma operação de captação internacional que havia alcançado estágio avançado não foi concluída nas condições e no cronograma originalmente previstos.

A combinação entre crédito mais restrito, captação frustrada, custo de capital elevado e consumo pressionado levou a companhia a reduzir compras de estoques. Essa estratégia preserva caixa no curto prazo, mas também implica menor escala operacional, razão apresentada pela administração para a denominada Fase 2 do Plano de Transformação.

O grupo pretende concentrar capital em canais e categorias que apresentem maior margem, rentabilidade e retorno econômico, reduzindo o volume de negócios incapazes de remunerar adequadamente o capital empregado. No comércio eletrônico, Franklin afirmou que o objetivo será priorizar margens em vez de perseguir crescimento de vendas sem rentabilidade.

Essa política também alcança os marketplaces. O executivo classificou essas plataformas como instrumentos importantes do ajuste digital. A Casas Bahia mantém, desde 2025, uma parceria comercial com o Mercado Livre, relação que ganha relevância em um cenário de retração da estrutura física e busca de maior eficiência no comércio eletrônico.

Fechamento de 298 lojas reduz quase 30% da rede

A segunda fase da transformação teve como medida de maior impacto visível o fechamento de 298 estabelecimentos. O número corresponde a aproximadamente 29% das 1.034 lojas que o grupo apresentava ao fim de junho de 2026. A administração informou ter selecionado unidades considerando desempenho operacional, capital necessário e retorno econômico diante do custo de financiamento.

Franklin afirmou que o movimento foi organizado em “onda única”, levando em conta a possibilidade de uma deterioração adicional do ambiente econômico em 2027. Segundo ele, a empresa buscou retirar do portfólio as unidades de pior desempenho, descritas pelo executivo como “todas as lojas que estavam na UTI”.

A dimensão atual supera amplamente os ajustes graduais realizados desde o início do Plano de Transformação. Reportagem anterior do Jornal Grande Bahia registrou que a empresa encerrou 2023 com 1.078 unidades, 2024 com 1.064 e 2025 com 1.042, antes da aceleração dos fechamentos em agosto de 2026.

Número de demissões passou de estimativas iniciais para cerca de 3 mil no pedido judicial

As primeiras informações divulgadas entre 13 e 15/08/2026 apontavam aproximadamente 1,9 mil desligamentos associados à onda de fechamento das lojas. Naquele momento, o próprio JGB registrou que o número poderia chegar a 3 mil, mas destacou que a estimativa ainda não havia sido oficialmente detalhada.

Com a apresentação do pedido judicial, surgiu uma informação mais abrangente: a petição relata cerca de 3 mil demissões, dentro de um quadro de aproximadamente 30.117 empregados. O dado mais recente, portanto, amplia a dimensão da redução de pessoal em relação às estimativas inicialmente divulgadas.

Franklin afirmou na conferência de segunda-feira que a companhia optou por concentrar o ajuste e não trabalha, dentro da configuração atual do plano, com uma nova rodada de fechamento de lojas ou desligamentos. Trata-se, porém, de uma expectativa administrativa condicionada ao desempenho futuro da recuperação e do cenário econômico, e não de uma garantia de que novos ajustes serão impossíveis.

Sindicatos contestam processo de demissão em massa

A redução de pessoal abriu uma frente trabalhista paralela à crise financeira. O Sindicato dos Comerciários de São Paulo anunciou intenção de questionar judicialmente as demissões coletivas, sustentando que não houve negociação sindical prévia. A entidade informou que pretende discutir a relação de trabalhadores atingidos, verbas rescisórias, possibilidade de realocação e manutenção temporária de benefícios.

Na Bahia, o Sindicato dos Comerciários de Salvador também relatou ter recebido informações de empregados surpreendidos por encerramentos de unidades e dispensas e anunciou acompanhamento jurídico. Na reportagem publicada pelo JGB em 15 de agosto, a entidade ainda não dispunha da quantidade consolidada de lojas ou empregados atingidos na capital baiana.

Uma reunião entre representantes da Casas Bahia e do sindicato paulistano estava prevista para a terça-feira (18/08/2026), às 10 horas. As alegações sindicais sobre ausência de negociação constituem a versão das entidades e dependerão de eventual manifestação empresarial, negociação coletiva e, se judicializadas, decisão do Poder Judiciário.

Recuperação extrajudicial de 2024 não resolveu definitivamente a estrutura financeira

A crise atual não surgiu de forma repentina. Em 10/08/2023, a então Via, posteriormente rebatizada como Grupo Casas Bahia, iniciou um amplo Plano de Transformação voltado a corte de despesas, redução de estoques, revisão do crediário e fechamento de lojas deficitárias.

Em 28/04/2024, a empresa apresentou um pedido de recuperação extrajudicial abrangendo aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas. O acordo, previamente apoiado por credores representando 54,5% dos débitos submetidos, ampliou o prazo médio das obrigações de 22 para 72 meses e reduziu o custo de CDI mais 2,7% para CDI mais 1,2%. A projeção divulgada à época estimava preservação de R$ 4,3 bilhões em caixa até 2027.

A reestruturação produziu modificações importantes no perfil da dívida, mas não eliminou a dependência de financiamento, capital de giro e geração recorrente de caixa. O agravamento das condições de crédito e o insucesso de novas fontes de liquidez levaram o grupo, pouco mais de dois anos depois, a recorrer a um processo judicial mais abrangente.

Mapa Capital controla Casas Bahia desde 2025

A atual crise também ocorre sob uma estrutura acionária diferente daquela historicamente associada à família Klein, fundadora da Casas Bahia. A família não detém atualmente o controle da companhia.

O controlador é a gestora Mapa Capital, por meio da Domus VII Participações. Em 17 de agosto de 2026, a Domus possuía aproximadamente 832,4 milhões de ações, equivalentes a 82,11% do capital. Os demais acionistas reuniam cerca de 17,88%.

A mudança de controle ocorreu em 2025 depois que a Mapa adquiriu cerca de R$ 1,6 bilhão em debêntures anteriormente detidas por Banco do Brasil e Bradesco e converteu os títulos em participação acionária. Naquele momento, a gestora chegou a deter aproximadamente 85,5% das ações.

A família Klein permanece representada na governança por Raphael Klein, neto do fundador Samuel Klein, integrante do Conselho de Administração e de comitês corporativos. A presença no colegiado, porém, não equivale ao controle societário.

Mercado reage com queda de 33% das ações

A combinação entre prejuízo bilionário, pedido de recuperação judicial e dúvidas sobre liquidez provocou reação intensa na Bolsa. Na segunda-feira, 17/08/2026, as ações BHIA3 encerraram o pregão em queda de aproximadamente 33%, cotadas a R$ 0,45. Durante o dia, chegaram a recuar cerca de 36%, para R$ 0,42.

A Reuters informou que analistas do JPMorgan enxergaram no pedido da Casas Bahia um sinal de atenção também para outras varejistas brasileiras com necessidade de refinanciar passivos. A comparação deve ser feita com cautela, porque estrutura de dívida, liquidez, garantias, rentabilidade e modelo de negócios diferem entre empresas.

No mesmo fim de semana, a Lojas Marabraz também ingressou com pedido de recuperação judicial em São Paulo, em processo associado a aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas. A coincidência temporal reforça a pressão existente em segmentos do varejo dependentes de crédito, embora não prove que os diferentes processos tenham a mesma origem ou estrutura financeira.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 10/08/2023: a então Via apresenta seu Plano de Transformação, prevendo redução de estoques, revisão de crédito e fechamento de lojas deficitárias; começa uma reorganização que se estenderia pelos anos seguintes.
  • 28/04/2024: Grupo Casas Bahia pede recuperação extrajudicial para aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas, com apoio prévio de credores relevantes e alongamento do perfil financeiro.
  • 08/05/2024: atualização do Plano de Transformação registra 57 lojas fechadas e readequação de cinco centros de distribuição.
  • 2025: conversões e renegociações de debêntures levam a Mapa Capital ao controle do grupo; a família Klein deixa de ser controladora.
  • Primeiro trimestre de 2026: a empresa registra prejuízo líquido de aproximadamente R$ 1,064 bilhão, apesar do crescimento da receita e de indicadores operacionais.
  • 30/06/2026: encerramento do segundo trimestre; as demonstrações posteriormente registrariam patrimônio líquido negativo de R$ 8,270 bilhões e prejuízo acumulado de R$ 11,181 bilhões no semestre.
  • 13 e 14/08/2026: começam a ser divulgados desligamentos em massa e encerramentos de unidades; a estimativa inicial aponta aproximadamente 1,9 mil demissões, posteriormente ampliada no pedido judicial.
  • 15/08/2026: demonstrações financeiras intermediárias são assinadas; a EY registra abstenção de conclusão diante de incerteza relevante associada à continuidade operacional.
  • 16/08/2026: o grupo divulga prejuízo de R$ 10,117 bilhões no 2T26; Conselho de Administração aprova e protocola o pedido de recuperação judicial em São Paulo, envolvendo a companhia e nove subsidiárias.
  • 17/08/2026: Renato Franklin participa de conferência com analistas, afirma que a empresa trabalha com cenário de 2027 pior que 2026 e defende maior seletividade na concessão de crédito. No mesmo dia, BHIA3 encerra o pregão em queda de aproximadamente 33%.
  • 18/08/2026: estava prevista reunião entre representantes da companhia e o Sindicato dos Comerciários de São Paulo para tratar das demissões, verbas rescisórias e situação dos empregados atingidos.

A recuperação judicial representa uma mudança qualitativa na crise do Grupo Casas Bahia. Desde 2023, a companhia vinha tentando reduzir estoques, cortar despesas, fechar unidades deficitárias e reorganizar dívidas por mecanismos privados ou extrajudiciais. O novo pedido demonstra que essas medidas, embora tenham alterado o perfil de endividamento, não foram suficientes para assegurar liquidez em um ambiente de juros elevados e financiamento mais restrito. A dificuldade está menos ligada à ausência absoluta de vendas e mais à capacidade de financiar estoques, fornecedores, crédito ao consumidor e obrigações financeiras sem consumir a geração operacional.

O prejuízo de R$ 10,1 bilhões exige leitura cuidadosa porque aproximadamente R$ 9,1 bilhões correspondem, segundo a empresa, a efeitos contábeis não recorrentes sem desembolso imediato de caixa. Essa característica impede interpretar todo o resultado como uma saída financeira ocorrida no trimestre. Por outro lado, o prejuízo ajustado, o patrimônio líquido negativo, a diferença entre ativos e passivos circulantes e a abstenção de conclusão da EY mostram que existe uma questão concreta de liquidez e continuidade operacional que não pode ser reduzida a efeitos meramente contábeis.

A dimensão pública do caso alcança diferentes grupos. Credores financeiros e fornecedores precisarão definir sua posição diante do plano; trabalhadores e sindicatos acompanharão as consequências das demissões e o pagamento de obrigações; consumidores dependem da manutenção das entregas, garantias e serviços; acionistas enfrentam forte destruição de valor; e o Judiciário terá de avaliar os pedidos de proteção, a classificação dos créditos e, posteriormente, a viabilidade da reorganização. A previsão de um 2027 mais restritivo também revela como crédito caro e endividamento das famílias podem atingir de forma especialmente severa modelos varejistas apoiados em financiamento ao consumidor.

O ponto decisivo, portanto, será a capacidade do Grupo Casas Bahia de transformar a recuperação judicial em uma estrutura de capital sustentável, e não apenas em adiamento de obrigações. Os próximos marcos serão as decisões do juízo sobre o processamento e as medidas urgentes, a apresentação do plano no prazo legal após eventual deferimento, a reação dos credores, o abastecimento das lojas remanescentes, a evolução do crédito ao consumidor e o resultado da negociação trabalhista. O episódio possui relevância nacional porque envolve uma das marcas mais tradicionais do varejo brasileiro, bilhões de reais em créditos, dezenas de milhares de trabalhadores e uma rede de fornecedores e consumidores cuja estabilidade dependerá da execução efetiva da reestruturação.


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