Documentos dos EUA revelam investigação sobre suposto OVNI em Conde, na Bahia, em 1963; apuração concluiu que relato era fabricação

Nesta sexta-feira (07/08/2026), documentos históricos disponibilizados pelo governo dos Estados Unidos revelaram novos detalhes sobre uma investigação realizada em novembro de 1963 a respeito da suposta queda de um objeto voador não identificado (OVNI) no município de Conde, no Litoral Norte da Bahia. O episódio começou com uma transmissão da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, segundo a qual uma grande esfera metálica teria caído no centro da cidade, aberto uma cratera de quatro metros e transportado um corpo humano. A informação chegou ao sistema de inteligência norte-americano, ao National Aeronautics and Space Council (NASC), ao Departamento de Estado, à representação diplomática dos EUA no Brasil e, posteriormente, foi encaminhada ao Departamento de Defesa, à Força Aérea norte-americana e à NASA. A apuração, porém, não encontrou testemunhas, destroços ou qualquer evidência material e terminou classificando a história como uma fabricação aparentemente originada no Rio de Janeiro.

Documento registra transmissão da Rádio Tupi sobre esfera metálica na Bahia

O primeiro registro conhecido da sequência documental é um informe produzido pelo Foreign Broadcast Information Service (FBIS) a partir de uma transmissão em português da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, às 23h30 de 08/11/1963. O documento, datado de 09/11/1963, afirma que informações procedentes do município de Conde diziam que uma grande esfera metálica havia caído no centro da cidade e provocado um buraco de aproximadamente quatro metros de profundidade.

A descrição registrada pelo sistema norte-americano era extraordinária. Segundo o informe radiofônico reproduzido pelo FBIS, o objeto teria aberturas semelhantes a janelas protegidas por vidro espesso e, em seu interior, haveria um corpo humano usando roupas pesadas com inscrições que não podiam ser decifradas. O texto acrescentava que a população estaria intrigada e que autoridades haviam sido comunicadas. O documento, contudo, reproduzia uma notícia transmitida pelo rádio: não apresentava fotografia do objeto, perícia, identificação de testemunha ou confirmação independente da alegada queda.

O envolvimento do FBIS ajuda a compreender como uma notícia radiofônica brasileira entrou no circuito burocrático dos Estados Unidos. Registros do National Archives mostram que o serviço tinha como função acompanhar, registrar, traduzir e analisar transmissões estrangeiras. A estrutura havia sido incorporada à CIA em 1947, o que explica a presença do episódio entre documentos ligados à inteligência norte-americana sem que isso signifique, por si só, que a CIA tenha confirmado a existência de um fenômeno extraordinário em Conde.

Conselho espacial da Presidência dos EUA pede verificação do caso

A história avançou dentro do governo norte-americano nos dias seguintes. Anotações feitas em 13/11/1963 no documento do FBIS registram uma comunicação relacionada ao National Aeronautics and Space Council, órgão vinculado ao Poder Executivo norte-americano, solicitando ao Departamento de Estado que a Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro verificasse localmente a procedência das informações. O material estava nos arquivos de Edward C. Welsh, então secretário-executivo do conselho.

A participação do NASC deve ser compreendida no contexto institucional da época. Criado pelo National Aeronautics and Space Act de 1958, o conselho reunia, entre seus integrantes previstos em lei, o presidente dos Estados Unidos, os secretários de Estado e de Defesa, o administrador da NASA e o presidente da Comissão de Energia Atômica. Tratava-se, portanto, de uma estrutura voltada à coordenação da política aeronáutica e espacial norte-americana em plena Guerra Fria e corrida espacial.

Essa dimensão institucional torna o caso historicamente relevante, mas não constitui comprovação do suposto OVNI. Os documentos mostram essencialmente a rapidez com que uma informação extraordinária divulgada pela imprensa estrangeira podia ser encaminhada para verificação por diferentes setores do governo dos EUA, especialmente quando envolvia um possível artefato aéreo ou espacial de origem desconhecida.

Embaixada consulta Washington e informação chega à NASA e à Defesa

Em 14/11/1963, a Embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro enviou um telegrama ao gabinete do secretário de Estado, em Washington, com cópia destinada ao consulado norte-americano em Salvador. O documento buscava confirmar se o entendimento das autoridades norte-americanas era de que as notícias divulgadas localmente não eram autênticas.

O telegrama retomava os principais elementos divulgados pela imprensa: um grande objeto metálico tripulado teria sido encontrado nas proximidades de Salvador por volta de 08/11/1963, haveria um tripulante morto usando uniforme ou traje semelhante a roupa espacial com inscrições incomuns e o impacto teria produzido uma cratera de aproximadamente quatro metros. A própria comunicação diplomática registrava, entretanto, que outro objeto observado na região poderia ter sido preliminarmente interpretado como um balão meteorológico, sem que qualquer artefato correspondente tivesse sido localizado no solo.

Um detalhe documental confirma que o assunto circulou para além do Departamento de Estado. No rodapé do telegrama existe a anotação de que o material foi encaminhado ao Departamento de Defesa e à NASA às 14h20 de 14/11/1963. O documento posterior de 20 de novembro acrescenta que as cópias deveriam ser encaminhadas, no âmbito da Defesa, à Força Aérea dos Estados Unidos. Esse registro comprova o compartilhamento institucional da informação, mas não uma investigação técnica da NASA em Conde nem qualquer conclusão da agência espacial sobre a natureza do suposto objeto.

Consulado em Salvador concluiu que relato havia sido fabricado

A resposta decisiva veio da Bahia. No documento diplomático A-628, datado de 20/11/1963, a Embaixada dos EUA no Rio reproduziu uma mensagem enviada pelo cônsul norte-americano em Salvador, Harold Midkiff, após consultas realizadas sobre o caso. A conclusão era de que a história do objeto estranho descendo na região de Conde havia sido aparentemente fabricada no Rio de Janeiro.

Segundo a comunicação consular, jornalistas e outras pessoas que se deslocaram à região não localizaram moradores que tivessem visto a alegada esfera. O então secretário de Segurança Pública da Bahia teria aventado a possibilidade de um balão meteorológico, mas nem mesmo esse avistamento pôde ser confirmado. O ponto central da apuração diplomática é, portanto, a ausência de evidências independentes: não houve confirmação da queda, do objeto, da cratera nem do suposto corpo humano descrito na transmissão radiofônica.

O cônsul também encaminhou à representação diplomática norte-americana recortes de dois jornais baianos: o Diário de Notícias, de 09/11/1963, e o Jornal da Bahia, de 11/11/1963. Conforme o relatório dos EUA, o primeiro registrava que o Ministério da Aeronáutica havia negado categoricamente a existência de qualquer objeto estranho em Conde. O segundo tratava o episódio de forma irônica e publicou matéria cujo título foi traduzido nos arquivos norte-americanos como “The Airship that wasn’t there”, equivalente a “A aeronave que não estava lá”.

Imprensa baiana foi ao município e não encontrou evidências

De acordo com o relato preservado pela diplomacia dos Estados Unidos, o jornalista enviado pelo Jornal da Bahia não encontrou os elementos extraordinários reproduzidos originalmente pela Rádio Tupi. O registro diplomático observa que, para o repórter, uma das curiosidades concretas da viagem havia sido conseguir transmitir um telegrama de Conde por meio de um antigo equipamento de código Morse instalado na repartição telegráfica federal.

O contraste entre a transmissão originada no Rio de Janeiro e a apuração feita em território baiano aparece como elemento fundamental de toda a documentação. Enquanto o relato inicial descrevia uma esfera, janelas, um corpo, roupas com símbolos indecifráveis e uma grande cratera, os levantamentos posteriores não encontraram testemunhas locais capazes de sustentar a narrativa.

A reportagem publicada pela CNN Brasil em 07/08/2026 também destaca que os documentos desclassificados registram o desmentido do Ministério da Aeronáutica e a conclusão consular de que a história não correspondia ao que jornalistas e autoridades encontraram em Conde. A documentação recém-divulgada, portanto, comprova a existência de uma investigação governamental sobre o relato, e não a existência do OVNI descrito na transmissão de 1963.

Documento de 20 de novembro apresenta aparente erro de data

O relatório A-628 contém ainda uma particularidade documental. Embora esteja datado de 20/11/1963, faça referência explícita ao telegrama de 14/11/1963 e tenha sido preparado e assinado naquele mesmo mês, sua linha de assunto registra o suposto avistamento como ocorrido em 08/11/1964.

O conjunto dos demais registros demonstra, entretanto, que o episódio analisado ocorreu em novembro de 1963. O documento do FBIS registra a transmissão da Rádio Tupi em 8 de novembro de 1963; o telegrama intermediário é de 14 de novembro daquele ano; e a correspondência final foi produzida em 20 de novembro. A menção a 1964 no título do A-628 é, portanto, compatível com um erro material de datilografia ou preenchimento do documento, e não com a existência de um segundo incidente no ano seguinte.

O próprio registro visual do documento reforça essa interpretação: na parte inferior do A-628 aparece a data de elaboração “11-20-63”, enquanto o conteúdo recupera sucessivamente comunicações de 9, 11 e 14 de novembro de 1963.

Linha do tempo do caso do suposto OVNI de Conde

  • 08/11/1963: a Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, transmite às 23h30 relato segundo o qual uma esfera metálica teria caído no centro de Conde, na Bahia, aberto uma cratera de quatro metros e continha um corpo humano.
  • 09/11/1963: o FBIS registra e distribui internamente a transmissão; na Bahia, o Diário de Notícias publica informação posteriormente citada pelos norte-americanos segundo a qual o Ministério da Aeronáutica negava a existência de objeto estranho em Conde.
  • 11/11/1963: o Jornal da Bahia publica reportagem sobre a inexistência da suposta aeronave após apuração no município.
  • 13/11/1963: anotações nos arquivos do National Aeronautics and Space Council registram pedido para que o Departamento de Estado consulte a Embaixada dos EUA no Rio de Janeiro e verifique as informações.
  • 14/11/1963: a Embaixada dos EUA envia telegrama a Washington e ao consulado em Salvador; às 14h20, o material é repassado ao Departamento de Defesa e à NASA. O cônsul Harold Midkiff conclui que não há confirmação local da história.
  • 20/11/1963: o relatório diplomático A-628 consolida a apuração e informa que ninguém na região havia confirmado o suposto objeto; registra ainda o desmentido do Ministério da Aeronáutica.
  • 07/08/2026: os documentos relativos ao episódio baiano aparecem entre os arquivos divulgados na nova etapa de liberação de registros norte-americanos sobre fenômenos anômalos não identificados, permitindo reconstruir documentalmente a investigação realizada 63 anos antes.

Documentos integram nova abertura de arquivos sobre OVNIs nos Estados Unidos

Os registros sobre Conde foram disponibilizados no contexto do Presidential Unsealing and Reporting System for UAP Encounters (PURSUE), iniciativa utilizada pelo governo norte-americano em 2026 para publicar documentos relacionados a Unidentified Anomalous Phenomena (UAP), denominação contemporânea empregada nos Estados Unidos para fenômenos anteriormente tratados de forma mais ampla como OVNIs. O portal oficial já havia divulgado sucessivas etapas de documentos desde 08/05/2026.

Os arquivos baianos aparecem identificados, entre outros, como EOP-UAP-D001, ligado ao material do Conselho Nacional de Aeronáutica e Espaço; DOS-UAP-D001, telegrama diplomático de 14 de novembro; e DOS-UAP-D002, relatório consolidado de 20 de novembro. Os documentos originais atualmente disponíveis no portal oficial do governo dos EUA permitem conferir tanto o relato inicial quanto a sucessão de comunicações que resultou no desmentido.

A documentação também se insere em uma tradição mais ampla de registros oficiais sobre fenômenos aéreos não identificados. No Brasil, arquivos desse tipo igualmente passaram a receber maior atenção pública nas últimas décadas. Em 01/09/2024, o Jornal Grande Bahia noticiou a disponibilização pelo Arquivo Nacional brasileiro de relatos de pilotos envolvendo objetos não identificados registrados entre 2007 e 2023, casos distintos daquele ocorrido em Conde e que precisam ser avaliados individualmente conforme as evidências disponíveis.

Guerra Fria e corrida espacial ajudam a explicar interesse norte-americano

O caso ocorreu em um período no qual informações relativas a aeronaves, foguetes, satélites, balões de observação e possíveis tecnologias desconhecidas recebiam atenção especial das estruturas de inteligência e defesa. Em 1963, Estados Unidos e União Soviética disputavam liderança tecnológica na corrida espacial, enquanto os governos de Washington acompanhavam intensamente acontecimentos políticos, militares e científicos na América Latina.

Esse contexto ajuda a explicar por que uma transmissão radiofônica aparentemente fantasiosa chegou, em poucos dias, de uma estação brasileira ao sistema de inteligência estrangeira dos EUA, ao conselho espacial da Presidência, ao Departamento de Estado, à Embaixada no Rio de Janeiro, ao consulado em Salvador, ao Departamento de Defesa e à NASA. O fluxo burocrático revela capacidade de monitoramento e verificação, mas não transforma a informação original em fato comprovado. (

Os documentos constituem também fonte histórica sobre as relações entre Brasil e Estados Unidos às vésperas das profundas mudanças políticas ocorridas em 1964. Outros arquivos norte-americanos já desclassificados demonstram que Washington mantinha acompanhamento sistemático da situação brasileira durante o governo de João Goulart e a Guerra Fria. O episódio de Conde pertence a uma área diferente — monitoramento de informações sobre fenômenos aéreos —, mas reproduz o mesmo ambiente de vigilância intensa sobre acontecimentos considerados potencialmente relevantes para os interesses norte-americanos. (

Episódio relevante para a história da imprensa

O valor histórico dos documentos divulgados em 07/08/2026 reside menos na narrativa sobre extraterrestres e mais na possibilidade de reconstruir como uma informação não confirmada percorreu estruturas de imprensa, inteligência, diplomacia, defesa e política espacial durante a Guerra Fria. Há comprovação documental de que o governo dos Estados Unidos recebeu, registrou e verificou a notícia. Não há, nos arquivos examinados, comprovação documental de que uma esfera metálica tenha caído em Conde, de que uma cratera relacionada ao episódio tenha existido ou de que qualquer corpo tenha sido encontrado.

O caso também oferece um exemplo histórico sobre a circulação de desinformação antes da internet. Uma transmissão de rádio contendo elementos extraordinários alcançou organismos do governo de uma potência estrangeira, mas a verificação realizada em campo produziu resultado oposto ao relato original. Jornalistas enviados ao município não confirmaram o acontecimento, o Ministério da Aeronáutica negou a ocorrência e o consulado norte-americano classificou a narrativa como aparentemente fabricada no Rio de Janeiro.

A divulgação dos documentos, 63 anos depois, torna o episódio relevante para a história da imprensa, das relações internacionais e do monitoramento de fenômenos aéreos durante a Guerra Fria. O ponto que permanece documentalmente estabelecido é a investigação — não o OVNI. Novas pesquisas em hemerotecas brasileiras, arquivos da antiga Rádio Tupi, acervos do Ministério da Aeronáutica e fundos diplomáticos dos Estados Unidos poderão esclarecer a origem exata da narrativa, identificar quem primeiro produziu a notícia e estabelecer como ela chegou à emissora carioca antes de mobilizar autoridades no Brasil e em Washington.


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