Eleições 2026: presidente Lula reúne sete partidos em aliança inédita e consolida chapa com Geraldo Alckmin

Neste domingo, 02/08/2026, o Partido dos Trabalhadores realiza, em São Paulo, a convenção nacional destinada a oficializar a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, tendo novamente o vice-presidente Geraldo Alckmin, do PSB, como companheiro de chapa. A composição reúne o apoio de sete partidos de esquerda e centro-esquerda — PT, PCdoB, PV, PSB, PSOL, Rede e PDT —, configurando a mais ampla convergência desse núcleo político desde a retomada das eleições presidenciais diretas, em 1989. A articulação tem como eixos declarados a defesa da democracia, da soberania nacional, do desenvolvimento econômico e da inclusão social.

A unidade é inédita na atual configuração partidária porque incorpora, desde o início da campanha, todas as sete legendas que compõem o principal núcleo institucional da esquerda e da centro-esquerda brasileira. Em 2022, seis delas já apoiaram Lula no primeiro turno, mas o PDT apresentou a candidatura própria de Ciro Gomes. Quatro anos depois, a decisão do partido trabalhista de aderir à reeleição completa o agrupamento político em torno da chapa Lula-Alckmin.

A expressão “todo o campo progressista”, empregada pelas organizações partidárias que sustentam a candidatura, deve ser compreendida dentro desse recorte. Partidos situados mais à esquerda, como PCB, PSTU, PCO e Unidade Popular, permanecem fora da aliança e organizam projetos eleitorais próprios. A coalizão, portanto, concentra as principais forças progressistas com representação parlamentar e participação na base política do Governo Federal, mas não elimina integralmente a pluralidade de candidaturas identificadas com a esquerda.

Lula e Alckmin repetem composição formada nas Eleições 2022

A manutenção de Geraldo Alckmin na candidatura à Vice-Presidência foi oficializada pelo PSB durante congresso eleitoral realizado na quarta-feira, 29/07/2026, em Brasília. O encontro confirmou o apoio socialista à reeleição de Lula e aprovou a coligação com PT, PCdoB, PV, PDT e a Federação PSOL-Rede.

A chapa formada em 2022 representou uma alteração importante na trajetória política dos dois candidatos. Lula e Alckmin haviam disputado lados opostos no segundo turno da eleição presidencial de 2006, quando o petista conquistou seu segundo mandato. Alckmin permaneceu por décadas no PSDB antes de ingressar no PSB e integrar a frente política que derrotou Jair Bolsonaro em 2022.

Na avaliação das direções partidárias, a repetição da composição busca preservar uma imagem de amplitude política e capacidade de diálogo. Alckmin também funciona como interlocutor da candidatura com setores empresariais, segmentos moderados do eleitorado, lideranças regionais e grupos que não integram tradicionalmente a base social do PT.

O presidente nacional do PSB, João Campos, declarou que o partido atuará ao lado da candidatura presidencial nas 27 unidades da Federação. O ex-presidente da legenda e atual dirigente da Fundação João Mangabeira, Carlos Siqueira, sustentou que a aliança representa a continuidade de um processo de reaproximação entre PT e PSB iniciado após o distanciamento registrado durante as Eleições 2014.

Os sete partidos e as principais lideranças que apoiam Lula

A aliança reúne duas federações partidárias — a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, e a Federação PSOL-Rede —, além de PSB e PDT. Pela legislação eleitoral, as federações funcionam como uma única organização partidária durante um período mínimo de quatro anos, enquanto as coligações são admitidas nas disputas majoritárias.

Partido dos Trabalhadores — PT

O PT é o partido de Lula e ocupa a posição central na construção da candidatura. A legenda é presidida nacionalmente por Edinho Silva, ex-prefeito de Araraquara e coordenador da comunicação da campanha presidencial de 2022.

Entre as principais lideranças vinculadas à candidatura estão o próprio presidente Lula, Edinho Silva, dirigentes da Executiva Nacional, parlamentares, governadores e antigos integrantes dos governos petistas. O partido apresenta como prioridades eleitorais a defesa da soberania, a redução das desigualdades, a valorização do trabalho, a reforma tributária progressiva e o fortalecimento dos serviços públicos.

Partido Comunista do Brasil — PCdoB

O PCdoB integra a Federação Brasil da Esperança e oficializou, em 30/07/2026, o apoio à chapa Lula-Alckmin. A legenda é comandada interinamente por Nádia Campeão, enquanto a presidenta nacional licenciada, Luciana Santos, permanece como uma de suas principais referências políticas.

O partido sustenta que a reeleição deve abrir um novo ciclo de desenvolvimento nacional, baseado em reindustrialização, ciência, inovação, empregos qualificados, valorização salarial e proteção das riquezas estratégicas brasileiras. A convenção também ratificou as alianças com PSB, PDT e Federação PSOL-Rede.

Partido Verde — PV

O PV é presidido nacionalmente por José Luiz de França Penna e integra a Federação Brasil da Esperança. Entre seus dirigentes também se destacam os vice-presidentes Reynaldo Nunes e Eduardo Brandão.

A legenda associa seu apoio a Lula à defesa da democracia, da sustentabilidade, da transição ecológica, da justiça climática e de um projeto de desenvolvimento que combine crescimento econômico com proteção ambiental. A participação do PV na federação com PT e PCdoB assegura sua integração formal à estratégia presidencial.

Partido Socialista Brasileiro — PSB

O PSB é presidido nacionalmente por João Campos e indicou Geraldo Alckmin para a Vice-Presidência. A legenda formalizou a participação na coligação durante o congresso eleitoral realizado em Brasília.

Além de João Campos e Alckmin, o ex-presidente do partido Carlos Siqueira exerce papel relevante na defesa da aliança. A direção socialista sustenta que a composição deve consolidar avanços administrativos, ampliar a proteção social e fortalecer as instituições democráticas.

Partido Socialismo e Liberdade — PSOL

O PSOL é presidido por Paula Coradi e decidiu apoiar Lula ainda no primeiro turno. A legenda renovou por mais quatro anos a Federação PSOL-Rede e estabeleceu como objetivos simultâneos a reeleição presidencial e a ampliação de sua bancada no Congresso Nacional.

Entre as lideranças que participam da formulação política estão Paula Coradi e o ex-presidente do partido Juliano Medeiros. O PSOL defende que a aliança seja acompanhada por compromissos como o fim da escala de trabalho 6×1, a taxação dos super-ricos, o fortalecimento dos serviços públicos, a tarifa zero no transporte coletivo e a proteção dos direitos sociais.

Rede Sustentabilidade

A Rede integra a federação com o PSOL e possui uma estrutura nacional conduzida por porta-vozes. A direção partidária registra Paulo Roberto Lamac Júnior e Iaraci dos Santos Dias como porta-vozes nacionais.

A ex-ministra, deputada federal e candidata ao Senado por São Paulo Marina Silva permanece como a principal liderança pública da legenda. Ao confirmar sua permanência na Rede, Marina reafirmou o compromisso com a reeleição de Lula e com a construção de uma frente democrática associada à sustentabilidade, à defesa ambiental e ao enfrentamento das mudanças climáticas.

Partido Democrático Trabalhista — PDT

O PDT é presidido nacionalmente por Carlos Lupi e oficializou, por decisão unânime, o apoio à reeleição de Lula em convenção realizada em 20/07/2026, em Brasília. A decisão representa uma mudança em relação às eleições de 2018 e 2022, quando a legenda apresentou Ciro Gomes como candidato presidencial.

Entre as principais lideranças envolvidas na decisão estão Carlos Lupi, a vice-presidente nacional Juliana Brizola, o senador Weverton Rocha, o ex-governador Roberto Requião e o deputado estadual Requião Filho. A direção afirma que a aliança não significa abandono do programa trabalhista, mas uma prioridade conjuntural atribuída à defesa da democracia e da soberania nacional.

Fragmentação marcou as eleições presidenciais desde 1989

A história eleitoral da Nova República mostra que as disputas internas entre partidos de esquerda e centro-esquerda foram constantes. Divergências ideológicas, projetos partidários próprios, disputas por liderança e diferentes avaliações sobre alianças levaram as legendas a apresentar candidaturas concorrentes em praticamente todas as eleições presidenciais.

Em 1989, primeira eleição direta para presidente após a ditadura militar, Lula e Leonel Brizola protagonizaram uma disputa apertada pela passagem ao segundo turno. O candidato do PT obteve 17,19% dos votos válidos, enquanto Brizola, pelo PDT, alcançou 16,51%. A diferença foi inferior a 500 mil votos. Lula avançou para enfrentar Fernando Collor, que terminou eleito. Os dados históricos das eleições estão disponíveis nos arquivos do Tribunal Superior Eleitoral.

Lula e Brizola voltaram a competir em 1994. Somente em 1998 o fundador do PDT integrou uma chapa liderada pelo petista, na condição de candidato a vice-presidente. Na mesma eleição, entretanto, Ciro Gomes, então filiado ao PPS, e Alfredo Sirkis, do PV, apresentaram candidaturas próprias.

Em 2002, Lula conquistou seu primeiro mandato presidencial, mas voltou a enfrentar candidaturas da centro-esquerda. Ciro Gomes disputou novamente o Palácio do Planalto, enquanto Anthony Garotinho, então no PSB, obteve 17,87% dos votos e terminou na terceira posição, atrás de José Serra, do PSDB, que avançou ao segundo turno.

Disputas continuaram durante os governos do PT

Em 2006, quando Lula buscou a reeleição, Heloísa Helena, pelo PSOL, e Cristovam Buarque, pelo PDT, apresentaram candidaturas presidenciais. O episódio demonstrou que a chegada do PT ao Governo Federal não havia eliminado divergências programáticas dentro da esquerda.

A fragmentação permaneceu em 2010, quando Marina Silva, então no PV, e Plínio de Arruda Sampaio, pelo PSOL, disputaram contra Dilma Rousseff. Em 2014, Marina concorreu pelo PSB, enquanto Luciana Genro, do PSOL, e Eduardo Jorge, do PV, também participaram da eleição.

A disputa de 2014 foi marcada pela morte de Eduardo Campos, então candidato do PSB, em um acidente aéreo ocorrido em 13/08/2014. Marina Silva, que integrava a chapa como candidata a vice-presidente, assumiu a candidatura. O episódio alterou o cenário eleitoral e ampliou a tensão entre forças que haviam participado conjuntamente dos primeiros governos Lula.

Naquele momento, Dilma Rousseff, Eduardo Campos e Marina Silva possuíam trajetórias ligadas à administração petista. Dilma havia comandado os ministérios de Minas e Energia e da Casa Civil; Campos havia sido ministro da Ciência e Tecnologia; e Marina havia ocupado o Ministério do Meio Ambiente.

Eleições 2018 e 2022 antecederam a convergência atual

Em 2018, a esquerda e a centro-esquerda voltaram a apresentar várias candidaturas. Fernando Haddad, do PT, chegou ao segundo turno, enquanto Ciro Gomes, do PDT, terminou na terceira posição. Também concorreram Marina Silva, pela Rede; Guilherme Boulos, pelo PSOL; e Vera Lúcia, pelo PSTU. Os resultados oficiais do TSE registram Ciro com 12,47%, Marina com 1% e Boulos com 0,58% dos votos válidos no primeiro turno.

Em 2022, a aliança em torno de Lula avançou de maneira significativa. PT, PCdoB, PV e PSB integraram formalmente a chapa, enquanto PSOL e Rede apoiaram o petista desde o primeiro turno. O PDT, entretanto, manteve candidatura própria com Ciro Gomes.

A adesão pedetista em 2026 elimina a principal divisão existente entre os sete partidos. Por essa razão, a atual composição representa um grau de unidade superior ao alcançado em 2022, embora continuem existindo divergências programáticas e candidaturas de organizações situadas fora desse núcleo.

Defesa da democracia aproximou antigos adversários

As lideranças partidárias atribuem a aproximação ao agravamento da polarização política, ao fortalecimento da extrema direita e às crises institucionais registradas desde a década passada. O diagnóstico compartilhado é que a preservação da democracia passou a exigir uma coordenação mais ampla entre organizações que anteriormente disputavam a liderança do campo progressista.

Juliano Medeiros avalia que a competição por hegemonia sempre fez parte da história da esquerda brasileira. Segundo o ex-presidente do PSOL, a chegada de um partido de origem socialista ao comando de um governo de coalizão expôs contradições que antes permaneciam restritas aos movimentos sociais e ao debate interno das legendas.

Carlos Siqueira considera que a fragmentação ocorrida após a redemocratização era compatível com a normalidade institucional daquele período. Para o dirigente socialista, o avanço de forças autoritárias alterou o ambiente político e tornou necessária uma reação conjunta.

A convergência ganhou força na resistência às medidas do Governo Michel Temer, na oposição ao Governo Jair Bolsonaro e na formação da chapa Lula-Alckmin em 2022. O processo transformou uma aliança inicialmente defensiva em uma tentativa de construir uma agenda programática comum.

Partidos convergem em soberania, trabalho e políticas sociais

Apesar das diferenças ideológicas, as sete legendas apresentam pontos de aproximação. Entre eles estão a defesa da soberania nacional, a proteção das instituições democráticas, a redução das desigualdades, a valorização do salário e do emprego, o fortalecimento dos serviços públicos e a ampliação dos investimentos em educação, saúde, ciência e tecnologia.

A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 ganharam espaço nos documentos do PT, PSOL, PCdoB e PDT. A taxação de grandes fortunas, bancos e rendas elevadas também aparece como ponto de convergência entre setores da aliança, embora ainda existam diferenças sobre o alcance e a execução das medidas.

Na área ambiental, PV e Rede buscam ampliar a presença da transição ecológica, do combate às mudanças climáticas, da proteção da Amazônia e do desenvolvimento sustentável no programa presidencial. O PSB prioriza gestão pública, diálogo institucional e desenvolvimento regional, enquanto o PCdoB defende reindustrialização, inovação e maior participação do Estado no planejamento econômico.

A elaboração definitiva do programa deverá exigir negociação entre partidos com tradições distintas. A amplitude que fortalece eleitoralmente a chapa também impõe o desafio de conciliar propostas socialistas, trabalhistas, ambientalistas, social-democratas e desenvolvimentistas em uma plataforma comum.

Convenção não encerra processo de registro eleitoral

A homologação partidária representa uma etapa obrigatória, mas não equivale ao registro definitivo da candidatura. Segundo o calendário do Tribunal Superior Eleitoral, partidos e federações podem realizar convenções entre 20 de julho e 5 de agosto de 2026.

Após as convenções, as organizações deverão apresentar os pedidos de registro de candidaturas à Justiça Eleitoral até as 19 horas de 15/08/2026. A propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet estará autorizada a partir de 16/08/2026.

O primeiro turno das Eleições Gerais está marcado para 04/10/2026. Caso nenhum candidato obtenha a maioria absoluta dos votos válidos, o segundo turno presidencial será realizado em 25/10/2026.

Linha do tempo da unidade e da fragmentação progressista

  • 1984: Lula participa da campanha das Diretas Já ao lado de lideranças como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola e Miguel Arraes.
  • 1989: Lula e Brizola disputam separadamente a Presidência; menos de 500 mil votos definem a vaga de Lula no segundo turno.
  • 1994: PT e PDT mantêm candidaturas presidenciais distintas.
  • 1998: Brizola torna-se candidato a vice de Lula, mas Ciro Gomes e Alfredo Sirkis concorrem separadamente.
  • 2002: Lula vence a primeira eleição presidencial; Ciro Gomes e Anthony Garotinho apresentam candidaturas próprias.
  • 2006: Heloísa Helena e Cristovam Buarque disputam contra Lula.
  • 2010: Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio concorrem contra Dilma Rousseff.
  • 2014: Marina Silva, Luciana Genro e Eduardo Jorge disputam contra Dilma; Eduardo Campos morre durante a campanha.
  • 2018: Haddad, Ciro, Marina e Boulos representam diferentes correntes da esquerda e da centro-esquerda.
  • 2022: Lula e Alckmin reúnem seis dos sete partidos atualmente aliados; o PDT mantém Ciro Gomes como candidato.
  • 07/03/2026: PSOL aprova apoio a Lula no primeiro turno e a renovação da Federação PSOL-Rede.
  • 20/07/2026: PDT oficializa apoio à reeleição do presidente.
  • 29/07/2026: PSB confirma Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente.
  • 30/07/2026: PCdoB ratifica apoio à chapa Lula-Alckmin.
  • 31/07/2026: PV realiza sua convenção nacional dentro da estratégia da Federação Brasil da Esperança.
  • 02/08/2026: convenção nacional do PT oficializa a candidatura de Lula e consolida a aliança dos sete partidos.

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