A escalada das tensões entre Irã e Estados Unidos ampliou, nesta quarta-feira (09/09/2026), os riscos para o abastecimento de energia no Oriente Médio e provocou reação nos mercados internacionais. A Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter atacado uma base militar norte-americana na Jordânia e cerca de 20 embarcações no Golfo, em resposta à destruição de cinco petroleiros iranianos pelas forças dos Estados Unidos na véspera.
Segundo a agência oficial iraniana Irna, mísseis atingiram a base norte-americana de Al-Azraq, localizada a cerca de 100 quilômetros a leste de Amã. A Guarda Revolucionária afirmou que os ataques atingiram instalações de manutenção e reparo, áreas de posicionamento e abrigos destinados a aeronaves F-35, F-16 e F-15.
O Exército da Jordânia informou que 20 mísseis iranianos foram lançados contra o território jordaniano. De acordo com o balanço apresentado pelas autoridades, 18 foram interceptados e dois caíram em áreas desérticas. No Golfo, Teerã afirmou ter atacado dois navios norte-americanos, oito petroleiros e outras dez embarcações que tentavam atravessar o Estreito de Ormuz.
Estreito de Ormuz concentra tensão sobre petróleo
A nova ofensiva ocorre um dia depois de os Estados Unidos anunciarem a destruição de cinco petroleiros ligados ao Irã. Segundo o Comando Central norte-americano, as tripulações receberam ordens para abandonar as embarcações antes dos ataques. Washington declarou que a operação ocorreu após tentativas iranianas de atingir um navio de guerra dos Estados Unidos com mísseis balísticos.
O Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e Omã, tornou-se um dos principais pontos de tensão. A passagem é uma das principais rotas utilizadas mundialmente para o transporte de petróleo e gás natural liquefeito. Desde o início da guerra, em fevereiro, o tráfego pela região está praticamente paralisado, segundo as informações apresentadas pelas partes envolvidas.
Teerã afirma controlar a passagem e exige autorização e pagamento de taxas para a circulação de embarcações. O governo iraniano também ameaçou atacar petroleiros nos portos do Kuwait e do Bahrein, países aliados de Washington, e determinou que tripulações deixassem as embarcações.
Petróleo se aproxima de US$ 100 por barril
A possibilidade de uma interrupção prolongada dos fluxos de energia já repercute nos mercados. Na manhã desta quarta-feira, o Brent, referência internacional, avançava 1,59%, para US$ 99,48 por barril, aproximando-se da marca de US$ 100. O WTI, referência do mercado norte-americano, subia 1,37%, para US$ 94,30.
A elevação das cotações do petróleo aumenta o risco de pressão inflacionária, em um momento no qual bancos centrais acompanham os efeitos do conflito sobre os preços. Na Europa, o gás natural também registrou alta. O contrato TTF holandês, referência para o mercado europeu, avançava 2,75%, para 77,92 euros por megawatt-hora, depois de atingir o maior nível desde janeiro de 2023.
Os estoques europeus de gás estavam em 67%, abaixo do nível considerado habitual para o período. O movimento também alcançou os mercados acionários europeus. No início das negociações, Paris recuava 0,61%, Frankfurt 0,50%, Londres 0,22% e Milão 0,39%. Na Ásia, o impacto foi menos uniforme: o Kospi, de Seul, subiu 1,40%, enquanto o Nikkei, de Tóquio, caiu 0,19%.
Conflito se estende ao Iêmen
A escalada também alcançou o Iêmen, onde os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, afirmaram que a aviação saudita realizou 32 ataques em diferentes regiões do país. A Arábia Saudita não havia comentado imediatamente as declarações. Riad informou anteriormente que ataques houthis haviam provocado a interrupção temporária de atividades em instalações petrolíferas e deixado 73 pessoas feridas na terça-feira.
Um balanço da AFP, baseado em informações de fontes dos dois lados, aponta que os combates mais recentes no Iêmen já provocaram mais de 500 mortes, principalmente entre combatentes. Os houthis intensificaram nas últimas semanas os ataques contra a Arábia Saudita, maior exportadora mundial de petróleo, incluindo ofensivas contra instalações petrolíferas e petroleiros sauditas desde julho.
A retomada dos confrontos ocorreu após o colapso, em julho, da trégua estabelecida em 2022 entre os dois lados. Os houthis também anunciaram um bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita e passaram a atacar embarcações sauditas, aumentando a pressão sobre as exportações do país, já afetadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz.
Ataques ampliam dimensão militar e tecnológica
O conflito passou a envolver também equipamentos militares de alta tecnologia. A Guarda Revolucionária iraniana afirmou ter capturado um drone submarino norte-americano, descrito por Teerã como um dos equipamentos mais modernos das Forças Armadas dos Estados Unidos.
Washington contestou a versão e informou que um de seus drones submarinos de vigilância havia apresentado uma falha. Segundo os Estados Unidos, o equipamento era um modelo mais antigo e não transportava informações sensíveis. Autoridades iranianas também afirmaram ter interceptado e destruído um drone aéreo sobre o Estreito de Ormuz.
As ações militares ocorrem paralelamente a medidas econômicas adotadas pelos Estados Unidos contra o Irã. O Departamento do Tesouro norte-americano anunciou sanções contra companhias aéreas iranianas que ainda não estavam submetidas às restrições impostas por Washington.
Estados Unidos ampliam sanções contra setor aéreo iraniano
Ao todo, 36 alvos ligados ao setor de aviação iraniano foram incluídos nas novas sanções. Segundo o governo norte-americano, o setor é utilizado pelo regime iraniano para transportar armas, pessoal e cargas consideradas ilícitas.
Entre as principais companhias aéreas iranianas, Mahan Air e Iran Air já estavam submetidas a sanções. A nova rodada amplia a pressão econômica de Washington sobre setores considerados estratégicos para o governo de Teerã.
Apesar da intensificação dos confrontos, o Irã afirmou ter registrado “progressos significativos” nas negociações com Omã sobre a administração do Estreito de Ormuz. Segundo a diplomacia iraniana, as conversas discutem a criação de um corredor permanente e a definição do futuro regime de gestão da passagem.
Negociações sobre Ormuz ocorrem em meio à escalada
O governo iraniano, porém, afirmou que não pretende retornar ao sistema de livre navegação que vigorava antes da guerra. A posição mantém o Estreito de Ormuz no centro das negociações diplomáticas e das disputas militares entre as partes.
A sequência de ataques no Golfo, as ameaças contra petroleiros de países aliados dos Estados Unidos e a expansão das hostilidades para Jordânia e Iêmen aumentam o alcance regional do conflito.
O principal impacto econômico está relacionado ao risco de uma interrupção mais ampla dos fluxos de petróleo e gás no Oriente Médio. A elevação das cotações da energia, combinada à redução dos estoques europeus de gás e à reação dos mercados financeiros, aumenta a possibilidade de novos efeitos sobre a inflação e sobre as decisões dos bancos centrais.
*Com informações da RFI.








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