Salvador, quarta-feira (26/08/2026) — A proposta de colaboração premiada apresentada à Procuradoria-Geral da República (PGR) por João Carlos Mansur, ex-dono e ex-presidente do Conselho de Administração da Reag Investimentos, acrescentou um novo elemento às relações financeiras do candidato ao Governo da Bahia ACM Neto (União Brasil) com empresas ligadas ao caso Banco Master. Segundo informações divulgadas pelo UOL e reproduzidas pelo Poder360, Neto é o titular exclusivo das cotas do fundo Seattle 95, administrado pela Reag até 2025, que investiu cerca de R$ 4,8 milhões no fundo Structure, lastreado em empréstimos consignados originados pelo Banco Master. O político aportou R$ 7,92 milhões no Seattle 95, cujo patrimônio alcançou R$ 11,94 milhões em outubro de 2025, diferença de R$ 4,01 milhões, com rentabilidade média informada de 17% ao ano.
A revelação amplia o contexto financeiro já conhecido envolvendo o ex-prefeito de Salvador, a Reag e o Banco Master. Reportagem publicada pelo Jornal Grande Bahia (JGB) em março de 2026, com base em informações atribuídas a relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), registrou que a A&M Consultoria, empresa ligada a ACM Neto, recebeu aproximadamente R$ 3,6 milhões do Master e da Reag entre 2023 e maio de 2024. Neto afirmou, naquele episódio, que os pagamentos decorreram de serviços de consultoria formalmente contratados.
Proposta de delação ainda depende de assinatura e eventual homologação
A situação jurídica da colaboração de Mansur exige uma distinção central. O documento entregue à PGR constitui uma proposta de acordo de colaboração premiada, que em 26/08/2026 permanecia na fase de ajustes finais e ainda não havia sido formalmente assinada.
Segundo as informações publicadas, a proposta contém 17 anexos relacionados a suspeitas de crimes financeiros e tem como foco principal Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O acordo prevê ainda o pagamento de R$ 40 milhões em multas por Mansur.
Depois da eventual assinatura, o acordo deverá ser encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso, a quem caberá analisar os requisitos para possível homologação. Assim, as declarações atribuídas a Mansur permanecem, nesta etapa, como informações oferecidas no contexto de uma negociação de colaboração, sujeitas a verificação documental, investigação e controle judicial.
Seattle 95 aplicou R$ 4,8 milhões em fundo de consignados do Master
O ponto relacionado diretamente a ACM Neto envolve o Seattle 95, fundo de investimento do qual o candidato ao Governo da Bahia é titular exclusivo das cotas.
Segundo os dados divulgados, o Seattle 95 realizou quatro aquisições no fundo Structure entre novembro de 2021 e julho de 2025, totalizando aproximadamente R$ 4,8 milhões. O Structure era formado por empréstimos consignados originados pelo Banco Master.
ACM Neto realizou dez aportes, que somaram R$ 7,92 milhões, no Seattle 95. Em outubro de 2025, o patrimônio do fundo havia alcançado R$ 11,94 milhões, diferença de R$ 4,01 milhões em relação ao total aportado. A rentabilidade média indicada pela reportagem foi de 17% ao ano.
A diferença entre aportes e patrimônio representa um ganho patrimonial registrado no fundo, mas não deve ser confundida automaticamente com lucro realizado ou valor efetivamente resgatado pelo cotista. A caracterização definitiva depende da composição dos ativos, das movimentações, dos resgates, da tributação e da evolução das cotas no período.
Fundo chegou a concentrar 98,6% do patrimônio em uma única aplicação
Um dos elementos de maior relevância é o grau de concentração do Seattle 95 no Structure. Em fevereiro de 2023, segundo os dados divulgados, 98,6% de todo o patrimônio do fundo estava alocado nessa única aplicação relacionada aos créditos consignados originados pelo Banco Master.
A concentração demonstra que, naquele momento, praticamente todo o patrimônio do veículo exclusivo de investimento estava exposto ao mesmo produto. Esse dado assume relevância adicional porque a administradora do Seattle 95, a Reag, e o originador dos créditos, o Banco Master, passaram posteriormente a ocupar posições centrais em investigações financeiras conduzidas por órgãos públicos.
A existência dessa exposição, por si só, não comprova irregularidade praticada pelo cotista. Uma eventual conexão entre as aplicações do Seattle 95, os ativos do Structure e as operações investigadas envolvendo Master e Reag depende de documentação financeira, rastreamento das operações e conclusões das autoridades competentes.
ACM Neto afirma que recursos são lícitos e operação seguiu regras da CVM
Procurado pelo UOL, ACM Neto confirmou ser cotista do Seattle 95 e afirmou que o fundo foi constituído no final de 2021 com recursos próprios de “origem declarada e lícita”.
Segundo o candidato, a contratação da Reag ocorreu para atender às regras aplicáveis ao funcionamento do fundo. Neto sustentou ainda que a rentabilidade foi “compatível com a realidade de mercado”, que os impostos foram recolhidos e que as operações ocorreram dentro da legalidade.
A manifestação estabelece o contraditório sobre a estrutura do investimento: de um lado, os dados mostram a elevada concentração do Seattle 95 em um fundo relacionado aos consignados do Master; de outro, o cotista afirma que os recursos tinham origem lícita, estavam submetidos à regulação e produziram rentabilidade compatível com o mercado.
Relação financeira já incluía R$ 3,6 milhões pagos à A&M Consultoria
A relação entre ACM Neto e as duas instituições já havia surgido anteriormente no contexto de pagamentos empresariais.
Em março de 2026, informações atribuídas a relatório do Coaf apontaram que a A&M Consultoria Ltda., constituída após as eleições de 2022 e integrada por ACM Neto, recebeu aproximadamente R$ 3,6 milhões do Banco Master e da Reag. Os pagamentos ocorreram entre 2023 e maio de 2024.
ACM Neto confirmou a prestação de serviços e afirmou que os contratos foram formalizados, os trabalhos efetivamente realizados e os tributos recolhidos. Segundo sua versão, as consultorias envolviam análises relacionadas à agenda político-econômica nacional e não guardavam relação com fatos posteriormente submetidos a investigações envolvendo as empresas contratantes.
Com a divulgação da existência do Seattle 95, passam a ser conhecidas duas relações de natureza diferente: uma relação comercial, estabelecida pelos contratos de consultoria, e uma relação de investimento, decorrente da administração do fundo exclusivo pela Reag e da exposição do Seattle 95 a créditos originados pelo Banco Master.
Última aplicação ocorreu antes das operações Carbono Oculto e Compliance Zero
A cronologia é relevante para delimitar os fatos. A última das quatro aplicações do Seattle 95 no Structure ocorreu em julho de 2025.
A Operação Carbono Oculto, que atingiu estruturas relacionadas à Reag e investigou suspeitas de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, foi deflagrada posteriormente, em 28/08/2025. A operação envolveu uma ampla atuação de órgãos públicos contra estruturas financeiras suspeitas de serem usadas para ocultação patrimonial.
Já a Operação Compliance Zero, relacionada às suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master, foi deflagrada em 18/11/2025, também depois da última aplicação informada do Seattle 95 no Structure. A investigação passou a apurar, entre outros pontos, suspeitas relacionadas à emissão e negociação de carteiras de crédito e outros ativos financeiros.
Portanto, a sequência temporal disponível não sustenta a conclusão de que as aplicações do Seattle 95 continuaram após a deflagração dessas duas operações. O que se verifica é que o investimento permaneceu vinculado a estruturas empresariais que, posteriormente, se tornaram objeto de investigações.
Banco Master e instituição originada da Reag foram liquidados pelo Banco Central
O Banco Central decretou em 18/11/2025 a liquidação extrajudicial do Banco Master S.A., Banco Master de Investimento, Letsbank e Master Corretora, além de estabelecer inicialmente regime especial para outra instituição do conglomerado.
Segundo a autoridade monetária, a intervenção decorreu de grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas que regem o Sistema Financeiro Nacional.
Em 15/01/2026, o Banco Central decretou também a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., nova denominação da Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. A decisão foi motivada, segundo o BC, por graves violações às normas aplicáveis às instituições integrantes do sistema financeiro.
João Carlos Mansur foi alvo da Carbono Oculto e posteriormente passou a ser investigado por sua relação com o Banco Master na Compliance Zero. Na proposta entregue à PGR, ele sustenta que estruturas de fundos administradas pela Reag teriam sido utilizadas em operações irregulares relacionadas ao banco e apresenta sua versão sobre a atuação de Vorcaro. Essas declarações permanecem sujeitas à comprovação e ao exame das autoridades.
Patrimônio declarado por ACM Neto chegou a R$ 84,89 milhões em 2026
A nova informação também surge durante o processo eleitoral de 2026. No pedido de registro de candidatura apresentado à Justiça Eleitoral, ACM Neto declarou patrimônio de R$ 84.888.809,63, aproximadamente R$ 84,9 milhões.
O valor representa crescimento nominal de 103,48% em relação aos R$ 41.718.572,69 declarados em 2022, uma diferença de aproximadamente R$ 43,17 milhões em quatro anos. Entre os ativos informados aparecem fundos, aplicações de renda fixa, imóveis e participações empresariais.
Cerca de R$ 9,08 milhões foram declarados em fundos administrados ou intermediados pela Planner Corretora. A instituição tornou-se alvo, em maio de 2026, de uma fase da investigação relacionada às aplicações do Rioprevidência em ativos associados ao Banco Master.
A Polícia Federal apontou suspeitas sobre a forma como a corretora teria intermediado parte dessas operações. A Planner, por sua vez, afirmou que sua atuação ocorreu regularmente, dentro das normas aplicáveis, e que entregou às autoridades a documentação relacionada às transações investigadas.
Não há, a partir dessas informações, base para estabelecer relação automática entre os investimentos declarados por ACM Neto na Planner e as operações específicas investigadas pela Polícia Federal. Essa eventual conexão dependeria da identificação dos fundos, dos ativos integrantes das carteiras e dos respectivos fluxos financeiros.
Fundo de ACM Neto não aparece como prova de participação em esquema
A inclusão do Seattle 95 nas informações apresentadas por Mansur estabelece uma ligação financeira objetiva entre um fundo exclusivo de ACM Neto, a Reag e um produto formado por créditos originados pelo Banco Master. O dado, contudo, não equivale à comprovação de que o político tenha participado, conhecido ou se beneficiado conscientemente de qualquer esquema ilícito.
As investigações citadas tratam de estruturas financeiras mais amplas envolvendo fundos, empresas intermediárias, carteiras de crédito e operações atribuídas ao grupo Master e a seus parceiros. A eventual inclusão do Seattle 95 ou do Structure em uma apuração específica dependerá das decisões da Polícia Federal, do Ministério Público, do Banco Central, da CVM ou do STF, conforme as respectivas competências.
Também deverá ser demonstrado, caso haja investigação nesse sentido, se a valorização de R$ 4,01 milhões registrada entre os aportes realizados por Neto e o patrimônio do fundo em outubro de 2025 resultou exclusivamente da evolução normal dos ativos ou se alguma parcela esteve relacionada a operações posteriormente questionadas pelas autoridades.
Até que existam documentos, perícias ou decisões capazes de estabelecer essa relação, a informação verificável é a estrutura financeira divulgada: R$ 7,92 milhões em aportes, R$ 11,94 milhões em patrimônio em outubro de 2025, média de 17% ao ano, cerca de R$ 4,8 milhões aplicados no Structure e concentração de 98,6% do patrimônio nessa aplicação em fevereiro de 2023.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- Final de 2021 — O Seattle 95 é constituído com recursos de ACM Neto, segundo a versão apresentada pelo candidato; a primeira das aplicações no Structure ocorre em novembro de 2021. Relevância: início da relação financeira do fundo exclusivo com o produto lastreado em consignados originados pelo Master.
- Final de 2022 — A A&M Consultoria é constituída após o ciclo eleitoral. Relevância: a empresa passaria posteriormente a manter contratos comerciais com Master e Reag.
- Fevereiro de 2023 — O Seattle 95 chega a concentrar 98,6% de seu patrimônio no Structure. Relevância: maior nível informado de exposição do fundo exclusivo a uma única aplicação ligada a créditos originados pelo Banco Master.
- 2023 a maio de 2024 — Informações atribuídas ao Coaf apontam pagamentos de aproximadamente R$ 3,6 milhões do Master e da Reag à A&M Consultoria. ACM Neto atribui os valores a serviços regularmente contratados e executados.
- Julho de 2025 — O Seattle 95 realiza a última das quatro aquisições informadas no Structure. O total aplicado chega a aproximadamente R$ 4,8 milhões.
- 28/08/2025 — É deflagrada a Operação Carbono Oculto, que alcança estruturas relacionadas à Reag e investiga suspeitas de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.
- Outubro de 2025 — O patrimônio do Seattle 95 alcança R$ 11,94 milhões, ante R$ 7,92 milhões aportados por ACM Neto, diferença de R$ 4,01 milhões.
- 18/11/2025 — A Polícia Federal deflagra a Operação Compliance Zero e o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.
- 15/01/2026 — O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial da CBSF DTVM, nova denominação da Reag Trust DTVM, por graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
- Julho de 2026 — ACM Neto registra candidatura ao Governo da Bahia e declara patrimônio de R$ 84.888.809,63, crescimento de 103,48% sobre o declarado em 2022.
- 26/08/2026 — Vem a público a proposta de colaboração premiada de João Carlos Mansur, com 17 anexos, incluindo informações sobre o Seattle 95. O acordo ainda depende de assinatura e de eventual homologação pelo STF.
A divulgação do Seattle 95 amplia qualitativamente o debate sobre as relações financeiras de ACM Neto com o ambiente empresarial formado por Reag e Banco Master. A questão deixa de se limitar aos pagamentos recebidos pela A&M Consultoria e passa a abranger também a administração de patrimônio privado e a exposição de um fundo exclusivo a produtos financeiros originados pelo Master. São relações de naturezas distintas e não devem ser confundidas, mas ambas justificam escrutínio documental em razão das investigações que posteriormente alcançaram as instituições envolvidas.
O dado mais relevante para eventual apuração é a concentração de 98,6% do patrimônio do Seattle 95 no Structure em fevereiro de 2023. A elevada exposição demonstra dependência financeira daquele ativo naquele momento, mas não constitui, isoladamente, evidência de ilícito. Para avançar além dessa constatação, seriam necessários documentos sobre composição das carteiras, critérios de precificação, origem e desempenho dos créditos consignados, movimentações entre fundos e eventuais resgates.
Da mesma forma, o acréscimo de R$ 4,01 milhões entre os aportes de ACM Neto e o patrimônio registrado em outubro de 2025 precisa ser tratado tecnicamente como valorização patrimonial informada, e não automaticamente como produto de irregularidades. A versão de Neto é de que os recursos eram lícitos, a administração obedecia às regras regulatórias e a rentabilidade foi compatível com o mercado. Qualquer conclusão diferente depende de prova produzida pelas instituições responsáveis pela investigação e fiscalização.
O episódio possui relevância pública porque envolve um candidato ao Governo da Bahia, um banco submetido a liquidação pelo Banco Central, uma administradora alcançada por investigações e uma proposta de colaboração premiada ainda em negociação com a PGR. Os próximos passos caberão à Procuradoria-Geral da República, à Polícia Federal, ao Banco Central, à Comissão de Valores Mobiliários e, caso o acordo seja formalizado, ao STF, que deverá analisar sua homologação.









Deixe um comentário