Dívida Pública Federal sobe 2,61% em junho de 2026, alcança R$ 9,27 trilhões e amplia peso da Selic

Nesta quinta-feira, 30/07/2026, a Dívida Pública Federal encerrou junho em R$ 9,268 trilhões, após crescer 2,61% em relação aos R$ 9,033 trilhões registrados em maio. O avanço de R$ 235,74 bilhões foi provocado principalmente pela emissão líquida de R$ 142,25 bilhões em títulos e pela incorporação de R$ 93,48 bilhões em juros. Divulgado na quarta-feira (29/07), em Brasília, o relatório do Tesouro Nacional também mostrou que os papéis vinculados à taxa Selic passaram a representar 49,32% da dívida, enquanto a reserva destinada ao pagamento dos vencimentos atingiu R$ 1,347 trilhão.

Emissões e juros explicam crescimento da dívida

As emissões da Dívida Pública Federal somaram R$ 149,59 bilhões em junho, enquanto os resgates alcançaram apenas R$ 7,33 bilhões. A diferença produziu emissão líquida positiva de R$ 142,25 bilhões, em um mês marcado por baixa concentração de vencimentos e pela necessidade de reforçar a reserva financeira do Tesouro.

A incorporação mensal dos juros acrescentou outros R$ 93,48 bilhões ao estoque. Desse total, R$ 85,16 bilhões corresponderam à dívida interna e R$ 8,32 bilhões à dívida externa. A apropriação de juros representa o reconhecimento contábil da remuneração acumulada pelos títulos, ainda que o pagamento efetivo ocorra apenas nas datas previstas em cada operação.

O impacto dos juros permanece elevado em razão do nível da taxa básica da economia. Em 17 de junho, o Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a Selic de 14,50% para 14,25% ao ano, mantendo-a, contudo, em patamar elevado. A remuneração dos títulos pós-fixados acompanha diretamente ou de forma aproximada essa taxa, o que aumenta o custo da dívida quando os juros básicos permanecem altos.

Dívida interna chega a R$ 8,92 trilhões

A Dívida Pública Mobiliária Federal interna, formada pelos títulos emitidos no mercado doméstico, avançou 2,63%, passando de R$ 8,692 trilhões em maio para R$ 8,921 trilhões em junho. Essa parcela representa 96,25% de toda a Dívida Pública Federal.

As emissões de títulos internos atingiram R$ 149,49 bilhões, ante resgates de R$ 6,14 bilhões. O resultado foi uma emissão líquida de R$ 143,35 bilhões, reforçada pela apropriação de R$ 85,16 bilhões em juros.

A diferença entre emissões e resgates foi ampliada pelo reduzido volume de títulos vencidos no período. Os vencimentos efetivos da dívida interna totalizaram somente R$ 1,45 bilhão, enquanto os demais resgates decorreram principalmente das operações do Tesouro Direto e de outras movimentações realizadas pelo órgão.

Títulos atrelados à Selic concentram emissões

Dos R$ 149,49 bilhões emitidos em títulos da dívida interna, R$ 102,57 bilhões, equivalentes a 68,61% do total, foram aplicados em papéis remunerados por taxas flutuantes. Os títulos prefixados responderam por R$ 35,46 bilhões, e aqueles corrigidos por índices de preços, por R$ 11,42 bilhões.

Nos leilões tradicionais, as Letras Financeiras do Tesouro — LFT, vinculadas à Selic — movimentaram R$ 93,83 bilhões. Os títulos prefixados LTN somaram R$ 25,74 bilhões; as NTN-B, corrigidas pelo IPCA, alcançaram R$ 5,34 bilhões; e as NTN-F, também prefixadas, totalizaram R$ 7,26 bilhões.

A procura por papéis pós-fixados tende a crescer em períodos de incerteza ou de juros elevados porque esses ativos protegem os investidores contra eventuais mudanças na política monetária. Para o Tesouro, porém, a expansão dessa modalidade aumenta a sensibilidade do custo da dívida às decisões futuras do Banco Central.

Dívida externa avança com valorização do dólar

A Dívida Pública Federal externa cresceu 2,12%, passando de R$ 340,49 bilhões para R$ 347,71 bilhões. O estoque correspondia a US$ 67,17 bilhões no encerramento de junho.

A dívida mobiliária externa representava R$ 299,95 bilhões, enquanto a dívida contratual somava R$ 47,76 bilhões. Embora tenha ocorrido resgate líquido de R$ 1,10 bilhão em obrigações externas, o valor convertido para reais aumentou principalmente em razão da valorização de 2,37% do dólar no mês.

As variações cambiais afetam diretamente o estoque expresso em moeda nacional. Mesmo sem uma nova emissão relevante no exterior, a valorização do dólar ou de outras moedas eleva o valor em reais das obrigações contratadas fora do país.

Reserva de liquidez alcança R$ 1,35 trilhão

A reserva de liquidez da dívida pública, conhecida como colchão da dívida, cresceu 11,17%, passando de R$ 1,211 trilhão em maio para R$ 1,347 trilhão em junho. Em relação ao mesmo mês de 2025, quando estava em R$ 1,030 trilhão, o aumento nominal chegou a 30,60%.

O colchão é formado por recursos reservados exclusivamente para o pagamento da dívida e por valores obtidos nas emissões de títulos. A reserva funciona como instrumento de proteção em períodos de instabilidade financeira, baixa demanda dos investidores ou concentração excepcional de vencimentos.

Com o montante acumulado, o Tesouro dispõe de recursos suficientes para cobrir aproximadamente 8,33 meses de vencimentos. O reforço da reserva decorreu, sobretudo, do volume de emissões significativamente superior aos resgates realizados durante junho.

Nos próximos 12 meses, estão previstos vencimentos de R$ 1,860 trilhão, equivalentes a 20,07% do estoque total. Desse montante, R$ 1,834 trilhão corresponde à dívida interna e R$ 26,02 bilhões à dívida externa.

Papéis ligados à Selic se aproximam do limite do plano anual

A composição da Dívida Pública Federal registrou aumento da participação dos títulos remunerados por taxas flutuantes, que passaram de 48,99% em maio para 49,32% em junho. O percentual está próximo do limite máximo de 50% estabelecido no Plano Anual de Financiamento de 2026.

Os títulos corrigidos por índices de preços reduziram sua participação de 26,26% para 25,90%. Os prefixados avançaram marginalmente de 21% para 21,04%, enquanto os papéis vinculados ao câmbio recuaram de 3,75% para 3,74%.

A composição permaneceu dentro dos intervalos definidos pelo Tesouro para o encerramento do ano:

  • Taxa flutuante ou Selic: entre 46% e 50%;
  • Índices de preços: entre 23% e 27%;
  • Prefixados: entre 21% e 25%;
  • Câmbio: entre 3% e 7%.

Os títulos prefixados oferecem maior previsibilidade porque sua remuneração é determinada no momento da emissão. Em períodos de instabilidade, entretanto, investidores costumam exigir taxas mais altas para adquirir esses papéis, o que pode levar o Tesouro a reduzir as colocações e ampliar a oferta de títulos vinculados à Selic.

Prazo médio recua e custo da dívida aumenta

O prazo médio da Dívida Pública Federal caiu de 4,07 anos em maio para 4,01 anos em junho. O prazo médio da dívida interna recuou de 3,96 para 3,90 anos, enquanto o da dívida externa passou de 6,99 para 6,93 anos.

Apesar da redução, o indicador permaneceu dentro da faixa de 3,8 a 4,2 anos estabelecida no Plano Anual de Financiamento. O prazo médio das novas emissões realizadas no mercado doméstico foi de 5,34 anos.

O custo médio acumulado da Dívida Pública Federal nos 12 meses encerrados em junho aumentou de 12,31% para 12,68% ao ano. Na dívida interna, o indicador passou de 13,09% para 13,19% ao ano. O custo das LFT, diretamente relacionado à Selic, chegou a 14,97% no mesmo intervalo.

O encurtamento do prazo médio exige que o governo retorne ao mercado com maior frequência para refinanciar obrigações. Prazos mais longos reduzem a pressão imediata sobre o caixa e geralmente refletem maior disposição dos investidores para manter recursos aplicados em títulos públicos por períodos extensos.

Instituições financeiras concentram títulos públicos

As instituições financeiras permaneceram como as principais detentoras da dívida pública interna, com 31,76% do estoque, equivalentes a R$ 2,833 trilhões. As entidades de previdência detinham 22,52%, enquanto os fundos de investimento respondiam por 22%.

Os investidores estrangeiros possuíam R$ 887,87 bilhões em títulos, mas sua participação relativa caiu de 10,14% em maio para 9,95% em junho. O valor nominal aplicado pelos não residentes aumentou R$ 6,87 bilhões, porém cresceu menos do que o estoque total da dívida, explicando a redução percentual sem que tenha ocorrido, necessariamente, retirada líquida de recursos.

O restante da carteira estava distribuído entre investidores do Tesouro Direto, com 2,94%; órgãos governamentais, com 2,75%; seguradoras, com 3,34%; e outros grupos, com 4,73%.

Os não residentes mantinham 69,42% de suas aplicações em títulos prefixados, enquanto 53,88% da carteira das entidades previdenciárias estava concentrada em papéis corrigidos por índices de preços. Essa diferença reflete estratégias distintas de proteção, rentabilidade e horizonte de investimento.

Tesouro Direto registra emissão líquida de R$ 10,1 bilhões

No segmento destinado às pessoas físicas, as emissões do Tesouro Direto somaram R$ 14,76 bilhões, contra resgates de R$ 4,66 bilhões. A emissão líquida atingiu R$ 10,10 bilhões, e o estoque do programa chegou a R$ 262,47 bilhões.

O Tesouro IPCA+ foi o título mais procurado, respondendo por 30,83% das vendas. O Tesouro Selic continuou sendo o papel de maior participação no estoque, com 35,66%. O programa encerrou junho com aproximadamente 3,69 milhões de investidores ativos, após receber 97,27 mil novos participantes no mês.

O crescimento do Tesouro Direto amplia a participação das pessoas físicas no financiamento do governo. Apesar desse avanço, o programa representa somente 2,94% do estoque da dívida interna, ainda distante da participação de bancos, fundos e entidades previdenciárias.

Projeção para o encerramento de 2026

O estoque de R$ 9,268 trilhões permanece abaixo da faixa projetada pelo Plano Anual de Financiamento para dezembro. O Tesouro estima que a dívida encerre 2026 entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões.

Em relação a dezembro de 2025, quando a dívida estava em R$ 8,635 trilhões, o aumento acumulado até junho alcançou R$ 633,30 bilhões, ou 7,33%. No primeiro semestre, a incorporação de juros somou R$ 521,03 bilhões, enquanto a emissão líquida acumulada acrescentou R$ 112,27 bilhões ao estoque.

O intervalo previsto para dezembro não constitui uma meta de endividamento obrigatório, mas uma margem de referência para que o Tesouro administre emissões, vencimentos, custos, composição e liquidez conforme as condições do mercado.

Como funciona a dívida pública

Por meio da dívida pública, o governo federal capta recursos junto a bancos, fundos, empresas, instituições previdenciárias, investidores estrangeiros e pessoas físicas. Os recursos são utilizados para refinanciar títulos vencidos e atender às necessidades financeiras previstas no Orçamento da União.

Em troca, o Tesouro se compromete a devolver o valor captado acrescido da remuneração contratada. Essa correção pode acompanhar a taxa Selic, a inflação, a variação cambial ou uma taxa prefixada.

O aumento mensal da dívida não corresponde necessariamente a uma elevação equivalente de novos gastos públicos. O estoque também cresce pela incorporação de juros, pelas oscilações cambiais e pela estratégia de emitir antecipadamente títulos para reforçar a reserva destinada aos pagamentos futuros.

Linha do tempo da Dívida Pública Federal em 2026

  • 28/01/2026: o Tesouro Nacional publica o Plano Anual de Financiamento, com previsão de estoque entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões no encerramento do ano.
  • 31/12/2025: a dívida utilizada como referência inicial de 2026 estava em R$ 8,635 trilhões.
  • 31/05/2026: o estoque alcança R$ 9,033 trilhões e supera pela primeira vez no ano a marca de R$ 9 trilhões.
  • 17/06/2026: o Banco Central reduz a Selic para 14,25% ao ano, mantendo elevado o custo dos títulos pós-fixados.
  • 30/06/2026: a dívida atinge R$ 9,268 trilhões, após emissão líquida de R$ 142,25 bilhões e incorporação de R$ 93,48 bilhões em juros.
  • 29/07/2026: o Tesouro divulga o Relatório Mensal da Dívida referente a junho, com dados de estoque, composição, custo, prazos e reserva de liquidez.

Análise

O resultado de junho demonstra que o principal ponto de atenção não está apenas no crescimento nominal da dívida, mas na combinação entre juros elevados, maior participação de títulos pós-fixados e aumento do custo médio do estoque. A concentração de 49,32% em papéis vinculados a taxas flutuantes mantém a composição dentro do Plano Anual de Financiamento, mas aproxima essa parcela do limite de 50% e aumenta a transmissão das decisões do Banco Central para as despesas financeiras do governo.

Ao mesmo tempo, a reserva de R$ 1,347 trilhão, suficiente para 8,33 meses de pagamentos, reduz o risco imediato de refinanciamento. O prazo médio de 4,01 anos e a parcela de 20,07% com vencimento em 12 meses também permanecem nas faixas previstas pelo Tesouro. Esses indicadores mostram capacidade de gestão no curto prazo, embora o vencimento de R$ 1,86 trilhão e o custo médio de 12,68% exijam acesso contínuo ao mercado e preservação da confiança dos investidores.

A evolução da dívida terá consequências sobre a disponibilidade de recursos orçamentários, o custo do crédito soberano e a margem para políticas públicas. Os próximos movimentos dependerão da estratégia de emissão do Tesouro Nacional, da trajetória da Selic definida pelo Copom e da capacidade do governo federal e do Congresso Nacional de administrar receitas, despesas e resultados fiscais. Permanecem sob atenção a composição dos títulos, o custo dos juros, o prazo médio, o volume de vencimentos e a manutenção da reserva de liquidez.


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