O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, na quarta-feira (16/09/2026), reduzir a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano, em corte de 0,25 ponto percentual aprovado por unanimidade. Foi a quinta redução consecutiva dos juros básicos desde o início do atual ciclo de flexibilização monetária, em março, período em que a taxa acumulou queda de 1,25 ponto percentual.
Apesar da nova redução, o Copom evitou antecipar se haverá outro corte na reunião de novembro. No comunicado divulgado após a decisão, o colegiado afirmou que a magnitude total do ciclo de calibração será definida à luz de novas informações, com o objetivo de assegurar a convergência da inflação para a meta. O Banco Central também reiterou que o cenário exige “serenidade e cautela” diante das incertezas econômicas.
A decisão ocorreu em um ambiente de desaceleração da inflação corrente. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou queda de 0,32% em agosto, enquanto a inflação acumulada em 12 meses recuou de 4,44% para 4,22%. O resultado colocou o índice abaixo do limite superior de 4,5% do intervalo de tolerância do sistema de metas, embora permaneça acima da meta central de 3%.
Copom mantém cautela e deixa próximos passos dependentes dos dados
O Banco Central informou que os indicadores divulgados desde a reunião anterior mostram moderação gradual da atividade econômica, principalmente nos setores mais dependentes do ciclo econômico, ao mesmo tempo em que o mercado de trabalho continua aquecido. Segundo o Copom, tanto a inflação cheia quanto as medidas subjacentes desaceleraram, mas ainda permanecem acima da meta central.
No cenário externo, a autoridade monetária destacou as incertezas relacionadas aos conflitos no Oriente Médio, à condução da política monetária nas economias avançadas e à volatilidade dos preços de ativos e commodities. Esses fatores integram o conjunto de riscos considerados na definição da taxa de juros brasileira.
O atual ciclo começou depois de a Selic permanecer em 15% ao ano por vários meses. Com cinco reduções consecutivas de 0,25 ponto percentual, a taxa chegou a 13,75%, menor patamar desde março de 2025. O Copom, entretanto, mantém a política monetária em nível restritivo enquanto acompanha inflação, expectativas, atividade econômica, política fiscal e ambiente internacional.
Inflação cai, mas projeções permanecem acima da meta central
A trajetória recente dos preços abriu espaço para a continuidade do ciclo de redução dos juros. Segundo os dados disponíveis em setembro, o IPCA acumulado em 12 meses atingiu 4,22% em agosto, enquanto a meta definida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%.
As expectativas do mercado, contudo, ainda indicam inflação acima desse intervalo no fechamento de 2026. Conforme a pesquisa Focus, divulgada pelo Banco Central, a mediana das projeções aponta IPCA de 4,9% em 2026. O próprio Copom trabalha com horizonte mais longo para avaliar os efeitos das decisões atuais sobre os preços.
No cenário de referência apresentado pelo Banco Central, a projeção de inflação para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, permaneceu em 3,2%. A estabilidade dessa estimativa é um dos elementos acompanhados pelo mercado para avaliar a possibilidade de novos cortes, embora o Banco Central tenha reiterado que não assumiu previamente uma trajetória para as próximas reuniões.
CNI diz que corte ainda não altera cenário do crédito
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considerou correta a decisão de reduzir a Selic, mas avaliou o corte de 0,25 ponto percentual como insuficiente para modificar de forma relevante as condições financeiras enfrentadas por empresas e consumidores. A entidade defende a continuidade da redução dos juros diante da desaceleração da inflação e da perda de ritmo da atividade econômica.
Segundo a CNI, mesmo com a Selic em 13,75%, o juro real permanece próximo de 9% ao ano, enquanto a taxa real neutra estimada pelo Banco Central é de cerca de 5%. A entidade também calcula, por meio de sua aplicação da Regra de Taylor, uma taxa nominal de aproximadamente 10,3% para o segundo trimestre de 2026. Esses parâmetros integram a argumentação institucional da CNI em favor de novos cortes.
O presidente da entidade, Ricardo Alban, afirmou que a continuidade da flexibilização monetária pode ocorrer sem comprometer a convergência da inflação para a meta. A posição da CNI representa a avaliação do setor industrial e não corresponde a uma sinalização do Banco Central, que manteve os próximos passos condicionados à evolução dos indicadores econômicos.
Crédito livre chega a 47,7% ao ano e inadimplência permanece elevada
Os dados reunidos pela CNI mostram que a redução gradual da Selic ainda não produziu diminuição proporcional nas taxas cobradas dos tomadores finais. Em julho de 2026, a taxa média do crédito com recursos livres alcançou 47,7% ao ano, aumento de 1,8 ponto percentual em 12 meses. Para pessoas físicas, a taxa chegou a 60% ao ano, enquanto entre empresas ficou em 25,4%.
A inadimplência também permanece entre os indicadores acompanhados. No segmento de crédito livre, atingiu 7,8% entre pessoas físicas e 4,2% entre pessoas jurídicas. O endividamento das famílias correspondia a 49,8% da renda em junho, enquanto o comprometimento da renda com o serviço das dívidas chegou a 28,9%.
Uma consulta realizada pela CNI com 179 empresas de 28 setores apontou ainda que 56% esperavam maior necessidade de financiamento para contas a pagar, 50% para manutenção de estoques e 49% para contas a receber. Entre as empresas que previam ampliar a demanda por crédito, cerca de 60% também esperavam aumento das taxas cobradas pelas instituições financeiras.
Atividade econômica perde ritmo enquanto Copom monitora cenário
A CNI também relaciona sua defesa de juros menores à desaceleração da economia. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 0,5% no segundo trimestre de 2026, ante avanço de 1,1% no trimestre anterior. No mesmo período, o consumo das famílias caiu 0,4%, enquanto a indústria de transformação permaneceu estável, segundo os dados reunidos pela entidade.
As estimativas disponíveis também apontam crescimento moderado para o conjunto do ano. Segundo o levantamento Focus citado pela Agência Brasil, instituições financeiras projetavam expansão de 1,89% do PIB em 2026, enquanto o Banco Central havia estimado crescimento de 2% em seu último Relatório de Política Monetária.
Esse conjunto de indicadores coloca o Copom diante de duas variáveis centrais: de um lado, a desaceleração da inflação e da atividade abre espaço para a redução gradual dos juros; de outro, as expectativas inflacionárias ainda acima da meta e os riscos externos e fiscais sustentam a cautela. A definição sobre a continuidade do ciclo dependerá das informações disponíveis até as próximas reuniões.
Analistas divergem sobre possibilidade de novo corte em novembro
Economistas ouvidos após a decisão apresentaram interpretações diferentes sobre a reunião seguinte. Beto Saadia, da Nomos, identificou no comunicado sinais de desaceleração mais definida da atividade econômica e melhora da inflação corrente, fatores que, em sua avaliação, podem sustentar outro corte de 0,25 ponto percentual.
Rafaela Vitória, do Banco Inter, também apontou possibilidade de continuidade do ciclo ao destacar que a Selic permanece em nível restritivo, enquanto indicadores recentes mostram perda de força da economia. Já Augusto Parente, da AW Capital, observou que o Banco Central mantém atenção aos efeitos dos preços de petróleo e derivados associados aos conflitos no Oriente Médio.
Em outra leitura, Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional de Corretoras (Ancord), reconheceu mudanças no diagnóstico da atividade e da inflação, mas ressaltou que as expectativas ainda desancoradas e os riscos do cenário econômico impedem interpretar o comunicado como compromisso com novos cortes. Assim, a reunião de setembro encerrou-se sem uma sinalização antecipada sobre a decisão seguinte.
Próximas decisões dependerão de inflação, atividade e expectativas
O movimento da Selic tem efeitos sobre o custo do crédito, financiamentos, capital de giro, consumo, investimentos empresariais e rendimento de aplicações financeiras. Como a transmissão da política monetária não ocorre imediatamente, os efeitos das cinco reduções acumuladas desde março continuarão sendo observados nos próximos meses.
O Banco Central deverá acompanhar especialmente a evolução do IPCA, das expectativas de inflação, da atividade econômica, do mercado de trabalho, das contas públicas e do cenário internacional antes de definir a intensidade e a duração do atual ciclo de flexibilização.
A decisão de setembro mantém, portanto, a Selic em 13,75% ao ano, enquanto empresas, consumidores e mercado financeiro acompanham a possibilidade de nova redução. O Copom não assumiu compromisso com outro corte, mas também não anunciou o encerramento do ciclo, mantendo a condução da política monetária dependente dos dados disponíveis.








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