Candidatos de si próprios: Eleições 2026 em Feira de Santana expõem peso de base política, partido e alcance estadual

Nesta quarta-feira (07/10/2026), três dias depois do primeiro turno das Eleições Gerais, a leitura dos resultados de Feira de Santana expõe uma diferença fundamental entre registrar uma candidatura e construir um projeto eleitoral competitivo. No segundo maior colégio eleitoral da Bahia, com 435.075 eleitores aptos, candidaturas com votações expressivas no município não necessariamente conquistaram mandato, enquanto concorrentes com menor desempenho local foram eleitos pela soma estadual. O resultado evidencia que, nas disputas para deputado federal e estadual, vontade pessoal, visibilidade ou votação concentrada em uma cidade não substituem estrutura partidária, rede territorial, alianças, capacidade de mobilização e inserção competitiva no sistema proporcional.

A expressão “candidatos de si próprios”, empregada aqui como categoria de análise política e não jurídica, descreve projetos que chegam às urnas excessivamente dependentes da iniciativa pessoal do concorrente, sem uma estrutura proporcional ao cargo pretendido. Não significa candidatura independente: a legislação brasileira proíbe candidatura avulsa e exige vínculo partidário. Tampouco uma votação pequena permite, isoladamente, classificar determinado concorrente dessa forma. Para uma avaliação responsável, seria necessário examinar organização partidária, apoios, territorialização, financiamento, militância, histórico político e estratégia eleitoral.

O resultado de 2026 em Feira oferece, entretanto, elementos objetivos para compreender por que candidatura, base eleitoral e mandato são conceitos diferentes. Na disputa federal, Zé Neto (PT) obteve 59.127 votos no município e Zé Chico (União Brasil) recebeu 34.182. Foram, com ampla vantagem, os dois candidatos a deputado federal preferidos pelos eleitores feirenses. Nenhum dos dois conquistou cadeira na Câmara dos Deputados.

Feira tem força eleitoral, mas eleição para deputado é estadual

Dos 435.075 eleitores aptos em Feira de Santana, 360.191 compareceram às urnas em 04/10/2026 e 74.884 se abstiveram, correspondendo a uma abstenção de aproximadamente 17,2%. Para deputado federal, foram registrados 320.812 votos válidos no município.

Zé Neto concentrou em Feira 59.127 dos 104.550 votos que recebeu em toda a Bahia. O município respondeu, portanto, por mais da metade de seu desempenho estadual. Apesar de liderar a votação local, terminou na suplência da Federação Brasil da Esperança. Zé Chico apresentou concentração territorial ainda maior: recebeu 34.182 votos em Feira, dentro de um total estadual de 47.991, também sem alcançar mandato.

Somados, os dois primeiros colocados receberam 93.309 votos, equivalentes a aproximadamente 29,1% dos votos válidos para deputado federal registrados em Feira. O dado demonstra a capacidade de mobilização local, mas também expõe o limite de uma votação geograficamente concentrada quando a disputa ocorre em uma circunscrição estadual.

Sistema proporcional impede leitura baseada apenas na votação individual

A razão está no funcionamento do sistema proporcional de lista aberta. Para deputado federal e estadual, o eleitor pode votar nominalmente em um candidato ou diretamente na legenda. Esses votos contribuem para definir a quantidade de cadeiras conquistadas pelo partido ou pela federação, e somente depois ocorre a distribuição entre os candidatos conforme a votação individual e as regras legais aplicáveis.

O Código Eleitoral determina o cálculo do quociente eleitoral, obtido a partir da divisão dos votos válidos pelo número de vagas em disputa, e do quociente partidário, que relaciona a votação alcançada pela legenda ao quociente eleitoral. Para as vagas obtidas inicialmente pelo partido, a legislação estabelece ainda desempenho nominal mínimo para os candidatos. As vagas remanescentes são distribuídas pelas regras previstas para as médias.

Na Bahia, estavam em disputa 39 cadeiras para a Câmara dos Deputados e 63 para a Assembleia Legislativa. Isso significa que o desempenho de uma candidatura não pode ser avaliado apenas dentro de Feira de Santana. O território efetivo da competição é todo o Estado, e a votação do partido ou federação integra diretamente a equação que converte votos em mandatos.

Liderar em Feira também não garantiu vaga na Assembleia Legislativa

A mesma lógica apareceu na eleição estadual. Jhonatas Monteiro (PSOL) foi o candidato a deputado estadual mais votado em Feira de Santana, com 31.990 votos, mas terminou sem mandato. Sua votação estadual chegou a 42.152 votos, o que significa que aproximadamente três quartos de seu desempenho ficaram concentrados no município.

Outros candidatos registraram votação menor em Feira, mas alcançaram desempenho muito mais amplo no conjunto da Bahia. Diego Castro (PL) recebeu 12.107 votos no município e 160.305 no Estado; Dr. Thiago Gilleno (Republicanos) obteve 13.269 em Feira e 114.627 na Bahia. Ambos foram eleitos. Angelo Almeida (PT) e Robinson Almeida (PT), igualmente abaixo de Jhonatas no ranking municipal, também conquistaram cadeiras.

O contraste não reduz a relevância de uma base municipal forte. Mostra, porém, que concentração territorial e competitividade estadual são dimensões distintas. Uma liderança pode possuir forte identificação com determinada cidade e, ainda assim, enfrentar dificuldades se não conseguir transformar esse núcleo em uma rede suficientemente ampla ou se a legenda não conquistar cadeiras em quantidade compatível com a posição do candidato dentro da própria lista.

O que transforma uma candidatura em projeto político

O sistema brasileiro de lista aberta cria incentivos importantes para campanhas personalizadas. Estudos sobre eleições proporcionais mostram que os candidatos concorrem simultaneamente contra integrantes de outros partidos e, na prática, também disputam posição com candidatos da própria legenda ou federação. Isso aumenta a importância do voto pessoal, da diferenciação política e das redes próprias de apoio.

O cientista político Jairo Nicolau, ao analisar o funcionamento desse modelo, registrou que candidatos com maior capacidade organizativa normalmente procuram formar redes de apoio em municípios e bairros, envolvendo vereadores, prefeitos, lideranças locais, militantes e candidatos a outros cargos. A literatura eleitoral também identifica padrões de concentração geográfica associados à presença territorial e às relações construídas antes da campanha propriamente dita.

Essa constatação ajuda a qualificar a ideia original de que uma eleição exige “grupo”. Grupo político não precisa significar apenas estrutura tradicional comandada por detentores de mandato. Pode assumir a forma de organização partidária, movimento social, base sindical, associação profissional, rede comunitária, segmento religioso, militância, conjunto de lideranças municipais ou outra estrutura capaz de transformar identificação política em mobilização eleitoral continuada.

O elemento decisivo é que essa rede exista além do próprio candidato. Quando praticamente toda a capacidade de convocação, articulação, comunicação e convencimento depende da figura individual, a campanha se torna estruturalmente vulnerável.

Recursos financeiros são necessários, mas não suficientes

A dimensão financeira também integra essa equação. Para as Eleições 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) alcançou R$ 4.961.519.777, distribuídos inicialmente aos partidos de acordo com critérios definidos em lei. Depois, cada direção partidária estabeleceu seus próprios critérios internos de repasse às candidaturas, respeitadas as normas e destinações obrigatórias.

Isso significa que o acesso a recursos também depende de uma decisão política da legenda. Uma candidatura formalmente registrada não possui, por consequência automática, a mesma prioridade financeira atribuída aos demais concorrentes do partido.

A literatura acadêmica sobre eleições brasileiras considera os recursos materiais parte essencial da viabilidade de campanha, mas alerta que dinheiro, isoladamente, não explica o resultado. Capital político prévio, exposição, redes territoriais, mandato, inserção partidária, capacidade de comunicação e formas próprias de mobilização interferem na transformação de recursos financeiros em votos.

Portanto, falta de dinheiro pode limitar uma candidatura, mas disponibilidade financeira não substitui organicidade política. Campanha eleitoral não começa apenas quando os recursos são liberados nem termina na contratação de publicidade.

O risco de confundir renovação com improvisação

O fato de uma candidatura não possuir estrutura tradicional também não permite considerá-la inviável previamente. A renovação política frequentemente nasce fora dos grupos consolidados, e candidaturas emergentes podem construir competitividade a partir de movimentos sociais, atuação profissional, militância partidária, organizações comunitárias ou comunicação digital.

A diferença está entre construção e improvisação. Uma candidatura nova pode ser politicamente estruturada. Do mesmo modo, um nome conhecido ou financeiramente abastecido pode chegar à eleição sem territorialização suficiente, sem articulação interna no partido ou sem capacidade de ampliar sua votação.

É por isso que votação final não deve ser analisada como simples medida de prestígio pessoal. A urna registra o resultado de uma combinação de fatores: reconhecimento do candidato, estrutura partidária, recursos, território, alianças, conjuntura, concorrência interna, desempenho dos adversários e regras de conversão dos votos em cadeiras.

Também há candidaturas que cumprem finalidades partidárias diferentes da eleição imediata. Como o voto nominal contribui para a votação da legenda, concorrentes sem perspectiva realista de mandato podem participar da formação do total partidário, representar segmentos sociais, ampliar a presença territorial da sigla ou iniciar uma trajetória destinada a eleições futuras. Uma votação reduzida, portanto, não comprova por si mesma que a candidatura tenha sido um projeto exclusivamente pessoal.

Feira já apresentava disputa intensa antes da abertura das urnas

Em 21/07/2026, levantamento publicado pelo Jornal Grande Bahia já apontava Feira como um dos principais territórios da disputa legislativa baiana. Naquele momento, o cadastro registrava 434.532 eleitores, número posteriormente atualizado para 435.075 na base utilizada na eleição. A dimensão do colégio eleitoral atraía pré-candidatos locais, parlamentares em busca de reeleição e políticos de outras regiões interessados em estabelecer bases no município.

O movimento evidencia outro problema estratégico para candidaturas originárias da cidade: Feira não é um território eleitoral fechado. Seus eleitores são disputados simultaneamente por lideranças locais e candidatos com bases políticas em Salvador, na Região Metropolitana e em diferentes regiões da Bahia.

O candidato feirense, assim, enfrenta dois desafios simultâneos: proteger uma parcela relevante dos votos de sua própria cidade e avançar sobre outras áreas do Estado. Uma candidatura excessivamente dependente do eleitorado municipal corre o risco de encontrar um teto eleitoral antes de atingir a votação necessária para competir dentro da respectiva lista partidária.

Fragmentação local pode reduzir capacidade de representação

Os resultados de 2026 tornaram essa discussão particularmente relevante. Os dois candidatos a deputado federal mais votados em Feira ficaram na suplência, embora Zé Neto tenha alcançado 104.550 votos no Estado e Zé Chico, 47.991. Entre os dez candidatos mais votados pelos feirenses, seis foram eleitos, mas vários deles possuíam bases eleitorais distribuídas por outras regiões da Bahia.

O fenômeno produz uma situação aparentemente contraditória: candidatos de outras bases podem converter votos recebidos em Feira em parte de uma votação estadual vencedora, enquanto candidaturas fortemente identificadas com o município podem não alcançar mandato quando seus votos permanecem excessivamente concentrados.

É necessário, porém, fazer uma distinção institucional. A Constituição não reserva cadeiras da Câmara dos Deputados ou da Assembleia Legislativa para Feira de Santana. Deputados federais eleitos pela Bahia representam a unidade federativa, e deputados estaduais integram a representação parlamentar estadual. A expressão “representação de Feira” designa, portanto, vínculo político e territorial, não uma circunscrição legislativa autônoma.

Ainda assim, a presença de parlamentares politicamente vinculados ao município pode influenciar a prioridade conferida a agendas locais, articulações institucionais, emendas parlamentares e interlocução com os governos estadual e federal. Por isso, a capacidade de transformar o peso eleitoral de Feira em mandatos permanece uma questão de interesse público para lideranças, partidos e eleitores.

Planejamento precisa anteceder o registro da candidatura

A principal consequência dos resultados é que a avaliação de viabilidade precisa ocorrer antes da campanha formal. O tamanho potencial da base, a posição dentro do partido ou federação, a rede municipal de apoios, a possibilidade de expansão estadual, a disponibilidade de recursos, o perfil dos concorrentes internos e a quantidade provável de cadeiras conquistadas pela legenda compõem um diagnóstico que não pode ser substituído apenas pela expectativa pessoal do candidato.

Isso não estabelece um direito dos partidos ou de grupos tradicionais de impedir novas candidaturas. A democracia depende da possibilidade de renovação, pluralidade e competição. O ponto central é outro: o direito de concorrer não equivale à existência automática das condições políticas necessárias para vencer.

Projetos duradouros são construídos entre eleições. Atuação comunitária, presença partidária, formulação programática, inserção territorial, diálogo permanente com a sociedade e formação de alianças costumam anteceder campanhas competitivas. A eleição apenas mede, em determinado momento, quanto dessa construção conseguiu ser convertida em votos.

Nesse sentido, a pergunta que origina esta análise permanece pertinente como critério de reflexão e não como acusação contra candidaturas específicas: há um projeto político organizado em torno da candidatura ou apenas um desejo individual de disputar a eleição?

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 21/07/2026 — levantamento do Jornal Grande Bahia identifica Feira de Santana como território estratégico da disputa para deputado federal e estadual, diante do tamanho do eleitorado e da presença de candidaturas locais e externas; o cadastro disponível naquele período apontava 434.532 eleitores.
  • 08/09/2026 — levantamento baseado em dados do TSE mostra diferenças expressivas na distribuição de recursos do Fundo Eleitoral entre candidaturas relacionadas a Feira de Santana, evidenciando a dimensão partidária do financiamento de campanha.
  • 04/10/2026 — ocorre o primeiro turno das Eleições Gerais. Feira registra 435.075 eleitores aptos, 360.191 comparecimentos e 74.884 abstenções.
  • 04/10/2026 — Zé Neto termina como candidato a deputado federal mais votado no município, com 59.127 votos, seguido de Zé Chico, com 34.182; ambos ficam fora das vagas titulares após a totalização estadual.
  • 04/10/2026 — Jhonatas Monteiro lidera a votação para deputado estadual em Feira, com 31.990 votos, mas não conquista mandato; candidatos com desempenho municipal menor obtêm cadeiras devido à votação estadual e à composição proporcional.
  • 05 e 06/10/2026 — a consolidação dos resultados permite comparar votação municipal, desempenho estadual e situação de eleitos e suplentes, evidenciando os efeitos do sistema proporcional sobre a representação política de Feira.
  • 07/10/2026 — os resultados passam a permitir uma avaliação mais ampla sobre viabilidade eleitoral, concentração territorial, estrutura partidária e capacidade das candidaturas locais de converter o peso eleitoral de Feira em mandatos.

O resultado de 2026 demonstra que o conceito de “candidato de si próprio” somente possui utilidade analítica se for tratado com rigor. Votação reduzida não prova ausência de projeto, assim como grande financiamento ou notoriedade não comprovam estrutura política consistente. Não existem, nos dados eleitorais públicos considerados isoladamente, elementos suficientes para atribuir essa classificação individualmente a qualquer candidato. O que pode ser objetivamente examinado é a relação entre votos, território, partido, recursos, alianças e desempenho estadual.

A principal evidência de Feira é a insuficiência da força municipal quando ela não se converte em competitividade na circunscrição estadual. Zé Neto, Zé Chico e Jhonatas Monteiro lideraram ou ocuparam posições destacadas dentro do município, mas os respectivos resultados confirmam que eleições proporcionais exigem uma leitura muito mais ampla. Ao mesmo tempo, o desempenho de candidatos eleitos com menor votação em Feira mostra que uma estrutura estadual diversificada pode ser mais eficiente na conquista do mandato.

A discussão também exige cuidado para não converter “estrutura política” em sinônimo de domínio dos grupos tradicionais. Renovação democrática pressupõe abertura para novos atores. O critério relevante é a capacidade de transformar uma candidatura individual em organização coletiva: possuir programa, partido funcional, rede territorial, interlocutores sociais, financiamento regular, comunicação, militância e estratégia compatível com a dimensão da disputa.

Para Feira de Santana, a questão central após as urnas de 04/10/2026 é compreender como um eleitorado de 435 mil pessoas pode ampliar sua capacidade de influenciar a composição parlamentar sem confundir volume eleitoral com garantia de representação. Partidos, lideranças locais e futuras candidaturas terão de avaliar concentração de votos, expansão regional, competição interna e organização permanente. A Justiça Eleitoral continuará responsável pela totalização, prestação de contas e eventuais retotalizações; aos partidos caberá rever suas estratégias, e à imprensa compete acompanhar se os projetos apresentados entre eleições possuem efetivamente organização política para além da figura de seus candidatos.


Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.




Deixe um comentário

Banner de Carlos Augusto, diretor do Jornal Grande Bahia.
O Jornal Grande Bahia completa 19 anos de atuação contínua no ambiente digital, consolidando-se como referência do jornalismo independente na Bahia. Fundado em 2007, o veículo construiu uma trajetória marcada por rigor editorial, pluralidade temática e compromisso com a informação pública, aliando tradição jornalística, inovação tecnológica e participação qualificada no debate democrático.
Banner da Jads Foto.
Banner de Lula Fotografia.
Banner da RFI.
Banner com tema Assine o JGB no Google.

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading