O Uruguai registrou 195 homicídios no primeiro semestre de 2026, maior número para o período dos últimos oito anos, segundo dados do governo. O resultado representa aumento de 6,6% em relação ao primeiro semestre anterior e ocorre em um contexto de avanço da atuação de organizações ligadas ao narcotráfico, principalmente na região metropolitana de Montevidéu.
O crescimento da violência levou o governo do presidente Yamandú Orsi a ampliar operações em áreas consideradas de maior concentração de grupos criminosos e a utilizar unidades das Forças Armadas e veículos blindados em determinados pontos. As iniciativas, porém, são questionadas por especialistas, que apontam ausência de uma reestruturação mais ampla da política de segurança pública.
Na região metropolitana de Montevidéu, onde está concentrada a maior parcela da população uruguaia, a polícia identificou que mais de 70% dos homicídios estão relacionados a acertos de contas envolvendo o tráfico de drogas. Além disso, aproximadamente três em cada quatro assassinatos são cometidos com armas de fogo, segundo os dados apresentados pelo Ministério do Interior.
Narcotráfico amplia presença logística no país
Para o professor de relações internacionais João Estevam, da Universidade Anhembi Morumbi, o aumento dos homicídios está relacionado à transformação do crime organizado na América Latina e à maior inserção do Uruguai nas rotas internacionais do narcotráfico.
Segundo o especialista, o país tradicionalmente apresentava uma posição mais associada ao consumo de drogas, inclusive cocaína, mas passou a adquirir maior relevância como território de trânsito. A localização geográfica no Atlântico Sul teria contribuído para o interesse de organizações criminosas em utilizar o território uruguaio como parte de suas operações logísticas.
Estevam avalia que a mudança acompanha um processo de reestruturação e transnacionalização das organizações criminosas na América Latina. Nesse cenário, grupos que atuam em diferentes países passam a estabelecer conexões para transporte, distribuição, financiamento e outras atividades relacionadas ao comércio ilegal de drogas.
Violência também avança para o interior
Um dos fatores apontados pelo professor como motivo de preocupação é a expansão da violência para além da região metropolitana de Montevidéu. O fenômeno amplia o desafio para as autoridades responsáveis pela segurança pública e exige ações que não estejam concentradas apenas na capital.
Apesar do aumento dos homicídios, Estevam não classifica a situação uruguaia como uma crise absoluta de segurança pública, especialmente quando comparada a cenários registrados em outros países sul-americanos, como Equador, Peru e Paraguai.
Na avaliação do especialista, o principal desafio está relacionado à expansão das organizações criminosas locais e à integração dessas estruturas com redes transnacionais do narcotráfico. Para enfrentar o problema, ele defende maior cooperação entre os países da América do Sul, especialmente no compartilhamento de informações de inteligência e na realização de operações conjuntas.
Integração regional é apontada como estratégia
Segundo Estevam, as organizações criminosas atuam por meio de redes que ultrapassam as fronteiras nacionais. Por isso, o combate ao narcotráfico exigiria mecanismos de cooperação entre forças policiais e órgãos de inteligência de diferentes países.
O professor também destaca a dimensão financeira dessas organizações. Parte dos recursos movimentados pelo crime organizado circula por estruturas financeiras internacionais, incluindo contas em paraísos fiscais, o que dificulta o rastreamento e a interrupção do financiamento das redes criminosas.
A avaliação é de que uma política de segurança voltada exclusivamente ao território nacional teria limitações diante da natureza transnacional do narcotráfico. A cooperação regional poderia incluir intercâmbio de informações, investigações conjuntas e ações coordenadas contra estruturas financeiras e logísticas.
Governo Orsi amplia operações em áreas críticas
O governo de Yamandú Orsi adotou medidas para responder ao aumento da violência, entre elas a ampliação das operações policiais em regiões com presença de grupos criminosos. Outra iniciativa foi o emprego de militares e veículos blindados em bairros considerados críticos.
O historiador e pesquisador Daniel Osowicki, entrevistado pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, considera que as medidas ainda não apresentaram resultados capazes de alterar o quadro de segurança. Ele também menciona pesquisas segundo as quais 46% da população desaprova a atual gestão, enquanto 29% manifesta aprovação.
Osowicki cita ainda o assassinato de uma criança de 12 anos, ocorrido durante um conflito entre famílias relacionadas ao tráfico, como um episódio que evidencia a presença da violência associada ao crime organizado em comunidades uruguaias.
Uso do Exército gera questionamentos
A mobilização das Forças Armadas para atuar em áreas consideradas críticas tornou-se uma das medidas mais discutidas da resposta governamental. Para Osowicki, a iniciativa foi implementada rapidamente e sem uma preparação considerada suficiente pelo especialista.
O pesquisador afirma que a decisão também passou a ser utilizada pela oposição para questionar a condução da política de segurança. Entre os episódios citados está um problema mecânico apresentado por um dos veículos blindados do Exército já no primeiro dia de patrulhamento.
Na avaliação de Osowicki, a presença militar pode demonstrar uma tentativa de ampliar a presença do Estado nas áreas de maior criminalidade, mas não constitui, isoladamente, uma estratégia de enfrentamento ao narcotráfico. O especialista defende mudanças mais amplas na política de segurança.
Ministério do Interior é alvo de cobranças
No sistema uruguaio, o Ministério do Interior é responsável pela política de segurança pública. A pasta passou a ser alvo de questionamentos diante do crescimento dos homicídios e da necessidade de apresentar respostas ao avanço das organizações criminosas.
Os dados do primeiro semestre mostram que o número de assassinatos chegou a 195 casos, o maior resultado para o período dos últimos oito anos. A predominância de armas de fogo e a relação de mais de 70% das mortes na região metropolitana com disputas ligadas ao tráfico reforçam a dimensão criminal do problema.
O cenário também cria espaço para críticas da oposição ao governo Orsi, que iniciou seu mandato diante da necessidade de conciliar medidas imediatas de segurança com políticas de médio e longo prazo destinadas a combater o narcotráfico e suas estruturas de financiamento e logística.
Uruguai enfrenta mudança no perfil da criminalidade
Historicamente associado a índices de segurança pública inferiores aos observados em outros países da América do Sul, o Uruguai enfrenta uma mudança no perfil da criminalidade, marcada pelo fortalecimento de organizações ligadas ao tráfico de drogas.
O avanço das rotas de transporte e a conexão com redes criminosas internacionais ampliam os desafios para as autoridades. Ao mesmo tempo, a concentração de homicídios relacionados ao tráfico em Montevidéu indica que disputas entre grupos criminosos continuam sendo um dos principais fatores associados às mortes violentas.
Os especialistas ouvidos apontam que a resposta ao problema dependerá da capacidade do Estado de combinar policiamento, inteligência, cooperação internacional, investigação financeira e enfrentamento das organizações criminosas. O uso de forças militares, por si só, é considerado insuficiente para alterar a estrutura do narcotráfico.
Debate sobre segurança ganha peso no governo Orsi
O aumento dos homicídios transforma a segurança pública em uma questão relevante para o governo de Yamandú Orsi. A elevação registrada no primeiro semestre ocorre paralelamente à ampliação das operações contra grupos criminosos e ao debate sobre o emprego das Forças Armadas.
Para Daniel Osowicki, ainda não houve uma mudança estrutural suficiente no combate ao narcotráfico. A afirmação de que o país não teria adotado medidas consideradas sérias é uma avaliação do especialista, e não uma conclusão oficial sobre a política de segurança uruguaia.
O cenário apresentado pelos dados oficiais e pelas análises citadas aponta para um desafio que ultrapassa o número de homicídios: o Uruguai precisa responder à expansão de redes criminosas cada vez mais conectadas ao narcotráfico regional, enquanto o governo busca demonstrar capacidade de atuação diante da pressão política e social.
*Com informações da Sputnik News.








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