A quarta edição do Bonito CineSur foi encerrada na noite de sábado (01/08/2026), no Centro de Convenções de Bonito, em Mato Grosso do Sul, com a consagração do filme paraguaio ¿Quién Mató a Narciso? como melhor longa sul-americano, na escolha do júri oficial. A produção dirigida por Marcelo Martinessi aborda um episódio ocorrido durante a ditadura militar paraguaia e foi o principal destaque da cerimônia de premiação.
Baseado no livro Narciso, do jornalista Guido Rodríguez Alcalá, o filme retrata a história inspirada no assassinato do locutor de rádio Bernardo Aranda, morto em 1959. O crime nunca foi oficialmente esclarecido, mas a Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai considera a possibilidade de envolvimento do regime militar comandado pelo general Alfredo Stroessner.
Durante o período da ditadura, que durou 35 anos, foram registradas quase 20 mil prisões arbitrárias ou ilegais, 59 execuções, 336 desaparecimentos, cerca de 19 mil casos de tortura e 3.470 exílios, conforme dados divulgados pela Comissão da Verdade e Justiça em 2003. Entre os grupos atingidos pelas violações de direitos humanos estavam pessoas LGBTQIA+, grupo ao qual pertencia Bernardo Aranda.
Premiação reforça importância da memória histórica por meio do cinema
Ao receber o prêmio, o ator Diro Romero, intérprete de Narciso, afirmou que o reconhecimento representa um incentivo para ampliar a divulgação das narrativas latino-americanas. Segundo ele, a valorização dessas histórias fortalece a produção audiovisual da região e amplia o debate sobre episódios históricos.
Em entrevista após a cerimônia, Romero ressaltou que o cinema desempenha papel importante na preservação da memória sobre os regimes autoritários da América do Sul. O ator afirmou que revisitar esses acontecimentos contribui para ampliar o conhecimento histórico e estimular reflexões sobre democracia e direitos humanos.
O longa vencedor também reforçou a presença do Paraguai na programação do Bonito CineSur, evento criado para ampliar a circulação da produção cinematográfica sul-americana e incentivar o intercâmbio cultural entre os países da região.
Produções colombianas conquistam três estatuetas
Outro destaque da cerimônia foi o diretor colombiano Alejandro Calderón, responsável por três premiações. O curta Hipopótamos, el Arca de Escobar venceu como melhor curta de cinema ambiental na escolha do júri oficial.
Já o documentário Páramos II: El Origen conquistou dois troféus, sendo eleito melhor longa de cinema ambiental tanto pelo júri oficial quanto pelo voto popular. A obra aborda a importância dos ecossistemas dos páramos para o ciclo hidrológico e discute impactos provocados pela mineração, pela monocultura e pela pecuária.
Durante a premiação, Calderón homenageou 150 ativistas ambientais colombianos assassinados nos últimos três anos. Segundo o diretor, muitos dos líderes retratados em seus documentários enfrentam ameaças constantes e enxergam a divulgação de seu trabalho como forma de ampliar sua proteção e conscientizar a sociedade sobre a defesa do meio ambiente.
Festival reúne dez países sul-americanos e amplia integração regional
Nesta edição, o Bonito CineSur exibiu 32 filmes de dez países da América do Sul, entre curtas e longas-metragens. A programação também incluiu oficinas, debates, atividades de formação, encontros com realizadores e homenagens à atriz Paulina Garcia e aos cineastas Vincent Carelli e Luiz Puenzo.
O diretor do festival, Nilson Rodrigues, destacou que uma das metas para as próximas edições é ampliar a participação dos países sul-americanos e fortalecer mecanismos de cooperação entre as cinematografias da região. Segundo ele, a criação de programas de coprodução e circulação audiovisual poderá ampliar o intercâmbio cultural entre os países.
Rodrigues afirmou ainda que o objetivo é reunir representantes dos ministérios da Cultura e instituições ligadas ao setor audiovisual sul-americano nas próximas edições para discutir iniciativas bilaterais e multilaterais voltadas à produção e à distribuição de filmes na região.
Confira os vencedores da quarta edição do Bonito CineSur
Melhor filme sul-mato-grossense
- Júri Popular: Higa Ke – Olho por Olho
- Júri Oficial: Natasha
Melhor curta de cinema ambiental
- Júri Popular: Buen Vivir – Ñutse Canseye (Equador)
- Júri Oficial: Hipopótamos, el Arca de Escobar (Colômbia)
Melhor longa de cinema ambiental
- Júri Popular: Páramos II: El Origen (Colômbia)
- Júri Oficial: Páramos II: El Origen (Colômbia)
Melhor curta sul-americano
- Júri Popular: A Vida de Jerônimo Dentro e Fora da Casca (Brasil)
- Júri Oficial: Sukua (Colômbia)
Melhor longa sul-americano
- Júri Popular: Naira (Peru)
- Júri Oficial: ¿Quién Mató a Narciso? (Paraguai)
*Com informações da Agência Brasil.








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