Brasília, quinta-feira (24/09/2026) — Novos registros atribuídos ao celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, acrescentam detalhes à sequência de contatos mantida com o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nos meses anteriores à primeira prisão do banqueiro, ocorrida em 17/11/2025. A apuração mais recente do Estadão, que deu origem a esta reportagem, informa tentativas de contato nos quatro dias anteriores à detenção. Parte relevante dessa cronologia é corroborada por mensagens, registros de chamadas e documentos posteriormente incorporados às investigações da Polícia Federal (PF): nos dias 15 e 16/11/2025, Flávio procurou Vorcaro, perguntou se ele poderia atender e escreveu que estaria com o empresário “sempre”, enquanto cobrava uma definição sobre recursos destinados ao filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio sustenta que sua interlocução tinha finalidade privada de captação de recursos para a produção e nega ter oferecido qualquer vantagem ao banqueiro.
A relevância jurídica dos registros não decorre apenas da proximidade temporal com a prisão. Flávio Bolsonaro consta oficialmente como investigado no Inquérito 5.070, em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF), ao lado de Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, empresas e outros personagens ligados ao financiamento de Dark Horse. O processo foi protocolado no STF em 06/08/2026 e tem como relator o ministro André Mendonça. Paralelamente, o Tribunal Superior Eleitoral validou, em 02/09/2026, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e Alfredo Gaspar pelo PL, circunstância que insere as novas revelações também no contexto da campanha eleitoral de 2026.
Registros mostram contatos imediatamente antes da prisão
As mensagens já tornadas públicas documentam uma comunicação direta entre Flávio e Vorcaro no fim de semana anterior à prisão. Em 15/11/2025, às 15h46, o banqueiro enviou uma mensagem ao senador. Um minuto depois, Flávio respondeu: “Fala mermao Pode atender?”. O teor disponível não permite determinar, por si só, se uma chamada foi efetivamente completada naquele momento.
Na manhã seguinte, 16/11/2025, Vorcaro informou a Flávio que estava na igreja e que telefonaria posteriormente. À tarde, o senador enviou duas imagens configuradas para visualização única — cujo conteúdo não aparece no material público — e, em seguida, escreveu:
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”
Vorcaro respondeu com outra imagem de visualização única. Flávio encerrou a sequência com “Amém!”. A ausência do conteúdo dessas imagens constitui uma limitação objetiva da documentação atualmente disponível e impede afirmar o que foi tratado nesses arquivos temporários.
No dia seguinte, 17/11/2025, Vorcaro foi preso pela primeira vez quando se preparava para embarcar em voo particular para o exterior. Na manhã de 18/11/2025, a Operação Compliance Zero avançou, e o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições do conglomerado. O BC informou oficialmente que a intervenção foi motivada por grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Contatos faziam parte de relação iniciada meses antes
Os episódios de novembro não aparecem isoladamente. Documentos examinados pela PF e reportagens baseadas no material extraído do aparelho de Vorcaro mostram uma sequência de comunicações entre agosto e novembro de 2025, envolvendo cobranças financeiras, chamadas telefônicas e tentativas de encontros presenciais relacionadas principalmente ao financiamento de Dark Horse. Um relatório policial citado em setembro identificou pelo menos nove interações no período.
Em 20/08/2025, mensagens indicam que Flávio estaria a caminho de um encontro com Vorcaro. Em setembro, os contatos se intensificaram. Registros analisados separadamente apontam ao menos cinco ligações telefônicas entre ambos naquele mês, totalizando 6 minutos e 20 segundos, embora esse número deva ser entendido como mínimo porque chamadas pela rede telefônica convencional podem não constar do histórico de WhatsApp examinado.
Em 08/09/2025, Flávio enviou um áudio cobrando uma posição sobre parcelas destinadas ao filme. O senador relatou preocupação com compromissos financeiros da produção e com pagamentos a integrantes estrangeiros da equipe. Documentos divulgados inicialmente pelo Intercept Brasil indicavam uma negociação global de US$ 24 milhões, estimados à época em aproximadamente R$ 134 milhões, com pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025.
Relatório do Coaf apontou pagamento posterior ao admitido inicialmente
A cronologia financeira ganhou novo elemento quando informações de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicaram uma nova remessa de aproximadamente US$ 1,66 milhão, realizada em 16/09/2025 para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos. O registro elevou o volume conhecido de recursos associados à operação para cerca de US$ 12,3 milhões.
O dado tornou-se relevante porque Flávio havia declarado anteriormente que o último pagamento de Vorcaro teria ocorrido em maio de 2025. Segundo a revista piauí, a remessa de setembro ocorreu oito dias depois do áudio em que o senador voltou a cobrar uma definição sobre o financiamento.
Há ainda referência a uma possível parcela posterior. Em 22/10/2025, Flávio comunicou a Vorcaro que as filmagens estavam no terceiro dia e afirmou que a produção se encontrava “no limite”. Em conversa posterior com o intermediário Thiago Miranda, Vorcaro teria afirmado que havia liberado outra parcela. A existência da mensagem comprova a declaração atribuída ao banqueiro, mas os documentos públicos disponíveis não bastam, isoladamente, para confirmar que esse pagamento adicional efetivamente chegou ao fundo ou à produção.
Encontros planejados não equivalem a reuniões comprovadas
Os arquivos também registram tentativas de encontros pessoais entre os dois. Em setembro, mensagens sugerem reunião em 17/09/2025 e novas tentativas de agenda nos dias 23 e 24/09. Em outubro e novembro, Flávio e Vorcaro voltaram a discutir compromissos presenciais, inclusive um jantar com integrantes estrangeiros da produção cinematográfica.
A revista piauí contabilizou ao menos cinco encontros combinados até novembro, mas ressaltou não ser possível estabelecer quantos efetivamente ocorreram. A nova apuração do Estadão, conforme o conteúdo que originou esta reportagem, menciona referências a seis encontros. A distinção é essencial: uma agenda, convite ou mensagem de combinação constitui evidência de tentativa ou planejamento de reunião, mas não comprova, por si só, a realização do encontro.
Essa cautela também vale para os contatos próximos à prisão. A sequência temporal demonstra comunicação entre Flávio e Vorcaro às vésperas da detenção, mas os materiais publicamente conhecidos não estabelecem, até o momento, que o senador tenha informado o banqueiro sobre uma operação policial, uma ordem de prisão ou qualquer informação sigilosa. Questionado anteriormente pelo UOL sobre eventual conhecimento antecipado da operação, Flávio não respondeu à pergunta específica; posteriormente afirmou que seus contatos tinham relação com os pagamentos do filme.
Flávio diz que buscava patrocínio privado e nega contrapartidas
Depois da divulgação das primeiras conversas, em maio de 2026, Flávio Bolsonaro confirmou que procurou Vorcaro para financiar Dark Horse. A versão apresentada pelo senador é a de que houve uma relação privada de captação de recursos para uma produção cinematográfica sobre o pai, sem utilização de dinheiro público e sem oferta de benefícios ou contrapartidas ao banqueiro.
Flávio afirmou que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024 e que os contatos posteriores decorreram principalmente de atrasos nas parcelas do financiamento. Também declarou não ter intermediado negócios do banqueiro com o governo e não ter recebido vantagem pessoal.
A explicação foi apresentada depois de uma mudança pública de versão. Em março de 2026, quando o número do senador apareceu entre os contatos encontrados no telefone de Vorcaro, Flávio havia negado ter mantido contato com o empresário. Após a publicação das mensagens e áudios em maio, reconheceu a relação e disse que a negativa anterior estava relacionada a uma cláusula de confidencialidade envolvendo o projeto cinematográfico.
Essa mudança de versão é um elemento factual da cronologia, mas não permite, isoladamente, concluir pela existência de crime. A investigação precisa determinar a origem, o caminho e o destino final dos recursos, a natureza jurídica dos pagamentos, a participação efetiva de cada investigado e a eventual existência de contrapartidas.
Inquérito 5.070 formaliza investigação no STF
O portal oficial do Supremo registra Flávio Nantes Bolsonaro como investigado no Inquérito 5.070, ao lado de Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Thiago Miranda, Fabiano Zettel, Paulo Calixto, Altieris Santana, Antônio Carlos Freixo Júnior, empresas e fundos relacionados ao fluxo financeiro analisado. O procedimento está sob a relatoria do ministro André Mendonça.
Documentos divulgados em setembro indicam que a PF examina suspeitas relacionadas a lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros possíveis delitos, sem que a condição de investigado represente acusação definitiva ou comprovação de responsabilidade criminal. A apuração busca reconstruir como os recursos ligados ao projeto saíram do Brasil, chegaram ao fundo Havengate e foram posteriormente utilizados.
Uma questão ainda aberta é identificar os beneficiários finais dos valores. A documentação inicialmente publicada comprovou remessas para estruturas financeiras nos Estados Unidos, mas não demonstrou que cada dólar enviado ao fundo tenha chegado à produtora do filme ou sido recebido pessoalmente por integrantes da família Bolsonaro. Essa distinção é central para qualquer conclusão jurídica sobre o fluxo financeiro.
Operação sobre emendas abriu outra frente ligada a Dark Horse
Em 10/09/2026, o STF divulgou oficialmente que o ministro Flávio Dino autorizou a Operação Make Up, destinada a investigar suspeitas de desvio de recursos provenientes de emendas parlamentares. As buscas alcançaram, entre outros investigados, o deputado Mario Frias (PL-SP).
Segundo a investigação divulgada pelo Supremo, recursos destinados ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura teriam sido desviados para finalidades diferentes das previstas, entre elas despesas relacionadas à produção de Dark Horse. O procedimento é distinto da investigação sobre os recursos privados atribuídos a Vorcaro e, portanto, as duas linhas não devem ser tratadas como se constituíssem um único fluxo financeiro já comprovado.
A multiplicidade de investigações explica por que o financiamento do filme passou a ser examinado sob perspectivas diferentes: origem de recursos privados, transferências internacionais, eventual uso de verbas públicas, funcionamento de empresas intermediárias e participação dos diversos agentes envolvidos.
Celular de Vorcaro tornou-se peça central das investigações
O aparelho apreendido de Daniel Vorcaro transformou-se em uma das principais fontes documentais do Caso Master. Dados já divulgados indicam que a extração reúne cerca de 10,8 mil chats, aproximadamente 17 mil áudios e mais de 53 mil registros de chamadas, volume que vem alimentando diferentes procedimentos e linhas investigativas.
Em setembro, a própria Polícia Federal esclareceu oficialmente que o material original permanece sob sua custódia, com cadeia formalmente documentada, lacres preservados e mecanismos de verificação de integridade digital. Cópias idênticas da extração foram posteriormente entregues a gabinetes de ministros do STF, sob as cautelas judiciais de sigilo.
A preservação da cadeia de custódia é particularmente relevante porque muitas das controvérsias atuais decorrem de interpretação de mensagens, metadados, arquivos temporários e registros incompletos. A validade jurídica de cada elemento dependerá não apenas do conteúdo, mas também da demonstração de autenticidade, contexto, autoria e relação concreta com as condutas investigadas.
Vorcaro foi preso novamente em março de 2026
Depois da primeira prisão em novembro de 2025 e da posterior concessão de medidas cautelares, Daniel Vorcaro voltou a ser preso preventivamente em 04/03/2026, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. Segundo a PF, aquela etapa investigava possível prática de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos, atribuída, em tese, a uma organização criminosa.
Em setembro, a defesa pediu a revogação da prisão preventiva e questionou sua duração. A situação do banqueiro permanece, portanto, submetida a decisões do STF e aos desdobramentos das diversas investigações relacionadas ao conglomerado Master.
A Operação Compliance Zero também continuou avançando. Em sua décima fase, deflagrada em 09/07/2026, a PF informou oficialmente que apurava, entre outros fatos, possível atuação coordenada para obter informações sigilosas e interferir em investigações criminais. Esse objeto amplia a relevância de esclarecer eventual circulação antecipada de informações sobre operações policiais, mas não autoriza atribuir responsabilidade específica a pessoas sem demonstração individualizada de conduta.
Viagem em jato acrescenta novo elemento à relação
Outro episódio tornou-se público nesta semana. Segundo reportagem da revista piauí, reproduzida nesta quinta-feira (24/09/2026), Flávio Bolsonaro viajou da Flórida para Brasília em 19/01/2025 em um Legacy 650, prefixo PP-NLR, cuja estrutura de propriedade incluía Daniel Vorcaro entre os cotistas. A mesma aeronave foi posteriormente utilizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Flávio reagiu dizendo que, à época, considerava o avião pertencente ao advogado Willer Tomaz, que também integrava a estrutura de cotistas. A reportagem afirma que a aeronave era administrada pela Prime You, empresa que informou ter Vorcaro entre seus sócios entre 2021 e setembro de 2025.
O uso da aeronave constitui mais um dado sobre círculos sociais e patrimoniais que se cruzavam no período, mas, isoladamente, não comprova ilícito, contrapartida ou conhecimento sobre eventuais irregularidades do Banco Master.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- Dezembro de 2024 — Flávio Bolsonaro afirma ter conhecido Daniel Vorcaro nesse período, quando começaram as articulações para financiamento de Dark Horse. O senador sustenta que o contato teve finalidade exclusivamente privada.
- 19/01/2025 — Flávio retorna dos Estados Unidos a Brasília em um Legacy 650 que tinha Vorcaro entre os cotistas, segundo a revista piauí.
- Fevereiro a maio de 2025 — Documentação inicialmente divulgada aponta US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, transferidos em seis operações relacionadas ao financiamento do filme.
- 27/03/2025 — Mensagens registram proposta de levar Jair Bolsonaro à residência de Vorcaro para assistir a um documentário; Flávio e outros envolvidos afirmam que o encontro não ocorreu.
- 20/08/2025 — Registros indicam tentativa ou realização de encontro presencial entre Flávio e Vorcaro; a documentação pública não permite afirmar todos os detalhes da reunião.
- 08/09/2025 — Flávio envia áudio cobrando uma definição sobre parcelas atrasadas do financiamento de Dark Horse.
- 16/09/2025 — Relatório do Coaf registra aproximadamente US$ 1,66 milhão enviados ao Havengate; na mesma data há registro de comunicação telefônica entre Flávio e Vorcaro.
- 17/09/2025 — Mensagens sugerem novo encontro entre os dois.
- 23 e 24/09/2025 — Há registros de novas tentativas de organização de encontros; em 24/09, também ocorreram chamadas telefônicas registradas no WhatsApp.
- 22/10/2025 — Flávio comunica que a produção está “no limite” e cobra nova definição financeira; Vorcaro posteriormente afirma a Thiago Miranda ter liberado uma parcela, cujo pagamento adicional não está documentalmente confirmado no material público consultado.
- 07/11/2025 — Flávio envia vídeo da produção e agradece a Vorcaro pelo apoio ao projeto.
- 15/11/2025 — Após mensagem de Vorcaro, Flávio pergunta: “Pode atender?”.
- 16/11/2025 — O senador envia mensagens de visualização única e escreve que estaria com Vorcaro “sempre”, acrescentando que precisava que o banqueiro lhe desse “uma luz”.
- 17/11/2025 — Vorcaro é preso pela primeira vez ao se preparar para embarcar em voo particular para o exterior.
- 18/11/2025 — O Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master, apontando grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e violações às normas do SFN.
- Fim de novembro de 2025 — Após Vorcaro deixar a prisão sob medidas cautelares, Flávio confirma posteriormente que o visitou; afirmou que queria encerrar a discussão sobre o financiamento.
- 04/03/2026 — Vorcaro é preso novamente na terceira fase da Operação Compliance Zero.
- 13/05/2026 — Reportagens tornam públicos áudios, mensagens e documentos sobre a negociação de US$ 24 milhões para Dark Horse. Flávio reconhece a busca de financiamento e nega irregularidades.
- 06/08/2026 — O Inquérito 5.070 é protocolado no STF; Flávio aparece oficialmente como investigado.
- 01/09/2026 — Novos documentos e relatórios policiais sobre o Caso Master tornam-se públicos e ampliam o escrutínio das relações mantidas por Vorcaro.
- 10/09/2026 — STF autoriza a Operação Make Up, que abre frente distinta sobre possível utilização irregular de emendas parlamentares associadas à produção de Dark Horse.
- 24/09/2026 — Novas reportagens aprofundam os registros de contatos entre Flávio e Vorcaro e revelam que o senador utilizou, em janeiro de 2025, aeronave cuja estrutura de cotistas incluía o então controlador do Master.
A principal relevância dos novos registros está na densidade e continuidade da relação documentalmente observável entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O material conhecido afasta a hipótese de um contato fortuito ou exclusivamente episódico: há mensagens, telefonemas, cobranças financeiras e tentativas de encontros distribuídos por meses. Isso, entretanto, não resolve a questão jurídica central. Para transformar proximidade e fluxo financeiro em responsabilidade penal, será necessário demonstrar conduta individualizada, conhecimento, finalidade, eventual contrapartida e nexo entre os atos praticados e os crimes investigados.
O ponto mais sensível da cronologia permanece localizado nos dias anteriores a 17/11/2025. A coincidência temporal entre os contatos com Flávio, as mensagens de Vorcaro a outras autoridades sobre o avanço das investigações e a prisão do banqueiro justifica apuração, mas coincidência cronológica não equivale a prova de vazamento ou colaboração para evitar a operação policial. A questão objetiva para a investigação é saber se algum dos interlocutores possuía informação protegida e, em caso positivo, se ela foi transmitida ao banqueiro. Até agora, os documentos públicos não demonstram que Flávio tenha fornecido aviso sobre a prisão.
Na frente financeira, três níveis precisam continuar separados: o valor prometido ou negociado, o montante efetivamente remetido aos fundos intermediários e o dinheiro que chegou aos beneficiários finais e às despesas da produção. A diferença entre os US$ 24 milhões previstos, os US$ 10,6 milhões inicialmente identificados e os aproximadamente US$ 12,3 milhões posteriormente documentados ilustra por que a investigação depende do rastreamento bancário integral. Também permanece necessária a verificação documental de uma possível parcela adicional mencionada em outubro.
O núcleo factual, portanto, é que Flávio Bolsonaro manteve interlocução continuada com Daniel Vorcaro durante o financiamento de Dark Horse e voltou a procurá-lo imediatamente antes da primeira prisão, enquanto o dinheiro utilizado no projeto passou a integrar investigação formal no Supremo. O interesse público decorre da combinação entre a condição de senador e candidato presidencial, a dimensão financeira do Caso Master e as dúvidas ainda abertas sobre a origem e o destino dos recursos. Caberá à Polícia Federal, à PGR e ao STF determinar se os registros documentam apenas uma relação privada de financiamento cinematográfico, como sustenta Flávio, ou se existem elementos juridicamente suficientes para caracterizar outras condutas.








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