A reportagem editorial de Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia, analisa a evolução recente da disputa pelo Governo da Bahia a partir das séries de pesquisas eleitorais, dos antecedentes das eleições estaduais e de conceitos consolidados da Ciência Política e dos estudos sobre comportamento eleitoral.
Nesta segunda-feira (28/09/2026), a seis dias do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para domingo (04/10/2026), os levantamentos disponíveis registram uma disputa concentrada entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), acompanhada de avanço recente do candidato petista em séries comparáveis de diferentes institutos.
No Paraná Pesquisas, Jerônimo passou de 40,1% para 42%, enquanto ACM Neto recuou de 48,5% para 46,7% entre as duas rodadas comparadas. O levantamento mais recente, realizado entre 21 e 23 de setembro, ouviu 1.400 eleitores em 60 municípios, possui margem de erro de 2,7 pontos percentuais e foi registrado na Justiça Eleitoral sob o número BA-00759/2026. Os demais candidatos somavam apenas 2% no cenário estimulado, reforçando o grau de concentração da disputa. (Registro na Justiça Eleitoral BR-03607/2026)
Nas demais séries consideradas para esta análise, Jerônimo também avançou de 37% para 40% na Quaest e de 42% para 45% no Real Time Big Data. A leitura conjunta desses movimentos não constitui, por si só, uma previsão do resultado eleitoral, mas oferece elementos para examinar a dinâmica da reta final da campanha e a eventual consolidação das preferências do eleitorado.
Crescimento na reta final e a análise da Ciência Política
Sob a perspectiva da Ciência Política, esse processo pode ser interpretado por conceitos como momentum eleitoral, consolidação tardia das preferências, voto retrospectivo, identificação partidária, efeito bandwagon, incumbência e coordenação estratégica do eleitorado. Essas categorias ajudam a compreender situações nas quais eleitores ainda indecisos ou vinculados a candidaturas de menor expressão passam a reorganizar suas escolhas à medida que a eleição se aproxima e a percepção de competitividade entre os principais concorrentes se torna mais definida.
A história eleitoral recente da Bahia oferece antecedentes que tornam relevante a observação desse tipo de movimento. Em 2014, Rui Costa (PT) avançou durante a reta final da campanha e acabou eleito governador no primeiro turno, com 54,53% dos votos válidos. Os registros oficiais da Justiça Eleitoral confirmam sua eleição naquele pleito.
Em 2022, fenômeno semelhante ocorreu com o próprio Jerônimo Rodrigues. Depois de iniciar a campanha em posição inferior à de ACM Neto em diversos levantamentos, o petista ampliou sua votação durante o processo eleitoral e terminou o primeiro turno com 49,45% dos votos válidos, contra 40,88% de ACM Neto, ficando a menos de um ponto percentual da maioria absoluta necessária para vencer naquela etapa. Jerônimo posteriormente venceu o segundo turno e foi eleito governador.
Esses antecedentes não determinam a repetição do mesmo padrão em 2026, mas constituem referências empíricas para avaliar a hipótese de uma aceleração eleitoral nas semanas finais. A questão central passa a ser se o avanço registrado por Jerônimo nas pesquisas mais recentes terá continuidade e se haverá transferência adicional de votos de candidaturas minoritárias, indecisos, brancos e nulos para um dos dois principais concorrentes.
Nesse contexto, a elevada concentração das intenções de voto entre Jerônimo Rodrigues e ACM Neto torna matematicamente possível que qualquer alteração adicional na distribuição dos votos válidos modifique a distância em relação ao patamar de 50% mais um voto, necessário para a eleição em primeiro turno. Trata-se, entretanto, de um cenário condicional, dependente do comportamento efetivo do eleitorado até 4 de outubro, e não de uma conclusão antecipada sobre o resultado.
As pesquisas disponíveis continuam apresentando vantagens nominais distintas e situações de empate técnico conforme o instituto, a metodologia e a margem de erro adotada. Por isso, os dados permitem identificar movimentos, comparar trajetórias e formular hipóteses interpretativas, mas não autorizam estabelecer, apenas a partir dessas oscilações, uma probabilidade objetiva de vitória de qualquer candidato.
A relevância analítica da reta final está justamente nessa combinação entre crescimento recente, elevada polarização, reduzida participação das demais candidaturas e precedentes históricos de mudanças expressivas nas últimas semanas das eleições baianas. O comportamento desses fatores nos nove dias restantes constitui uma das principais variáveis para compreender como o eleitorado da Bahia chegará às urnas no primeiro turno de 2026.
Momentum eleitoral ajuda a interpretar crescimento na reta final
Um primeiro conceito aplicável ao quadro baiano é o de campaign momentum, ou momentum de campanha.
Os cientistas políticos Justin Fisher, Edward Fieldhouse e David Cutts definem o momentum como um processo dinâmico no qual muda a percepção dos eleitores sobre a capacidade de um partido ou candidato alcançar bom desempenho. A pesquisa dos autores mostra que a própria intensidade das campanhas pode contribuir para produzir esse movimento, modificando a percepção de viabilidade de uma candidatura.
O conceito precisa ser diferenciado do chamado efeito bandwagon. O pesquisador Matthew Barnfield define bandwagon como uma mudança individual na escolha eleitoral motivada inicialmente pela percepção de que determinado candidato ou partido está se tornando mais popular ou competitivo. Ou seja, o momentum diz respeito ao crescimento da percepção de competitividade; o bandwagon ocorre quando essa percepção passa a influenciar efetivamente a escolha de eleitores.
Na Bahia de 2026, o dado empiricamente verificável é o primeiro: Jerônimo apresenta crescimento em diferentes séries de pesquisas.
No Real Time Big Data BA-01568/2026, realizado com 1.600 eleitores entre 4 e 8 de setembro, por telefone e internet, com margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, Jerônimo apareceu com 45%, contra 44% de ACM Neto. Os demais candidatos não ultrapassaram individualmente 1%.
No levantamento anterior do mesmo instituto, Jerônimo tinha 42%, contra 44% de ACM Neto. Assim, passou de 42% para 45%, crescimento nominal de 3 pontos percentuais, ou aproximadamente 7,1% em relação à medição anterior.
Na Quaest BA-01850/2026, encomendada pela TV Bahia, realizada presencialmente com 900 eleitores entre 20 e 23 de setembro, com margem de erro de 3 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, ACM Neto registrou 42% e Jerônimo 40%. Na rodada anterior, os percentuais eram 39% e 37%, respectivamente. Jerônimo também avançou 3 pontos percentuais, embora ACM Neto tenha crescido na mesma proporção.
Portanto, não existe uma liderança uniforme de Jerônimo nas pesquisas. Existe, porém, um movimento de crescimento detectável em séries temporais, elemento precisamente associado ao conceito de momentum.
Escola de Michigan: forças de curto prazo podem ganhar peso no final
Outra ferramenta analítica vem da chamada Escola de Michigan, associada aos cientistas políticos Angus Campbell, Philip Converse, Warren Miller e Donald Stokes, autores de The American Voter.
O modelo parte da ideia de que o voto é formado por uma combinação de fatores de longa duração — identificação partidária, valores políticos, vínculos sociais — e fatores de curto prazo, como a imagem dos candidatos, acontecimentos da campanha, temas conjunturais e condições econômicas.
O conhecido “funil de causalidade” da Escola de Michigan ajuda a compreender por que campanhas podem sofrer deslocamentos rápidos justamente nos últimos dias.
Ao longo da eleição, fatores estruturais mais distantes vão sendo filtrados até que, próximo ao momento do voto, questões imediatas — avaliação dos candidatos, notícias, desempenho nos debates, alianças, percepção de força eleitoral e acontecimentos recentes — adquiram maior importância na decisão de determinados segmentos do eleitorado.
Isso significa que oito dias podem ser eleitoralmente relevantes, principalmente numa disputa equilibrada.
Não significa que todo movimento observado continuará automaticamente. Significa que a teoria eleitoral considera perfeitamente possível que forças de curto prazo alterem a decisão de uma parcela decisiva do eleitorado na reta final.
Voto retrospectivo coloca a avaliação do governo no centro da disputa
Jerônimo também disputa a eleição como governador em exercício.
Nesse caso, torna-se relevante o conceito de voto retrospectivo, desenvolvido particularmente por V. O. Key Jr. e posteriormente aprofundado por Morris Fiorina.
A teoria parte da ideia de que uma parcela do eleitorado utiliza o desempenho passado do governo como instrumento para decidir se mantém ou substitui os governantes. O eleitor não precisa conhecer todas as políticas públicas; ele pode utilizar avaliações gerais sobre condições econômicas, serviços públicos, segurança, emprego ou percepção de desempenho para recompensar ou punir o incumbente.
Andrew Healy e Neil Malhotra, ao revisarem a literatura sobre voto retrospectivo, destacam justamente a importância das avaliações sobre o desempenho governamental na decisão eleitoral.
Esse mecanismo pode operar tanto favoravelmente quanto contra Jerônimo.
A pesquisa Real Time Big Data BA-01568/2026, realizada com 1.600 entrevistados entre 4 e 8 de setembro, margem de erro de 2 pontos e confiança de 95%, registrou 53% de aprovação ao governo Jerônimo Rodrigues e 45% de desaprovação.
À luz da teoria do voto retrospectivo, o dado não determina o resultado, mas constitui uma variável relevante: uma administração avaliada positivamente por mais da metade dos entrevistados dispõe potencialmente de um contingente eleitoral que pode ser mobilizado pela candidatura governista.
Identificação partidária pode ajudar a explicar movimentos tardios na Bahia
A Escola de Michigan também atribui especial importância à identificação partidária.
Campbell, Converse, Miller e Stokes argumentaram que vínculos partidários podem funcionar como filtros por meio dos quais os eleitores interpretam candidatos, acontecimentos e campanhas. Estudos posteriores mantiveram a identificação partidária entre os fatores mais importantes para explicar escolhas eleitorais, embora ela interaja com condições econômicas, candidatos e acontecimentos de curto prazo.
Esse aspecto é especialmente relevante para compreender o histórico eleitoral baiano.
Desde 2006, candidatos ligados ao PT conquistaram sucessivamente o Governo da Bahia, construindo uma estrutura eleitoral e partidária de longa duração no estado. O fenômeno não garante repetição automática, mas significa que parte da decisão eleitoral pode refletir vínculos políticos que somente se manifestam plenamente quando o eleitor efetivamente consolida sua escolha.
A experiência de 2022 fornece um exemplo particularmente significativo.
Na pesquisa Datafolha BA-05325/2022, realizada entre 12 e 14 de setembro de 2022, com 1.212 eleitores de 76 municípios, margem de erro de 3 pontos e confiança de 95%, ACM Neto aparecia com 49% e Jerônimo Rodrigues com 28%. Poucas semanas antes, em agosto, Jerônimo tinha apenas 16% e ACM Neto, 54%.
Jerônimo passou, portanto, de 16% para 28% em poucas semanas.
Nas urnas, terminou o primeiro turno com aproximadamente 49,4% dos votos válidos, muito próximo da maioria absoluta, e posteriormente venceu o segundo turno com 52,54% dos votos válidos.
A trajetória de 2022 demonstra que movimentos relevantes de consolidação eleitoral podem ocorrer muito perto da votação na Bahia.
2014 apresenta precedente ainda mais forte de crescimento final
O caso de Rui Costa em 2014 amplia a importância dessa comparação histórica.
Durante boa parte da campanha, o então candidato petista aparecia atrás de Paulo Souto. Na reta final, entretanto, Rui cresceu rapidamente, alcançou o adversário nas pesquisas e terminou eleito no primeiro turno.
O resultado oficial registrou 3.558.975 votos para Rui Costa, correspondentes a 54,53% dos votos válidos, contra 2.440.409 votos, ou 37,39%, para Paulo Souto. Lídice da Mata ficou com 6,62%.
O caso de 2014 não prova que 2026 repetirá o mesmo roteiro.
Ele demonstra, entretanto, que o sistema eleitoral baiano já produziu uma eleição na qual uma candidatura governista que entrou na reta final em crescimento conseguiu não apenas ultrapassar o adversário, mas conquistar maioria absoluta dos votos válidos no primeiro turno.
Duverger e o voto estratégico ajudam a compreender a concentração entre dois nomes
Outro conceito útil é a coordenação estratégica do eleitorado, associada à tradição de Maurice Duverger e aos estudos posteriores sobre voto estratégico.
Quando os eleitores percebem que determinadas candidaturas possuem poucas possibilidades de vitória, parte deles pode abandonar sua primeira preferência e migrar para uma das alternativas consideradas competitivas. Experimentos sobre voto estratégico mostram que a percepção de viabilidade pode produzir concentração em duas opções quando existem inicialmente três ou mais alternativas.
As pesquisas baianas de 2026 mostram justamente uma concentração muito elevada.
Na pesquisa Real Time Big Data BA-01568/2026 — 1.600 entrevistados entre 4 e 8 de setembro, margem de 2 pontos e confiança de 95% —, Jerônimo tinha 45% e ACM Neto 44%. Somados, alcançavam 89% das respostas totais. Os demais candidatos individualmente não ultrapassavam 1%.
Na Quaest BA-01850/2026 — 900 entrevistados entre 20 e 23 de setembro, margem de 3 pontos e confiança de 95% —, ACM Neto tinha 42% e Jerônimo 40%, totalizando 82% das respostas totais.
Portanto, não há atualmente uma terceira candidatura próxima dos dois líderes.
Essa concentração é importante para a discussão sobre primeiro turno porque o TSE determina que um governador é eleito nessa etapa quando recebe mais da metade dos votos válidos, excluídos brancos e nulos. Se nenhum candidato alcançar essa maioria, ocorre segundo turno.
Quanto falta matematicamente para Jerônimo atingir 50% dos votos válidos?
Uma maneira de analisar o cenário sem confundir intenção de voto com previsão é recalcular apenas as preferências explicitamente destinadas a candidatos.
Na pesquisa Real Time Big Data BA-01568/2026, Jerônimo tem 45%, ACM Neto 44%, e as demais candidaturas somam aproximadamente 3%. Brancos e nulos representam 5% e indecisos 3%.
Considerando apenas as intenções destinadas nominalmente a candidatos — procedimento meramente ilustrativo e não uma projeção oficial de votos válidos — o universo corresponde a aproximadamente 92 pontos percentuais.
Nesse universo:
Jerônimo: 45 ÷ 92 = aproximadamente 48,9%.
Portanto, nesse levantamento específico, sua posição equivale a aproximadamente 1,1 ponto percentual abaixo da maioria absoluta entre as intenções já atribuídas a candidatos.
Na Quaest BA-01850/2026, Jerônimo tem 40%, ACM Neto 42% e Maria Bona 1%, enquanto os demais não pontuam. Entre as intenções atribuídas a candidatos, Jerônimo representa aproximadamente 48,2%, cerca de 1,8 ponto abaixo de 50%.
Esses exercícios não significam que Jerônimo esteja com 48,9% ou 48,2% dos votos válidos futuros. Indecisos podem escolher qualquer candidato, eleitores podem mudar o voto e comparecimento e abstenção alteram a composição efetiva do eleitorado.
Eles demonstram apenas algo matematicamente relevante: em alguns dos levantamentos disponíveis, a distância entre Jerônimo e a maioria absoluta entre as preferências já destinadas a candidatos é pequena o suficiente para que uma alteração de poucos pontos possa mudar a existência ou não de segundo turno.
O efeito bandwagon pode reforçar uma tendência, mas não funciona automaticamente
A possibilidade de uma trajetória crescente produzir crescimento adicional remete ao efeito bandwagon.
A cientista política Catherine Marsh descreveu o fenômeno como uma situação na qual informações sobre a opinião majoritária fazem determinados indivíduos aproximarem-se da alternativa percebida como vencedora.
David Rothschild e Neil Malhotra também analisaram a hipótese de pesquisas eleitorais produzirem efeitos de retroalimentação: a percepção de vantagem pode modificar opiniões e criar, em determinadas circunstâncias, uma dinâmica autorreforçada. Os próprios autores ressaltam, contudo, que as evidências empíricas disponíveis são limitadas.
Outro estudo experimental mostrou que pesquisas isoladamente não são suficientes para provocar automaticamente bandwagon; outros estímulos políticos e qualitativos também influenciam o comportamento.
Aplicada à Bahia, a teoria recomenda prudência.
O crescimento de Jerônimo pode melhorar a percepção de viabilidade de sua candidatura. Mas transformar percepção de crescimento em votos adicionais depende da campanha, do ambiente informacional, da identificação partidária, da avaliação do governo e do comportamento dos eleitores ainda disponíveis.
A hipótese de vitória no primeiro turno
A combinação dos conceitos da Ciência Política permite estabelecer uma hipótese eleitoral condicional, e não uma previsão fechada.
Para Jerônimo vencer em 4 de outubro, quatro movimentos principais poderiam produzir a maioria absoluta:
1. Continuidade do momentum.
Jerônimo precisaria manter nos últimos oito dias a trajetória de crescimento captada nas séries Real Time, Quaest e Paraná Pesquisas.
2. Consolidação de eleitores ainda não definidos.
Uma parcela dos indecisos teria de migrar para sua candidatura em proporção suficiente para colocá-lo acima de metade dos votos válidos.
3. Manutenção da polarização.
As candidaturas menores precisariam permanecer com percentuais reduzidos. Quanto menor a parcela de votos válidos destinada a terceiros candidatos, menor é o incremento adicional necessário para que um dos dois líderes ultrapasse 50%.
4. Conversão da avaliação retrospectiva em voto.
Parte dos eleitores que aprovam o governo, mas ainda não declara voto em Jerônimo, teria de converter essa avaliação favorável em preferência eleitoral.
Esse conjunto de condições encontra analogias com 2014 e 2022, mas nenhuma delas pode ser considerada confirmada antes da votação.
2014, 2022 e 2026: semelhanças e diferenças
Há uma diferença fundamental entre os três processos.
Em 2014, Rui Costa entrou na fase final partindo de posição bastante inferior e experimentou uma aceleração excepcional, encerrando a eleição com 54,53% dos votos válidos.
Em 2022, Jerônimo também começou muito atrás. Passou de 16% no Datafolha de agosto para 28% em meados de setembro, continuou avançando e terminou o primeiro turno próximo dos 50% dos votos válidos.
Em 2026, o ponto de partida da reta final é diferente: Jerônimo já aparece praticamente empatado com ACM Neto em levantamentos como Real Time Big Data e Quaest.
Isso torna o parâmetro de comparação interessante: para alcançar 50% dos votos válidos, Jerônimo não necessita reproduzir uma transformação da dimensão observada em 2014 ou 2022. Em alguns levantamentos, uma movimentação bem menor seria matematicamente suficiente.
Ao mesmo tempo, ACM Neto também possui uma base eleitoral próxima da metade do eleitorado pesquisado e aparece numericamente à frente em outros levantamentos. A mesma lógica de concentração que pode favorecer Jerônimo pode favorecer seu adversário.
Cenário permanece aberto a oito dias da votação
Segundo o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral, o primeiro turno ocorrerá em 4 de outubro de 2026 e o eventual segundo turno em 25 de outubro.
À luz da Ciência Política e dos antecedentes baianos, o crescimento de Jerônimo deve ser tratado como uma variável substantiva, e não simplesmente como oscilação isolada de uma pesquisa.
O momentum eleitoral, descrito por Fisher, Fieldhouse e Cutts; o bandwagon, analisado por Barnfield, Marsh, Rothschild e Malhotra; o voto retrospectivo, associado a Key e Fiorina; o funil de causalidade e a identificação partidária, desenvolvidos por Campbell, Converse, Miller e Stokes; e a lógica de coordenação estratégica associada a Duverger fornecem mecanismos plausíveis para explicar por que uma candidatura em crescimento pode continuar absorvendo eleitores na reta final.
O precedente histórico da Bahia acrescenta peso à análise. Em 2014, Rui Costa acelerou nas últimas semanas e venceu no primeiro turno. Em 2022, Jerônimo cresceu continuamente durante setembro e chegou às urnas muito acima dos níveis registrados no início da campanha, ficando a menos de um ponto percentual da maioria absoluta no primeiro turno.
Em 2026, portanto, existe um cenário empiricamente plausível de eleição de Jerônimo já no primeiro turno se o crescimento observado continuar, se a polarização aumentar e se uma parcela suficiente dos indecisos e dos eleitores atualmente fora das duas principais candidaturas convergir para o governador.
Isso é diferente de afirmar que esse será o resultado.
As pesquisas atualmente disponíveis ainda apresentam empates técnicos ou vantagens numéricas distintas conforme o instituto, e nenhuma delas permite atribuir uma probabilidade própria e verificável de vitória ao governador.
A conclusão sustentada pelos dados é que a possibilidade de vitória de Jerônimo no primeiro turno deixou de ser apenas uma hipótese abstrata e pode ser descrita como um cenário matematicamente alcançável dentro de uma eleição polarizada, particularmente porque movimentos tardios de crescimento semelhantes já tiveram papel decisivo nas eleições baianas de 2014 e 2022.
Os próximos levantamentos serão decisivos para saber se esse momentum está se mantendo, acelerando ou estabilizando antes de 4 de outubro de 2026.
Síntese bibliográfica e teórica
A interpretação da atual disputa baiana pode ser fundamentada em diferentes tradições da Ciência Política e dos estudos sobre comportamento eleitoral. A primeira delas é a chamada Escola de Michigan, construída principalmente por Angus Campbell, Philip Converse, Warren Miller e Donald Stokes em The American Voter. Os autores desenvolveram uma explicação do comportamento eleitoral baseada na interação entre fatores estruturais, identificação partidária e elementos conjunturais. O chamado “funil de causalidade” demonstra que influências sociais e partidárias de longa duração são progressivamente filtradas até o momento da decisão, quando fatores de curto prazo — campanha, avaliação dos candidatos, acontecimentos recentes e percepção de competitividade — podem adquirir peso decisivo.
Esse modelo ajuda a compreender por que alterações expressivas podem ocorrer nas últimas semanas de uma eleição. Eleitores com preferência partidária fraca, indecisos ou pouco mobilizados podem consolidar sua decisão apenas na proximidade do pleito. Em contextos polarizados, pequenas movimentações percentuais nesse segmento podem produzir consequências significativas sobre o resultado.
Outra contribuição fundamental é a teoria do voto retrospectivo, associada a V. O. Key Jr. e aprofundada por Morris Fiorina. Segundo essa abordagem, o eleitor utiliza a avaliação do desempenho anterior dos governantes como critério para decidir pela continuidade ou substituição de um grupo político. Em vez de avaliar detalhadamente todas as políticas públicas, parcela do eleitorado forma julgamentos agregados sobre economia, serviços públicos, segurança, emprego e desempenho governamental.
Para sustentar teoricamente a análise sobre comportamento eleitoral, crescimento na reta final, momentum, voto retrospectivo, identificação partidária, bandwagon e coordenação estratégica, foi utilizada a seguinte bibliografia:
- BARNFIELD, Matthew. Momentum in the polls raises electoral expectations. Electoral Studies, v. 84, 2023, art. 102656. O estudo mostra experimentalmente que trajetórias de crescimento nas pesquisas aumentam a expectativa dos eleitores sobre o desempenho futuro de partidos e candidatos, mesmo quando a variação permanece dentro da margem de erro.
- CAMPBELL, Angus; CONVERSE, Philip E.; MILLER, Warren E.; STOKES, Donald E. The American Voter. Chicago: University of Chicago Press, originalmente publicado em 1960. Obra clássica da Escola de Michigan, fundamental para os conceitos de identificação partidária, comportamento eleitoral e funil de causalidade.
- DUVERGER, Maurice. Political Parties: Their Organisation and Activity in the Modern State. London: Methuen, 1954. Original francês publicado em 1951. Referência clássica para compreender sistemas partidários, competição eleitoral e processos de concentração das escolhas políticas.
- FIORINA, Morris P. Retrospective Voting in American National Elections. New Haven: Yale University Press, 1981. Obra central para a teoria do voto retrospectivo, segundo a qual o eleitor utiliza sua avaliação do desempenho governamental anterior como elemento de decisão.
- KEY JR., V. O. The Responsible Electorate: Rationality in Presidential Voting, 1936–1960. Cambridge: Harvard University Press, 1966. Trabalho clássico sobre o papel da avaliação retrospectiva dos governos e dos resultados produzidos pelas administrações na escolha eleitoral.
- KNIGHT, Brian; SCHIFF, Nathan. “Momentum and Social Learning in Presidential Primaries”. Journal of Political Economy, v. 118, n. 6, p. 1110–1150, 2010. Os autores demonstram como resultados anteriores podem produzir momentum e aprendizagem social, alterando expectativas e preferências eleitorais subsequentes.
- ROTHSCHILD, David; MALHOTRA, Neil. “Are public opinion polls self-fulfilling prophecies?”. Research & Politics, v. 1, n. 2, 2014. O artigo examina o efeito bandwagon e a possibilidade de pesquisas influenciarem atitudes políticas, mostrando que informações sobre a opinião majoritária podem alterar preferências, embora os efeitos dependam do contexto.
A articulação teórica pode ser resumida da seguinte forma: Campbell, Converse, Miller e Stokes ajudam a explicar a consolidação tardia da escolha eleitoral; Key e Fiorina, a conversão da avaliação do governo em voto; Barnfield, a influência da percepção de crescimento nas pesquisas; Knight e Schiff, o momentum e a aprendizagem social; Rothschild e Malhotra, os possíveis efeitos de bandwagon; e Duverger, a tendência à concentração estratégica do eleitorado entre candidaturas percebidas como efetivamente competitivas.
Aplicados à Bahia, esses referenciais permitem interpretar a trajetória de Jerônimo Rodrigues como um processo no qual fatores estruturais — identificação partidária e posição de incumbente — interagem com fatores conjunturais de campanha e com uma eventual dinâmica de crescimento autorreforçado na reta final. A comparação histórica com 2014 e 2022 deve aparecer como evidência empírica complementar, não como demonstração de que 2026 necessariamente repetirá aqueles resultados.








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