Saúde de Salvador após quase 14 anos de ACM Neto e Bruno Reis: expansão da rede convive com falhas de acesso e investigações sobre contratos

Nesta segunda-feira, 17/08/2026, diagnóstico da saúde municipal de Salvador. elaborado por Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia, revela uma trajetória marcada por duas realidades simultâneas: as administrações do correligionários do Partido União Brasil (UB) ACM Neto e Bruno Reis, politicamente contínuas desde 1º de janeiro de 2013, ampliaram a atenção primária, estruturaram a primeira rede hospitalar própria do município e elevaram a capacidade de atendimento; ao mesmo tempo, quase 14 anos depois do início desse ciclo administrativo, persistem problemas relacionados ao acesso a medicamentos, consultas especializadas, exames, regulação e distribuição da capacidade assistencial. A pressão sobre as unidades de urgência permanece elevada, enquanto contratos da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) e serviços vinculados foram alcançados por operações federais e procedimentos do Ministério Público. O conjunto de dados afasta tanto a conclusão de que nada avançou quanto a ideia de que o crescimento da estrutura resolveu os principais gargalos enfrentados pela população.

Rede municipal cresceu a partir de uma cobertura historicamente baixa

Quando ACM Neto assumiu a Prefeitura, em janeiro de 2013, Salvador partia de uma cobertura reduzida na atenção primária. Dados divulgados pela própria Secretaria Municipal da Saúde indicavam 18,6% de cobertura em 2012, parâmetro que evidencia o tamanho do passivo recebido pela administração que se iniciava.

Nos anos seguintes ocorreu expansão significativa da estrutura básica. Em atualização divulgada em agosto de 2024 a partir de dados federais, Salvador aparecia com cobertura próxima de 70% dos moradores pelos serviços básicos de saúde. A capital dispunha então de 162 unidades básicas, 389 equipes de Saúde da Família, 115 equipes de atenção primária, cinco equipes de Consultório na Rua e 16 equipes multiprofissionais.

A diferença entre o ponto de partida e a estrutura alcançada constitui um avanço mensurável. Ela também é indispensável para avaliar corretamente a responsabilidade das administrações municipais: a gestão iniciada por Neto encontrou cobertura baixa e efetivamente ampliou a rede; Bruno Reis prosseguiu com o mesmo projeto administrativo e político.

O próprio atual prefeito reconheceu expressamente essa continuidade. Em mensagem apresentada à Câmara Municipal em 3 de fevereiro de 2025, Bruno atribuiu as realizações ao “trabalho iniciado por Neto e continuado por nós” e, simultaneamente, reconheceu que ainda havia “muitos desafios”. Na mesma ocasião, declarou que a administração havia “universalizado” a atenção básica.

O conceito de cobertura utilizado nos sistemas de acompanhamento da atenção primária representa capacidade populacional estimada ou potencial, e não comprovação de que cada cidadão efetivamente recebeu atendimento sempre que necessitou. Além disso, o indicador federal disponível meses antes apontava cobertura próxima de 70%, razão pela qual não se deve equiparar expansão territorial ou disponibilidade de serviços à universalização concreta do acesso.

Alto volume de atendimentos convive com dificuldades para conseguir assistência

A produção da rede municipal é elevada, sobretudo nas portas de urgência. Entre janeiro e julho de 2024, as UPAs de Salvador realizaram 726.925 atendimentos, média de aproximadamente 103.846 por mês, segundo informações da SMS obtidas pelo Farol da Bahia. Naquele período, a rede contava com 18 unidades de pronto atendimento, 14 delas administradas por organizações sociais.

Os números demonstram que caracterizar o sistema simplesmente como uma estrutura de “baixo atendimento” seria impreciso. O problema mais relevante identificado pelos dados é outro: alto volume assistencial não significa ausência de barreiras de acesso.

Na mesma reportagem, usuários entrevistados em unidades da capital relataram falta de medicamentos, dificuldade para localizar determinados profissionais, espera prolongada e problemas para obter vagas em especialidades e serviços odontológicos. São testemunhos individuais, não uma pesquisa amostral capaz de medir a frequência desses problemas em toda Salvador, mas as reclamações coincidem com gargalos posteriormente reconhecidos pela própria administração e com procedimentos instaurados pelo Ministério Público.

Também existe uma limitação relevante de transparência estatística para avaliar a parcela da demanda que efetivamente permanece sem atendimento. Na apuração publicada em 2024, a SMS informou o número de procedimentos das UPAs, mas não apresentou ao veículo o total de pacientes atendidos na atenção primária. Não foi identificado, nas fontes públicas consultadas para este diagnóstico, um indicador único e consolidado que permita afirmar quantos moradores procuraram o SUS municipal e deixaram de obter o serviço necessário.

A ausência dessa medida impede transformar automaticamente um percentual de cobertura inferior a 100% em número de pessoas “sem atendimento”. Mas também dificulta avaliar, com precisão, o tamanho da demanda reprimida e a efetividade da rede para além da contagem de consultas, exames e procedimentos.

Falta de medicamentos permanece sob acompanhamento do Ministério Público

Um dos problemas mais sensíveis continua relacionado à assistência farmacêutica. Documento oficial do Ministério Público da Bahia (MPBA) registra procedimento da Promotoria de Justiça da Saúde para acompanhar a implantação de centrais de assistência farmacêutica e as medidas adotadas pela Secretaria Municipal da Saúde diante da falta de medicamentos em Unidades de Saúde da Família e Unidades Básicas de Saúde.

O procedimento, de número IDEA 003.9.386807/2023, teve prazo prorrogado e permanece com previsão de conclusão em 19/01/2027. A existência do acompanhamento ministerial não significa, por si só, comprovação de omissão administrativa ou ilícito, mas demonstra que o problema alcançou dimensão suficiente para permanecer sob fiscalização institucional.

Em outro procedimento, instaurado em 7 de maio de 2026, o MPBA passou a acompanhar a regularização de não conformidades na UBS Eunísio Coelho Teixeira. O documento público consultado não discrimina quais são essas não conformidades e, portanto, não permite atribuir natureza específica às falhas.

Os dois casos são relevantes porque mostram que, mesmo depois de mais de uma década de ampliação da rede, questões relacionadas ao funcionamento cotidiano das unidades permanecem submetidas ao controle externo.

Especialidades, exames e regulação formam outro núcleo de pressão

A dificuldade de acesso à média complexidade foi reconhecida publicamente pelo próprio prefeito. Em 10 de fevereiro de 2025, ao anunciar mudanças na Secretaria Municipal da Saúde, Bruno Reis afirmou que um dos grandes problemas estava na dificuldade de determinadas especialidades, mencionando áreas como neuropediatria e ginecologia, além da forte demanda reprimida por exames de imagem. A administração anunciou então a intenção de estruturar um centro municipal de diagnóstico por imagem.

A declaração é particularmente relevante porque permite diferenciar dois níveis do problema. Uma cidade pode possuir unidades básicas espalhadas pelo território e, ainda assim, encontrar obstáculos na etapa seguinte da assistência: encaminhamento para especialistas, exames, diagnóstico e tratamento.

É justamente nessa passagem entre atenção primária e serviços de maior complexidade que a eficiência da regulação se torna decisiva. Filas prolongadas ou insuficiência de oferta especializada podem provocar retorno recorrente dos pacientes às UBS, procura direta por UPAs ou busca de hospitais estaduais, aumentando a pressão sobre serviços concebidos para outras funções.

Essa dinâmica também impede analisar isoladamente o desempenho municipal. O SUS opera por responsabilidades compartilhadas. A própria Secretaria da Saúde da Bahia ressalta que o município é o principal responsável pela assistência à população local, mas serviços inexistentes na rede municipal podem ser pactuados regionalmente, enquanto casos de maior complexidade são encaminhados a unidades estaduais de referência.

Assim, nem todo atendimento realizado em hospital estadual representa falha municipal. Por outro lado, uma atenção básica incapaz de resolver casos compatíveis com sua atribuição, uma regulação lenta ou oferta insuficiente de média complexidade podem transferir pressão desnecessária para a rede estadual.

Rede hospitalar municipal própria começou somente em 2018

Outra característica histórica de Salvador é a formação tardia de uma rede hospitalar diretamente municipal. O Hospital Municipal de Salvador (HMS), primeiro hospital público da Prefeitura, foi inaugurado em abril de 2018, durante o segundo mandato de ACM Neto.

A unidade foi estruturada com 220 leitos, dos quais 40 de terapia intensiva, 150 médico-cirúrgicos e 30 pediátricos. Entre a inauguração e abril de 2024, acumulou 807.562 atendimentos, 60.258 internações, 28.803 cirurgias, 645.893 exames de imagem e 213.830 atendimentos ambulatoriais, segundo balanço divulgado pela instituição. As categorias correspondem a diferentes tipos de serviços e não devem ser somadas como se representassem pacientes distintos.

Em 5 de julho de 2024, já no governo Bruno Reis, foi inaugurado o Hospital Municipal do Homem, com investimento inicial informado de R$ 35 milhões e capacidade total de aproximadamente 150 leitos, considerando unidades clínico-cirúrgicas, terapia intensiva e hospital-dia. A previsão inicial era realizar até 3.850 consultas mensais e quase 1.500 cirurgias urológicas por ano.

Dois anos depois, balanço divulgado em julho de 2026 registrava quase 300 mil serviços na unidade, incluindo 16.134 cirurgias, 87.053 atendimentos ambulatoriais, 183.364 exames diagnósticos e terapêuticos e 13.042 internações. Novamente, trata-se da soma de categorias de produção assistencial, e não de 300 mil pacientes individualizados.

A expansão avançou em 16 de abril de 2026, com a inauguração da Maternidade e Hospital da Criança Deputado Alan Sanches, complexo municipal construído na Federação. O investimento informado foi de aproximadamente R$ 154 milhões, com 198 leitos e estrutura superior a 13 mil metros quadrados.

Essas unidades representam mudança estrutural importante em relação a 2012. Ao mesmo tempo, evidenciam que a construção de uma rede hospitalar própria de Salvador é um processo relativamente recente: começou apenas em 2018, cinco anos após a chegada do atual grupo político à Prefeitura.

A limitação histórica da capacidade hospitalar municipal ajuda a explicar a dependência de unidades estaduais, filantrópicas e contratualizadas, mas não elimina a responsabilidade da Prefeitura por planejamento, contratação, regulação, atenção básica, urgência e articulação da rede.

Orçamento superior a R$ 3 bilhões amplia a cobrança por resultados

A saúde municipal opera atualmente com orçamento bilionário. Na execução de 2025, Salvador aplicou mais de R$ 3,1 bilhões no setor, equivalentes a 23,21% da base de receitas utilizada para aferição da aplicação constitucional em saúde, percentual superior ao mínimo de 15%.

Para 2026, a Lei Orçamentária destinou aproximadamente R$ 3,12 bilhões à Secretaria Municipal da Saúde, tornando-a uma das maiores estruturas orçamentárias da administração de Salvador.

Somente no primeiro quadrimestre deste ano, a Prefeitura informou aplicação de cerca de R$ 617 milhões em saúde, correspondente a 22,5% da base constitucional apurada no período.

Esses números não demonstram, isoladamente, eficiência nem ineficiência. Gastar acima do piso constitucional revela prioridade financeira relativa, mas não informa se os recursos estão alocados da maneira mais eficiente, se chegam aos territórios de maior necessidade ou se conseguem reduzir tempo de espera e demanda reprimida.

Com recursos dessa magnitude e quase 14 anos de continuidade administrativa, a avaliação da política pública precisa ultrapassar o debate sobre quantidade global de dinheiro. Passam a ocupar o centro da análise a qualidade da execução orçamentária, gestão de pessoal, logística de medicamentos, regulação, produtividade, territorialização dos serviços e controle dos contratos terceirizados.

ACM Neto e Bruno Reis compartilham a responsabilidade administrativa pela trajetória da rede

A continuidade entre os dois governos não é apenas uma interpretação política. Foi reconhecida pelo próprio Bruno Reis ao atribuir sua atuação à continuidade do trabalho iniciado por ACM Neto.

ACM Neto: expansão estrutural e contratos posteriormente investigados

Nos oito anos de ACM Neto, de 2013 a 2020, a Prefeitura ampliou a atenção primária e inaugurou o primeiro hospital municipal. Partindo de uma cobertura informada de 18,6% em 2012, sua administração alterou substancialmente a estrutura disponível na capital.

O período, contudo, também concentra contratos que posteriormente entraram no radar dos órgãos de investigação. Isso ocorreu em casos envolvendo unidades de pronto atendimento, multicentros e serviços terceirizados.

É fundamental separar responsabilidade administrativa de responsabilidade penal. O fato de um contrato ter sido firmado ou executado durante determinado governo estabelece vínculo temporal e responsabilidade de supervisão institucional, mas não demonstra participação pessoal do prefeito em eventual fraude.

Bruno Reis: expansão hospitalar e gargalos ainda não solucionados

Bruno Reis, que assumiu em janeiro de 2021, preservou o modelo administrativo, ampliou a rede hospitalar e inaugurou o Hospital Municipal do Homem e o complexo materno-infantil. Também manteve altos volumes de atendimento nas unidades de urgência.

O intervalo transcorrido desde 2013, porém, aumenta o peso da cobrança sobre problemas persistentes. Dificuldade de acesso a especialistas, demanda por exames de imagem e problemas na assistência farmacêutica já não podem ser examinados apenas como passivos recebidos de administrações anteriores, sobretudo porque o atual governo se apresenta expressamente como continuidade do anterior.

Isso não elimina fatores externos ao município, como demanda crescente, responsabilidades estaduais e federais, mudanças epidemiológicas e complexidade do SUS. Mas uma continuidade administrativa tão longa reduz progressivamente a capacidade de atribuir problemas estruturais exclusivamente à herança recebida.

Três operações federais alcançaram contratos ou unidades da Saúde municipal

A busca realizada em fontes públicas localizou pelo menos três operações federais diretamente relacionadas a contratos ou unidades vinculadas à Secretaria Municipal da Saúde de Salvador nas quais foram investigadas suspeitas de fraude, superfaturamento, peculato, corrupção ou desvio de recursos: Kepler, Strike e Dia Zero.

Esse recorte não significa que tenham sido as únicas apurações administrativas, civis ou criminais envolvendo a SMS. Também não significa que as suspeitas tenham resultado automaticamente em condenações ou que possam ser atribuídas pessoalmente aos prefeitos.

Operação Kepler

A Operação Kepler foi deflagrada em 20 de março de 2019, durante a administração de ACM Neto, pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União. A investigação alcançou contratos da SMS relacionados à UPA de Paripe e aos multicentros da Liberdade e Carlos Gomes.

Segundo informações divulgadas à época a partir das auditorias, as suspeitas envolviam sobrepreço estimado em 34% nos contratos dos multicentros e 16% no contrato da UPA, com valor de possível superfaturamento calculado em aproximadamente R$ 8,1 milhões dentro de contratos que somavam cerca de R$ 30,7 milhões. Esses valores correspondiam à avaliação da investigação e não a uma condenação judicial definitiva.

A administração municipal declarou que adotava glosas, retenções, ressarcimentos e procedimentos administrativos, além de afirmar que colaborava com as investigações.

Operação Strike

A Operação Strike foi deflagrada em 9 de dezembro de 2021, já no primeiro ano da gestão Bruno Reis, por Polícia Federal, CGU e Receita Federal. A investigação envolvia a gestão da UPA de Pirajá e suspeita de aproximadamente R$ 4,5 milhões em sobrepreço. Foram cumpridos 14 mandados de busca e apreensão.

O contrato investigado havia sido iniciado em 2016, durante ACM Neto, e prorrogado até julho de 2021. No intervalo de julho de 2016 a julho de 2021, a organização investigada recebeu aproximadamente R$ 82,3 milhões no contrato relacionado à unidade, segundo os dados divulgados na época.

A mesma organização mantinha relações contratuais com o município desde 2011, antes da chegada de ACM Neto à Prefeitura. Por isso, valores globais pagos durante uma década não podem ser atribuídos integralmente às administrações de Neto e Reis.

O caso continuou produzindo desdobramentos. Portaria publicada pelo Ministério Público Federal em janeiro de 2026 informa que provas do inquérito policial foram utilizadas em denúncia que originou ação penal e que, em dezembro de 2025, os fatos também passaram a ser examinados em inquérito civil, diante de possíveis repercussões no campo do direito administrativo sancionador.

Operação Dia Zero

A Operação Dia Zero, deflagrada em 12 de junho de 2025, investigou possíveis irregularidades em contratação da Secretaria Municipal da Saúde. A Polícia Federal e a CGU cumpriram 25 mandados de busca e apreensão, e a Justiça determinou bloqueio de R$ 100 milhões, além de outras medidas cautelares. As suspeitas investigadas incluíam fraude contratual, peculato, corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Segundo manifestação da própria SMS reproduzida à época, a apuração estava relacionada ao Contrato nº 193/2013, mantido entre 16 de outubro de 2013 e 12 de outubro de 2019. Portanto, o vínculo contratual investigado foi firmado e executado durante a administração ACM Neto, embora a operação tenha ocorrido no governo Bruno Reis.

É igualmente importante não transformar o bloqueio judicial de R$ 100 milhões em valor de prejuízo definitivamente comprovado. Bloqueio patrimonial é medida cautelar e não equivale, por si só, a reconhecimento judicial definitivo de desvio no mesmo montante.

Ministério Público também investigou supostas irregularidades em UPAs

Além das três operações federais identificadas no recorte de suspeitas diretamente relacionadas a contratos e recursos da saúde, documentos oficiais revelam outras frentes de fiscalização.

Em 4 de novembro de 2020, o Ministério Público da Bahia instaurou procedimento preparatório para apurar supostas irregularidades atribuídas à Secretaria Municipal da Saúde na UPA Adroaldo Albergaria e na UPA dos Barris.

O documento público consultado não detalha, naquele ato, se as irregularidades envolviam especificamente desvio de recursos. Por essa razão, esse procedimento não foi contabilizado entre as três operações federais relacionadas a suspeitas de fraude, superfaturamento ou peculato.

A distinção é necessária para evitar uma soma artificial de investigações de naturezas distintas e para preservar a presunção de inocência dos agentes e instituições mencionados.

A continuidade administrativa amplia a responsabilidade por problemas crônicos

Os números permitem rejeitar duas conclusões extremas. A primeira seria afirmar que as administrações de ACM Neto e Bruno Reis não produziram avanço relevante. A expansão da atenção primária, a criação dos hospitais municipais e o grande volume de atendimentos tornam essa conclusão incompatível com os dados.

A segunda seria considerar que a expansão física encerrou os principais problemas. Os procedimentos do Ministério Público sobre medicamentos, as dificuldades reconhecidas pela própria gestão em especialidades e exames, as reclamações de usuários e a necessidade de contínua ampliação da rede mostram que capacidade instalada e acesso efetivo não são sinônimos.

Quase 14 anos constituem período suficientemente longo para que a Prefeitura seja cobrada não apenas pela expansão, mas pela maturidade do modelo implantado: regularidade no abastecimento, acesso oportuno a especialistas, redução de filas, integração entre atenção básica e hospitais, transparência sobre demanda reprimida e mecanismos capazes de prevenir fraudes em contratos.

Nesse ponto, a continuidade política cria uma responsabilidade administrativa compartilhada: Neto responde pelo desenho e por parte substancial da expansão ocorrida entre 2013 e 2020; Bruno responde pela manutenção, aperfeiçoamento, correção de falhas e novos investimentos desde 2021. Essa responsabilidade política e administrativa não deve ser confundida com responsabilização criminal individual, que depende de provas e decisões das autoridades competentes.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 2012 — Salvador registra cobertura de atenção primária de 18,6%, segundo dados posteriormente divulgados pela SMS; o indicador evidencia a reduzida estrutura herdada pela administração seguinte.
  • 1º de janeiro de 2013 — ACM Neto assume a Prefeitura de Salvador e inicia o ciclo político-administrativo posteriormente continuado por Bruno Reis.
  • 16/10/2013 — entra em vigor o Contrato nº 193/2013, posteriormente relacionado pela SMS à investigação da Operação Dia Zero; o vínculo permaneceu ativo até outubro de 2019.
  • Abril de 2018 — é inaugurado o Hospital Municipal de Salvador, primeiro hospital público municipal da capital, com 220 leitos.
  • 20/03/2019 — PF e CGU deflagram a Operação Kepler, envolvendo contratos relacionados à UPA de Paripe e aos multicentros da Liberdade e Carlos Gomes.
  • 04/11/2020 — MPBA instaura procedimento sobre supostas irregularidades nas UPAs Adroaldo Albergaria e dos Barris.
  • 2021 — Bruno Reis assume a Prefeitura e dá continuidade ao grupo político que administra Salvador desde 2013.
  • 09/12/2021 — PF, CGU e Receita deflagram a Operação Strike, que investiga contrato relacionado à UPA de Pirajá e possível sobrepreço.
  • 05/07/2024 — Prefeitura inaugura o Hospital Municipal do Homem, ampliando a rede hospitalar própria.
  • Agosto de 2024 — atualização baseada em dados federais aponta cobertura de atenção básica próxima de 70%, com 162 unidades e centenas de equipes; no mesmo período, reportagem registra reclamações de usuários sobre medicamentos, profissionais e acesso a serviços.
  • 03/02/2025 — Bruno Reis define sua administração como continuidade do trabalho iniciado por ACM Neto, reconhece desafios remanescentes e afirma ter universalizado a atenção básica.
  • 10/02/2025 — o prefeito reconhece dificuldades na oferta de algumas especialidades e na realização de exames de imagem.
  • 12/06/2025 — é deflagrada a Operação Dia Zero, envolvendo investigação relacionada a contrato municipal vigente entre 2013 e 2019; a Justiça determina bloqueio de R$ 100 milhões.
  • 19/12/2025 — MPF determina a instauração de inquérito civil relacionado aos fatos da Operação Strike, após autorização judicial para compartilhamento de provas; documento informa ainda a existência de ação penal derivada do inquérito policial.
  • 16/04/2026 — Salvador inaugura a Maternidade e Hospital da Criança Deputado Alan Sanches, com investimento informado de R$ 154 milhões e 198 leitos.
  • 07/05/2026 — MPBA instaura procedimento para acompanhar a correção de não conformidades na UBS Eunísio Coelho Teixeira.
  • 17/08/2026 — quase 14 anos após o início do atual ciclo político-administrativo, a rede é maior e mais estruturada, mas permanecem desafios de acesso, assistência farmacêutica, especialidades, regulação e integridade contratual.

O diagnóstico da saúde municipal de Salvador não sustenta uma narrativa de estagnação absoluta. A cidade saiu de uma cobertura de atenção primária muito reduzida, ganhou centenas de equipes, estruturou unidades básicas e, pela primeira vez, formou uma rede hospitalar própria. O volume de atendimentos nas UPAs e hospitais comprova utilização intensa do sistema. Esses avanços fazem parte do legado administrativo iniciado por ACM Neto e continuado por Bruno Reis e devem integrar qualquer avaliação que pretenda ser factual.

A principal questão pública está na distância entre expansão da oferta e efetividade do acesso. Depois de quase 14 anos do mesmo ciclo político, problemas relacionados a medicamentos, especialidades, exames e funcionamento de unidades ainda aparecem em manifestações de usuários, declarações do próprio governo e procedimentos do Ministério Público. A duração da continuidade administrativa torna legítimo exigir explicações mais consistentes sobre por que gargalos dessa natureza não foram eliminados ou substancialmente reduzidos. Ao mesmo tempo, a divisão interfederativa do SUS impede atribuir à Prefeitura, isoladamente, toda deficiência existente na assistência hospitalar e de alta complexidade.

A integridade dos contratos constitui um segundo eixo que exige acompanhamento permanente. A apuração identificou três grandes operações federais — Kepler, Strike e Dia Zero — diretamente relacionadas a contratos ou serviços da saúde municipal sob suspeitas de irregularidades, além de procedimentos do MPBA. A sucessão de investigações demonstra a necessidade de controles internos rigorosos sobre organizações sociais, prestadores e contratos de grande valor, mas não autoriza imputar participação criminosa a ACM Neto ou Bruno Reis sem prova individualizada. As fontes consultadas não fornecem base para responsabilização penal pessoal dos dois prefeitos pelos fatos descritos.

O núcleo factual, portanto, é uma administração que ampliou consideravelmente a rede e dispõe de orçamento anual superior a R$ 3 bilhões, mas ainda precisa demonstrar capacidade de converter estrutura e gasto em acesso mais previsível, abastecimento regular, especialidades disponíveis, regulação eficiente e contratos mais protegidos contra irregularidades. Nos próximos anos, a responsabilidade caberá à Prefeitura de Salvador, à Secretaria Municipal da Saúde, ao Conselho Municipal de Saúde e aos órgãos de controle, enquanto MPBA, MPF, PF, CGU e Judiciário deverão dar continuidade às apurações já instauradas e esclarecer responsabilidades quando houver suporte probatório.


Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Descubra mais sobre Jornal Grande Bahia (JGB)

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo