“Faça o hospital”: secretaria Roberta Santana contesta prefeito Bruno Reis e pede a José Ronaldo documentos sobre 700 mortes na regulação

A secretária da Saúde da Bahia, Roberta Santana, acusou o prefeito de Salvador, Bruno Reis, de difundir “desinformação” sobre a rede estadual e afirmou, nesta quinta-feira (13/08/2026), que deficiências na atenção básica da capital contribuem para o agravamento de pacientes e a sobrecarga dos serviços de urgência e emergência. No mesmo dia, a titular da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) encaminhou ao prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo de Carvalho, o Ofício nº 802/2026, no qual solicitou a fonte, os dados e os documentos que fundamentariam a declaração de que 700 pessoas morreram esperando regulação no ano anterior.

Roberta Santana atribui sobrecarga hospitalar a falhas na atenção básica

A manifestação contra Bruno Reis ocorreu em entrevista à Baiana FM, após o prefeito criticar a rede estadual de saúde. Roberta Santana classificou as declarações como “desinformação”, disse que o gestor municipal estaria “mal informado” e transferiu o centro do debate para a capacidade da rede básica de Salvador de prevenir, diagnosticar e acompanhar doenças antes que os pacientes precisem recorrer aos serviços de maior complexidade.

Segundo a secretária, pessoas que não conseguem assistência, medicamentos ou exames na rede municipal chegam às unidades de pronto atendimento e aos hospitais com quadros mais graves. A consequência, na avaliação apresentada por ela, é a ampliação da demanda sobre serviços que deveriam concentrar-se nos casos de urgência, emergência e alta complexidade.

Por que ele não pergunta por que tem pessoas chegando cada vez mais graves na UPA por falta de assistência, por falta de medicação e por falta de acesso a exames? Que buscam na rede hospitalar ou na rede de urgência e emergência o apoio, a assistência?”, questionou.

A declaração estabelece uma relação direta, segundo a versão da gestora estadual, entre as condições da atenção básica e a pressão exercida sobre a estrutura hospitalar. O argumento central é que a ausência ou insuficiência de cuidados preventivos e ambulatoriais favoreceria a evolução de problemas inicialmente menos complexos.

A secretária não limitou a resposta ao funcionamento das unidades básicas. Ela também questionou a dimensão da rede hospitalar mantida pela Prefeitura de Salvador e cobrou do município uma participação maior na oferta de leitos e serviços.

Secretária compara redes e cobra hospital da Prefeitura de Salvador

Os dados apresentados na manifestação atribuem ao Estado a manutenção de 22 hospitais em Salvador, enquanto a Prefeitura administraria dois hospitais municipais. Na comparação mencionada, Fortaleza teria dez unidades municipais e Recife, oito.

Roberta Santana também afirmou que a primeira maternidade municipal de Salvador levou 14 anos para ser entregue. Ao responder às referências feitas por Bruno Reis a equipamentos inaugurados pela administração municipal, sustentou que as unidades citadas pelo prefeito não operam como portas abertas convencionais de urgência e emergência.

A discussão sobre o perfil das unidades é relevante porque hospitais especializados ou com acesso regulado não desempenham necessariamente a mesma função de uma estrutura geral aberta à demanda espontânea. A capacidade nominal de atendimento, portanto, não encerra o debate sobre a distribuição efetiva das responsabilidades entre as redes municipal e estadual.

A resposta mais incisiva ocorreu quando a secretária contestou o argumento atribuído a Bruno Reis de que a Prefeitura não teria recursos suficientes para ampliar sua estrutura hospitalar. Para Roberta Santana, o prefeito teria invertido a lógica do financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) ao condicionar a implantação de novas unidades ao recebimento prévio de recursos.

O Estado recebe dinheiro do Governo Federal e do Ministério da Saúde porque nós temos 22 hospitais em Salvador. Faça o hospital, prefeito, e você vai receber o recurso. Ou você quer, por acaso, que a gente passe o recurso antes do hospital ser feito?”, declarou.

A afirmação associa o financiamento federal à existência e ao funcionamento da estrutura assistencial. Ao cobrar a construção de um hospital, a titular da Sesab defendeu que a Prefeitura amplie primeiro sua capacidade instalada para, posteriormente, receber os repasses relacionados aos serviços prestados.

Sesab pede comprovação de José Ronaldo sobre 700 mortes

Paralelamente ao confronto com Bruno Reis, Roberta Santana formalizou uma cobrança dirigida ao prefeito de Feira de Santana. O Ofício nº 802/2026 – Sesab/GAB, datado de 13/08/2026, foi expedido depois de uma declaração atribuída a José Ronaldo durante entrevista ao programa Giro Baiana, do Canal BNews.

Segundo o documento, o prefeito teria afirmado que “o ano passado morreram esperando regulação 700 pessoas”. A Sesab solicitou que José Ronaldo encaminhasse a fonte da pesquisa, do levantamento ou da base de dados utilizada para formular a declaração.

A secretaria também pediu os dados e documentos que teriam subsidiado a afirmação de que 700 pacientes morreram enquanto aguardavam regulação. A alegação aparece no ofício como uma informação atribuída ao prefeito, e não como um dado confirmado pelo próprio órgão estadual.

No expediente, a Sesab declarou que a regulação de leitos de urgência e emergência na Bahia, no âmbito do SUS, está sob sua competência e que a pasta detém os registros oficiais relacionados à regulação de pacientes.

O órgão sustentou que precisa receber os elementos usados pelo prefeito para confrontá-los com os registros existentes nos sistemas estaduais. A secretaria afirmou que os números mencionados por José Ronaldo divergiriam dos dados oficiais, mas não apresentou, no próprio ofício, o levantamento estadual que permitiria quantificar a diferença.

A disponibilização da fonte, segundo a pasta, é necessária para que os dados divulgados sejam analisados e comparados com os registros da regulação. A Sesab acrescentou que a circulação de informações divergentes das bases oficiais pode contribuir para a propagação de desinformação, especialmente em uma área com impacto direto sobre a coletividade.

O documento foi assinado eletronicamente por Roberta Silva de Carvalho Santana às 16h07 de 13/08/2026. O expediente está vinculado ao Processo SEI nº 019.4979.2026.0155840-32 e identificado pelo documento SEI nº 00147094807.

Dois confrontos sobre responsabilidades na saúde pública

As respostas dirigidas aos prefeitos de Salvador e Feira de Santana possuem objetos diferentes, mas convergem em torno da divisão de responsabilidades entre o Governo da Bahia e as administrações municipais.

No caso de Bruno Reis, Roberta Santana argumenta que as falhas na atenção básica e a limitada capacidade hospitalar do município pressionam a rede estadual. A secretária cobra a implantação de novas unidades e rejeita a justificativa financeira apresentada pelo prefeito.

No episódio envolvendo José Ronaldo, a controvérsia concentra-se na confiabilidade dos dados sobre pacientes que teriam morrido enquanto aguardavam regulação. Em vez de apresentar apenas uma contestação pública, a Sesab abriu um procedimento documental e requisitou as fontes utilizadas pelo gestor feirense.

Os dois episódios também evidenciam níveis diferentes de comprovação. As declarações sobre a estrutura hospitalar de Salvador e os efeitos da atenção básica foram apresentadas em entrevista. A cobrança ao prefeito de Feira de Santana, por sua vez, está registrada em documento oficial, embora o ofício não contenha os números estaduais que sustentariam a contestação aos 700 óbitos alegados.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • Ano anterior, conforme período mencionado por José Ronaldo: o prefeito de Feira de Santana teria situado nesse intervalo a ocorrência de 700 mortes de pacientes à espera de regulação. A afirmação permanece atribuída ao gestor e depende da apresentação da fonte e dos documentos solicitados pela Sesab.
  • 13/08/2026: durante entrevista à Baiana FM, Roberta Santana rebate as críticas de Bruno Reis, acusa o prefeito de “desinformação” e atribui às falhas da atenção básica de Salvador parte da pressão sobre UPAs e hospitais estaduais.
  • 13/08/2026: a secretária cobra da Prefeitura de Salvador a ampliação da rede hospitalar e responde ao argumento de insuficiência financeira com a declaração: “Faça o hospital, prefeito”.
  • 13/08/2026: a Sesab expede o Ofício nº 802/2026 a José Ronaldo e solicita a fonte, a base de dados e os documentos relacionados à afirmação sobre 700 mortes na regulação.
  • 13/08/2026, às 16h07: Roberta Santana assina eletronicamente o ofício, vinculado ao Processo SEI nº 019.4979.2026.0155840-32.

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