O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpriu nesta segunda-feira (21/09/2026), em Nova York, uma agenda de encontros políticos e diplomáticos na véspera da abertura do Debate Geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, reunindo-se com o prefeito nova-iorquino Zohran Mamdani e com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi. As conversas abrangeram políticas de inclusão social, custo de vida, redução da jornada de trabalho, integração latino-americana, infraestrutura fronteiriça, regulamentação de apostas online e comércio agrícola. No encontro com Orsi, Lula anunciou ainda que o Uruguai autorizou o Brasil a utilizar o excedente de sua cota de exportação de carne bovina para a China, operação que, até o fim da tarde, ainda não havia recebido confirmação oficial das autoridades chinesas.
Os compromissos ocorreram na residência e escritório da representação brasileira junto à ONU, no Upper East Side, onde Lula está hospedado durante sua curta passagem pelos Estados Unidos. O presidente chegou a Nova York no domingo (20) e abrirá, na terça-feira (22), o Debate Geral da Assembleia, conforme a tradição diplomática pela qual o Brasil ocupa a primeira posição entre os Estados-membros na sequência de discursos.
Lula e Mamdani discutem custo de vida e políticas sociais
A reunião com Zohran Mamdani, de 34 anos, foi solicitada pelo prefeito de Nova York e representou o primeiro encontro presencial entre os dois. Mamdani tomou posse em 1º de janeiro de 2026 como 112º prefeito da cidade, depois de ter integrado a Assembleia Estadual de Nova York. A administração municipal informa que seu programa tem como um dos eixos a redução do custo de vida para os moradores da maior cidade dos Estados Unidos.
Durante a conversa, Lula apresentou experiências brasileiras nas áreas de inclusão social, governo digital, educação, habitação, alimentação escolar e saúde, além de mencionar programas de orçamento participativo implementados por administrações municipais brasileiras. Segundo relato divulgado pelo presidente, os dois convergiram sobre a necessidade de direcionar políticas públicas às populações de menor renda, sintetizada por Lula na expressão “colocando os mais pobres no orçamento”.
O custo de vida ocupou parte importante do encontro. Mamdani relatou problemas relacionados principalmente a despesas com moradia e alimentação e afirmou que pretende observar experiências brasileiras de políticas sociais. Em declaração após a reunião, Lula disse que os dois conversaram sobre dificuldades sociais presentes tanto no Brasil quanto em Nova York. Mamdani afirmou que a trajetória política e as políticas sociais conduzidas por Lula serviram de referência para sua atuação.
Redução da escala 6×1 entra na conversa
Outro tema discutido foi a proposta brasileira de alteração da jornada de trabalho, associada ao debate sobre o fim da escala 6×1. Segundo o relato divulgado após o encontro, Lula explicou ao prefeito que a discussão em curso no Brasil busca ampliar o período semanal de descanso dos trabalhadores. Não foi anunciado qualquer acordo entre os dois governos nessa área, tratando-se essencialmente de uma troca de experiências sobre políticas sociais e relações de trabalho.
A conversa também passou por democracia, extremismo político e desinformação. Esses temas aparecem com frequência nas agendas internacionais recentes do governo brasileiro e também estiveram presentes no encontro de Lula com Orsi. Não foram divulgados, entretanto, novos mecanismos institucionais ou compromissos formais decorrentes da reunião com o prefeito.
Ao final, Lula presenteou Mamdani com uma camisa do Corinthians, enquanto o prefeito entregou ao brasileiro uma camisa relacionada à cidade de Nova York produzida no contexto da Copa do Mundo de 2026. O presidente convidou Mamdani a visitar o Brasil, ainda sem definição pública de data.
Mamdani chega ao encontro após cúpula de prefeitos em Nova York
A reunião ocorreu no encerramento de uma agenda internacional particularmente intensa para a prefeitura de Nova York. Entre 19 e 21 de setembro, a cidade recebeu a Cúpula Urban 20 de 2026, copresidida por Nova York e Los Angeles, com debates sobre habitação, clima e migração. Segundo a prefeitura nova-iorquina, o evento reuniu prefeitos e dirigentes de 34 cidades, incluindo representantes de países do G20.
A pauta do U20 ajuda a contextualizar parte da conversa entre Lula e Mamdani, especialmente os temas relacionados ao custo da habitação e à vulnerabilidade social nas grandes metrópoles. Essa proximidade temática, contudo, não significa a criação de programa conjunto: até o momento, o encontro produziu principalmente intercâmbio político e administrativo e o convite para uma futura visita do prefeito ao Brasil.
Mamdani ocupa a prefeitura desde janeiro de 2026. Antes disso, representava o 36º distrito na Assembleia do Estado de Nova York. Em seu primeiro dia de governo, assinou medidas relacionadas à estrutura administrativa e anunciou como prioridade uma agenda voltada à acessibilidade econômica da cidade, especialmente nas áreas de habitação e serviços públicos.
Lula e Orsi tratam de comércio, infraestrutura e integração regional
Horas antes da reunião com Mamdani, Lula recebeu o presidente uruguaio Yamandú Orsi. O encontro durou aproximadamente 50 minutos e concentrou-se em integração latino-americana e caribenha, comércio agrícola, infraestrutura e questões políticas regionais.
Segundo Lula, os dois também discutiram o que classificaram como ameaças representadas pelo extremismo político e pela desinformação. A declaração constitui a posição expressa pelos presidentes sobre o cenário regional e internacional e não corresponde, por si só, a uma conclusão factual sobre partidos, governos ou movimentos específicos.
Na área econômica, o ponto de maior repercussão foi o anúncio de Lula de que o Uruguai havia autorizado o Brasil a utilizar o excedente da cota uruguaia de exportação de carne bovina para a China. O tema tem relevância para o agronegócio brasileiro porque Pequim estabeleceu, a partir de 2026, um regime de cotas por país para as importações de carne.
Uso da cota uruguaia ainda depende de esclarecimentos
A China implementou em 1º de janeiro de 2026 uma salvaguarda comercial para a carne bovina importada. Pelo sistema, cada grande fornecedor recebeu uma quantidade específica sujeita à tarifa ordinária; depois de atingido o limite, as importações passam a sofrer uma tarifa adicional de 55%. A medida chinesa foi anunciada para vigorar até 31 de dezembro de 2028, com flexibilização progressiva prevista ao longo do período.
Para o Brasil, a cota de 2026 foi estabelecida em aproximadamente 1,106 milhão de toneladas. Em julho, o Ministério da Agricultura brasileiro informou que cerca de 80% desse volume já havia sido utilizado. O Ministério do Comércio da China registrou oficialmente que o patamar de 80% foi alcançado em 21/07/2026.
Dados citados pela Reuters indicaram posteriormente que os embarques brasileiros avançaram rapidamente até a utilização integral da cota. O setor exportador estimou anteriormente que as restrições chinesas poderiam contribuir para uma redução de aproximadamente 10% no volume total das exportações brasileiras de carne bovina em 2026.
Há, entretanto, uma questão documental ainda aberta. Até a tarde desta segunda-feira, não havia confirmação oficial do governo chinês sobre a possibilidade de transferir ou aproveitar no Brasil parte da cota atribuída originalmente ao Uruguai. A CNN Brasil informou não ter localizado manifestação do Ministério do Comércio da China, da Administração Geral de Alfândegas nem da Embaixada chinesa confirmando o mecanismo anunciado por Lula.
A lacuna é relevante porque a própria norma chinesa define o mecanismo como composto por cotas específicas por país de origem. Assim, a autorização uruguaia anunciada pelo presidente brasileiro representa um avanço diplomático entre Brasília e Montevidéu, mas sua implementação comercial ainda requer esclarecimento sobre a forma como as autoridades chinesas reconhecerão a operação.
Uruguai também vira referência no debate brasileiro sobre bets
Lula afirmou ainda ter demonstrado interesse em conhecer a experiência uruguaia na regulamentação das apostas online. O assunto ganhou dimensão doméstica porque o governo brasileiro discute mudanças no regime aplicável às plataformas de apostas e aos cassinos virtuais.
O sistema uruguaio possui características diferentes do modelo brasileiro. A legislação do país estabelece como princípio geral a ilegalidade da oferta de jogos de azar e apostas pela internet sem autorização estatal, permitindo exceções expressamente previstas. A Lei uruguaia nº 19.535, de 25/09/2017, estabelece que jogos típicos de cassino — como pôquer, roleta e máquinas caça-níqueis — são proibidos em sua modalidade online, ressalvadas autorizações específicas previstas pela legislação.
O Uruguai também mantém mecanismos de bloqueio de plataformas clandestinas. Em 24/04/2026, por exemplo, a Unidade Reguladora de Serviços de Comunicações publicou nova resolução para bloqueio de sites de apostas não autorizados; outras decisões semelhantes continuaram sendo adotadas ao longo do ano. Portanto, a “experiência uruguaia” mencionada por Lula envolve não apenas regulação, mas restrições legais, autorizações específicas e bloqueio administrativo de operadores irregulares.
Nova ponte sobre o Rio Jaguarão volta à agenda bilateral
Na frente de infraestrutura, Lula afirmou que pretende voltar a se reunir com Orsi para avançar em projetos de integração transfronteiriça, com destaque para uma nova ponte internacional sobre o Rio Jaguarão, ligando o Rio Grande do Sul ao Uruguai.
O projeto possui antecedentes de quase duas décadas. Brasil e Uruguai firmaram em 26/02/2007 acordo para construção de uma segunda ponte nas proximidades das cidades de Jaguarão, no Rio Grande do Sul, e Rio Branco, no Uruguai. O acordo foi aprovado pelo Congresso brasileiro em 2009 e promulgado em 2013.
Em 04/09/2024, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes autorizou o consórcio responsável a iniciar a elaboração dos projetos e os procedimentos relacionados ao licenciamento ambiental. O empreendimento pretende absorver principalmente tráfego internacional de cargas e passageiros, reduzindo a pressão sobre a histórica Ponte Internacional Barão de Mauá, inaugurada em 1930 e protegida como patrimônio cultural.
O DNIT manteve a nova ligação Brasil-Uruguai entre os projetos estratégicos programados para 2026 na Região Sul. A retomada do tema por Lula e Orsi indica que a infraestrutura fronteiriça permanece entre as questões pendentes da agenda bilateral, embora nenhum novo prazo de conclusão tenha sido anunciado na reunião de Nova York.
Encontros antecedem abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU
A passagem de Lula pelos Estados Unidos ocorre durante a semana de alto nível da 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas. O Debate Geral será realizado entre 22 e 28/09/2026, na sede da organização em Nova York, reunindo representantes dos 193 Estados-membros. O tema definido para esta edição é “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.
O Brasil abrirá o Debate Geral na terça-feira (22), seguindo uma tradição mantida de forma regular desde 1955. Os Estados Unidos, na condição de país anfitrião, aparecem em seguida na ordem tradicional de pronunciamentos.
Além dos encontros com Orsi e Mamdani, Lula tinha prevista para esta segunda-feira uma reunião com o senador norte-americano Bernie Sanders, marcada para as 18h no horário de Nova York — 19h em Brasília — e, na terça-feira, encontro com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Até o fim da tarde desta segunda-feira, não havia sido anunciada reunião bilateral formal entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Relação Brasil-EUA acrescenta dimensão econômica à passagem por Nova York
A presença dos dois presidentes na Assembleia ocorre enquanto Brasil e Estados Unidos mantêm negociações comerciais após a imposição, por Washington, de tarifas adicionais sobre parcelas das exportações brasileiras. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), medidas adotadas pelos Estados Unidos em julho passaram a atingir aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.
No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras aos Estados Unidos somaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% em comparação com igual período de 2025. A participação norte-americana nas exportações brasileiras caiu de 12,1% para 9,4% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, segundo o MDIC.
Após uma conversa telefônica entre Lula e Trump em 21/08/2026, equipes dos dois governos retomaram negociações. Em 31/08, os ministros Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa realizaram reunião virtual com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. As tratativas permanecem abertas, sem anúncio público de retirada integral das sobretaxas.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 25/09/2017 — Uruguai: a Lei nº 19.535 consolida regras segundo as quais apostas e jogos de azar online dependem de autorização específica, mantendo restrições a cassinos virtuais. A legislação é parte do modelo que Lula afirmou querer conhecer.
- 26/02/2007 a 04/02/2013 — Brasil e Uruguai: acordo bilateral para a segunda ponte sobre o Rio Jaguarão é firmado, aprovado pelo Congresso brasileiro e posteriormente promulgado.
- 04/09/2024 — Rio Grande do Sul: DNIT autoriza o início da elaboração dos projetos da nova ponte Brasil-Uruguai e dos procedimentos ambientais.
- 04/11/2025 — Nova York: Zohran Mamdani é eleito prefeito da cidade; posteriormente assume o cargo em janeiro de 2026.
- 01/01/2026 — China: entra em vigor salvaguarda sobre importações de carne bovina, com cotas por país e tarifa adicional de 55% para volumes que ultrapassem os limites estabelecidos.
- 01/01/2026 — Nova York: Mamdani toma posse como prefeito da cidade.
- 21/07/2026 — China: importações originárias do Brasil atingem 80% da cota chinesa de 2026, segundo o Ministério do Comércio da China.
- 21/08/2026 — Brasil-EUA: Lula e Donald Trump conversam por telefone, abrindo caminho para retomada das negociações comerciais entre os dois governos.
- 19 a 21/09/2026 — Nova York: cidade recebe a Cúpula Urban 20, com debates sobre habitação, clima e migração.
- 20/09/2026 — Nova York: Lula chega à cidade para participar da semana de alto nível da ONU.
- 21/09/2026 — Nova York: Lula se reúne com Yamandú Orsi; os dois tratam de integração regional, infraestrutura, comércio agrícola, bets e da possibilidade de utilização pelo Brasil de excedente da cota uruguaia de carne destinada à China.
- 21/09/2026 — Nova York: Lula recebe Zohran Mamdani e discute custo de vida, inclusão social, políticas públicas, jornada de trabalho e desinformação.
- 22/09/2026 — ONU: está prevista a abertura do Debate Geral da 81ª Assembleia Geral, com o Brasil ocupando a primeira posição entre os Estados-membros na ordem de discursos.
Os dois encontros possuem naturezas distintas. A conversa com Mamdani concentrou-se principalmente na comparação de políticas públicas e na troca de experiências sobre pobreza, custo de vida, habitação, serviços públicos e relações de trabalho. Até o momento, não houve anúncio de convênio, programa bilateral ou compromisso financeiro. Seu significado imediato é predominantemente político e administrativo, dentro do diálogo entre uma administração municipal norte-americana e o governo brasileiro.
A reunião com Orsi, por sua vez, incluiu temas com efeitos econômicos potencialmente mensuráveis. A infraestrutura na fronteira possui projetos e documentos anteriores; a regulamentação uruguaia das apostas está assentada em legislação já existente; e a questão da carne bovina envolve um setor exportador diretamente afetado pela salvaguarda chinesa. Nesse último ponto, a principal lacuna é objetiva: a autorização anunciada por Lula foi atribuída ao Uruguai, mas ainda falta confirmação chinesa sobre o mecanismo de aproveitamento de uma cota formalmente estabelecida por país de origem.
A passagem por Nova York também ocorre em um contexto diplomático mais amplo. O Brasil negocia simultaneamente acesso a mercados agrícolas, tarifas com os Estados Unidos, integração física com vizinhos sul-americanos e regras domésticas para atividades digitais como as apostas. A Assembleia Geral cria um ponto de concentração para essas agendas, mas os resultados devem ser medidos por decisões posteriores — regulamentações, atos comerciais, cronogramas de infraestrutura e documentos diplomáticos — e não apenas pelas declarações realizadas durante os encontros.
O acompanhamento jornalístico deve concentrar-se agora em quatro elementos verificáveis: eventual manifestação de Pequim sobre a cota uruguaia de carne; novos atos do Brasil sobre apostas online; avanços concretos na segunda ponte sobre o Rio Jaguarão; e os compromissos que poderão surgir da agenda de Lula na 81ª Assembleia Geral da ONU. Esses desdobramentos determinarão quais temas tratados em Nova York permanecerão no campo do diálogo político e quais produzirão efeitos econômicos, regulatórios ou institucionais concretos.








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