Em Salvador (BA), nesta sexta-feira (07/08/2026), levantamento do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), área de pesquisa do Banco do Nordeste (BNB), apontou que as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos podem afetar oito dos 15 principais itens exportados pela Região Nordeste ao mercado norte-americano. Esses produtos movimentaram mais de US$ 450 milhões no primeiro semestre de 2026, montante equivalente a aproximadamente 36% do valor das vendas nordestinas aos Estados Unidos no período, segundo o estudo.
Tarifas alcançam parcela relevante das vendas nordestinas aos EUA
O impacto decorre de diferentes medidas tarifárias adotadas pelo governo dos Estados Unidos. Entre elas estão uma sobretaxa adicional de 25% aplicada a determinados produtos brasileiros e outra de 12,5%, relacionada à investigação norte-americana sobre políticas de prevenção e combate ao trabalho forçado nas cadeias globais de suprimentos.
Quando as duas medidas baseadas na Seção 301 da legislação comercial norte-americana incidem simultaneamente sobre a mesma mercadoria, a sobretaxa adicional pode chegar a 37,5%. O percentual, portanto, não se aplica indistintamente a todas as exportações brasileiras, pois depende da classificação aduaneira do produto, das listas de exceções e da incidência de outros regimes tarifários.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) calcula, com base no comércio bilateral de 2024, que 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos estão sujeitas às duas novas medidas da Seção 301. Desse total, 4,7% estão sujeitos somente à tarifa de 12,5%, 1,9% exclusivamente à tarifa de 25% e 16,5% à incidência acumulada de 37,5%.
Indústria aparece entre os setores mais expostos no Nordeste
Segundo o economista-chefe do Banco do Nordeste, Rogério Sobreira, a indústria regional está entre os segmentos que enfrentarão maiores dificuldades com a elevação dos custos de entrada de produtos brasileiros no mercado norte-americano.
“As empresas desse setor no Nordeste enfrentarão maiores desafios, já que importantes produtos, como os semimanufaturados de ferro e aço, estão sendo taxados”, afirmou o economista.
A situação dos produtos metálicos exige, entretanto, uma distinção entre os diferentes instrumentos comerciais adotados pelos Estados Unidos. Aço, alumínio e outros produtos metálicos estão sujeitos a medidas próprias baseadas na Seção 232, adotadas sob justificativa de segurança nacional. Segundo o MDIC, mercadorias alcançadas pelas tarifas setoriais da Seção 232 não acumulam as duas novas sobretaxas da Seção 301.
Aço e alumínio já enfrentavam tarifas específicas
As barreiras sobre produtos metálicos antecedem a atual rodada de medidas direcionadas ao Brasil. Em 3 de junho de 2025, o governo dos Estados Unidos anunciou a elevação da tarifa adicional incidente sobre aço e alumínio de 25% para 50%, com vigência a partir do dia seguinte, com fundamento na Seção 232 da Lei de Expansão Comercial norte-americana.
O regime para aço, alumínio, cobre e produtos derivados passou posteriormente por novos ajustes durante 2026, mantendo um sistema tarifário específico para os metais. Essa estrutura é contabilizada separadamente das sobretaxas impostas pela Seção 301 contra produtos brasileiros.
No quadro nacional apresentado pelo MDIC, os produtos submetidos às tarifas setoriais da Seção 232 representam 24,2% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, considerando a pauta comercial de 2024. Somada aos 23,1% alcançados pelas novas medidas da Seção 301, a parcela da pauta brasileira submetida a alguma tarifa adicional chega a aproximadamente 47,3%.
Agronegócio nordestino também enfrenta efeitos diretos
No agronegócio, o levantamento do Etene identifica exposição em produtos relevantes para diferentes cadeias produtivas da Região Nordeste. Entre os itens afetados aparecem celulose solúvel, açúcar, álcool, mel natural, determinados tipos de pescados, calçados de couro e cordéis de sisal.
A composição da lista mostra que os efeitos não ficam restritos à produção agropecuária primária. Parte dos produtos atingidos depende de cadeias agroindustriais, processamento, transporte, logística portuária e atividades industriais associadas, ampliando a quantidade de empresas que precisam acompanhar os efeitos das novas condições de acesso ao mercado norte-americano.
No caso do sisal, por exemplo, a incidência comercial atinge uma atividade historicamente vinculada ao semiárido nordestino e com participação relevante da Bahia. Já a celulose, o açúcar e o álcool integram cadeias produtivas de maior escala e com capacidade de abastecimento de diferentes mercados internacionais.
Celulose convencional, cacau, manga e castanha estão entre as exceções
O Etene também identificou produtos importantes da pauta regional que ficaram fora das novas sobretaxas analisadas. Entre eles estão celulose convencional, manteiga e óleo de cacau, manga, castanha de caju, água de coco, cacau em pó, café em grão e partes de frutas.
As exceções reduzem a exposição de determinados segmentos do Nordeste, mas não eliminam os efeitos indiretos das mudanças na política comercial dos Estados Unidos. Empresas exportadoras precisam considerar fatores como contratos internacionais, margens comerciais, custos logísticos, câmbio e capacidade de transferência ou absorção dos custos adicionais.
No quadro nacional, o MDIC estima que 52,7% das exportações brasileiras aos Estados Unidos permanecem fora tanto das novas medidas específicas da Seção 301 quanto das tarifas setoriais da Seção 232. Entre os exemplos citados pelo ministério estão café, carnes, ferro fundido, aeronaves, suco de laranja, frutas, vários produtos químicos e a maior parcela das exportações de celulose.
Estados Unidos responderam por cerca de 12% das exportações nordestinas
Apesar da dimensão das novas barreiras, o mercado norte-americano representa apenas uma parcela do comércio exterior regional. Segundo Rogério Sobreira, os Estados Unidos responderam por aproximadamente 12% de todas as exportações do Nordeste em 2025, característica que abre espaço para estratégias de redirecionamento comercial.
“Precisamos lembrar que os americanos não são os únicos consumidores dos nossos produtos”, afirmou o economista-chefe do BNB ao defender a diversificação dos mercados de destino como uma das respostas possíveis à nova configuração tarifária.
A estratégia já havia sido apontada pelo próprio Etene em análises anteriores sobre o comércio exterior nordestino. Em relatório divulgado em junho de 2026, o órgão indicou que diversificação de mercados e aumento da competitividade dos produtos estavam entre os principais caminhos para enfrentar um ambiente internacional marcado por tarifas, redução da demanda externa e oscilações nos preços das commodities.
Crédito pode funcionar como instrumento de adaptação
Além da busca por novos compradores, o Banco do Nordeste destaca o acesso ao crédito como instrumento para auxiliar empresas exportadoras a enfrentar dificuldades de curto e médio prazo provocadas pela alteração das condições comerciais.
Sobreira ressaltou que o próprio BNB oferece linhas destinadas ao financiamento da atividade exportadora, inclusive operações amparadas por recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE).
Entre as modalidades disponíveis está o NExport, voltado ao financiamento da produção industrial e agroindustrial e de atividades comerciais direcionadas à exportação. A linha pode financiar matérias-primas, insumos, estoques de mercadorias e determinados gastos associados ao funcionamento das empresas exportadoras.
Novas tarifas atingem 23,1% das exportações brasileiras aos EUA
No conjunto do país, as novas medidas comerciais dos Estados Unidos têm alcance inferior ao observado em determinados setores nordestinos, embora representem parcela relevante do intercâmbio bilateral.
O MDIC calcula que as sobretaxas decorrentes das duas investigações da Seção 301 atingem 23,1% do valor das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, tomando como referência a pauta comercial de 2024. O material divulgado pelo Banco do Nordeste informa ainda que 639 produtos brasileiros integram o conjunto alcançado pelas sobretaxas analisadas.
Em valores, o Brasil exportou US$ 40,4 bilhões para os Estados Unidos em 2024. Desse montante, aproximadamente US$ 6,6 bilhões, equivalentes a 16,5%, correspondem a produtos sujeitos simultaneamente às duas medidas da Seção 301 e, consequentemente, à sobretaxa acumulada de 37,5%. Outros US$ 1,9 bilhão estão sujeitos exclusivamente à tarifa de 12,5%, enquanto aproximadamente US$ 800 milhões estão submetidos apenas à tarifa adicional de 25%.
Exportações brasileiras aos EUA recuam em 2026
As novas barreiras comerciais entram em vigor em um período de retração das vendas brasileiras para o mercado norte-americano. Depois de alcançarem US$ 40,4 bilhões em 2024, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para US$ 37,7 bilhões em 2025.
No primeiro semestre de 2026, os embarques brasileiros aos Estados Unidos alcançaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo o MDIC, a retração foi influenciada principalmente pela redução das exportações de petróleo bruto e de produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço.
O desempenho reforça a relevância das negociações comerciais e das estratégias empresariais de diversificação, especialmente para cadeias produtivas com maior dependência do mercado norte-americano.
Linha do tempo das novas barreiras comerciais dos Estados Unidos
- 03/06/2025 — Governo dos Estados Unidos anuncia aumento da tarifa da Seção 232 sobre aço e alumínio de 25% para 50%, com vigência em 04/06/2025.
- 24/02/2026 — Entra em vigor tarifa temporária de 10%, baseada na Seção 122 da legislação comercial norte-americana, prevista para vigorar por até 150 dias.
- 15/07/2026 — Estados Unidos publicam decisão decorrente da investigação específica da Seção 301 contra o Brasil, estabelecendo sobretaxa adicional de 25% para determinados produtos.
- 22/07/2026 — A tarifa adicional de 25% entra em vigor, respeitadas as regras de transição para cargas já embarcadas.
- 23/07/2026 — Governo norte-americano publica nova medida relacionada à investigação sobre trabalho forçado, estabelecendo tarifa adicional de 12,5% para produtos brasileiros, com exceções específicas.
- 24/07/2026 — A tarifa de 12,5% passa a substituir a cobrança temporária de 10%; produtos enquadrados simultaneamente nas duas medidas da Seção 301 podem enfrentar sobretaxa acumulada de 37,5%.
- 07/08/2026 — Etene/BNB divulga estimativa segundo a qual oito dos 15 principais produtos exportados pelo Nordeste aos Estados Unidos, responsáveis por mais de US$ 450 milhões no primeiro semestre, estão expostos às novas condições tarifárias.
A estimativa do Etene demonstra que a exposição do Nordeste às barreiras comerciais norte-americanas é mais concentrada em determinadas cadeias produtivas do que o percentual nacional isoladamente permite observar. O dado de 36% não representa perda consolidada de exportações nem parcela de todas as vendas externas nordestinas: corresponde ao valor dos principais produtos potencialmente atingidos dentro da pauta regional destinada aos Estados Unidos. O efeito econômico definitivo dependerá da manutenção da demanda, da capacidade de negociação de preços, do redirecionamento das mercadorias e da situação específica de cada classificação tarifária.
A diversidade dos regimes norte-americanos também exige cautela na interpretação dos percentuais. A alíquota de 37,5% resulta da acumulação das duas medidas da Seção 301 apenas quando ambas recaem sobre o mesmo produto. Mercadorias abrangidas pelas tarifas setoriais da Seção 232, particularmente nos segmentos metálicos, seguem regras diferentes. A distinção é necessária para evitar que a tarifa máxima seja apresentada como cobrança uniforme sobre toda a pauta brasileira.
Para o Nordeste, os próximos indicadores relevantes serão o comportamento mensal das exportações para os Estados Unidos, a evolução das vendas de celulose, açúcar, álcool, pescados, sisal e produtos industriais, o redirecionamento para outros mercados e a demanda por financiamento às empresas afetadas. O Etene, o Banco do Nordeste, o MDIC e o setor exportador terão papel central no acompanhamento desses efeitos, enquanto eventuais negociações entre Brasil e Estados Unidos poderão alterar listas de exceções, alíquotas e condições de acesso ao mercado norte-americano.








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