O primeiro debate televisionado entre os candidatos ao Governo da Bahia nas eleições de 2026, realizado no domingo (09/08/2026) pela Band Bahia, em Salvador, reuniu o governador Jerônimo Rodrigues (PT), o ex-prefeito da capital ACM Neto (União Brasil) e Ronaldo Mansur (PSOL) em um confronto marcado por propostas e críticas sobre feminicídio, segurança pública, saúde, regulação hospitalar, educação, infraestrutura, meio ambiente e funcionalismo estadual. Mediado pela jornalista Carolina Rosa, o encontro também evidenciou as diferentes estratégias eleitorais dos concorrentes e a disputa em torno da relação política com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Primeiro debate estabelece os eixos centrais da campanha
O programa foi transmitido pela televisão, pelo canal da Band Bahia no YouTube, pelo BandPlay, pela BandNews FM Salvador e por mais de 35 emissoras de rádio do interior. Segundo a organização, a rede de transmissão permitiu que o confronto fosse acompanhado nos 417 municípios baianos. Pouco antes do início, marcado para as 20 horas, o canal da emissora no YouTube registrava cerca de 5 mil espectadores simultâneos.
A Band adotou como critério para participação a representação mínima de cinco parlamentares no Congresso Nacional pelo partido ou pela federação do candidato. Por essa regra, participaram Jerônimo Rodrigues, ACM Neto e Ronaldo Mansur. Os candidatos Aroldo Félix (UP) e José Estêvão (DC) não integraram o debate e, conforme anunciado pela emissora, deverão participar de entrevistas em programas da Band Bahia durante agosto e setembro.
A dinâmica foi dividida em três blocos. O primeiro reuniu uma pergunta comum e confrontos diretos; o segundo apresentou questionamentos formulados por jornalistas, seguidos de nova rodada entre os concorrentes; e o terceiro foi orientado por assuntos que apareciam entre os mais comentados nas buscas e nas plataformas digitais. Ao final, cada candidato teve dois minutos para apresentar suas considerações.
Feminicídio abre debate com propostas distintas
A primeira pergunta tratou da violência contra a mulher. A Band mencionou dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, segundo os quais o país registrou novo crescimento dos feminicídios em 2025. A emissora destacou uma média nacional de aproximadamente quatro vítimas por dia e informou que a Bahia contabilizou 102 feminicídios, aparecendo na quarta posição em números absolutos. Os dados completos podem ser consultados no Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
ACM Neto apresentou o programa Volta por Cima, pelo qual pretende conceder apoio financeiro por até 24 meses a mulheres de baixa renda vítimas de violência doméstica. Segundo o candidato, o auxílio seria acompanhado de qualificação profissional, orientação para o empreendedorismo e medidas de inserção no mercado de trabalho, com o objetivo de reduzir a dependência econômica que frequentemente mantém a vítima próxima do agressor.
O candidato do União Brasil também prometeu ampliar o funcionamento das delegacias especializadas, reforçar a investigação dos crimes e adotar monitoramento eletrônico de agressores após o cumprimento da pena. A proposta, segundo ele, integra uma política destinada a combinar proteção social, autonomia financeira e resposta penal.
Jerônimo Rodrigues defendeu a continuidade das ações desenvolvidas pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia e propôs ampliar a presença institucional da política de proteção nos municípios. A meta apresentada foi estimular a criação de secretarias, coordenações ou estruturas locais capazes de articular o atendimento nos 417 municípios.
O governador também destacou a Ronda Maria da Penha e o programa educacional Me Respeite, desenvolvido na rede estadual. Segundo ele, o enfrentamento à violência deve começar na formação das crianças e dos adolescentes, com ações pedagógicas dirigidas não apenas às meninas, mas sobretudo aos meninos, para combater padrões culturais relacionados ao machismo.
Ronaldo Mansur, por sua vez, defendeu a ampliação das Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher e o funcionamento dessas unidades durante 24 horas por dia. O candidato do PSOL também propôs assistência médica e psicológica às vítimas e aos seus familiares, além de políticas educacionais destinadas a enfrentar as raízes culturais da violência de gênero.
Educação mobiliza propostas sobre escolas integrais e professores
O primeiro confronto direto ocorreu entre Jerônimo Rodrigues e Ronaldo Mansur. O governador questionou o adversário sobre as medidas necessárias para ampliar a educação em tempo integral. Mansur respondeu que a expansão da jornada precisa ser acompanhada de infraestrutura adequada, qualificação continuada dos professores, valorização salarial e atividades de cultura, esporte e lazer.
O representante do PSOL também defendeu a realização de concursos públicos e criticou a contratação temporária de professores pelo Regime Especial de Direito Administrativo (Reda). Segundo Mansur, a instabilidade contratual dificulta o planejamento profissional e compromete a continuidade das políticas educacionais. Ele ainda se posicionou contra mecanismos de aprovação automática.
Jerônimo afirmou que pretende universalizar gradualmente a educação em tempo integral e profissional nos municípios baianos, fortalecer as universidades estaduais e ampliar a cooperação com as prefeituras. O governador mencionou convênios destinados à construção ou melhoria de quase 500 escolas e creches, mas não detalhou, durante o debate, cronograma, valores ou divisão dos investimentos.
ACM Neto aproveitou a discussão para questionar os resultados da educação estadual, citando o desempenho da Bahia no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Como alternativa, apresentou o Provão Bahia, processo seletivo específico para estudantes que tenham cursado os três anos do ensino médio na rede estadual disputarem vagas nas universidades mantidas pelo Estado.
O ex-prefeito também prometeu ampliar a educação profissionalizante de acordo com as características econômicas de cada região. Jerônimo rebateu as críticas ao mencionar dificuldades da educação infantil em Salvador e afirmou que o Estado ainda atende aproximadamente 65 mil estudantes que, segundo ele, poderiam estar vinculados à rede municipal.
Segurança pública concentra os confrontos mais intensos
A segurança pública ocupou parte expressiva do programa. A jornalista Maria Lorena Alves questionou Jerônimo Rodrigues sobre a presença de municípios baianos entre os mais violentos do país e sobre a cobertura ainda limitada das câmeras corporais utilizadas pela Polícia Militar.
O governador afirmou que sua administração investiu em concursos, equipamentos, delegacias, pelotões, inteligência e renovação da frota. Segundo ele, foram entregues aproximadamente 6 mil viaturas em três anos e meio. Jerônimo reconheceu que o uso das câmeras corporais ainda não alcança toda a tropa e prometeu ampliar gradualmente o programa, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário.
O petista também defendeu maior integração entre União, estados e municípios, inclusive por meio de um sistema nacional de segurança pública. Sustentou que o combate às facções deve combinar repressão policial, inteligência e presença social do poder público em territórios vulneráveis, com escolas, creches e políticas de prevenção.
ACM Neto apresentou a proposta de criação de uma Governadoria da Segurança, estrutura que reuniria o governador, comandos policiais e delegados responsáveis pelas diferentes regiões da Bahia. O objetivo, segundo o candidato, seria integrar operações, informações e recursos tecnológicos.
O candidato do União Brasil defendeu ainda aumento salarial e melhores condições de trabalho para os policiais, além do isolamento de líderes de facções em presídios de segurança máxima. Ao comentar a resposta do governador, criticou a situação do sistema prisional e afirmou que o chefe do Executivo estadual precisa assumir diretamente a coordenação da política de segurança.
Ronaldo Mansur também propôs valorização salarial, concursos públicos e ampliação dos efetivos das polícias Militar, Civil, Técnica e Científica. O candidato sustentou que as viaturas empregadas em operações contra o crime organizado precisam oferecer maior proteção aos agentes e defendeu a adoção de câmeras corporais em larga escala, tanto para resguardar os policiais quanto para assegurar transparência à população.
Saúde e regulação provocam disputa sobre responsabilidades
A saúde gerou um dos momentos mais tensos do primeiro bloco. ACM Neto questionou Jerônimo Rodrigues sobre mortes violentas e pacientes que aguardam atendimento na regulação estadual. O oposicionista mencionou casos individuais de pessoas que, conforme relatou, morreram antes de obter vaga hospitalar ou atendimento especializado.
Jerônimo respondeu que se solidariza com as vítimas e suas famílias, mas contrapôs as críticas com o balanço de investimentos realizados por sua administração. O governador declarou ter entregado 15 unidades hospitalares em três anos e meio, informou que outras oito estavam em construção e citou parcerias para implantação de hospitais municipais.
O petista também cobrou maior participação das prefeituras na atenção básica e na oferta de serviços hospitalares. Citou Salvador, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Porto Seguro ao sustentar que o funcionamento insuficiente da rede municipal aumenta a pressão sobre os hospitais estaduais.
ACM Neto acusou o governador de transferir responsabilidades e defendeu a reformulação da regulação. Uma de suas propostas é o PIC Saúde, programa pelo qual o Estado procuraria inicialmente uma vaga na rede pública e, diante da indisponibilidade em casos urgentes, financiaria o atendimento em estabelecimento privado.
As declarações sobre número de mortes na fila, tempo de espera, unidades entregues e responsabilidade administrativa foram apresentadas pelos próprios candidatos. A comprovação integral dessas afirmações exige a consulta a registros da Secretaria da Saúde da Bahia, das secretarias municipais, da Central Estadual de Regulação e dos sistemas oficiais de mortalidade e atendimento.
Planserv entra no centro da discussão sobre funcionalismo
O jornalista Víctor Pinto perguntou a ACM Neto se o candidato pretendia privatizar o Planserv, sistema de assistência à saúde dos servidores públicos estaduais. O questionamento considerou o modelo adotado durante a gestão do então prefeito em Salvador, que contratou uma operadora privada para atender o funcionalismo municipal.
Neto negou que pretenda privatizar o Planserv. Segundo ele, a proposta é ampliar a rede de clínicas, hospitais e profissionais credenciados, sobretudo no interior, com atenção especial aos aposentados, aos idosos e a áreas que enfrentam oferta limitada de atendimento, como a oncologia.
Ronaldo Mansur defendeu a manutenção do Planserv como patrimônio dos servidores e cobrou transparência administrativa, regularização dos pagamentos e recredenciamento de prestadores. Também afirmou que a telemedicina não deve substituir o atendimento presencial quando houver necessidade de exame clínico ou acompanhamento continuado.
Relação com Lula e alianças nacionais atravessam o debate
Ronaldo Mansur questionou ACM Neto em dois momentos sobre sua relação com o presidente Lula e sobre as alianças mantidas com políticos vinculados ao bolsonarismo. O candidato do PSOL associou a chapa oposicionista ao campo político do ex-presidente Jair Bolsonaro e cobrou uma definição sobre a eleição presidencial.
ACM Neto respondeu que apoia a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado e afirmou que pretende vincular seu nome às soluções para os problemas da Bahia. O ex-prefeito acusou Mansur e Jerônimo de realizarem um “jogo combinado”, lembrando que o PSOL apoiou o petista no segundo turno da eleição estadual de 2022.
Jerônimo, por sua vez, buscou nacionalizar a campanha ao defender a parceria com Lula e apresentar o ciclo de governos petistas iniciado em 2007 como responsável por investimentos estruturantes. O governador citou o metrô de Salvador, intervenções em encostas, macrodrenagem, VLT, rodoviária, estradas e equipamentos culturais.
O confronto expôs três posicionamentos distintos. Jerônimo apresentou a aliança com Lula como instrumento administrativo e eleitoral; Mansur declarou apoio à reeleição do presidente, mas manteve críticas ao governo estadual; e ACM Neto tentou afastar a discussão presidencial do centro da disputa baiana, embora tenha reafirmado sua preferência por Caiado.
Meio ambiente coloca Serra da Chapadinha em evidência
Na segunda rodada de confrontos, Jerônimo perguntou a Mansur sobre desenvolvimento sustentável e transição energética. O candidato do PSOL respondeu cobrando a criação da unidade de conservação da Serra da Chapadinha, área que, segundo ele, possui importância para o abastecimento de água e está ameaçada pela atividade mineral.
Mansur declarou que a proposta alcançaria aproximadamente 18 mil hectares em quatro municípios e relacionou a preservação da área ao abastecimento de dezenas de cidades. Também criticou desmatamentos em Salvador, projetos minerários e o que classificou como fragilidade do licenciamento ambiental.
Jerônimo informou que o processo estava sob análise da Procuradoria-Geral do Estado e assumiu o compromisso de publicar o decreto após a conclusão do exame jurídico. O governador também destacou a participação das fontes eólica e solar na matriz energética baiana e defendeu investimentos em linhas de transmissão.
BR-324, Fiol e Ponte Salvador–Itaparica geram confronto
ACM Neto questionou o governador sobre uma cratera na BR-324 e afirmou que Jerônimo havia divulgado informação incorreta ao dizer que o problema estava resolvido. O oposicionista utilizou o episódio para criticar a gestão das rodovias e mencionar atrasos em projetos como a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), o Porto Sul e a Ponte Salvador–Itaparica.
Jerônimo rejeitou a acusação e afirmou que o debate deveria preservar o respeito pessoal. Em seguida, atribuiu ao governo Lula a condução do processo de encerramento do contrato com a ViaBahia e defendeu o andamento da Fiol, do VLT e da ponte.
As trocas de acusações foram acompanhadas por críticas sobre o tom adotado pelos candidatos. A assessoria de ACM Neto solicitou direito de resposta, mas a comissão jurídica da Band considerou que a manifestação não se enquadrava nas hipóteses previstas pelas regras e negou o pedido.
Saúde, educação e economia lideram temas da internet
No terceiro bloco, a Band apresentou assuntos que apareciam entre os mais comentados na internet durante o debate. Ronaldo Mansur respondeu sobre saúde, Jerônimo Rodrigues tratou de educação e ACM Neto recebeu uma pergunta relacionada à economia.
Mansur prometeu concursos para profissionais da saúde, combate à pejotização, redução das terceirizações e descentralização da rede hospitalar. Também defendeu o fortalecimento das unidades básicas nos municípios para evitar que demandas de menor complexidade sobrecarreguem hospitais regionais.
Jerônimo reiterou a proposta de ampliar a educação integral e profissional, fortalecer as universidades estaduais e apoiar as redes municipais. Neto afirmou que pretende elaborar planos de desenvolvimento para os 27 Territórios de Identidade da Bahia, associando os investimentos públicos às vocações econômicas de cada região.
O candidato do União Brasil incluiu aeroportos, rodovias, ferrovias e portos entre as prioridades. Segundo ele, a infraestrutura deve estar vinculada a metas de crescimento econômico e geração de emprego, em lugar de intervenções isoladas ou definidas apenas pelo calendário eleitoral.
Candidatos encerram debate com mensagens dirigidas às bases
Nas considerações finais, Ronaldo Mansur apresentou sua origem popular como elemento de diferenciação e reafirmou o apoio do PSOL à reeleição de Lula. O candidato agradeceu à sua vice, Mei Reis, e anunciou que o programa de governo continuaria recebendo contribuições durante a campanha.
Jerônimo Rodrigues destacou o legado dos governos de Jaques Wagner, Rui Costa e de sua administração. Também anunciou que participaria, em 16/08/2026, do lançamento da campanha de Lula em São Paulo e, posteriormente, do primeiro comício de sua chapa em Irecê.
ACM Neto agradeceu ao candidato a vice-governador Zé Cocá e aos candidatos ao Senado João Roma e Ângelo Coronel. Em sua mensagem final, transformou a eleição em uma avaliação direta da administração estadual e apresentou sua candidatura como alternativa aos 20 anos de governos liderados pelo PT na Bahia.
No pós-debate, Jerônimo avaliou que o formato permitiu discutir diferentes visões para o Estado. Mansur destacou a visibilidade obtida por sua candidatura e prometeu aprofundar propostas nos próximos encontros. Neto afirmou ter apresentado soluções e voltou a acusar os adversários de atuarem de maneira coordenada.
Linha do tempo do debate da Band Bahia
- Antes das 20h: programação especial e pré-debate, com acompanhamento da movimentação de apoiadores e da audiência digital.
- 20h: abertura oficial, apresentação dos candidatos, das regras e dos critérios de participação.
- Primeiro bloco: pergunta comum sobre feminicídio e confrontos envolvendo educação integral, relação com Lula, violência e regulação hospitalar.
- Segundo bloco: jornalistas questionam os candidatos sobre segurança pública, câmeras corporais, valorização policial e Planserv.
- Segunda rodada direta: discussão sobre Serra da Chapadinha, alianças presidenciais, BR-324 e obras de infraestrutura.
- Terceiro bloco: saúde, educação e economia aparecem como os principais temas acompanhados pela sala digital.
- Encerramento: mensagens finais dos candidatos e entrevistas individuais no pós-debate.
O primeiro debate consolidou uma disputa estruturada em três estratégias. ACM Neto procurou transformar a eleição em um julgamento da gestão estadual e concentrar a responsabilidade pelos problemas em Jerônimo. O governador respondeu recorrendo ao legado acumulado desde 2007, à divisão de competências com os municípios e à parceria com Lula. Ronaldo Mansur buscou ocupar uma posição autônoma à esquerda, apoiando a reeleição presidencial, mas criticando simultaneamente o governo petista da Bahia e o bloco oposicionista.
Apesar da apresentação de programas identificáveis — Volta por Cima, Governadoria da Segurança, PIC Saúde, Provão Bahia, expansão da educação integral, concursos públicos e proteção da Serra da Chapadinha —, ficaram ausentes informações indispensáveis para avaliar a viabilidade das propostas, como custos, fontes de financiamento, metas anuais, indicadores de desempenho e prazos de execução. Também exigem verificação documental as afirmações sobre mortes na regulação, hospitais entregues, efetivos policiais, cobertura das câmeras corporais, resultados educacionais e andamento das grandes obras. O debate abordou segurança, saúde, educação e infraestrutura como prováveis eixos da campanha baiana.
Confira vídeo








Deixe um comentário