O Papa Leão XIV pediu o fim da violência contra civis palestinos na Cisjordânia e defendeu o avanço da solução de dois Estados durante o Angelus de domingo (16/08/2026), em Castel Gandolfo, na Itália. O pontífice solicitou à comunidade internacional que atue para fazer avançar a proposta de criação de dois Estados como caminho para uma paz justa e duradoura.
O pronunciamento ocorreu em um cenário de aumento da violência na Cisjordânia. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 1.430 incidentes relacionados à violência de colonos foram registrados em 2026 até agosto, afetando cerca de 260 comunidades palestinas. A ONU classificou o nível de violência como sem precedentes e apontou o território como estando em situação crítica.
A ONU também informou que 3.800 palestinos haviam sido deslocados em 2026 em razão de violência de colonos, demolições e despejos, sendo quase metade crianças, segundo dados apresentados em 12 de agosto. O organismo registrou ainda 76 palestinos mortos na Cisjordânia em 2026 até 10 de agosto, além de três israelenses mortos no mesmo período.
Leão XIV relaciona violência à necessidade de solução política
Após a oração do Angelus, Leão XIV renovou o pedido pelo fim dos ataques contra a população civil palestina. Na mesma intervenção, solicitou que a comunidade internacional trabalhasse para avançar a solução de dois Estados, vinculando a proposta à construção de uma paz duradoura.
A manifestação do papa ocorreu durante uma escalada de tensões em diferentes localidades da Cisjordânia. O pronunciamento também coincidiu com o cerco a casas palestinas em Qusra, ao sul de Nablus, onde famílias tiveram o acesso às residências restringido em meio à presença de colonos israelenses e forças militares.
Em Qusra, relatos divulgados pela agência palestina WAFA indicaram que três casas permaneceram sob cerco durante vários dias, com restrições à entrada e saída dos moradores. Também foram registrados cortes no fornecimento de água e eletricidade e ataques contra uma equipe municipal que tentava restabelecer o serviço de energia.
Cerco em Qusra amplia preocupação humanitária
O caso de Qusra ganhou repercussão internacional. Segundo a Reuters, colonos cercaram residências, instalaram tendas nas proximidades e interromperam o acesso a água e eletricidade, enquanto as forças israelenses deslocaram tropas para a região e declararam parte da área como zona militar fechada.
A situação envolveu também Loui Ridi, cidadão palestino-americano, cuja residência estava entre os imóveis cercados. Ridi retornou à Cisjordânia em agosto para acompanhar a família e defender a propriedade, segundo relatos da Associated Press e da Reuters.
Em 16/08/2026, a WAFA informou que forças israelenses impediram a entrada de um caminhão-pipa da UNICEF nos imóveis cercados, embora alimentos e suprimentos médicos tenham sido entregues às famílias. A mesma fonte relatou que o conselho local não havia conseguido restabelecer o fornecimento de água e eletricidade naquele momento.
ONU registra aumento da violência de colonos
Os dados das Nações Unidas indicam que a violência relacionada a colonos passou a representar um dos fatores de deslocamento de comunidades palestinas na Cisjordânia. Em junho, a ONU já havia informado mais de mil ataques de colonos desde janeiro, com consequências sobre pessoas e propriedades em mais de 230 comunidades.
Em relatório apresentado em junho, a ONU afirmou que a frequência dos ataques havia alcançado seis incidentes diários com vítimas ou danos materiais, o maior ritmo sustentado registrado pelo organismo. O relatório também apontou que a violência havia contribuído para o deslocamento de comunidades palestinas.
Os números divulgados em agosto indicaram uma continuidade da tendência. A ONU informou que, apenas nos primeiros quatro meses de 2026, quase 700 palestinos de nove comunidades haviam sido deslocados em consequência de ataques de colonos. O organismo também registrou que a violência atingia centenas de comunidades no território.
Reações internacionais e defesa dos dois Estados
A situação em Qusra provocou manifestações de governos e organismos internacionais. Os Estados Unidos pediram que o governo israelense condenasse a violência, enquanto autoridades espanholas defenderam medidas para impedir ataques contra palestinos e reiteraram o apoio à solução de dois Estados.
A proposta prevê a existência de Israel e Palestina como Estados, com segurança e reconhecimento mútuos. A Santa Sé mantém há décadas a defesa desse modelo como referência diplomática para o conflito.
O posicionamento de Leão XIV segue uma linha histórica da diplomacia do Vaticano. Em documentos e pronunciamentos recentes, a Santa Sé voltou a apresentar a solução de dois Estados como uma perspectiva institucional capaz de responder às aspirações dos dois povos.
Leão XIV mantém apelos por diálogo e diplomacia
O pontífice já havia utilizado outros pronunciamentos para defender o diálogo e a diplomacia como instrumentos para enfrentar conflitos internacionais. Em 12/07/2026, durante o Angelus em Castel Gandolfo, Leão XIV afirmou que a guerra não deveria eliminar a possibilidade de esperança e pediu continuidade dos esforços diplomáticos.
Na ocasião, o papa citou conflitos no Oriente Médio, na Ucrânia e em outras regiões, defendendo diálogo, encontro e diplomacia como meios para alcançar uma paz baseada na segurança mútua e no respeito à dignidade humana.
O apelo de 16/08/2026 concentrou-se especificamente na Cisjordânia. Ao mencionar a população civil palestina e a solução de dois Estados na mesma intervenção, Leão XIV associou a interrupção da violência à necessidade de retomada de uma perspectiva política para o conflito.
Situação permanece marcada por deslocamentos e confrontos
A escalada na Cisjordânia ocorre em paralelo à continuidade do conflito entre Israel e palestinos desde a intensificação da guerra em outubro de 2023. A violência de colonos, operações militares, restrições de circulação e demolições têm produzido impactos sobre comunidades palestinas, segundo relatórios das Nações Unidas.
O episódio de Qusra representa um dos casos recentes de maior repercussão, envolvendo restrição de acesso a residências, interrupção de serviços básicos e presença simultânea de colonos e forças israelenses. As versões sobre responsabilidades e atuação das forças de segurança são objeto de disputa entre as partes e de diferentes relatos locais e internacionais.
Ao reafirmar a necessidade de interromper a violência e avançar na solução de dois Estados, Leão XIV recolocou a questão palestino-israelense no centro de seu apelo diplomático. A implementação da proposta, porém, permanece condicionada a decisões políticas das partes envolvidas e à atuação da comunidade internacional.








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