Banco Digimais, de Edir Macedo, tem prejuízo de R$ 581,4 milhões, Basileia negativa e venda ao BTG segue indefinida

Nesta sexta-feira (18/09/2026), dados do Banco Central do Brasil (BCB) mostram que o Banco Digimais, instituição controlada por estrutura societária ligada ao empresário e bispo Edir Macedo, encerrou o primeiro semestre de 2026 com prejuízo líquido de R$ 581,4 milhões, ante lucro de R$ 42,1 milhões no mesmo período de 2025. A deterioração foi acompanhada pela queda do Índice de Basileia para -4,62%, depois de 18,56% em junho do ano passado. O resultado ocorre enquanto o banco enfrenta uma investigação da Polícia Federal (PF) sobre suspeitas de irregularidades contábeis e aguarda definições sobre uma eventual operação de venda envolvendo o BTG Pactual e possível apoio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Prejuízo de R$ 581,4 milhões reverte lucro registrado em 2025

A mudança entre os dois primeiros semestres representa uma deterioração de aproximadamente R$ 623,5 milhões no resultado líquido. Os números foram informados pelo próprio banco e incorporados ao IFData, sistema do Banco Central que reúne informações contábeis, prudenciais e operacionais das instituições financeiras autorizadas.

O indicador que mais chama atenção é o Índice de Basileia, que recuou 23,18 pontos percentuais em 12 meses, passando de 18,56% para -4,62%. O índice mede a relação entre o capital disponível para absorção de perdas e os riscos assumidos pela instituição financeira.

Pelas regras prudenciais do Banco Central, as instituições devem observar requerimento mínimo de Patrimônio de Referência equivalente a 8% dos ativos ponderados pelo risco, além dos adicionais de capital previstos pela regulamentação. Somado o adicional de conservação de capital de 2,5%, chega-se à referência de 10,5% citada nas análises dos dados do Digimais, sem prejuízo de outros adicionais eventualmente aplicáveis a cada instituição.

Um índice negativo não equivale, isoladamente, a uma decretação de insolvência ou liquidação. O dado, entretanto, indica que a estrutura de capital apurada naquele momento ficou abaixo das exigências prudenciais e coloca no centro da análise a capacidade de recomposição patrimonial do banco.

Outro indicador divulgado pelo IFData foi o índice de imobilização de 1.295,64% em junho. O número acompanha a deterioração dos indicadores patrimoniais e acrescenta um componente relevante à avaliação regulatória da instituição.

Ativos chegam a R$ 9,85 bilhões e depósitos superam R$ 8,6 bilhões

No encerramento do primeiro semestre, o Banco Digimais contabilizava aproximadamente R$ 9,85 bilhões em ativos. Desse total, cerca de R$ 3,19 bilhões estavam registrados em títulos e valores mobiliários, enquanto a carteira de crédito alcançava aproximadamente R$ 1,5 bilhão.

Os passivos somavam aproximadamente R$ 9,5 bilhões, dos quais R$ 8,688 bilhões correspondiam a depósitos a prazo. Considerados também os depósitos à vista, o saldo depositado chegava a cerca de R$ 8,692 bilhões. O patrimônio líquido informado era de R$ 330,9 milhões.

A composição das despesas ajuda a explicar parte da deterioração. O banco registrou aproximadamente R$ 754 milhões em despesas com perdas esperadas de crédito, R$ 674 milhões em custos de captação, especialmente relacionados a CDBs, e R$ 166,4 milhões em despesas administrativas no período.

Nos 12 meses anteriores a junho de 2026, a carteira de crédito diminuiu em cerca de R$ 200 milhões, enquanto o volume de títulos e valores mobiliários aumentou em mais de R$ 1 bilhão, segundo os dados divulgados.

Balanço de 2025 já continha ressalvas relevantes da auditoria

A deterioração de 2026 precisa ser examinada também à luz das demonstrações financeiras do exercício anterior. Em 31/12/2025, o Digimais apresentava R$ 10,064 bilhões em ativos, R$ 9,127 bilhões em depósitos a prazo e patrimônio líquido de R$ 787,3 milhões. O lucro líquido do ano foi de R$ 31,281 milhões, apesar de o primeiro semestre ter produzido lucro de R$ 42,069 milhões.

O relatório da administração informou ainda Patrimônio de Referência de R$ 1,072 bilhão e Índice de Basileia de 12,08% ao final de 2025. Considerado um aumento de capital de R$ 250 milhões, posteriormente homologado pelo Banco Central em 05/03/2026, o banco calculava Basileia de 13,49%.

As demonstrações referentes a 2025, entretanto, receberam opinião com ressalvas da auditoria independente CLA Brasil Auditores Independentes. Uma ressalva de auditoria não significa, por si, comprovação de fraude ou irregularidade. Ela indica que o auditor identificou questões relevantes ou não conseguiu obter evidência apropriada e suficiente para concluir integralmente sobre determinados saldos ou operações.

Um dos principais pontos dizia respeito a R$ 4,234 bilhões aplicados em cotas de fundos de investimento. Sobre aproximadamente R$ 3,098 bilhões desse montante, os auditores registraram limitações de evidência envolvendo demonstrações financeiras modificadas, não auditadas ou defasadas de fundos nos quais o banco possuía investimentos.

Fundos de investimento e resultado de R$ 639,9 milhões entram no radar da auditoria

Entre as operações examinadas estavam participações em Fundos de Investimento em Participações (FIPs) adquiridas no segundo semestre de 2025. Segundo as demonstrações financeiras, cotas adquiridas por aproximadamente R$ 357,658 milhões passaram a registrar valor próximo de R$ 997,534 milhões, produzindo efeito positivo de cerca de R$ 639,875 milhões no resultado decorrente da aquisição e da mensuração pelo valor justo.

A auditoria declarou não ter obtido evidência apropriada e suficiente para avaliar a razoabilidade de determinados valores e os eventuais ajustes necessários. O documento, portanto, estabelece uma limitação técnica de auditoria, mas não autoriza concluir, isoladamente, pela existência de fraude.

Outra ressalva envolveu uma operação com parte relacionada relacionada à venda de cotas do FIDC Hermon à B.A. Empreendimentos e Participações, por aproximadamente R$ 741,349 milhões. A transação produziu efeito positivo líquido próximo de R$ 126 milhões relacionado à reversão de impairment.

Embora o banco dispusesse de pareceres jurídicos sobre a operação, os auditores registraram que não obtiveram evidência suficiente para concluir sobre todos os efeitos de classificação, mensuração e contabilização da transação. Também observaram que a operação poderia não refletir condições usuais de mercado.

No próprio relatório, a auditoria chamou atenção para a proximidade do índice de capitalização do banco em relação aos limites regulatórios no encerramento de 2025 e advertiu que eventuais ajustes decorrentes das matérias ressalvadas poderiam ter impacto relevante sobre o patrimônio e os indicadores prudenciais.

Polícia Federal investiga suspeitas de manipulação de dados financeiros

A situação do Digimais ganhou nova dimensão em 23/06/2026, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem, destinada a investigar possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

Mais de 50 policiais federais participaram da ação, que cumpriu nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. Também foram autorizadas quebras de sigilos bancário e fiscal, além do bloqueio e da apreensão de bens que poderiam alcançar R$ 670 milhões.

Segundo a investigação, baseada também em informações provenientes do Banco Central, há suspeitas de que registros contábeis e informações encaminhadas ao regulador tenham sido manipulados para ocultar a situação financeira efetiva da instituição e permitir determinadas operações.

Entre as possíveis condutas investigadas estão gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em demonstrações financeiras e operações de crédito vedadas pela legislação do Sistema Financeiro Nacional. Tratam-se de hipóteses investigativas: as fontes consultadas não indicam condenação definitiva ou decisão judicial reconhecendo responsabilidade dos investigados por esses fatos.

O Digimais informou, após a operação, que permaneceria à disposição das autoridades e colaboraria com as apurações. O banco reafirmou seu compromisso com transparência, conformidade regulatória e cooperação institucional. Antes da deflagração da operação, a instituição já havia rejeitado publicamente acusações de irregularidades contábeis.

Negociação com BTG Pactual depende de condições e aprovações

A deterioração financeira ocorreu paralelamente às tentativas de encontrar uma solução societária para o banco.

Em 09/04/2026, os acionistas do Digimais anunciaram oficialmente a assinatura de documentos vinculantes com o BTG Pactual relacionados à possível aquisição do controle da instituição. A conclusão, contudo, estava condicionada a etapas posteriores e às aprovações regulatórias necessárias.

A estrutura discutida previa um processo competitivo e eventual apoio financeiro do Fundo Garantidor de Créditos. O BTG funcionaria como referência para a operação, mas a transferência definitiva do controle dependeria, entre outros pontos, da realização do processo, da apresentação de proposta vencedora e de autorizações do Banco Central e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Depois da Operação Miragem, o BTG informou, em 24/06/2026, que as condições previstas para a transação ainda não haviam sido implementadas e que avaliaria eventual participação caso o processo competitivo apoiado pelo FGC fosse efetivamente lançado.

Reportagens publicadas em julho informaram que o FGC havia contratado a Kroll para realizar uma análise do Digimais destinada a subsidiar uma possível decisão sobre apoio à operação. Até os dados disponíveis em 18/09/2026, não havia anúncio público localizado confirmando a conclusão da venda ao BTG. A reportagem publicada em 17/09/2026 ainda descrevia as tratativas como dependentes do FGC e sem conclusão.

Depósitos e cobertura do FGC exigem distinção entre saldo total e garantia

O volume de depósitos do Digimais torna especialmente relevante a discussão sobre o FGC. Os aproximadamente R$ 8,692 bilhões registrados em depósitos não devem, porém, ser confundidos com eventual obrigação de pagamento integral pelo fundo.

O FGC cobre produtos específicos, como CDBs, RDBs, depósitos à vista e poupança, dentro das regras próprias do mecanismo. A garantia ordinária é limitada a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado financeiro, observando ainda o teto global de R$ 1 milhão em quatro anos para cada depositante.

Assim, mesmo quando recursos estão aplicados em instrumentos elegíveis à garantia, o valor bruto captado por uma instituição não corresponde automaticamente ao montante que seria desembolsado pelo fundo numa eventual intervenção ou liquidação.

No mercado secundário, CDBs do Digimais chegaram a ser negociados em 17/09/2026 com taxas equivalentes a 115% do CDI, para vencimento em 2030, e 118% do CDI, em papéis com vencimento em 2029. A existência dessas taxas deve ser interpretada como condição observada no mercado secundário naquele momento, não como prova isolada de inadimplência.

Banco passou de instituição regional a operação controlada por estrutura ligada a Edir Macedo

A origem do Digimais remonta a 1981, quando a instituição foi criada em Porto Alegre como Banco Renner. Edir Macedo passou a integrar a estrutura acionária anos depois; em 2013, foi divulgada a aquisição, por Macedo e sua esposa, de uma participação de 49% no banco.

Reportagens posteriores registram que Macedo já participava da estrutura acionária desde 2009 e que o controle foi consolidado em 2020, período em que o Banco Renner passou a operar sob a marca Banco Digimais e sua sede foi transferida do Rio Grande do Sul para São Paulo.

Nas demonstrações financeiras de 2025, o banco identifica como controladora direta a Digimais Participações S.A.. A instituição atua como banco múltiplo, com carteiras comercial, de crédito, financiamento e investimento.

Historicamente ligado ao financiamento de veículos, o banco passou a diversificar suas operações. Ao final de 2025, aproximadamente 56,74% da carteira de crédito estava relacionada a financiamento de veículos e 36,39% a crédito consignado, segundo suas demonstrações financeiras.

Plano estratégico e tentativa anterior de venda

Em 11/04/2024, o Banco Central aprovou um plano estratégico de cinco anos apresentado pelo Digimais, voltado, segundo as demonstrações financeiras, à redução da inadimplência e à diversificação das receitas.

A busca por um novo controlador antecede a negociação com o BTG. Em janeiro de 2025, foi anunciada uma operação pela qual o empresário Maurício Quadrado assumiria o banco, condicionada à aprovação do Banco Central.

O plano previa uma capitalização de aproximadamente R$ 800 milhões. A negociação acabou cancelada cerca de dois meses depois. Quadrado declarou à época que desistira diante da deterioração das condições de mercado, marcada por juros e inflação elevados.

Já em 2026, a administração passou a contar com Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, em função executiva relacionada ao processo de reestruturação. O conselho de administração é presidido por João Luiz Urbaneja, segundo informações divulgadas sobre a estrutura da instituição e registros do Banco Central.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 1981 — É criado em Porto Alegre o Banco Renner, instituição que posteriormente daria origem ao Banco Digimais. O episódio marca o início da trajetória empresarial do banco.
  • 2009 a 2013Edir Macedo passa a integrar a estrutura acionária; em 2013 é divulgada a aquisição de participação de 49% por Macedo e sua esposa. A movimentação inicia a ampliação do controle econômico associado ao grupo.
  • 2020 — O controle é consolidado e o Banco Renner passa a operar como Banco Digimais, com transferência de sede do Rio Grande do Sul para São Paulo.
  • 11/04/2024 — O Banco Central aprova plano estratégico de cinco anos apresentado pela instituição, com medidas relacionadas à redução da inadimplência e à diversificação de receitas.
  • Janeiro de 2025 — É anunciada a negociação para venda do controle a Maurício Quadrado, acompanhada de previsão de aporte de R$ 800 milhões e dependente de aprovação regulatória.
  • Março de 2025 — A negociação com Quadrado é encerrada. O empresário atribui a decisão às condições econômicas e financeiras do mercado.
  • 30/06/2025 — O Digimais encerra o primeiro semestre com lucro líquido de R$ 42,1 milhões e Índice de Basileia de 18,56%. Esses números se tornariam a base de comparação com a deterioração observada um ano depois.
  • 31/12/2025 — O banco fecha o exercício com R$ 10,064 bilhões em ativos, patrimônio líquido de R$ 787,3 milhões, lucro anual de R$ 31,281 milhões e Basileia de 12,08%. As demonstrações recebem opinião com ressalvas da auditoria independente.
  • 05/03/2026 — O Banco Central homologa aumento de capital de R$ 250 milhões, movimento que elevava, segundo cálculo apresentado pelo banco, a Basileia ajustada referente ao encerramento de 2025 para 13,49%.
  • 08 e 09/04/2026 — Digimais e BTG Pactual formalizam documentos relacionados à possível aquisição do controle, condicionada a processo competitivo e autorizações regulatórias.
  • 23/06/2026 — A Polícia Federal deflagra a Operação Miragem, cumpre nove mandados e obtém autorização judicial para bloqueios e apreensões de até R$ 670 milhões no âmbito de investigação sobre possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
  • 24/06/2026 — O BTG Pactual informa que condições previstas para a operação ainda não haviam sido cumpridas e que avaliaria sua participação caso o processo competitivo fosse realizado.
  • Julho de 2026 — Reportagens informam que o FGC contratou a Kroll para analisar os ativos e as condições do banco antes de uma eventual decisão sobre apoio à operação societária.
  • 30/06/2026 — O primeiro semestre termina com prejuízo de R$ 581,4 milhões, patrimônio líquido de R$ 330,9 milhões e Índice de Basileia de -4,62%.
  • 17/09/2026 — Os indicadores semestrais ganham divulgação pública a partir dos dados encaminhados ao Banco Central. A deterioração do capital amplia a atenção sobre a reestruturação, eventual venda e acompanhamento prudencial do Digimais.

A combinação entre prejuízo de R$ 581,4 milhões, forte aumento das despesas com perdas esperadas, elevado custo de captação e Basileia negativa altera substancialmente o quadro apresentado pelo Digimais no primeiro semestre de 2025. O problema central deixa de ser apenas a queda de rentabilidade: os números colocam a suficiência de capital e sua recomposição entre os elementos que deverão orientar a atuação da administração, dos controladores e do Banco Central.

As ressalvas formuladas pela auditoria sobre as demonstrações de 2025 acrescentam outra dimensão, porque envolvem ativos de grande materialidade e operações que tiveram efeito relevante sobre o resultado contábil. Elas não comprovam as suspeitas criminais investigadas pela Polícia Federal e não devem ser confundidas com uma conclusão judicial. Ao mesmo tempo, tornam particularmente importante esclarecer a avaliação dos fundos, as transações com partes relacionadas e os eventuais reflexos sobre patrimônio e capital regulatório.

Também permanece necessário distinguir três planos diferentes: a situação financeira demonstrada pelos balanços, as suspeitas sob investigação criminal e a solução societária discutida com BTG e FGC. Não há, nas informações disponíveis, decisão definitiva que estabeleça responsabilidade criminal pelas condutas investigadas, nem confirmação pública de conclusão da venda do banco. O tamanho dos depósitos igualmente não corresponde automaticamente a uma exposição de igual valor para o FGC, cuja cobertura possui produtos elegíveis e limites individuais definidos em regulamento.

Os próximos passos dependerão principalmente da capacidade dos acionistas e administradores do Banco Digimais de restaurar a estrutura de capital, das medidas prudenciais eventualmente adotadas pelo Banco Central, da conclusão das análises conduzidas no âmbito do FGC, da decisão do BTG Pactual sobre eventual participação em processo competitivo e do avanço da Operação Miragem perante Polícia Federal e Justiça. O caso possui relevância pública porque envolve uma instituição com quase R$ 10 bilhões em ativos, mais de R$ 8,6 bilhões em depósitos, mecanismos privados de proteção a depositantes e a confiança necessária ao funcionamento do Sistema Financeiro Nacional.


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